A casa da casa


Minha filha adora cozinhar. Quando convido para fazer um bolo, ela vibra como quando convido pra jogar alguma coisa. Na verdade, na maioria das vezes, é ela quem me convida. Recentemente passei a ficar mais tempo em casa, e ela anda toda animada calculando que isso significa mais tempo com ela na cozinha. Na realidade, não tem sido bem assim ainda, mas já conseguimos alguns avanços. Ontem, quando chegou da aula de handebol, eu já estava com o jantar encaminhado, toda feliz brincando com meu livro novo de receitas que ganhei de uma amiga. Ela, obviamente, protestou. Sentiu-se traída. Como assim, eu estava cozinhando sem ela? Justo. Passei o bastão e fiquei de assistente. É muito bom esse momento do dia, todos em casa, comidinha sem pressa, sem relógio, o conversê tomando conta. A cozinha é nossa casa dentro de nossa casa, o canto onde nos alojamos para pitacos, novidades, DRs, barulho de todo mundo falando junto, broncas, papos sérios que descambam em risadas. Olho para a Amanda no fogão, um olho no livro, outro na panela, toda animada se achando a chef, e acho tão gostoso. Quero tanto que ela se lembre. Que é tão bom. 



Forre a assadeira untada com rodelas de batatas pré-cozidas em cozimento ultrarrápido.

Cubra com frango desfiado que sobrou do almoço, misturado a cebola e alho refogados em azeite, sal e pimenta, regados com molho de leite, manteiga e farinha de trigo.

Mais batatas.

Dê uma conferida no livro da outra Rita. 

Cubra com o resto do molho.

Faça chover parmesão.


Vá conversar ou arrumar a mesa.

Esqueça de fotografar o prato pronto porque o cheiro estava divino, handebol dá fome e todo mundo avançou. 

Da Vinci


A biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson e publicada no Brasil pela Editora Intrínseca, com tradução de André Czarnobai, é uma lindeza. Estou no início do texto, mas já completamente conquistada pela apresentação do livro. Trata-se da biografia base da adaptação para o cinema que terá o outro Leonardo, o DiCaprio, no papel principal (já imagino filmaço). A impressão que tenho no início é de um trabalho robusto, suculento, daqueles livros que abrem a porta para inúmeras outras obras. Vou ler de-va-gar.








***

Como falei lá no Face, botei a Itália  na minha Copa. \o/

Slow


Tenho degustado o inverno a pequenas colheradas. Ainda há muitas gavetas esperando arrumação pós-reforma e cuido delas com um olho na copa, outro no cachorro esparramado no tapete. Aí me esparramo junto e deixo a gaveta pra depois. Não canso de repetir: é tão bom estar de volta.

***

Tenho lido pouco nessas últimas semanas, e é estranho. Minha lista de espera está esperneando, mas entrei numa espécie de calmaria consciente: tudo tem seu tempo. Aguardem-me letrinhas, que nosso caso de amor logo entrará numa efervescência alucinante - ui. A viagem do elefante, do Saramago, narra a lenta odisseia de Solimão, o elefante, de Portugal à Áustria. Vou com ele, no mesmo ritmo. Estamos quase chegando. 

***

Estou enamorada de minha casa. Quem passou por reforma, sabe: ainda bem. Digo que a reforma não transforma só a casa, mas a nós também. Saímos dela loucos ou renovados. E que bom ser inverno, o que já nos convida pro chá encolhidos no sofá.

***




Amanda faz a melhor massagem nos pés. Aqui, ela recebe uma retribuição à altura. Floquinho observa, enciumado. 

Chegou botão, abriu toda linda. 

Conseguem sentir o cheiro?

Home, sweet home


É muito bom estar em casa novamente. A reforma vai chegando ao fim e, apesar dos retoques que ainda estão sendo feitos, já ando pela casa com alegria por ver que as mudanças que planejamos deram certo, que ficamos satisfeitos. Gostei das cores, dos revestimentos, dos móveis, dos degraus, cada porta, trinco, detalhe que foi consertado ou substituído. É verdade que quem olha da calçada ainda não vê muitas cores; com exceção do ipê e das palmeiras na calçada, o verde sumiu. O jardim da frente ainda não existe, é preciso repor a grama, replantar tudo. Dentro de casa, contudo...


As azaleias serão replantadas na floreira perto da janela, do lado de fora da casa, assim que suas flores caírem. Espero que tenham vida longa e renovada por lá depois.



Nem sei por quantas semanas as ciclames vão resistir, mas no momento parecem eternas.



Falando em eternas, hortênsias desidratadas.


Minha cozinha agora tem a melhor janela. Instalamos um passa-pratos no lado externo, para dar uma mãozinha naqueles momentos em que a gente quiser levar comidinhas pra quem estiver curtindo um sol no quintal. Essa era a expectativa. A realidade é um excelente lugar pra encher de plantinhas.






Mosquitinho lover, eu.


Há quadros por pendurar, portões para pintar (ainda), iluminação para instalar; há caixas de livro no chão do escritório esperando uma estante. Móveis ainda por comprar. Tudo dentro do previsto, uma obra nunca acaba, dizem. Fora do script fica o atraso absurdo da loja que me vendeu a cozinha. Primeiro lugar da casa a ser reformado, ainda não foi concluído. Apesar de já estar em pleno funcionamento, tenho móveis sem porta e vários detalhes inacabados. Estou respirando fundo e me preparando para um embate, quem sabe até judicial. No comments.

Reformas na casa, reformas ainda maiores na vida. Essa semana inaugura uma nova fase que, de tão esperada que foi, ainda me espanta. Encerro um ciclo em um emprego que me trouxe muitas alegrias por tabela, mas que me causou crises existenciais imensas por vários anos. Veremos o que virá.

Amanhã é dia 21 e a comemoração de aniversário será ofuscada pelas alegrias outras. Já ouvi falar em inferno astral, mas, ó, faltou aqui. ;-)


Um menino



Tenho cá pra mim que com a infância que você teve, cheia de risadas e pequenas grandes aventuras, de histórias lidas na cama antes de dormir com as vozes malucas que seu pai faz, na companhia da irmã nerd-divertida que você tem, com cachorros tão, tão lindos preenchendo nossa casa; essa infância que foi cheia de muito carinho e acolhimento, que foi um tempo de diversão e amor, de muitas perguntas nunca evitadas; uma infância pra te guiar vida afora com lembranças doces e quentinhas; tenho pra mim, filho, que sua adolescência tem tudo pra ser divertida pra caramba. Acho que a avalanche que ela vai  trazer pode até ser perturbadora de vez em quando, mas que a infância que você teve pode ser um trunfo muito grande pra você sacudir poeiras e gargalhar muito. É isso que eu desejo hoje pra você, no seu aniversário de, UAU, treze anos: uma adolescência divertida, com muita, muita alegria. E que ela mantenha alguns dos principais ingredientes que marcaram a criança que você foi: seu abraço maravilhoso, sua empatia (tão bacana em alguém tão jovem) e, claro, sua simpatia irresistível.

E nada impede que a gente deixe os rótulos pra lá e estique tudo numa só fase infinita de amor e alegria - porque sim. Tá tudo valendo.  

Te amo mais do que consigo expressar, então venha cá pra eu te abraçar de novo, o que sempre torna meus dias tão valiosos.

Feliz aniversário, seu lindo.

New colours on the block


A cada dois dias, em média, a caçamba de entulhos é substituída por outra vazia. A cheia é retirada e dentro dela lá se vão escombros, restos escavados da frente da minha casa e da  velha cozinha. Hoje vi no topo da caçamba grandes pedaços de raízes do ipê que se espalham gulosas pela calçada. Fiquei me perguntando se a estrutura da árvore será comprometida por essa mutilação, espero que não. No estágio atual da reforma, a garagem, já sem piso, abriga uma betoneira, madeira, ferragem, ferramentas, sacas de cimento e similares. Num canto do que já foi meu jardim, plantas arrancadas aguardam clemência e replantio. Dentro da casa os móveis brincam de esconde-esconde sob lonas cobertas de um pó infinito que em tudo penetra. Alguns cômodos já têm tinta nova nas paredes, assim como algumas portas, teto, detalhes. Amanhã a cozinha repaginada ganhará seus primeiros móveis. Talvez um dia o quintal fique limpo novamente e minhas orquídeas, kalanchoes e violetas me perdoem. Olho em volta e vejo arte: o pedreiro que dá concretude a um desenho, o pintor que faz da minha casa tela. Aos poucos a transformação que planejamos vai acontecendo e em breve estarei abrindo caixas de copos e livros, regando brotos, vendo Netflix na minha cama outra vez. Conto os dias para voltar e ter de novo minhas miudezas, minha desordem, o bolo no meu forno. Mas admito: estou curtindo a loucura. A prova da insensatez é que reajo às pequenas intempéries com paciência e risadas. O cano é furado a golpes, o revestimento é colado no lugar errado, a tinta é um pouco escura demais, não consigo escolher a cor da pedra. Não é pouca a desordem no mundo, o país tá tão longe do sonho mais tímido; vou ao menos fazer do meu cantinho no mundo metáfora de alegria. Em breve, com porta nova e um armário um pouco maior - pra caber mais biscoitos e mais planos. 

A casa de minha infância ainda mora em mim e foi cheia de pequenas e grandes reformas - a cada nova obra, uma nova fase. Não sei que lembranças meus filhos guardarão da bagunça atual, mas sei que, assim como eu, querem logo voltar pra casa. Vou riscando os palitinhos imaginários na parede, contando pedrinhas. Logo volto, logo volto. E então vou passar um café e abrir as janelas para que o cheiro da tinta fresca dê  lugar ao aroma do bolo favorito das crianças. E tudo vai estar no lugar outra vez - com alguma desordem, claro. Como num ninho.   

Houses


"O verão voltou, e eu voltei para casa. Atrás de mim fica o Atlântico, como uma chapa de zinco, uma distorção temporal. Como sempre acontece nesta casa, eu fico mais cansada do que devia; ou melhor, sonolenta. Releio histórias de detetive e vou pra cama cedo, sem nunca saber em que ano vou acordar."

Esse é um trechinho do conto "Em busca da Orquídea", da Margaret Atwood. Ele me jogou de volta ao tempo em que eu morava sozinha e visitava minha mãe. É uma das coisas que a boa literatura faz, isso de, de repente, ser sobre a gente. Um conto escrito por uma canadense nos anos 80 me pega pela mão, me leva até a janela e me aponta aquela paisagem tão minha. E o tempo se dobra, e não estou mais aqui. 

Não estou em casa. A paisagem que me cerca agora é bonita, mas não me pertence. Existe o mar; e o vento, de que gosto muito. A janela noturna do quarto da Amanda é cheia de estrelas, então a espera está sendo suave. Mas sinto saudades de minha casa, da minha cozinha, do meu quintal, dos meus livros. Quando eu abrir as caixas, eles vão se espreguiçar e dizer "aleluia"? 

Eu vou. 

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }