50

Você tem um jeito de falar, especialmente quando tá empolgado ou achando graça de alguma coisa, falando de música ou de nossos filhos, que você traz desde a juventude. Não sei o nome dessa coisa, mas eu a reconheço diariamente. É como um bilhete de viagem no tempo, um bilhete muito engraçado que me permite voltar ao passado e estar no agora, a uma só vez. É essa coisa sem nome que me faz experimentar de forma tão nítida a sensação de alegria prolongada que tem permeado minha vida. Ela já me salvou muitos dias, já me salvou de muitos dias. Ela faz de você uma pessoa tão boa de ter por perto. 

Gostam de perguntar por aí o que diríamos às nossas versões jovens se pudéssemos voltar no tempo. Eu diria: sim, diga sim. Ao que o meu eu jovem responderia: "Eu sei." Pois é, eu sempre vi. E não há coisa melhor do que confirmar todos os dias a alegria vislumbrada há tanto tempo. 

Hoje você faz 50 anos. Sem festa, em casa, mas com as janelas virtuais abertas para os muitos que gostam tanto de você também. A festa virá, será bom festejar com barulho e conversa, sempre é. Por enquanto, ficamos aqui, exercitando nosso esporte favorito de quarentena infinita: comer o que cozinhamos. Fiz seu bolo de aniversário e sua sobremesa favorita, o pão que você adora. A Amanda fez biscoitos com seu nome. O Arthur inundou a casa de música e alegria (filho de peixe...). Eu queria um presente a altura do que você é em nossas vidas, mas aí é pedir demais. Coitados dos presentes possíveis. 

Senhor Ulisses de 50 anos, não preciso nem pedir. Eu sei. Que você não perderá aquela coisa sem nome. Meu bilhete de alegria.

Feliz aniversário, meu amor.  



As letrinhas que faltam na sopa


Durante muito tempo fui leitora de um livro só. Um por vez, entenda-se. De uns tempos pra cá, sabe-se lá por qual motivo, dei pra iniciar leituras paralelas. Normalmente, mas não necessariamente, olho em volta e há uma leitura em andamento em livro impresso, outra no kindle e um audiolivro para ouvir durante tarefas enfadonhas. Ou um literário qualquer, um não ficção, uma antologia de contos. Varia com as marés. 

Nessa sopa de letrinhas, ocorre aqui e ali de um livro ficar meio encalhado, enquanto me ocupo de outro, vai da lua. Dia desses, comprei uma cópia impressa do Escola de Tradutores, do Paulo Rónai, livrinho antigo que há muito eu queria ler. Li uns três ou quatro capítulos, larguei ao lado do computador -- na mesa da sala convertida em escritório durante esse confinamento (sem-fim-namento), já que o escritório propriamente dito foi convertido em sala de aula do filho mais velho -- e comecei a ler o Oráculo da noite, livro sobre a ciência a história do sonho, do cientista brasileiro Sidarta Ribeiro. Enquanto lia o Oráculo, comecei a ouvir The ambassadors, do Henry James, porque... porque Paris, talvez.   

Acontece que, nesse meio tempo, minha amiga Luciana, por falar em Paris, fez uma postagem sobre "As ligações perigosas", o filme, que ela tinha acabador de rever pela zinquenquésima vez, o que me fez pensar no livro do Choderlos de Laclos, que, coincidentemente, eu tinha acabado de acrescentar à minha listinha de desejos por causa de um texto sobre ele em outro livro, outro papo. Dei uma fuçada aqui e ali para decidir que tradução comprar, porque, vocês sabem, coitado do meu francês eternamente pré-intermediário nos dias de sol, quase inexistente nos de chuva. Descobri que a tradução de Sérgio Milliet era ponta firme, fui nela. Um sebo bacana enviou o livro sem demora, pus na pilha para depois do Rónai (que, a essas alturas, eu tinha retomado, pois já havia parado de sonhar com o Sidarta, algo assim). 

Coleciono pequenas coincidências insignificantes. Dois dias depois de receber meu exemplar de Relações perigosas (esse é o título na tradução de Milliet),  vejo no livro do Rónai que ele dedicou um capítulo inteirinho às traduções em língua portuguesa de Les liaisons dangereuses. Vi e falei oba. Li e falei droga. Aprendi com o Rónai que o Choderlos de Laclos, quando lançou o livro que lhe deu fama eterna, fez um jogo de cena semelhante ao de Daniel Defoe ao lançar Robinson Crusoé: fingiu para seus leitores que sua obra não era ficção coisa nenhuma, que aquelas cartas (Les liasisons é um romance epistolar) teriam sido encontradas em tais e tais circunstâncias e coisa e tal  (na primeira edição de Robinson Crusoé, o nome de Defoe sequer aparecia, esperava-se que o leitor acreditasse em todas aquelas aventuras narradas por um sujeito que de fato se chamava Crusoé). 

E daí? E daí que o Rónai me conta que, na tradução de Milliet, a introdução do autor sobre as cartas, o jogo de cena "isso realmente aconteceu", foi eliminada. A tradução que comprei começa com a primeira carta, deixando de fora a introdução da obra original - não era um prefácio a uma edição específica, mas parte integrante do texto de Laclos. Se eu tivesse avançado no livro do Rónai um pouco mais, antes de comprar meu Relações perigosas, provavelmente teria escolhido outra edição, uma que contivesse o texto completo.  

Moral da história: não tem. Acontece, quem mandou interromper o francês. (Imagino que nem seja difícil encontrar o texto de Laclos traduzido para o português ou o inglês na internet; mas há certas obras que gosto de ler no sofá, virando as páginas; essa, então, por mim, podia até ter os envelopes para a gente abrir - ou o selo de cera pra gente romper? o lacinho para desamarrar o rolinho de papel?)

***

Fiquem bem. Não acabou ainda, mas a saída do túnel é logo ali.  


Meu passeio com Ulysses


"Essas areias pesadas são linguagem que maré e vento assorearam aqui."

***

Meu sim foi há muito tempo em uma livraria de Campina Grande, durante a graduação em Letras. Foi um sim adiado. Joyce era o cara "que tinha influenciado Clarice", a do coração selvagem. O livro imenso, cercado por certa aura grandiloquente, me pareceu muito, deixei pra depois. Muitas horas se passaram e formaram anos. Um dia, me vi em uma biblioteca pública inglesa de onde saí com os contos de Dubliners embaixo do braço. Simpatizei com o moço. A simpatia virou um flerte mais intenso quando, mais um tanto bom de horas depois, em Santa Catarina, uma leitura mais cuidadosa de The Dead (Os mortos) me fez recordar aquele sim. Um novo tanto de tempo depois, puxei Um retrato do artista quando jovem da estante, conheci Stephen e reencontrei Clarice. Praticamente uma dança das horas prolongada.


Pois bem. Hoje terminei minha primeira leitura de Ulysses. Várias imagens fazem pleno sentido agora: o burburinho infinito em torno do dia 16 de junho; o leitor que larga o livro no capítulo/episódio 3; quem morre de rir; quem se encosta no sofá, respira fundo e se joga; quem se cerca de livros, manuais, dicionários e lupa. E acho que tudo cabe. Há várias maneiras de se ler qualquer livro, é assim com Ulysses também. A minha leitura começou com certa reverência (oi, finalmente, vamos lá?), passou por visitas frequentes à tradução mais recente no Brasil (inclusive, li alguns capítulos integralmente ali), oscilou entre o riso e a compaixão (acho que Bloom não ia gostar de ouvir isso), me levou de volta aos contos de Dublinenses

Há quem ache que não faz diferença conhecer ou não a Odisseia de Homero para se apreciar Ulysses. É verdade, de certa forma o livro se basta, nenhuma dúvida. Porém achei bom conhecer, saber do que tratam as passagens do poema épico que, afinal, ronda a estrutura do livro. Saber o que se passou com Odisseu quando ele se deparou com o ciclope, por exemplo, deu mais graça ao episódio da taverna, em minha leitura (pessoal e intransferível), o que não é o mesmo que dizer que não saber nada do ciclope impeça alguém de apreciar o texto de Joyce. O mesmo serve para Hamlet, outro texto quase onipresente ao longo do livro. O fato é que Ulysses me parece se beneficiar de um modo muito particular das leituras prévias com as quais passeamos por suas páginas. Fico tonta só de pensar no tanto que certamente não vi - ainda assim, valeu o passeio. Sempre vale.  

De tanto querer ficar frente a frente com Leopold Bloom, é possível que o reencontro com Stephen Dedalus (protagonista de Um artista...) nos capítulos iniciais de Ulysses tenha me deixado inquieta. Talvez por isso o quarto capítulo, no qual somos apresentados ao casal Bloom, tenha para mim o selo de primeiro momento queridinho do livro. A partir daí, seguindo as andanças do protagonista ao longo do dia, gostei especialmente dos episódios que se passam no cemitério, na biblioteca e no hospital. Minha palavra para Ulysses é ternura, e talvez nesses episódios as atitudes de Leopold Bloom que suscitam essa ternura me pareçam mais evidentes. Há deslocamento e solidão e às vezes um quase apagamento que me deixavam com vontade de consolar o moço. Ou de ouvi-lo de verdade, prestando atenção - que é, me parece, algo que o faria muito bem. Ser ouvido. 

Se, contudo, o foco estiver na técnica narrativa, vou ter trabalho para escolher meu episódio favorito. Falei um pouco disso aqui. É mais fácil apontar o que me cansou e me fez torcer pelo final do capítulo: a estrutura soluçante do episódio alucinado no bordel demandou paciência. O conteúdo hilário salvou a leitura. 

O famoso monólogo de Molly Bloom está lá em toda sua glorificada fama. Mas é o capítulo que o antecede, a volta para casa na madrugada, que certamente vai me fazer reabrir o livro de vez em quando. Fiz um filme dele em minha cabeça.

2020, apesar de toda sua insistente chatice, tem sido um ano de leituras bem interessantes. Ulysses merecia um ano melhor, admito. Mas vou encarar diferente, como inspiração. O dia mundano de Bloom é todo permeado pelo que de melhor o humano tem e faz: busca, contemplação reverente diante da enormidade da natureza, compaixão, amor filial, amor universal, arte, ciência, os labirintos fascinantes de nossa mente (estou deixando de fora os elementos menos nobres, não reparem). E é assim, no fim das contas, um dia de cada vez. Sabemos que cabe a história inteirinha da humanidade, com toda sua inquieta filosofia e exuberante evolução, nas 24 horas de cada dia. É só a gente prestar atenção. Ulysses é isso: um livro de prestar atenção.  

***


"-Mas não adianta, ele falou. Força, ódio, história, isso tudo. Isso não é vida pros homens e mulheres, ódio e xingamento. E todo mundo sabe que é exatamente o contrário disso que é a vida de verdade.

-O quê? o Alf falou.

-Amor, o Bloom falou."

A dança das horas


 "De um canto correm as horas matutinas, cabelouradas, exíguas, em donzélico azul, cinturasdevespas, com mãos inocentes. Velozes dançam, girando suas cordas saltantes. 

As horas da tarde seguem em ouro ambarino. Rindo, braços dados, altos pentes reluzindo, refletem o sol em espelhos derridentes, erguendo os braços. (...)

As horas matutinas e vespertinas valsam em seus lugares girando, avançando umas até as outras, moldando suas curvas, curvando-se visavis. (...)

As horas do crepúsculo avançam de longas sombrasterrenas, dispersas, deixando-se ficar, olhânguidas, faces delicadas com hena e falsa flor tênue. Vestem-se em gaze gris com escuras mangas morcegas que tremulam à brisa terral. (...)

As horas da noite vão furtivas para o último lugar. Horas matutinas, vespertinas e crepusculares retiram-se antes delas. Estão mascaradas, com cabelo adagado e braceletes de sinos foscos. Exaustas, memesuram veladas. (...) 

Arabescando exaustamente elas tecem no chão um padrão, 

tecendo, destecendo, mesurando, regirando..."

(Trechos extraídos da tradução de C. Galindo para o Ulysses de J. Joyce.)

***

Dançam as horas nos delírios de Leopold Bloom; a noite já vai alta, e os capítulos finais se avizinham. 

***

"From a corner the morning hours run out, goldhaired, slim, in girlish blue, 

waspwaisted, with innocent hands..."


Flying flower


A primavera que vem aí vai encontrar nossa casa mais florida do que o habitual. Graças aos cuidados persistentes do Ulisses ao longo de meses, nossas orquídeas floresceram todas, competindo em cores, formas e tamanhos pelo  posto de mais linda. Ou de mais abundante. Achei bem a calhar ter agora uma sala mais colorida, ainda mais por flores que se prestam muito bem a um simbolismo de algo duradouro, bonito no presente, com promessas de um futuro com cores também. Queria dá-las todas a você, minha pequena grande adolescente. Bem, elas já são suas, mas acho que me faço entender. Queria dizer que em meio a esse deslumbre que tenho celebrado diante de nossas orquídeas tenho visto nelas o reflexo do que você trouxe para nossas vidas: a redescoberta diária das cores do mundo. É claro que a comparação é limitada: queriam as orquídeas ter as asas que a vejo cultivar todos os dias. Mas aceite esse jeitinho meio torto de lhe dizer o quanto de beleza você nos trouxe. 13 anos. Acabou-se a infância "oficial", e nós esperamos que as coisas mais valiosas dela a acompanhem vida afora, para sempre: a entrega ao sonho, o entusiasmo diante da descoberta, o prazer intenso e insubstituível de uma boa fatia do seu bolo favorito. Que a menina que você foi até aqui seja sua boa companheira nos anos que virão, que ela a chame para brincar todos os dias. Amo todas as suas cores, minha querida menina. Seja feliz, livre e dançarina. 


Por esses dias, amarelo é sua cor favorita. A flor da janela tá acenando pra você nessa sua manhã ensolarada. Feliz aniversário, moleca.  



Breve nota sobre línguas e embriões

Existe uma tabela criada por Joyce para explicitar parcialmente o esquema de Ulysses. Nela estão incluídos, por exemplo, os títulos dos capítulos*, o ambiente no qual a história se desenvolve (uma praia, as ruas de Dublin, um cemitério, etc.), a manifestação artística que em algum nível permeia o trecho (pintura, arquitetura, música) e outros elementos simbólicos ou estruturais. Uma das colunas elenca as técnicas narrativas de cada episódio e é uma diversão à  parte. A gente dá uma olhada e se depara com "peristáltica", "labirinto" ou "desenvolvimento embrionário". Esta última é a técnica narrativa do segmento que acabei de ler: um texto escrito com a técnica do desenvolvimento embrionário. Oi

Pois essa bizarrice vem a ser bem interessante, ainda que partes do texto sejam ininteligíveis. Como assim? Assim: o capítulo se passa em uma maternidade. Alguns personagens conversam no refeitório enquanto aguardam notícias de uma mulher que está prestes a dar à luz. Joyce achou uma boa ideia usar essa parte da história para falar de fecundação, parto, nascimento e temas afins de um jeito que ele adora, fazendo a coisa narrada transparecer no tecido da linguagem que a narra. Ao longo do capítulo, a língua inglesa em sua forma escrita se desenvolve tal qual um embrião. Alguns dos parágrafos iniciais são quase um aglomerado de vocábulos que somente depois de muitas linhas começam a tomar a forma de um inglês parcialmente inteligível, porém ainda estranhíssimo. Um parágrafo por vez, o texto salta de um estilo a outro, aparentemente modernizando-se pouco a pouco. A tradição escrita de uma língua acumula muitos registros distintos e, portanto, essas páginas malucas têm parágrafo que soa como romance de cavalaria seguido por outro sombrio e meio gótico, que, por sua vez, é seguido por um escrito em pomposo "juridiquês", etc. O céu é o limite. Ponto, parágrafo, erudito, ponto, parágrafo, moralista, ponto, parágrafo, rebuscado, ponto, parágrafo, prosa cristalina. Quando finalmente a leitura se torna confortável, fluente, e a gente nem franze mais o cenho, eis que o embrião formado mistura tudo e somos atropelados por uma profusão de sotaques, registros  mirabolantes, a falta de rumo do papo de bêbado. É a língua nunca pronta, solta no mundo, falada nas ruas por um grupo de homens que acaba de deixar a maternidade e cai na noite rumo ao pub, alguns ainda sóbrios, outros nem tanto; o bebê nasceu, segue a história. 

Achei doido e muito bacana. 

***

*Os títulos dos capítulos foram suprimidos por Joyce antes de iniciada a publicação seriada do livro. Incluídos na tabela, aludem a trechos da Odisseia de Homero. Existe o capítulo "Ciclope", o "Sereias", "Calipso" etc. 

P.S. Sei lá se é spoiler. Não importa, juro. 


Gone indeed

(Esse é um post cheio de spoilers. O nome do livro está a quatro parágrafos do final do post. Se você se importa, espia lá antes de decidir ler.)

Imagine um livro sobre a guerra civil nos EUA contando uma história do ponto de vista dos que saíram perdedores do conflito, os sulistas que lutaram pela secessão e pela manutenção da escravidão em seus estados. Imagine que o livro tem como personagens centrais fazendeiros ricos cuja renda vinha do plantio de algodão com mão de obra escrava. No núcleo de personagens principais, imagine a rica filha de um fazendeiro, moça egoísta e mimada, um aristocrata culto (por quem a mocinha mimada é apaixonada), uma moça gentil e de fino trato (com quem o aristocrata culto se casa), senhores e senhoras de linhagem nobre, pessoas honradas que não chicoteiam os escravos, até cuidam deles quando ficam doentes, vejam que boas. 

Na história contada nesse livro a guerra explode, os homens se despedem, as mulheres esperam. A coisa fica feia para os sulistas, os nortistas avançam, bloqueiam, invadem. Com muitas baixas, os sulistas convocam os negros escravizados para a batalha, para lutar pela manutenção da condição de escravos. Muitos vão de bom grado porque odeiam os nortistas que estão invadindo suas terras, o sul. Porque, veja bem, nesse livro épico, os negros escravizados do sul dos Estados Unidos não queriam liberdade. Gostavam da vida que levavam porque eram bem tratados, não eram chicoteados e não precisavam de mais. A vida era boa nas plantações de algodão, o livro fala repetidamente da época pré-guerra como um idílio de paz e harmonia entre os povos. E festas. 

Mas voltemos à guerra. Os sulistas se ferram, o bloqueio traz a fome. Arrasado, o sul se curva. Os negros são libertados, o governo federal assume o poder na região, a reconstrução se inicia. Bem, esse é o pano de fundo. Em primeiro plano, os leitores desse livro acompanham a jornada daquela rica menina mimada. Ela perde tudo. O amor da vida dela (homem íntegro e honrado) está casado com a outra moça, a de fino trato, e passa muito tempo longe, nem sabemos se está vivo. A mãe morre de tifo, o pai enlouquece, a guerra não poupa ninguém. A antiga fazenda agora é terra arrasada, o algodão foi queimado, e o gado, roubado. Os negros foram embora, menos dois deles, que não são ingratos e ficam com a família agora miserável. Jamais se juntariam aos nortistas, não são como esses tais negros libertos que não querem saber de trabalhar, nos ensina o livro. 

A gente segue lendo. Aí a mocinha arregaça as mangas e mostra que é feita de muita coragem. Ara a terra, mata soldado que invade o que restou da fazenda, pega dinheiro do morto, vai à luta. No meio da peleja ela se casa com o pretendente da irmã porque ele tem dinheiro e os tempos são difíceis, ninguém tem tempo pra ser honrado, só o moço que ela ama, coitado, por onde anda. Pois o moço volta, mas ama a esposa, a mocinha sofre. Atenção ao que interessa: Atlanta (a mocinha ama a terra da fazenda, mas o dinheiro circula em Atlanta, então é pra lá que ela vai) fervilha na reconstrução. Agora é cobra engolindo cobra, há aproveitadores de todo tipo. Ela inclusive se envolve com um, um bon vivant bem esperto, o que rende muitos capítulos. 

Entre uma peripécia e outra da mocinha, aprendemos que a cidade está um inferno. Os negros agora são mão de obra cara, onde já se viu, o jeito é contratar detentos que custam quase nada. Prisioneiros doentes acorrentados são a onda do momento, negros escravizados são passado, atualizem-se. Enquanto isso, surge, olha a pouca vergonha, um tal departamento dos libertos que in-fer-ni-za a vida das pessoas de bem. Esse departamento do novo governo calhorda fiscaliza o pagamento dos salários dos negros libertos, e se você ousar não pagar pode ir preso! Além do mais, estão engajadíssimos na mudança das leis para permitir o voto dos negros - um golpe absurdo para se manter no poder, é óbvio. Sem falar na ignorância das pessoas do norte que se mudaram para o sul: ficam perguntando às pessoas negras como era a vida delas nas plantações, se apanhavam muito, se eram perseguidos quando fugiam. Olha o absurdo. Os personagens negros acham essas pessoas completamente sem noção e explicam que isso tudo é lenda, que ninguém sabe nada da cultura do sul, que o mundo tá do avesso e que eles agora estão na maior dificuldade porque não sabem o que fazer; antes sabiam, porque o dono dizia. Aparece até, olha que meigo, uma personagem negra que diz que desistiu, deu dessa tal liberdade, quer voltar lá pra fazenda, pra antiga dona. É bem bonitinho. 

Mas a mocinha, a personagem principal: fica viúva duas vezes, sai da miséria, ufa, sofre de amor, é cortejada pelo bon vivant. Na reta final da história, ela vai se casar com ele, ter uma filha, sofrer outros duros golpes do destino, comer o brioche que o diabo amassou. Porém, antes disso, nosso livro interessantíssimo tem outro trunfo: o aristocrata honrado por quem a mocinha é apaixonada e a esposa dele são como um contraponto na construção da personagem principal. A mocinha mimada e gananciosa passa o livro todo desdenhando da sonsa da esposa do aristocrata honrado, por ciúmes, claro. E só no final é que ela percebe que aquela mulher era uma pessoa de muito valor, de uma coragem diferente da dela, de uma lealdade que ela nunca conseguira apreciar de verdade. O casal aristocratinha honrado é o modelo de pessoas boas cujas vidas foram viradas do avesso pela guerra, mas que mantiveram uma conduta digna e que serve de norte moral do livro. 

Outra coisa que esse casal honrado também é: membro da Ku Klux Klan. Porque veja bem, o livro nos ensina que a Klan foi só uma organização que nasceu da união de pessoas de bem que precisaram fazer justiça com as próprias mãos e acabar com a pouca vergonha daquele governo que privilegiava negros libertos em detrimento das famílias tradicionais do sul. Para ilustrar isso bem direitinho, o livro cria uma situação em que a mocinha mimada, que a essas alturas é casada com o segundo marido (ele participa semanalmente de "reuniões políticas"), sofre uma tentativa de assalto na rua enquanto passa pelas imediações de uma comunidade negra. O marido, indignado, sai em busca do assaltante. Mas isso a gente só descobre depois, é tudo bem secreto. Ele organiza um ataque à tal comunidade negra e o faz com o auxílio do aristocrata honrado, do bon vivant e de outros personagens do núcleo central das famílias de bem, saudosistas dos bons tempos. Mas a coisa degringola e é bem aí o momento em que a heroína sem caráter descobre que o marido era membro da Klan. Ela não gosta, achava perigoso mesmo e uma péssima ideia porque atraía a atenção da polícia (não porque queimava pessoas ou algo assim). Surpresa, ela pergunta para outra personagem do núcleo do bem se o Fulano Aristocrata Que Eu Amo também é da Klan, ao que a amiga responde: querida, todos os homens honrados do sul são da Klan. Em off, o bon vivant, que a essas alturas já conquistou o apreço das pessoas de bem do sul, do leitor, da leitora, da mocinha e da torcida do flamengo, providencia a destruição das vestes usadas horas antes, aquelas com capa e capuz.

Em outro momento, quando a moça honrada conversa com o marido sobre ir para Nova Iorque ou ficar em Atlanta, ela insiste: vamos ficar, querido. Aqui nosso filhinho poderá ir à escola. Se formos para Nova Iorque ele teria de frequentar a escola com crianças negras e então precisaríamos de uma governanta para ensiná-lo em casa, seria muito caro. Na cena em que a mocinha mimada foge de Atlanta enquanto a cidade queima e sucumbe aos nortistas, ela agride a criança negra que a serve sem dó, porque precisam sair do sufoco em que estão, e a criança é lenta, desatenta, medrosa. Está com fome, amedrontada por causa das bombas que explodem por todo lado e dos corpos empilhados na estrada. Logo depois, a mocinha mimada açoita o cavalo faminto, que se recusa a andar e avançar. E então faz uma prece a Deus para que a perdoe por bater em um animal faminto. 

Li este livro porque o filme baseado nele fez parte de minha infância. Eu amava o filme. Vi várias vezes, corria feliz pra TV quando passava. À medida que fui ouvindo o audiolivro e as frases começaram a me incomodar, num crescendo que, no capítulo 37, me deixou enojada, comecei a me perguntar como cargas d'água eu não me lembrava desse nível de racismo descarado misturado a um negacionismo histórico da pior espécie e à celebração de uma das organizações supremacistas mais execráveis da história moderna quando pensava no filme. Terminei o livro, revi o filme. E vi, com certo alívio, que o filme camuflou muita coisa, escondeu qualquer referência explícita à Klan, evitou toda a discussão política referente ao pós-guerra e manteve o foco na saga pessoal da mocinha. Vi na tela outra vez as razões de meu afeto pelo filme nas cenas irretocáveis que seguem um primor até hoje, em plena era digital.

Claro que vocês já sabem que o livro é E o vento levou. Eu nunca tinha ouvido falar da fortíssima carga supremacista do livro. Só agora, durante a leitura, vi que o filme foi retirado da grade da HBO por questionamentos referentes ao tratamento dado aos poucos personagens negros na história - eles seriam muito amáveis com os carrascos, aparentemente rolou alguma discussão sobre o significado simbólico dessa caracterização. Li isso e pensei: o que dizer então dessa caracterização no livro. Para o narrador da história, as pessoas negras eram como crianças que precisam ser conduzidas, eram mais felizes escravizadas. É preciso estômago para ler a Sra. Margareth Michell. Eu precisei. Jamais vou ver a saga de Scarlet com os mesmos olhos. "Veja o tempo em que foi escrito, veja que ele retrata a postura de um grupo". Eu vejo. O problema é que o livro faz mais do que retratar, ele celebra. Para além das personagens, o livro tem um narrador saudosista. A descrição da Klan como união de "homens de bem" cansados de serem injustiçados é da narração da história, não do Butler ou do Mr. Kennedy. O mesmo para a descrição das pessoas negras como seres incapazes de autonomia, para o tratamento das violências contra escravos como se fosse lenda, para a noção de que o fim da escravidão foi uma ideia estúpida e descabida. 

O sucesso do livro que, entre outras coisas, homenageia a Klan foi instantâneo. Escrito em 1936, setenta anos depois do fim da guerra, pintou de honras o sul escravocrata, faturou o Pulitzer e bateu recorde de preço na venda de direitos para o cinema - cinquenta mil dólares na época, apenas um mês depois de lançado. 

O livro tem tantos elementos de uma boa história, o mundo não é justo. É tão fácil apreciá-lo. Rhett Butler e Scarlet O'Hara são personagens tão bons de se odiar. Ashley é tão absurdamente insuportável em sua covardia, ficamos tão felizes quando Scarlet finalmente enxerga isso, mesmo que seja, como sempre, porque lhe é conveniente enxergar isso naquele momento. Mas por trás das desventuras dos Hamilton, dos O'Hara, dos Wilkes, desenvolve-se uma história que chora o fim da escravidão, lamenta a ideia da igualdade entre os povos, celebra supremacia, ódio e morte. 

Confesso o alívio por ter confirmado que o filme deixou de fora as linhas narrativas mais intragáveis do livro. No entanto, é inegável que a coisa toda se manchou pra mim. Vendo o filme agora, quando Rhett disse "Frankly, my dear, I don't give a damn", acrescentei "me neither". Nem sofri mais. 

 
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