Rabiscos

Precipitação

Acordou e logo voltou a fechar os olhos, apertando as pálpebras como bordas de pastel. Queria nada menos que a perfeição: antecipou o parque, o cachorro, a bicicleta e o sorvete; lembrou-se do perfume dos bolinhos de nata invadindo a casa ontem, a essa altura já estariam no fundo da cesta. Abriu os olhos, agora sim, podia começar. Livrou-se dos lençóis, ignorou os chinelos. Com a cabeça saltitando entre o balanço, a caixa de areia e a escalada na mangueira, pôs-se nas pontas dos pés e fez uma pirueta. (Do teto, uma fada conseguiria ver a teia dançante de cabelos; seria como ver a primeira pincelada e já adivinhar a obra toda: uma menina.) Portando seu sorriso silencioso, saiu da camisola, vestiu com pressa a roupa eleita, sentou-se no tapete e calçou as sandálias de flor. Passou as mãos pelos cabelos e achou que já estava bom, abriu a porta e foi ao banheiro. Escovou os dentes da frente, viu-se no espelho e acreditou.

Desceu as escadas, ainda sem ouvir o barulho de água.

Parou no último degrau da escada, olhar fixo na janela da sala. Sentiu duas lágrimas grossas molhando as faces que tremiam, seu peito juntando-se aos humores do céu que despencava numa chuva dura como um brinquedo quebrado.

(Em 09.06.2011)_______________________________________




Copas e varandas

Assim que dobrei a esquina percebi o vulto que se erguia rápido rumo às copas das árvores mais altas do outro lado do quarteirão. No primeiro momento pensei ter visto grandes asas brancas, pensei numa coruja de desenhos animados. Segundos depois de ter subido um pouco a rua, no entanto, voltei a notar o rebuliço no verde e pude ver que se tratava, na verdade, de um grande gavião marrom e acredito que o branco que não se confirmou não tenha sido mais que um recurso meu para clarear um pouco algumas visões. Dei mais alguns passos pesados e parei diante da árvore que servia de gangorra para o animal livre cuja imponência nem combinava com quem detinha tamanho troféu: havia algo de tolo naquele gavião vaidoso, como se ele não soubesse da liberdade que tem, já que, se a entendesse de fato, seria um ser feliz, não um esnobe. Com a rua inclinada entre nós dois, pensei no dia do gavião. O que teria feito desde as primeiras horas até aquele final de tarde quase cinza, meio confuso e que se rendia à inexorável chegada da noite. Tentei supor quantas presas teria devorado, quantos quilômetros teria voado, o que possivelmente teria merecido seu olhar vindo do alto. Pensei que ele escolhera as copas da minha rua para se recolher e que aquilo, de alguma maneira estúpida ou secreta, aproximava nossas vidas. O dia dele cruzado com o meu, durante o qual não pude escolher copas ou observar além de cinco metros à frente de meu nariz, um dia de refeições nervosas e alimentos empurrados com rancor. Absolutamente imóvel a partir do momento em que interrompi minha caminhada para observá-lo, meu pássaro marrom certamente investigava o vulto a alguns metros e talvez, por que não, tenha me dedicado um pouco de sua atenção de caçador. Olhei, suspirei de cansaço e segui meu caminho para casa. Não voltei a olhar para as árvores do outro lado da rua, não ouvi piados ou batidas de asas. Não saberia dizer o que meu vizinho alado decidira fazer da minha despedida silenciosa e quase desdenhosa. Abri a grade do portão da minha casa, destranquei a porta pesada que me separa das árvores e entrei no espaço formado por paredes que me aquecem e me protegem do mundo que ajudo a confundir. Subi para o meu quarto e abri a cortina para adiar um pouco o momento de apertar os interruptores e me lembrar de minha visão inútil na escuridão. Destravei a tranca da porta que simula um encontro com o ar livre e fui para a varanda adivinhar se a Lua viria me salvar das lâmpadas. Não vi a Lua. Do outro lado da rua, a pupila negra como um alvo no centro do olho branco e redondo me observava investigativa, analisando-me em meu ninho. Devolvi o olhar com meu par de tristes pupilas cansadas e meu coração se trancou ainda mais quando as grandes asas se abriram e suas pernas se esticaram lançando-o num voo de quem sabe o que lhe basta, de quem se reconhece em sua forma de vida. No voo. Já quase não havia mais luz no céu e não pude segui-lo por muito tempo, meus pés tão presos às lajotas da varanda. Gosto de pensar que ele volta e lamenta meu sono fechado enquanto se entrega à sua solidão de caçador com a sabedoria de quem não cresceu.

Há dias em que eu voltaria ao simples, se pudesse. De asas abertas, sem muito pensar.

(Em 22.05.2011)

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Os links


Porque era final de tarde, naquela hora em que o sol se abaixa e fere os olhos, foi difícil ter certeza no primeiro momento. Mas depois de alguns passos, abrigando-se sob o toldo da loja de tintas, pôde ver que o moço comprido do outro lado da rua era mesmo ele. Reconheceu-o, apesar dos cabelos mais curtos e da distância da rua larga, porque as costas tinham mantido a mesma curvatura adolescente - e o andar deselegante era inconfundível. Respirou fundo, diminuiu o passo, aproximou-se do meio-fio desbotado. Decidida, contornou um carro velho estacionado e olhou para os lados, balançando os cabelos um pouco mais que o necessário. Então ergueu o queixo, suspirou e seguiu. Enquanto atravessava a rua, engoliu a saliva para acalmar as batidas do coração que relembrava os meses de choro sobre o travesseiro de fronha bege, anos antes, enquanto ele circulava inatingível para ela, menina esquálida e "nova demais".

Cruzou a rua e, a meia distância, percebeu que precisava apressar o passo ou botaria a perder o encontro casual. Mas nem precisou levar o segundo pé à outra calçada, ele já tinha visto. Viu e fez uma cara de adulto bobo quando se surpreende com a sabedoria dos mais jovens - e a perspicácia dela jamais perderia esse instante de vitória. Foi o que bastou para que ela armasse seu melhor sorriso:

- Oi, tudo bom? - Sua própria voz a surpreendeu, firme, uniforme, clara.

A resposta demorou um segundo a mais que o normal e ela, que já festejava a revanche, quase quatro anos depois, quem diria, uniu os lábios num sorriso provocante ao mesmo tempo em que já voltava o corpo para o outro lado da calçada, fingindo pressa.

- Oi, respondeu ele, completamente perplexo. - Tempo que não te via...

- É, né? Pois é. - E seguiu, deixando para ele a visão das costas elegantes semicobertas pela cabeleira negra e cacheada.

- Tchau - balbuciou, ligeiramente mais curvado, acenando um tchauzinho que ela nem viu.

Não viu porque precisava logo seguir na direção contrária, escondendo o rosto que já se abria num sorriso vitorioso, exultante. E assim experimentou pela primeira vez a insubstituível sensação de virada de jogo. Entendeu, levando a mão à boca para se conter e controlando-se para não saltitar de alegria na calçada de sua pequena cidade, que tinha o mundo inteiro à sua frente. O mundo inteiro. Aprendeu ali, enquanto o sol descia mais e dourava a rua, que paciência joga a seu favor, uma lição que ela usaria com maestria em várias áreas de sua vida. Porque ela pensava amplo, com links.

Já ele ficou parado por alguns segundos tentando entender por onde andara nos últimos quatro anos e de quem tinha sido a ideia de ir buscar fora dali o rumo de sua vida. E seguiu, pensativo. Sequer lembrava para onde estava indo.

(Em 29.03.2011)
 
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