Nove


Não é engraçado fazer quase uma década que não escuto sua voz e ainda assim eu me lembrar exatamente de como ela ecoava pela casa? Hoje alguém na calçada me fez lembrar de você. Ontem fez nove anos que você morreu. O mundo anda daquele jeito. 

Estou de novo me preparando para visitar nossa casa, o lugar onde cresci embaixo de suas asas. Só que agora os ecos seguem comigo.  

Sinto sua falta. 

Os Testamentos - ou: vai passar


"Burra, burra, burra: acreditei naquela papagaiada toda de vida, liberdade, democracia, e dos direitos do indivíduo (...) Eram verdades eternas e nós as defendemos para todo sempre."

"Desistir virou a normalidade, e preciso dizer que era contagioso."

"... quanta crença não nasce por causa de anseios?"

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(Talvez esse breve texto contenha spoilers. Não sei. Leia por sua conta e risco.)

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Uma das coisas boas em Os Testamentos (Margaret Atwood, Ed. Rocco, tradução de Simone Campos) é a perspectiva histórica dada à República de Gilead. Se no Conto da Aia o mergulho em um país governado por uma milícia de fundamentalistas misóginos nos soterra em angústia urgente, Testamentos nos empurra no tempo e nos relembra que toda resistência tem como mira principal o dia seguinte. Diante de um presente absurdo e derrotado no qual a morte é o mote, e a negação da vida, da arte e da liberdade quase reduz a população a um amontoado de autômatos alucinados, é na passagem das décadas que a história se faz memória e aprendizado. This too shall pass. Naturalmente, se a redenção só se concretiza na luta que se estende às gerações futuras, torna-se evidente que é no coletivo que nos salvamos. Resiste-se para que o próximo na fila sofra menos, perceba as brechas que ajudei a cavar e tenha mais forças do que eu para abrir outros caminhos possíveis para quem vier depois. Até o dia em que o império da hipocrisia e do fanatismo vire ruínas. E, principalmente, até o dia em que os olhares se voltem para o horror e entendam que não é possível que aquilo se repita. Testamentos tem heroínas, sim. Mas tem, acima de tudo, uma rede: silenciosa quando necessário, ousada no momento inadiável, solidária com quem está aqui, com a memória de quem se sacrificou ou sucumbiu e, especialmente, com quem virá. É bonito demais para que a gente não preste atenção. 

Do que é tão bom


No café da manhã com as crianças e as panquecas, no trânsito a caminho do mercado, no brinde do almoço, nos pedacinhos do dia que ainda estamos construindo hoje, agora; em cada pedacinho desse dia mora minha emoção por estar cumprindo aquilo que desejei lá atrás, há tantos anos. Estamos caminhando, repartindo e reparando, às vezes abismados, em outras apenas nos deixando levar por essa coisa imensa que é nossa vida juntos. Seu dia, de novo, e eu ao seu lado. O mesmo amor, a mesma certeza, a mesma alegria combinados a dúvidas inventadas ou teimosas, ao aprendizado diário e bem-vindo. No mesmo barco, nossos filhos que hoje também celebram essa sorte gigante de ter você na vida. Eu olho, suspiro e me ocorre dizer: que coisa boa.

Feliz aniversário, meu amor.

Primaverices


Tem sido uma primavera nublada dentro e fora de mim. Na maior parte dos dias, se fecho os olhos e ouço o barulhinho da chuva e dos trovões ao fundo, posso até brincar de inverno. E há os dias em que o sol obedece o calendário, às vezes tímido, às vezes furando as nuvens e aquecendo bochechas e ideias. Com ou sem sol, as flores iluminam minha janela, minha mesa, o jardim, um cantinho do quintal. Pisco pra elas e digo: eu sei. Obrigada. 



















  



Gata: - Queria ir lá fora derrubar um vaso.
Cão: - Por que não derruba um aqui dentro mesmo?
G: - Já derrubei.
C: - Verdade.

Um flerte com a Pauliceia


No meio do caminho tinha uma viagem. Uma viagem que quase não foi, por causa dos redemoinhos que nada têm a ver com a previsão do tempo. Meio fui, meio me mantive aqui. São Paulo certamente tem assunto para encher muitas viagens; dessa vez, fui só pelos abraços. Porém, ah, porém. Uma vez lá, a gente se esgueira entre as esquinas e dá uma espiada em certos cantinhos. E, por fim, a alma agradece. A arte torna o mundo possível, já repararam? Os barulhos duros continuam me empurrando para longe. Mas há beleza também. E motivos. 

Como o acervo modernista da Pinacoteca.

Antropofagia, Tarsila. (Detalhe)

Distância, Tarsila. (Detalhe)

São Paulo, Tarsila. 

Bananal, Segall. (Detalhe)

Di Cavalcanti, abundante.

Portinari, meu amor.

Batuque, Carlos Prado.

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Leilão de Peixes, Enrique Martínez Cubells

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E Almeida Júnior:



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Interior da Pinacoteca.
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No espaço Itaú Cultural a exposição Brasiliana é bem impressionante. Eu adoraria saber como o acervo foi montado. As informações sobre a aquisição dos mapas, livros, documentos e gravuras são poucas ou inexistentes; o acervo em si, no entanto, é bem fascinante. Bastariam os mapas e atlas imensos mostrando como o continente americano foi sendo compreendido e redesenhado à medida que os europeus avançavam por aqui para valer a visita, mas o espaço expõe bem mais.




Primeiras edições, algumas autografadas e com dedicatórias.

Rosa.

Caligrafia do Chico, o lindo.


Ilustração de Portinari para o livro do Machado.

Di Cavalcanti, para o livro do Jorge Amado.

No mesmo prédio, a Ocupação Vladimir Herzog está emocionante. Fotografias feitas por ele, material de trabalho como uma máquina de escrever e um gravador,  matérias e colunas de jornal assinadas por Herzog e, claro, um inventário das circunstâncias de sua morte, incluindo uma carta da mãe ao primeiro juiz que reconheceu a responsabilidade do Estado pelo assassinato. (Clique na foto para ampliar.)

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O MAC USP também tem lindezas.


E cápsulas de projéteis contando o assassinato de mulheres.




Uma exposição conta a história da máquina de datilografia. Imperdível para saudosistas e novas gerações de curiosos.


Máquina que pertenceu a Mário de Andrade. Será que Amar, Verbo Intransitivo saiu desses tipos? A julgar pelas datas, bem possível (o livro foi lançado em 1927).

Não é uma fofura?
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No mais, São Paulo foi colo e bate-papo. Que passem os redemoinhos.

 
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