A cola


Há algumas semanas a tampa da minha bomboniere azul se quebrou. Foi um acidente banal desses que acontecem na cozinha quase todos os dias. Normalmente, eu lamentaria e jogaria a tampa no lixo. Depois ficaria imaginando possíveis usos para o pote sem tampa. Dessa vez, no entanto, guardei os pedaços de vidro azul, comprei cola no mercado, colei com cuidado e torcida e esperei. Depois voltei a pôr a tampa remendada no pote e o guardei, a bomboniere que era sua, em lugar que julguei mais seguro. Uma prateleira acima de onde guardei o pote mora aquela taça muito antiga que você mesma colou, lembra?

Hoje faz oito anos. Minhas lembranças de você me acompanham, ainda converso com sua voz e conto muita coisa, imagino suas reações. Dia 09 de dezembro tem sempre o som de coisa se quebrando dentro de mim. Eu uso a cola que retiro da vida que você me ajudou a ter e tento manter os armários bonitos.

Ainda amo tanto você.

Travessia


Acampar é um pouco como fazer uma travessia. O mundo de lá é coletivo, divertido, natureba e sonolento. O estado atual do mundo de cá quase não me deixou ir; como se parte de mim não quisesse tirar folga do enfado. Venceu um outro lado, e fui. Aceitei a promessa de paz e preguiça. 

É engraçado encarar um acampamento como "preguiça", porque, fisicamente, há uma enorme trabalheira envolvida: a fome vem, é necessário preparar comida; comida gera louça suja, é necessário limpar tudo; barracas não se montam sozinhas. Ainda assim, a sensação dominante é de um tempo que passa em outro ritmo, em outra balada. É uma pausa. Dentro dos parênteses que se abrem em um acampamento, sempre há certa troca de olhares que diz "aqui estamos, que bom". 

Atravessamos.


A tarde cai e traz a tal paz. 


Depois da tarde lindinha vem a noite e, com ela, nossas luzinhas e lanternas em torno das barracas. Luzinhas no mato atraem todos os besouros. Falo de "paz", e as fotos podem dar a ideia de um final de semana idílico, porém a verdade é que criaturas cascudas em nossos cabelos podem gerar cenas escandalosas e patéticas, não nego; nem confirmo. Digamos que há toda uma arte envolvida no preparo do macarrão em meio a zumbidos e patinhas ligeiras. Dominamos, mas é um processo barulhento. 

À noite, besouros; de dia, lagartas. Foi fácil ver que estamos na época das temidas lagartas cabeludas. Elas se esgueiravam pelas árvores de folhas semidevoradas, aproximavam-se das barracas, avisavam que o terreno era delas. Preferimos a borboleta grandona de imensas asas azuis que nos visitava todas as manhãs, mas a vida pede paciência, lagarta primeiro. Outros visitantes vieram, como o amigo preguiçoso de quatro patas ou o pássaro grandão que, creio eu, deve estar feliz com as lagartas. 




Um grande lagarto também rondou o camping; gerou correria e espanto, mas nenhuma foto. Gerou também um comentário tranquilizador: onde há lagarto, não há cobra, disseram. Para provar que não sabemos de nada nessa vida, alguém olhou para o telhado da área comum do camping, onde ficam pias e churrasqueiras, e lá estava a magnânima. 


Ninguém no grupo jamais lavará louça sem olhar para cima. 
Vejamos pelo lado bom: não apareceu nenhum leão. Os outros momentos de tensão ficaram por conta do Coup e da canastra.

Tenso: quem será o próximo assassino?

Spoiler: ganhei da minha freguesa outra vez, hohoho. ;-)
***

Sempre levo um livro comigo, gosto de ler na semiescuridão da barraca antes de dormir. Normalmente a leitura rende nada, uma, duas páginas no máximo, mas vamos combater o vício no açúcar, deixemos os bons vícios em paz. Agora arrumei uma companheira que também mantém a leitura em dia no meio do mato. 


Ela disse "noossaesquilinho!"
Depois de ler, ela comeu papinha de manga. A rigor, seriam necessários outros dois babadores na foto abaixo. Não para o bebê, para os babões.




Ninada mútua. 

Não falei que rola uma preguiça?

Pois.
***

Foi o camping dos bichos, mas também das flores e frutas. Ei-las. 


Nham!

***


(...) Caminho do campo verde,

estrada depois de estrada.

Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.(...) - Cecília Meireles

Talvez cada uma ande sozinha (não é assim, tantas vezes?). Porém juntas. 

Que toda travessia traga o riso.


Das lições que nem parecem ser sobre nós


Concluí hoje a leitura de 21 lições para o século 21, do israelense Yuval Noah Harari (Cia das Letras, tradução de Paulo Geiger). Na contracapa da edição que li estão listadas as quatro perguntas que guiam os 21 capítulos: o que está acontecendo neste exato momento?, quais são os maiores desafios de hoje?, em que devemos prestar atenção? e o que ensinar a nossos filhos? Os capítulos estão agrupados em cinco partes: O desafio tecnológico, O desafio político, Desespero e esperança, Verdade, Resiliência. Assim como em Sapiens e Homo Deus, ler 21 lições propicia uma espiada nos desafios da era da (des)informação, do meio ambiente sufocado e das revoluções digitais e tecnológicas que podem desestabilizar nosso entendimento do que é ser um humano neste planeta. A narrativa de Harari, com tratamento histórico, sociológico e filosófico, é uma janela bem iluminada e aberta para muitos de nossos conflitos sociais da atualidade. 


Depois de terminada a leitura, eu deveria sentir aquela animação que experimentamos quando lemos um texto sólido, resultado de inspiração e pesquisa, perguntas complexas e argumentos bem fundamentados. Porque é um livro que aponta para a frente e nos apresenta provocações necessárias sobre nossas crenças e valores. Mas ler esse livro neste momento de nosso país acentuou um pouco minha tristeza. 

Muitas vezes tenho a impressão de que Harari parte do pressuposto de que alguns avanços no grande diálogo mundial não têm volta. Que, pelo menos nas democracias modernas, alguns barbarismos estão para sempre soterrados sob as edificações de princípios muito sólidos. Em certo ponto, por exemplo, ele fala do apelo eficiente de certas narrativas: construídas com discursos belos e aparentemente nobres, disfarçam uma face perversa e egoísta. Ao nos identificarmos com narrativas assim, olhamos no espelho e dizemos: não sou perverso, logo esse discurso com o qual me identifico não é ruim. O poder da narrativa simulada está justamente na ilusão de sua beleza. Aí ele diz que vê um erro que considera comum nas caracterizações de vilões em indústrias como Hollywood: os vilões obviamente detestáveis como Vader, Sauron ou Voldemort jamais teriam seguidores; eles precisariam projetar uma face bonita, um lado dissimulado que seduzisse seus adoradores. E então escreve: "como alguém poderia ser tentado a seguir um canalha nojento como Voldemort?". Suspirei, né. 

E aí está minha tristeza: não parece haver avanço garantido. Não há o que não possa ser revogado; não há princípio que não possa ser esquecido. Talvez se Harari tivesse dado uma espiada no Brasil dessas semanas, esse trechinho tivesse um exemplo diferente. 

Gostei muito do livro, mas suas discussões sobre a necessidade de preparar nossos filhos com criatividade e capacidade de empatia e trabalho coletivo em um mundo acelerado, sobre a necessidade de investirmos pesado em ciência voltada para a proteção do equilíbrio do planeta, sobre a necessidade de nos despirmos de verdades absolutas para encararmos com sagacidade nossos desafios na era da informação e do reinado dos algoritmos, tudo isso evidenciou ainda mais a escuridão que cerca o Brasil de agora. Foi um pouco como se Harari estivesse me falando do nosso planeta quando fala dos desafios, e me contando coisas sobre uma galáxia distante quando aponta os caminhos futuros. Confirmando-se os prognósticos que temos hoje, nada no horizonte próximo de nosso país sequer flerta com os caminhos apontados por Harari.

É provável que eu me agarre ao último capítulo e considere com seriedade a prática da meditação.

  "Primeiro, quando as facas de sílex evoluíram gradualmente para mísseis nucleares, ficou mais perigoso desestabilizar a ordem social. Segundo, à medida que pinturas rupestres gradualmente evoluíram para transmissões de televisão, ficou mais fácil iludir pessoas. No futuro próximo, algoritmos poderão completar esse processo, fazendo com que seja praticamente impossível que as pessoas observem a realidade por si mesmas. Serão os algoritmos que decidirão por nós quem somos e o que deveríamos saber sobre nós mesmos. 
Por mais alguns anos ou décadas ainda teremos escolha. se fizermos esse esforço [de tentarmos observar como funciona nossa mente], ainda podemos investigar quem somos realmente. Mas, se quisermos aproveitar essa oportunidade, é melhor fazer isso agora."


Amandita


Essa semana demos risadas com uma brincadeira antiga, porém nova em nossa casa: você se esconde atrás de mim e posiciona os braços à frente do meu corpo enquanto escondo meus próprios braços em minhas costas. Enquanto falo uma abobrinha qualquer, você gesticula. Seus braços são meus braços, e a brincadeira é procurar a sintonia entre o que eu falo e os gestos que você faz. Brincamos de ser uma. Simbiose melhor não há. A parte mais legal da brincadeira é quando termino a fala e você libera o riso contido. Seu sorriso tem sido minha canção favorita. 

Dia desses você estava triste. É um aprendizado meu também lidar com sua tristeza, suas solidões de menina, seus pequenos grandes dramas impossíveis. Num desses momentos, eu disse que estaria sempre com você. Eu não sei se você percebe exatamente o quão verdadeira é essa frase, mas algo no seu abraço me diz que é possível que sim. Que você sabe, que você sente. Tomara. É a parte mais legal desse amor que tenho por você: é sempre. 

Hoje você faz onze anos de meninice. Você é tão, tão linda. Não, não tô falando do seu rosto de pinturinha de Renoir, nem do cabelo dançante arrepiado. Tô falando do seu olhar, de como você vê o mundo ao seu redor. Tô falando da pessoa que você tá construindo aí no seu coraçãozinho, minha pequena. Minha grandona.

Na camisa do handebol, escondido por seus cabelos afoitos, está escrito Amandita. A gente chama assim, de vez em quando. E agora que você anda às voltas com arremessos e infiltradas, eu queria dizer que a vida gosta bem de imitar o jogo. Há dias em que nada funciona; há dias em que tudo se encaixa. Eu torço que você encare os dois com a mesma garra: no grito de gol e no momento em que ninguém te passa a bola. E que nunca se esqueça que meus braços são seus quando você precisar; e que sempre estarei na arquibancada gritando Amandita, não importa o quanto você insista em crescer. 

Meu amor. Feliz aniversário, minha nerd-espoleta favorita. 

Te amo muito.




Congela! Que essa expressão faz dançar meu coração.

Vumbora que a vida tá só começando.


Sunny winter camping


2018 tem sido um ano de vacas magras no quesito camping. Uma acampada no verão, em janeiro, e nada mais. Mas a paciência é amiga e o planeta não para de girar, e o que não foi possível em outros feriados agora se fez presente. Enchemos o carro de tralhas mais uma vez, compramos comidas inomináveis, enchemos mochilas de casacos e biquínis (a previsão dizia sol e frio, a gente se previne) - e fomos. A previsão se confirmou e tivemos dias gloriosos de um céu absolutamente azul, sem uma nuvem fofinha pra contar a história. As noites foram geladas, e barracas e sacos de dormir provaram que dão conta do recado - houve quem desse uma forcinha dormindo de casaco, detalhes. Passado o feriado, voltamos exaustos num trânsito duzinferno, felizes da vida. Tínhamos bochechas levemente rosadas, canelas levemente raladas, unhas imundas, músculos doloridos, roupas encardidas para todo o sempre, bumbuns achatados da bike e um olho no calendário procurando o próximo feriado. 

Um outro feriado para ir pescar na água gelada do mar catarinense - e não pegar nada, nada, nada, mas quem liga? 


Pra ver o balé das gaivotas.


Pra ver as crianças montando sozinhas a barraca onde os meninos iriam dormir. 


Sucesso!
 Pra descer em bando o morro nas bicicletas envenenadas.


Pra assar sabe-se lá o que na churrasqueira-lareira portátil. (Nossa salvação na primeira noite gelada em que mantas e fogo tornaram possível as muitas risadas sob as estrelas.)


Pra jogar cartas na barraca.


Pra dar as boas vindas à nova mascote, a coisa mais gostosa da vida!


Pra enfrentar o frio nas primeiras horas da manhã e ver o sol nascer na praia; pra ver surgir diante dos nossos olhos o cenário que a Virginia Woolf pintou na maravilhosa abertura de The Waves: 

"Slowly the arm that held the lamp raised it higher and then higher until a broad flame became visible; an arc of fire burnt on the rim of the horizon, and all round it the sea blazed gold."




Obrigada, amiga, pelas fotos!

 Pra olhar as barracas e pensar: que infância, crianças. Que infância. 


***

P.S. da alegria: acampamento de inverno não tem mosquito. \o/

Home office


Durante muitos anos trabalhar fora de casa me fez olhar para o relógio e desejar o final do período. Mesmo quando estava envolvida em alguma tarefa interessante, o fim do expediente era sempre bem vindo. Oba, meio-dia. Ufa, seis horas. Partiu. Agora vivo burlando o relógio e fingindo que não vi que já é hora de parar. Agora quebro meus próprios combinados e trabalho à noite, de vez em quando, só um pouquinho. Substituí a sensação de estar parada na estação vendo o mesmo trem passar, dia após dia, pela alegria de saber que há tantos destinos que, por mais que eu passe o resto da vida viajando, jamais vou dar conta de tanta paisagem bonita na janela. E eu mal comecei. 

***

Expectativa: oba, vou trabalhar meio período. Vai dar tempo de fazer tudo com tranquilidade no período seguinte, vou escrever o tempo todo, vou ler um livro por dia, vou fazer  yoga todo dia, não vou sair da cozinha, o blog vai bombar.

Realidade: nossa, já é meio-dia? Blog às moscas. Duas semanas para matar um romance mequetrefe; se ao menos eu tivesse mais horas pro trabal... aí parei, porque não me permiti terminar a frase, seria ridículo demais. Não tem bolo nessa casa? O que é yoga? 


***

Home office.











Leonardos



Depois de quinze anos, estou de volta ao animado mundo da tradução. De tudo que venho experimentando nas primeiras semanas dessa nova fase, nossa relação com o tempo é o que mais tem chamado minha atenção. Não mais manhãs aparentemente infinitas, salpicadas de olhadas para o relógio. Agora as horas dançam ao meu redor num ritmo todo novo. O tempo voa, trabalhar ficou bom outra vez. Sei de minhas fases e respondo por minhas escolhas, não há arrependimentos. Mas, ah, que bom voltar. A tal luta vã do Drummond? Quero, todos os dias. 

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A literatura nos permite apreciar cordilheiras que as palavras são capazes de erguer. A tradução revela as camadas de algumas das montanhas. Profissão: alpinista.

***

A biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson (Ed. Intrínseca, tradução de André Czarnobai) é um passatempo divertido. A vida de Leonardo foi, de fato, fascinante. Alucinante, talvez. Mente aberta, curiosidade infinita e disposição para experimentos são alguns dos ingredientes que resultaram em genialidade e nos presentearam com obras de arte - e com inúmeros cadernos recheados de registros que vão da anatomia à arquitetura, passando pela astronomia, geologia e qualquer outro campo do conhecimento científico que já tivesse sido criado na época da Renascença. Existia? Leonardo estudou. Portanto, a biografia feita por Isaacson é suculenta. Além disso, o livro é visualmente bem cuidado, com reproduções de obras e de páginas dos cadernos do artista-arquiteto-militarista-engenheiro-geólogo... É uma ode ao amor pelo conhecimento e é difícil não encontrar algo que nos agrade num livro assim. 

É verdade que de vez em quando Isaacson se empolga um pouco demais. Há vezes em que parece se deixar levar por um entusiasmo tão apaixonado que lá estamos nós, felizes em nossa leitura, quando, não mais que de repente, salta da página algo como: "Leonardo estava ciente de que seu desenho de um feto tinha uma qualidade espiritual que transcendia os outros estudos anatômicos." Ou, ainda, também sobre os desenhos de fetos: "Como estudo anatômico, ele já é muito bom, porém chega a ser puramente divino - de forma quase literal - como obra de arte". Divino de forma quase literal? Oi? Bom, não sei se foi alguma escolha curiosa do tradutor, mas ficou, digamos, engraçado. E o que vem a ser a "qualidade espiritual" de um desenho? Os desenhos anatômicos de Leonardo são ricos em detalhes e realmente impressionantes. São frutos de dissecações minuciosas e olhar aguçado, além da disposição em retratar com fidelidade os recantos do corpo humano que tanto fascinavam o artista. Foram considerados o que de melhor se produziu em ilustrações do corpo humano em sua época, por muito tempo. Eram incrivelmente... realistas. Por isso mesmo, tão interessantes; revelam o empenho de Leonardo para se superar em qualquer campo ao qual se dedicasse. Eram um primor, mas eram humanos, terrenos, e frutos de muito esforço.

A rixa com Michelangelo, os amores, a homossexualidade, os alunos e modelos, certa fascinação por cabelos cacheados, a escrita espelhada, as obras retocadas ao longo de anos e anos, os muitos projetos abandonados, as relações familiares não tão simples (Leonardo era filho bastardo), Florença, Milão, França, as comissões, a relação com o teatro da época, os terríveis Bórgia - tá tudo lá. Tem material para longas e boas horas no sofá. E descanso para os olhos também. 


*suspiros*

Leonardo retocou São Jerônimo quando estudou a anatomia dos músculos do pescoço, para corrigir "imperfeições - vinte anos depois da primeira versão.








Lisa recebeu retoques ao longo de dezesseis anos e nunca foi entregue ao cliente que a encomendou.

A última página, interrompida porque a sopa estava esfriando.

***

O livro de Isaacson será a base da versão cinematográfica da biografia que terá o outro Leonardo, o DiCaprio, no papel do protagonista. Um Leonardo bom dentro de outro? Acho que promete.

 
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