Autumn camping


Convencer alguém a acampar é temerário. Vai que você consegue. Aí a pessoa encara e basicamente: carrega tralha no carro; pega trânsito; descarrega a tralha; se coça; monta barraca; cozinha; lava louça; se coça; torce pra não chover; se coça; usa banheiro com besouros nas paredes; se coça; no final desarma a barraca e junta a tralha; carrega tralha no carro; pega trânsito; chega em casa exausto e se coça. E ainda assim corro o risco. Ao menos por enquanto, estou no lucro: acho que se há algo de bom que fiz pelos amigos nessa vida foi justamente convencê-los a acampar. Ninguém me xingou até agora.

Quase não fui dessa vez. Os companheiros de sempre não podiam, tinham outros compromissos. Porém eu havia perdido os dois últimos acampamentos (estava viajando em janeiro; estava de muletas no carnaval), e Amanda estava torta de saudades da barraca - e eu também. Então decidimos que iríamos mesmo assim. Afinal, aquela amiga que virou campista meses atrás estaria em outro camping e, poxa, nunca havíamos acampado juntas. Assim, troquei o acampamento só com a família por um com outra galera. Que escolha feliz. No fim das contas, os de sempre contornaram os compromissos, e, se não acamparam, ao menos passaram um dia inteiro no camping conosco. Novos amigos foram ver qual é - e acho que o contágio se espalhou. Ou seja: juntamos o bom com o melhor e foi tudo como sempre é sob as lonas das barracas: renovador. 

A gente fez tudo aquilo do primeiro parágrafo, mas com um sorriso de orelha a orelha. Afinal, as crianças passaram o feriadão in-tei-ro pedalando e descobrindo bichos (cobras inclusive, socorro), comendo com a mão suja, pulando corda ou se equilibrando nela, curtindo a preguiça nas redes ao ar livre, caçando tesouro com lanterna e tomando susto para depois, exaustos, descansarem no saco de dormir quentinho enquanto os sacis conversavam nos banbuzais. Volto a apostar que esses acampamentos estarão entre as melhores lembranças da infância de meus filhos. Os adultos? Já programando o próximo. 

O sol de outono era como um abraço. 

Nossa barraca parceira de guerra: nove acampamentos and counting.
A alegria de quem ia ao mercado da vila de bike e voltava com a cesta carregada de porcaria, digo, comida. 

As instruções para a caça ao tesouro no meio do mato.

Mapas.

Falando com a boca cheia.

Essa foto é simbólica do espírito coletivo dos acampamentos:
uma ajuda a filha da outra a andar na bike da filha de uma terceira.
A Aninha vai se lembrar: aprendi a pedalar no acampamento. 
Picnic.

Gatchinhos.

Gatchinhas.

A caçula. Quatro meses e já no mundo.

Voa, menina!

Proibido para adultos.

Criança, mato e bike.

Nunca, nunca me arrependo.
 

The sound and the fury - ou um quadro sobre o tempo


"He sat there for some time. He heard a clock strike the half-hour, 
then people began to pass, in Sunday and Easter clothes. 
Some looked at him as they passed, 
at the man sitting quietly behind the wheel of a small car, 
with his invisible life ravelled out about him like a wornout sock."


***

Eu não sabia nada sobre o enredo daquela que é considerada a obra prima de Faulkner. Comprei As I lay dying também, mas The sound and the fury chegou às minhas mãos primeiro (Ed. Vintage). Não foi uma leitura sem susto, tampouco sem aquela coçada básica na cabeça, what the hell. Houve mesmo o choque de me ver diante de uma linguagem a ser desvendada, mais do que entendida. Ao menos pude contar com a ajuda da introdução em minha edição: comecei a ler sabendo que o primeiro capítulo me jogaria nos pensamentos de Benjamin, trinta e três anos de idade, desenvolvimento cognitivo de uma criança em primeira infância, talvez um bebê. Uma narrativa em fluxo da consciência que se propunha a retratar tamanha complexidade não poderia senão se mostrar misteriosa. Então naveguei por aquele capítulo seguindo a orientação da introdução: entregue-se, a compreensão virá depois. De fato, não vi outro caminho; e me deixei levar. Me perdi não poucas vezes, mas cada momento de confusão foi compensado nos capítulos finais. 

A percepção de mundo do pequeno (?) Benjamin é dissociada da noção linear que costumamos ter acerca do tempo. Uma imagem contemporânea pode disparar o gatilho de uma sequência de imagens do passado que chega mais como experiência revivida do que como memória simplesmente. Os devaneios se transformam num turbilhão de visões anacrônicas onde personagens do passado se confundem com os habitantes do presente de Benjamin, pobre leitor. Quando foi isso? Quando está essa pessoa? Houve um momento em que eu não sabia sequer quais personagens afinal compunham a família central do enredo, oh, dear. No entanto, a brincadeira com o vai e vem do tempo me fisgou para além de qualquer sentido lógico no desenrolar da história. Segui.

No segundo capítulo o fluxo da consciência segue, mas nos mudamos para a cabeça de um dos irmãos de Ben, Quentin. Segui um pouco no escuro, a depressão de Quentin ditando o ritmo e a estrutura de seus pensamentos - a linguagem também aqui é fragmentada, a pontuação, uma loucura. Um redemoinho de ideias e imagens nos lança no flerte com o desespero ilustrado com primor na linguagem. O resultado é um capítulo sufocante, de leitura truncada, que aos poucos revela a agonia do personagem. Nem a necessidade de reler vários trechos a fim de concatenar o que raios estava acontecendo me levou a desistir. Terminar o capítulo foi como chegar à margem depois de um quase afogamento - e depois ficar feliz por ter atravessado o rio.

O terceiro capítulo do livro traz a narrativa em terceira pessoa a partir do olhar de outro irmão de Ben, Jason. Depois de ler a primeira metade do livro, o capítulo narrado por Jason vem como um cafuné: descanse, leitor, siga o fluxo. E aí me descobri já envolvida com aquela gente, querendo antecipar o destino de Caddy, a única irmã de Ben. O olhar de Jason é obviamente parcial; é também meio cínico e tremendamente egoísta - e aí a gente já não sabe o que afinal é verdade nessa história toda. Caddy, por exemplo, nos chega como uma combinação de devaneios de Ben, das perturbações de Quentin e do mau-caratismo de Jason. Seu comportamento é como um fio condutor na história, afetando mais ou menos profundamente a vida dos três irmãos - e só nos resta vê-la a partir da perspectiva de cada um deles.

Então nos chega o final, um quarto capítulo com narrador onisciente focado na figura de Dilsey, a serva negra daquela família perdida e quebrada nos EUA de 1928. De repente Dilsey se mostra a mais sólida do grupo (talvez não tão de repente, mas foi assim que a descobri em minha leitura meio confusa) e a riqueza de imagens desse final tem tal sutileza, uma leveza, uma fragrância triste e solitária que me envolveu como se eu ganhasse colo do livro. Foi dessas páginas finais que extraí o trechinho com que abri este post. 

Mal virei a última página, voltei para a primeira. Reler os devaneios de Ben, já familiarizada com os personagens, foi como ler páginas diferentes daquelas do início de minha leitura. Interrompi o replay e por ora vou guardar a sensação que o primeiro contato com o livro me trouxe: nossa vida vai se enrolando na gente, nos envolvendo de maneira que, se prestarmos bem atenção, veremos que o tempo é mesmo aquela ilusão de que nos falava o Einstein. Faulkner nos joga nesse emaranhado: como se dá a percepção de tempo/espaço por alguém com uma mente como a de Ben? como se misturam passado e presente? como nossa mente define nossa relação com o tempo? 

Ben não fala, os sons que produz são indefinidos, mas Faulkner nos dá sua mente, seus medos, a confusão do mundo. Ben se acalma com a rotina (e ironicamente com o irmão Jason, a figura egoísta que assanha a antipatia dos leitores); talvez nós também. A ordem nos acalma, a sequência do tempo nos ajuda a organizar nosso mundo. Mas talvez seja bom não organizar demais, sob o risco de perdermos a beleza que mora nos devaneios mais desavisados. No aparente caos de imagens que Faulkner desenha em The sound and the fury há uma quase música.   


Our friend, imperfection


"A natureza é perfeita."

Eis uma frase que ouvimos ao longo da vida para expressar nosso encantamento diante de um elemento ou fenômeno que nos tire o fôlego - de um pôr de sol vermelho a um céu estrelado visto do campo. A abundância de beleza em elementos e fenômenos naturais é tamanha que invocar a ideia de perfeição diante de um canyon gigantesco ou da cor da gralha azul parece algo igualmente natural. É automático: o muito belo, o fenomenal ou o gigantesco são exemplos de "perfeição".  Esquecemos que o ideal de perfeição é isso: um ideal. Uma noção inventada pelo homem, como tantas outras boas ou ruins, mais ou menos úteis para descrever e classificar o mundo a nossa volta. Na verdade, penso que a perfeição não está na natureza em si, é só um carimbo feito por nós. Diante de um ciclone que devasta uma cidade ou de um terremoto que tira a vida de milhares de pessoas, lamentamos, obviamente. No entanto, ciclones e terremotos são manifestações da mesma natureza que pinta a asa da gralha. Mas diante da gralha, esquecemos o ciclone e invocamos a perfeição mais uma vez.

Darwin abriu caminho para o entendimento de mecanismos naturais que preenchem nosso planeta com uma diversidade deslumbrante de espécies. Desde então aprendemos que antes de a seleção natural entrar em cena tudo começa com acidentes genéticos, mudanças aleatórias nas cópias dos códigos genéticos. Aleatórias, não perfeitamente planejadas. Para cada acidente genético que resultará tempos depois em uma nova espécie, muitos outros condenam os indivíduos que os portam a desaparecerem engolidos pela seleção natural. Ainda assim, o que se segue é a abundância de beleza que nos faz suspirar e dizer "a natureza é perfeita", esquecendo-nos, claro, de outras abundâncias extintas não só pela seleção natural, mas também por fenômenos igualmente naturais, porém catastróficos, ocorridos ao longo da história de nosso planeta. Uma catástrofe natural não cabe no ideal de perfeição. Uma barata também não, mesmo sendo eficientíssima em sua luta pela sobrevivênica e perpetuação da espécie. Mas deixamos isso de lado diante da asa da gralha.

Se olharmos para o corpo de conhecimento acumulado até aqui sobre a origem não só de nosso planeta, mas de todo o cosmos, veremos não uma figura homogênea e matematicamente perfeita, mas distribuição irregular de matéria que em bilhões de anos e muitos acidentes gigantescos depois se expandiu e ocupou lindamente o espaço. E ainda que as leis da física que regem toda essa incrível organização sejam matematicamente precisas, o resultado nos parece mais um emocionante ballet eternamente em movimento do que um ambiente limpinho e impecável. É incrível, para mim. Deslumbrante. E parte da beleza está justamente no desgoverno de explosões de estrelas que morrem e espalham seus elementos por todos os lados em algo que é ao mesmo tempo catástrofe e vida. A palavra "perfeição" chega a dançar em meus lábios. É tão fácil usá-la. 

Mas acho mesmo que a ilusão de perfeição deriva de nossa curta permanência sobre a Terra. Cada um de nós, com sorte, passa algumas décadas por aqui; como espécie, acabamos de chegar. O fato de que não presenciamos meteoros destruindo 90% da fauna gera a ilusão de que o equilíbrio momentâneo é eterno; nossa estrela viverá ainda bilhões de anos, acredita-se. Não há motivo para preocupação com tropeços na natureza e se os enxergamos fazemos pouco caso, agarrados à ideia de perfeição. E assim medimos a vida com nossa régua de seres que, levando-se em conta a idade do universo, acabaram de surgir. Mas e daí? O azul da gralha, uau, é perfeito, eu mesma falo toda hora.

Enquanto escrevo tiro os olhos do teclado, olho pela sacada e penso que talvez daqui a meses teremos flores incríveis no ipê de nossa calçada. Não penso que jamais me livrarei do deslumbre, a natureza me emociona. Porém quero mesmo me afastar do ideal de perfeição. Isso não significa abrir mão de uma palavra que visita meus lábios com tanta facilidade (diante da luz pintada pelo Vermeer, vou usar que outra palavra, não é mesmo?), mas significa tentar de forma consciente e deliberada não permitir que o ideal que ela representa me sirva de norte, em qualquer esfera da vida. Não é difícil para mim, convenhamos, posto que perfeccionismo é uma entidade abstrata que nunca persegui, seja como mãe, seja como profissional ou em qualquer outra dimensão de minha vida - busco o melhor que posso, sabendo com conforto que sempre haverá falhas em minhas atitudes, riscos em minhas escolhas. Isso não é ode à negligência - entre o perfeccionismo e a negligência existe um lindo e vasto campo. Mas falar e escrever sobre essa busca por um distanciamento consciente de ideais de perfeição pode ser libertador até para alguém que não se reconhece como perfeccionista. 

Penso que reconhecer que o ideal de perfeição é apenas um ideal, não um ingrediente da natureza, pode nos ajudar a ampliar nossa percepção diante de fenômenos sociais, inclusive. Podemos trocar os rompantes cheios de certezas do que seria o único caminho certo na política, por exemplo, por discussões mais humildes que reconheçam as limitações do alcance de qualquer atitude humana, seja individual ou coletiva. Ir além da máxima "ninguém é perfeito" e assumir também que "nada é perfeito". Talvez com ideais mais palpáveis a gente consiga modular melhor nossos diálogos. Afinal, somos parte integrante da natureza. Somos incríveis, temos ideias maravilhosas, mas nada é perfeito. 

Tenho mesmo a impressão de que ideais de perfeição, muitas vezes (mas nem sempre) alimentados por uma ideia divina da vida, mais atrapalham do que ajudam. Perseguir ou adorar um ideal de perfeição traz na carga um tal lote de certezas com potencial para fechar a porta a qualquer discussão que confronte um elemento do lote. Quero manter minhas portas abertas.

Imagem compartilhada no Face a partir da página "Humanity"

Uma vez uma amiga me falou que achava triste a falta de fé. Eu retruquei dizendo que entendo perfeitamente (porque vejo com nitidez) o conforto que a fé traz para muita gente - e por isso abdico de tentar dissuadir quem quer que seja de sua fé. E que não ter o suporte da fé pode sim significar um pouco mais de dor diante, por exemplo, da perda de alguém. Se acredito que a pessoa morreu, mas que sua alma migrou para um reino perfeito, posso encontrar conforto aí. Se não consigo recorrer a isso, encaro a saudade crua. Mas isso não é uma escolha, é o resultado para mim inexorável das perguntas que decidi fazer ao longo da vida. O que acho que não disse naquela conversa com minha amiga foi que tive a impressão de que talvez ela ache que meu mundo é, além de mais difícil, mais feio, já que não gozo das benesses da perfeição de um projeto que prolonga nossa vida. E isso não poderia ser mais equivocado. É justamente, ainda que não só ela, a aleatoriedade da vida que me encanta profundamente. Tudo se transforma num processo levemente louco e por isso mesmo absolutamente poético: o entendimento de que seremos sempre pó das estrelas que explodem e espalham suas sementes de vida pelo espaço. Pode não ser o jeito ideal e perfeito de vida eterna das religiões, mas é a mais linda definição de poesia cósmica que você pode encontrar. E isso me encanta e me alegra de um jeito que nem sei dizer. É mais do que estar no universo, somos parte dele.

Não ser perfeito significa ter falhas. A natureza está cheia delas, mas nos acostumamos a incluí-las no pacote - se me pedem para descrever a natureza, foco na flor, não no terremoto. E, afinal, a que nos serve a ideia de um mundo perfeito? Acabei de ler que, tecnicamente, safiras e rubis devem seu brilho a impurezas de dióxido de titânio em sua composição. Impurezas explicadas pela beleza das flutuações aleatórias descritas na teoria quântica. Pra mim, tão emocionante como o azul da asa da gralha. 

The room with the most beautiful view


"Quando falamos do Big Bang ou da estrutura do espaço-tempo, o que estamos fazendo não é a continuação dos relatos livres e fantásticos que os homens contavam em torno da fogueira nas noites de centenas de milênios. É a continuação de outra coisa: do olhar daqueles mesmos homens, às primeiras luzes da alvorada, buscando em meio à poeira da savana os rastros de um antílope - observar os detalhes da realidade para deduzir deles aquilo que não vemos diretamente, mas cujos indícios podemos seguir. Conscientes de que podemos sempre nos enganar e, portanto, dispostos a cada instante a mudar de ideia se aparecer um novo indício, mas sabendo também que, se formos competentes, compreenderemos corretamente, e descobriremos. A ciência é isso."



Sete breve lições de física, do italiano Carlo Rovelli (Ed. Objetiva, tradução de Joana Angélica d'Avila Melo): um livrinho-tesourinho. Para leigos que podem até não entender lhufas daquelas equações quilométricas, mas que nem por isso deixam de se emocionar com a natureza que elas descrevem. Um livro minúsculo que em menos de 100 páginas fala com simplicidade e paciência sobre o que Newton não respondeu (ou evitou perguntar), por que afinal Einstein foi tão brilhante, como a ideia de campo gravitacional conversa (e briga) com a mecânica quântica, entre outras lindezas. Há ainda buracos negros, calor, tempo - e o dedinho do Hawking. Uma espécie de índice: veja por onde passeiam os físicos, essas pessoas que examinam o mundo espalhado fora da nossa janela - ou escondido dentro de cada ínfimo pedacinho que nos forma. Instigante, honesto como deve ser a boa ciência da qual ele trata, é um texto que abre portas que abrem outras portas que abrem outras etc. Sabe aquele papo de perfume bom em frasco pequeno? Pois.

 

Das peças que faltam


A boa notícia é que o ossinho quebrado já está praticamente recuperado. Já aparece "colado" na radiografia com um discreto risquinho que, sinceramente, mal consigo ver. O outro lado da notícia é o edema ósseo que precisa de mais tempo para se desfazer. O efeito emocional da notícia foi evidente: agora só sinto dores, não sinto medo. O edema tende a sumir e pelo menos agora sei que as dores não têm relação com a possibilidade de deslocamento do osso ou algo assim. É só dar tempo ao tempo. Em duas semanas devo fazer nova avaliação e, quem sabe, ser autorizada a tirar a bota ortopédica e voltar a botar o pé no chão. 

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O maior desafio desse período de pé imobilizado foi, de longe, lidar com o carnaval. Não iria pra avenida ou passarela, não compraria fantasia, nem queria baile. Mas eu ia acampar. Na serra. Com canyons. Não foi fácil, mas eu precisava consolar a Amanda, então saquei o jogo do contente da cartola e afirmei: "pelo menos meu osso colou". Aí a abracei e deitei ao lado dela na cama, sequei suas lagriminhas. Apagamos a luz do quarto e curtimos as estrelinhas fluorescentes do teto, o brilho dos anéis do Saturno de papel brilhante. Quem não tem barraca sob a luz das estrelas se vira como pode. (Depois vieram dias de sol e o quintal virou seu reino e, com o irmão, ela bem que aproveitou o feriado. Entre câmera escura para ver o eclipse e bolo de laranja, a gente fez de tudo um pouco.)

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Comprei um box na Saraiva online com a Odisseia e a Ilíada. Seguia eu feliz ali pelo Canto XX da Ilíada, reta final da peleja, quando, tchan-ans, descubro que minha edição estava mais capenga do que meu pé: uma falha de muitas páginas, dois cantos omitidos, um outro repetido, páginas com manchas. Para não interromper a leitura - Aquiles estava prestes a enfrentar Heitor - corri pro primeiro ibook gratuito que consegui encontrar: uma tradução para o inglês, em prosa, com nomes latinos dos deuses, mas deu pro gasto. Li ali os dois cantos ausentes e voltei para meu livro banguela. Vou entrar em contato com a Saraiva. Vamos ver.

By the way, gostei muito mais da Eneida do que da Ilíada. Li ambas traduzidas por Carlos Alberto Nunes e obviamente jamais saberei o quanto suas escolhas refletem a cadência dos versos em latim ou em grego. O que sei é que tudo me parecia mais fluente na Eneida, o texto mais bonito, cada canto me empurrando para o próximo. Na Ilíada, oh, dear, muita sanguinolência para pouco desenvolvimento no enredo, viu, Homero - e haja paciência para tanto deus birrento. Dito isso, mantenho a mitologia grega ali no rol das coisas mais divertidas inventadas pelo Homo sapiens. Sempre um prazer com gostinho de infância. 

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No livro faltam páginas, no quebra-cabeças faltam peças. Terminei a montagem de um quadrinho do Avercamp com mil peças - três ausentes, quatro outras repetidas. What is going on, world?


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Os exoplanetas de Trappist 1 - eu me arrepio. E fico pensando em gente como, sei lá, Giordano Bruno. Penso que ele ia curtir a notícia. ;-) Procurar as peças desse quebra-cabeças, o que pode ser mais excitante?

 

Tic tac?


Uma das primeiras coisas em que pensei quando quebrei meu pé foi nos dias de imobilização que eu teria pela frente. Ainda na rua, sem acreditar naquela dor, sentada na caixa amplificadora que caiu do porta-malas do carro e quebrou meu metatarso, eu pensava "droga, droga, droga!". A situação beirava o ridículo, e eu também pensava com alívio que a caixa tinha acertado o meu pé e não o da Amanda, que estava ao meu lado, mas para além da dor eu chorava de raiva. Horas depois, quando o médico afirmou que eu precisaria de trinta dias sem pôr o pé no chão, achei a coisa meio exagerada. Afinal o raio-x havia revelado uma fratura relativamente simples, que dispensava cirurgia e certamente se consertaria só com a imobilização. Mas um mês? Pensei com otimismo que em quinze dias eu mostraria ao médico que ele estava enganado e retomaria minha rotina, ainda que com cautela. Agora, dezesseis dias depois, preciso respirar fundo e aceitar resignada que um mês parece uma previsão simpática. As dores são muito menos intensas e chegam em intervalos cada vez maiores, mas ainda chegam. O pé incha instantaneamente se o coloco pra baixo, e mexer os dedos é uma aventura à qual não me entrego sem antes respirar fundo. Uso muletas para me deslocar pela casa, mas esses deslocamentos precisam ser curtos se eu quiser evitar que o pé assuma o aspecto de uma imensa batata doce.

Usar a bota ortopédica e não gesso traz algumas vantagens. É possível coçar o pé, tirar a bota para tomar banho (toda uma ciência o banho-saci, nem perguntem), observar o aspecto geral do local da lesão, admirar todas as cores que decoram o pé nesta fase que deixará saudade nenhuma. O problema é que nunca sei se estou regulando a pressão da forma correta. Não sei se devo mantê-la bem apertada ou se isso traz algum risco à circulação. Tenho manchas roxas e verdes por todo o pé, o tornozelo que nada sofreu com a lesão agora é um arco-íris de vasos doloridos. Por outro lado não sei se manter a bota frouxinha pode comprometer o tempo de recuperação do osso quebrado. As muletas geraram uma pequena reação alérgica em minhas mãos que felizmente já retrocedeu. Para fazer as refeições na mesa com todo mundo preciso manter a perna apoiada em uma cadeira lateral, já que um banquinho sob a mesa não é suficiente para evitar o inchaço. A postura torta das costas para compensar a elevação da perna já me rendeu uma contratura muscular na altura das costelas. Ou. Seja. 

Enquanto ossos, tecidos e vasos do meu pobre pé tentam se entender dentro do verão escaldante da bota, passo os dias sentada, com a perna elevada sobre travesseiros e almofadas. É uma sorte imensa gostar de ler se você precisa permanecer dias parada, mas isso não evita o incômodo de ver todo mundo tocando a vida ao seu redor enquanto você só... fica sentada. Tento desenvolver táticas malabaristas para me deslocar com as muletas enquanto carrego alguns objetos pela casa, como um livro ou garrafinha d'água, uma roupa, o que for, para evitar encher tanto o saco das pessoas ao meu redor. Acontece que tenho um talento especial para me lembrar do que preciso assim que me sento.

Mas foi pensando em minhas faltas ao trabalho que me dei conta de algo maior. Além do desconforto físico óbvio, na primeira semana precisei lidar com outra espécie de desconforto: certo constrangimento por ter me machucado. E me vi pedindo desculpas por minha ausência, pelo trabalho que se acumularia e certamente atrapalharia a rotina de colegas. Não era um gesto de gentileza - eu realmente estava me desculpando, torcendo que me perdoassem. Em determinado momento, mal humorada e com dor, me dei conta do absurdo. Não preciso me desculpar por ter me lesionado. E me vi diante de uma situação que me pedia para pôr em prática um mantra fácil de recitar, porém muito mais difícil de converter em atitude: respeite o tempo de cada coisa. A borboleta ainda não saiu daquele casulo e não há nada que a gente possa fazer; o lírio que a Amanda me deu vai abrir, pode apostar; a manga ainda verde da fruteira deve estar perfeita amanhã; o pequeno cantinho do meu corpo que se quebrou precisa de seu tempo. E por mais senso de responsabilidade que eu tenha com meu trabalho, o acidente aconteceu. Mais do que ninguém, lamento por ele, mas minha relação com o tempo precisa me permitir perceber o momento da desaceleração, precisa caber nas lentes que escolhi para olhar o mundo. E me dei conta de que aquele constrangimento era quase um desrespeito com meu corpo. Nós inventamos o tic tac, mas o tempo também tem outras medidas.

Então aqui estou. Ainda lamento, claro. Estou ansiosa pelo resultado do raio-x que farei esta semana e mal vejo a hora de poder acompanhar as crianças à escola nova todos os dias. Não vou acampar no carnaval como havia planejado, minha bicicleta nem me conhece mais - mas meu relógio atual é o osso do pé.

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Entre umas e outras, na semana passada li os contos do Ted Chiang que a editora Intrínseca lançou em tradução de Edmundo Barreiros e com orelha assinada por Braulio Tavares - História de sua vida e outros contos. Ganhei um autor pra admirar - coisa da qual eu já desconfiava depois de me debulhar no cinema com A Chegada, adaptado a partir de História de sua vida. Gostei praticamente de todos os contos - são apensa oito - ainda que o favorito tenha sido mesmo o que inspirou o filme dirigido por Villeneuve. A narrativa intercalando a história pessoal da linguista Louise Banks à descrição do contato com os alienígenas e o entendimento da linguagem dos heptápodes, tal como no filme, faz desse conto uma joia. Esse menino Chiang é um bruxo. Também gostei imensamente de Entenda, sobre superinteligências, d'A torre da Babilônia com seu universo fisicamente distinto do nosso, mas semelhante nas ferramentas de que dispomos para entendê-lo (como bem pontuou o próprio Chiang na sessão "notas sobre os contos" no final do livro), e Gostando do que vê: um documentário, um conto polifônico sobre os prós e contras de se adotar a caliagnosia - uma curiosa condição neurológica induzida artificialmente que impediria o indivíduo de perceber a beleza física das pessoas. A discussão que Chiang constrói nesse conto que mais parece um documentário surreal da Netflix é primorosa. Gosto da forma dos contos e dos temas selecionados por ele. Até onde sei, Chiang tem apenas dois livros publicados - e não sei se o outro tem tradução publicada no Brasil. Tomara que ele tenha uma gaveta abarrotada de contos e que decida nos presentear com eles a qualquer momento.


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Ontem terminei de ver os oito episódios de Abstract, documentário disponível na Netflix sobre design. Cada episódio mostra a produção artística de um fera em diferentes áreas: ilustração, arquitetura, design gráfico, cenografia etc. Com exceção de um sobre design de carros - com o qual não consegui criar qualquer empatia, já que o assunto me dá sonozzzzRONC! - gostei de todos. É verdade que achei o fotógrafo bem afetado (episódio 7), mas a série se paga já nos três primeiros episódios. Vejam, só a arte salva o mundo, vão por mim. 

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Antes de abrir o porta-malas do carro, tenham cuidado, os objetos pesados podem ter se deslocado durante a aterrissagem, quer dizer, durante as curvas e tal.


Homo sapiens, Homo deus


Comecei a ler Sapiens - uma breve história da humanidade (Yuval Noah Harari, Ed. L&PM, tradução de Janaína Marcoantonio) sem muito entusiasmo. Criei birra com o título (outra "breve história de...") e estava em outro mood, lendo outras paradas. Porém a premissa da qual parte a ideia central do livro me parece interessante demais para descartar a conversa, então fui. Para a pergunta "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies?" Yuval propõe: nossa capacidade de acreditar em coisas que não existem na natureza - nossa imaginação. Somos a única espécie sobre a Terra capaz de agir motivada por mitos - e de convencer um grande número de indivíduos a partilhar desses mitos.

Com essa ideia tão óbvia a ao mesmo tempo tão reveladora, Yuval se vale de história, antropologia, biologia e, acima de tudo, de uma capacidade invejável de relacionar esses campos entre si para fazer sua leitura da trajetória do Homo sapiens na Terra. O livro abrange desde o surgimento de nossa espécie na África Oriental, há cerca de 200 mil anos, até a atual era dos experimentos genéticos. A conversa boa de Yuval faz a gente se recostar na poltrona (na verdade eu já estava recostada: meu pé tá quebrado, meus dias não têm tido muito agito) e, pé pra cima, passear pelas grandes revoluções que definiram o destino de nossa espécie até aqui - a revolução cognitiva, a revolução agrícola, a revolução industrial. A partir de cada uma delas, Yuval faz ponderações bem interessantes sobre os efeitos dessas revoluções também para o planeta e para as demais espécies animais. Algumas das questões consideradas por ele têm implicações diretas em nossa rotina. Por exemplo, em que se sustenta o conforto com que aceitamos os métodos de produção industrial de alimentos de origem animal? Os exemplos de tortura a que são submetidos animais como frangos, bois e porcos para obtenção de leite, ovos e carne em grande escala são, sem exagero, apavorantes. Yuval usa o tema da produção industrial de alimentos para refletir sobre a relação dos humanos com algumas espécies do reino animal e sobre a capacidade dessas espécies de experimentar sensações que costumamos ver como inerentemente humanas - como a angústia por exemplo. Refletir sobre necessidades emocionais de animais domesticados pelo Homo sapiens é também refletir sobre o nosso meio de vida como sociedade de massa. Nem sempre é confortável.

Outros fenômenos sociais como a invenção de mitos e do dinheiro, a forma como lidamos com conceitos básicos como a definição do que é e do que não é "natural", o papel das religiões e outros credos, o fortalecimento do mercado e dos Estados, tudo é considerado sob a luz dos aspectos biológicos de nossa espécie. Uma vez examinados origem e caminhada, chegamos enfim ao questionamento-mor: onde tanta evolução e revolução vão nos levar; o que nos espera ali na esquina do tempo? 

Os avanços científicos das últimas décadas abriram possibilidades inimagináveis para o Homo sapiens de séculos atrás. Somos o "terror do ecossistema", os senhores do planeta. E temos diante de nós, logo ali, perspectivas reais de avanços ainda mais inacreditáveis - e profundamente transformadores - em áreas como genética e Inteligência Artificial. A ideia mais radical de Yuval nos aponta para um futuro em que tais avanços trarão o fim mesmo de nossa espécie como a conhecemos. Não seríamos extintos, mas irreversivelmente transformados. As perguntas que nascem na reta final do livro são pano pra muita manga: até onde iremos em nossas manipulações genéticas hand in hand com os avanços fascinantes de IA num cenário de fluxo insano de informação? Acima de tudo, que campos ideológicos ditarão esses avanços? Quais os limites aceitáveis para o uso da IA - há limites? 

E, assim, somos lançados às páginas do outro livro de Yuval - Homo deus, uma breve história do amanhã (Cia das Letras, tradução de Paulo Geiger).      

***

Diferentemente do primeiro livro, neste já cheguei salivando. Tendo em mente o gancho final em Sapiens, fiquei curiosa para ver como Yuval examinaria possíveis cenários futuros para nossa espécie com o mesmo formato utilizado anteriormente: numa abordagem que levasse em conta não só a história das relações humanas, mas também a evolução da própria espécie. No fim das contas, achei Homo deus muito mais instigante e envolvente do que Sapiens - e se você puder ler apenas um deles, sugiro este último.

Há poréns. Um desconforto em minha leitura foi a sensação de que o mundo parece um lugar mais homogêneo nas páginas de Homo deus do que é em realidade. Causa estranheza ler que entramos no terceiro milênio deixando para trás os grandes desafios dos séculos mais recentes de nossa história: fome, pragas e guerra. Por razões óbvias, a gente franze a testa: helloooo. Depois de ler os livros, vi a fala de Yuval em dois eventos em que ele faz uma ressalva a essa afirmação - e, afinal, uma ressalva com muito sentido: não é que não precisamos mais nos preocupar com a fome e as pragas; mas o fato de que atualmente elas são frutos de descaso político ou mau gerenciamento de nossas riquezas. Os famintos são vítimas de um sistema de valores, não de carência mundial de recursos. Quanto às guerras, os conflitos em escala mundial do século XX superaram em muito os números de mortos dos conflitos regionais da atualidade. Pela primeira vez na história, morre-se mais por doenças ligadas a alimentação hipercalórica do que de fome, e há mais suicídios a cada ano do que vítimas fatais de guerra e violência urbana (há referência para os dados estatísticos nos dois livros). Na verdade, o futuro chega em parcelas pelo mundo. Então em linhas gerais os desafios que se apresentam para nossa ciência no século XXI são de outra natureza. Qual?

Segundo Yuval, a revolução humanista teria deslocado o foco da fé. Não mais divindades supremas, o humanismo pôs o Homo sapiens em evidência. Para Yuval, contudo, nossa capacidade imaginativa mantém-se na ativa, apenas com os valores não naturais voltados para o ser humano: acreditamos no eu, no indivíduo, criamos uma gama de valores em torno dessas crenças; preparamos e reforçamos os sistemas que nos cercam para cada vez mais valorizarem e defenderem a integridade humana. Yuval então explora o cisma humanista em suas vertentes mais marcantes - humanismo liberal, socialista e evolutivo - para em seguida mergulhar no que pra mim são os temas mais empolgantes do livro: o pós-humanismo, a intrigante noção de divíduo (ao invés de indivíduo), a era dos algoritmos, e as fascinantes estradas que começam a se formar no horizonte da Inteligência Artificial. Noções como eu da experiência x eu da narrativa - e os curiosíssimos experimentos científicos em torno desses conceitos - e o assustador desacoplamento entre inteligência e consciência nos mantêm grudados às páginas finais de Homo deus.

Estamos na era do dataísmo - a religião dos dados. Para Yuval, entramos na era cujo embrião se formou na junção da revelação de Darwin sobre os algoritmos bioquímicos da evolução aos avanços gerados pela invenção da máquina maravilhosa de Alan Turin. Os exemplos atuais de IA e as perspectivas para o futuro recheiam os capítulos finais de Homo deus - e a gente termina o livro com cara de oh, dear.

Talvez você tenha uma leitura distinta de alguns dos grandes eventos históricos analisadas por Yuval. Talvez você não queira saber de onde vem a carne que você come. Talvez você não goste de biologia. Talvez ainda você nunca tenha se perguntado o que importa mais, inteligência ou consciência. Talvez nunca tenha imaginado pra valer onde essa tal de IA pode chegar - e nos levar. Mas eu garanto que depois de ler esses livros você tem grandes chances de ter ao menos um ou dois cafés bem animados com seus amigos. É conversa pra mais de metro.

Ainda não conseguimos prever o futuro - e profecias têm mais a ver com religião do que com ciência. Yuval diz em suas palestras que não se interessa por profecias, mas que entender os rumos que a IA pode tomar é vital para repensarmos, entre outras coisas, a educação formal de nossas crianças - e das gerações que se seguirão. A velocidade já acelerada das transformações em nosso tempo tende a assumir um ritmo alucinante. Como preparar os cidadãos de um futuro assim? Vale ler os argumentos do Yuval nem que seja para rebater cada um deles. Eles são tão bons que rebatê-los demanda argumentos igualmente bem construídos - então a conversa naquele café só pode mesmo melhorar.

 
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