Firme


Vejo os galhos mais claros e acho que precisa de mais água. Vejo os muitos galhinhos novos e acho que tá tudo bem. Ela recebe bastante luz, mas vive solitária num canto da garagem. Devo transferi-la para o quintal onde poderá conversar com as amigas. Acho que seria mais adequado a quem foi plantada por Tia Maria, ela que adorava uma conversa. Ontem, dia 06,  Tia Maria teria feito 88 anos. Ainda seria fofinha. Ainda faria seus doces de mamão? Não sei. Palavras cruzadas? Certamente. E com toda certeza desse mundo ainda cuidaria de suas plantas. Como cuidou dessa que eu trouxe pequenina para minha casa depois de sua morte, há quase seis anos. Tia, o vaso tá torto, eu sei. Mas vamos manter o foco: os galhinhos novos, bem firmes, são meu afeto por você, a lembrança de nossa história. Firme. 


New house, little old corners


Dentro de algumas semanas começarei a embalar louças e panelas, a cobrir cadeiras e móveis com lonas. Entraremos na roda viva de uma reforma. Dizem que aquilo que não nos mata nos fortalece, quero acreditar. Foram tantas reformas na casa onde cresci que a que se aproxima tem gosto de reencontro. Na verdade, será a primeira vez que mexeremos pra valer na nossa casa, onze anos depois de nos mudarmos pra cá (e de alguns ajustes que fizemos naquela época). Já estamos às voltas com visitas de marceneiros, pedreiros e serralheiros, orçamentos e lojas. Nem acredito que criei coragem, sinto-me praticamente uma guerrilheira. 

A ideia de deixar a casa com novos ares pode significar jogar coisas velhas fora. No entanto, uma passada de olhos por algumas miudezas me mostrou velharias que não só serão guardadas por muito mais tempo, como são mesmo o miolo dessa casa. Vou mexer na house; a home pode envelhecer, quanto mais sinais do tempo, melhor. 



Este quadrinho artesanal é um cartão de aniversário. Recebi em 1998, enquanto estudava na Inglaterra. A amiga que me mandou estava num fuso horário tão distante que não raro conversávamos nas suas madrugadas, em ligações telefônicas de outra encarnação. A mensagem está no verso e quando a recebi me senti como a menina no balanço.  

Meses depois, de volta ao Brasil, uma colega que tinha acabado de me conhecer me presenteou com essa lindeza. Trabalhamos juntas por pouco tempo, mas sua gentileza ficou com esse frasquinho.

Vem da mesma época essa agendinha. Tem telefones de pessoas que nem sei por onde andam mais. Não importa.


No final do doutorado um colega me presenteou com esse livrinho para novos escritos. Vive na gaveta do criado-mudo, de vez em quando saco de lá no início da manhã. Armazeno sonhos (não planos, aqueles outros mesmo que a gente leva pra terapeuta), acho um bom uso. A capa é pra quando eu virar colega da moça, talvez. 

Da minha avó paterna, Alice. Minha mãe guardou em sua cozinha por muitos anos.


Da minha mãe, um conjuntinho manchado de chá confuso: as xícaras são de cafezinho. 

Esses copos me viram crescer. Me olhavam da cristaleira da sala da minha mãe. Cada dia, eu passava por eles um pouco mais alta. Agora eles espiam meus filhos. 




Não sei a história desse conjunto de jarra e copos, mas sei o quanto minha mãe gostava dele. Um dos copos se quebrou, mas não foi jogado fora. Ela colou e hoje ele mora com sua cicatriz na minha cristaleira.

Bandeja da minha mãe, antiga como os velhos natais em que ela embrulhava a cesta com papel celofane. 

Ulisses ganhou do pai aos dez anos.

Minha pequena coleção das obras de Clarice comprada num sebo em Campina Grande, na época da faculdade de Letras, um milhão de anos atrás. 

No mesmo aniversário do cartão-quadrinho, ganhei de amigos australianos (Kim & Mick, onde andam vocês?) esses copinhos para shots de alguma bebida esquisita que tínhamos experimentado juntos em algum lugar escondido no interior da Áustria. O contato de perdeu, mas os copinhos não me deixam esquecer do quanto me diverti com eles. O real sentido de se dar para alguém "uma lembrancinha". Que fica.  

Também me viu crescer, parece que minha mãe gostava de azul. Atualmente, fica lotada no Halloween. 

Comprei esse relógio quando estava grávida do Arthur, num mercado maravilhoso em algum lugar de Montreal. Da mesma viagem, trouxe para casa os quadrinhos em relevo com miniaturas de lojas. O nome do artista revela o dedo chinês. Arthur já está adolescendo, mas eu continuo admirando os detalhes das fachadinhas.







***

Na ida ao circo; nas viagens a Campina Grande - fosse para visitar parentes, ir ao médico ou fazer compras; nos passeios pelas ruas de Esperança durante a Festa da Padroeira, nas filas do carrossel ou roda-gigante; em eventuais passeios nas tardes de domingo. Em cada uma dessas ocasiões, esses anéis estavam juntos, minha mão na dela. O meu, imitando um cinto e que só parei de usar quando se quebrou, foi provavelmente o único anel de minha infância; o dela tinha uma fotografia de minha avó, Rita como eu.



***

Nos cantinhos, nas gavetas e em algumas prateleiras, o bom da casa é ser velhinha. (Que venha a reforma do esqueleto.)


Uma valsa de leveza e poder


Uma banda de músicos de primeira linha liderada pelo pianista Luiz Gustavo Zago. O vozeirão e o charme de Claudia Passos. Uma companhia de dança que aposta no poder da arte para romper limites. E canções do Chico. É o espetáculo Será que é de éter?, estrelado pela companhia de dança Lápis de Seda, de Florianópolis.

Foto daqui.
Eu esperava boa música, obviamente, mais do que novidades coreográficas. Mas fui surpreendida pela interação dos dançarinos com a cantora e com os demais músicos, e vi um espetáculo diferente. Claudia Passos soltou a voz em interpretações à altura da música de Chico, carregadas de lirismo, cantando e deslizando pelo palco. Com ela, dançarinos e cenário se moviam para formar quadros vivos em cada melodia. Foi bonita a festa, pá. Mas não era só isso. Dos dez dançarinos em cena, vários são portadores de necessidades especiais. No folder do espetáculo, a companhia de dança é descrita como um grupo que busca a evidência e a valorização, não a negação ou a ocultação - escolhas muito bem ilustradas no resultado final. Foi muito emocionante ver pessoas que, a um primeiro olhar distraído e domesticado, poderiam ser tomadas como incapazes de compor um grupo coeso e em sintonia numa coreografia com uma hora de duração. Mas ali estavam eles, dançando e exibindo uma relação tão próxima com canções tão lindas. Ali estava a menina calçando a sapatilha de ponta, rodopiando e mostrando que há tantas formas de olhar uma pessoa. Ou, como diz o poeta e como cantou lindamente a Claudia ontem: 

"é na soma do seu olhar que vou me conhecer inteiro, 
se nasci pra enfrentar o mar, ou faroleiro"

Amo tanto, e de tanto amar acho que a arte nos salva. Em tantos níveis que não saberia dizer. À amiga que me convidou para o teatro ontem, obrigada, sua linda. Foi muito bom aplaudir de pé ao seu lado aquelas estrelinhas. Como na letra da Valsinha, que abriu o espetáculo, foi tão bonito que hoje meu dia amanheceu em paz.

***

Não deixem de visitar o site da companhia e conhecer o respeitável currículo da coreógrafa Ana Luiza Ciscato e demais artistas envolvidos no projeto. 




The colours of the rain


As tempestades de verão têm sido pontuais. Pode-se marcar um encontro para "antes da chuva" ou "depois da chuva" sem temor. A sorte do dia é conseguir se deslocar do trabalho para casa antes de o céu despencar sobre a cidade no final da tarde, trazendo os inevitáveis desmoronamentos localizados, buracos aumentados, arrepios de lembrança da última enchente ainda tão fresca. Faz um cor linda no meu quintal quando a tempestade vem chegando. As nuvens mais escuras se avolumam sobre o morro, mas o sol do outro lado do céu resiste o quanto pode e envia os últimos raios coloridos antes de ceder lugar ao aguaceiro. Sobe um cheiro de terra quente e a atmosfera fica carregada, embalada pelo vento que bate as últimas portas e janelas ainda abertas. Meu cachorro maior enlouquece. Ontem consegui chegar a tempo de ficar ao lado dele durante os trovões mais barulhentos. Não consigo tranquilizá-lo de todo, mas acho que ofereço algum suporte psicológico. Ele é pesado e suas patas têm um bom potencial para me machucar no meio do nervosismo todo, mas devo dizer que é muito terna  a forma como ele parece saber disso e não as arrasta sobre minha pele, apenas cede, resignado, se decido me afastar. Gosto muito dessas chuvas fortes e rápidas de final de tarde, são um elemento inseparável do verão. Claro, odeio se estiver no trânsito bem na hora h. Mas em casa, não fosse o desespero do cachorro, eu até torceria para as trovoadas durarem um pouco mais. Quando eu era pequena, havia poucas tempestades em minha cidade. Nas raras vezes em que elas chegavam, eu me deleitava. Da porta de casa, olhava  maravilhada a água correr rente ao meio-fio da calçada, como se eu vivesse em um comercial de TV. A cada tempestade que enlouquece meu cachorro, sou essa menina outra vez, mesmo que comercial nenhum tenha aquelas cores que vejo no meu quintal. 

Nada não, só queria falar da chuva.  

Paper windows


Depois de muitos anos, voltei a utilizar agenda de papel. Em tempos de agendas eletrônicas, lembretes no celular, alarme para avisar da consulta médica, retornei ao tempo em que os dinossauros andavam sobre a Terra. Algo no manuseio da caneta me traz conforto, tenho certeza de que tio Freud me entende. E já que vou conviver com o caderninho cheio de rabiscos por doze meses, que seja lindo. Em 2017, catei no stand da lojinha de um museu uma agenda com reproduções de pinturas impressionistas. Agora, depois de namorá-las ao longo dos meses, algumas migraram para a parede. Ou seja: agenda multifuncional, quem disse que só os smartphones o podem ser, hein?



As meninas do Renoir.

Flores do Délacroix, boom de cores.

Não tenho mais quinze anos, mas minha nova agenda tem até transfers. A Amanda anda às voltas com seus insetinhos pela casa, cobrindo com caneta figurinhas que magicamente se transportam para o papel. Eu me lembro das "figurinhas-transfer" dos anos 80, nos tempos em que eu usava canetas para alimentar meu querido diário com segredos inconfessáveis e assuntos absolutamente irrelevantes e magnânimos ao mesmo tempo. Ela me ajudou a marcar os aniversários da casa com insetos, somos uma família de assuntos sérios.









Pra garantir o bom uso da agenda, fiz uma listinha de gente grande. ;-)


Amanhã acabam as férias. Volto à minha mesa. Num cantinho dela, caneta, papel, flores e insetos me lembrando que tá tudo certo.

After the rain


Depois de cinco dias de chuvas intensas, Floripa teve manhã e tarde de sol. A tempestade no final do dia foi rápida e mais barulhenta do que aguacenta - os trovões assustaram, o dia escureceu, mas a chuva foi suave. A tarde voltou a ter céu azul e no final do dia as crianças brincavam no quintal como manda um verão normal. Sequei roupas, tapetes e tralhas do camping, lavei lençóis - quanta diversão, hein? A melhor parte: limpei o quintal e fiquei de fuxico com as plantas e os passarinhos que voavam faceiros, certamente celebrando o sol também. Uma libélula imensa entrou na sala, a tola, e passou horas se debatendo contra o vidro da porta. Triste sina num dia tão colorido lá fora.

No mais, temos suculentas. 




E vasos coloridos - gosto mais deles do que das flores, mas eu precisava de uma planta resistente ao sol (hahaha, sou uma otimista) e a única opção disponível na floricultura eram os kalanchoes - ou temperinhos, mas esses já habitam a hortinha. Aposto que vou trocar e torrar algumas plantinhas, veremos.



É preciso fotografar enquanto há tempo - Amanda normalmente colhe antes do tempo, quando ficam laranjinhas. "São fofos", diz a devoradora de tomates.




"And yet it was a lovely flower, 
Its colours bright and fair; 
It might have graced a rosy bower, 
Instead of hiding there."  (The violet, by Jane Taylor)







Andei pela casa arrancando galhinhos secos e flores murchas dos vasos. Segundo o Van Gogh, nem precisava.


Esse vasinho com cara de urna - posso chamar de urna, Fal? - guardará nossos melhores momentos de 2018. Pequenas anotações aleatórias, qualquer coisa que nos faça rir ou simplesmente sentir alegria por estar nesse canto do mundo, e que fatalmente esquecemos logo depois, soterrados na rotina. A serem lidas na última noite do ano. Hoje seria algo como "ufa, parou a chuva". 

Te quero cheia, baby.
 
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