By the river


Lajeado Grande, São Francisco de Paula/RS


Som
frio.

Rio
sombrio.

O longo som
do rio
frio.

O frio 
bom 
do longo rio.

Tão longe,
tão bom,
tão frio
o claro som
do rio
sombrio.

Cecília Meireles




***

Em nossas barracas armadas às margens do rio, dormimos ao som da cachoeirinha logo ali. Sobre as lonas que cobriam nossas cabeças, a copa alta de uma araucária espiava a noite. Muito acima dela, quebrando a escuridão que vinha com o apagar da última lanterna, estrelas, estrelas infinitas. À noite, driblamos do jeito que deu o frio impensável em um início de março. Durante o dia, o calor fez das águas das cachoeiras um bálsamo, e cruzamos o rio pra lá e pra cá em busca do cantinho mais fresco. Do alto das trilhas que cercam o camping, víamos nossas barracas, os morros e vales moldados pelo tempo, o rio tão bonito. Foi a primeira vez que acampamos no interior do Rio Grande do Sul, e devo dizer que a experiência compensou com folga o deslocamento mais longo. 

No quesito bichos que nos amam, tivemos marimbondos, mosquitos não identificados, aranhas xeretas, pássaros que anunciavam o horário do café, borboletas fotogênicas, seriemas  e, nos minutos finais do feriadão, um escorpião para nos lembrar da importância de não deixar os pares de tênis ao relento - que a natureza é linda, mas tem uns lances esquisitos. ;-) 

***




As campistas veteranas agora montam sua própria barraca.

Os meninos, idem.

Acampar em grupo é um exercício de cooperação. O preparo da comida, a montagem das barracas, a conversa fiada, as piores piadas, a travessia do rio, tudo, tudo é melhor quando uma mão segura a outra. 









Bebê do rio.

Menino do rio.


"My river runs to thee..." 

Barulhinho bom.

Um grande e um maior.

Parte da galera que curte esse negócio de dormir embaixo da lona. 
Criançada adolescendo na cachoeira.
-"Rita, fiquei bem na foto?"
- "Claro, relaxa."

Seguimos trilhas para ver o rio e o camping do alto, ganhamos de brinde flores campestres, marimbondos mais ou menos amigáveis e borboletas.






O Carnaval não foi totalmente esquecido, e na noite mais fria do feriado tivemos até celebração de aniversário no clima da festa. Por volta das dez da noite, o termômetro marcava 13 graus. Pelos relatos na manhã seguinte, acreditamos que a temperatura deve ter ficado abaixo de 10 - em março, Rio Grande do Sul, pra que isso? Foi a noite dos encolhidos. 


Aqui uma das grandes invenções da modernidade, a taça de plástico. 
O trio de aniversariantes. De dia, maiôs e bermudas; à noite, camadas de roupas.
Unidos do Frio Fora de Época.

***

Olhar o calendário, falar da data com os parceiros de barraca, escolher o destino, ligar para o camping e pedir informações sobre a estrutura, fazer a lista das comidas, dividir a carga entre o grupo, desentocar a tralha (barracas, lonas, móveis desmontáveis - cadeiras, mesas, armários para as infinitas refeições do acampamento - colchões infláveis ou sacos de dormir, minifogões, pratos, copos, talheres, roupas, toalhas etc), invocar os santos e orixás dos campistas para fazer tudo caber dentro do carro, acordar cedinho, pegar a estrada - essas são as pedrinhas. Montar o acampamento já é acampar, então não conta. Mas até chegar lá, olhar em volta e dizer "que legal isso aqui, olha o rio/lagoa/mar/cânion"; até que a gente diga às crianças "sim, pode correr/nadar/pedalar", cada um do grupo põe uma pedrinha. E por ser cada um de um jeito é que fica tão bacana. 

Camping.

Em busca do equilíbrio perdido


Contamos e descobrimos que essa foi a 15ª vez. Acho que a gente acampa para, no meio de tanta loucura, buscar equilíbrio.


Equilíbrio que, sabemos, é fácil perder.


Assim como sabemos que é preciso insistir.


Para depois poder celebrar as superações. ;-)




Só assim podemos ajudar os outros na busca por seu próprio equilíbrio. 




Se tivermos sorte, quando o mundo gira, recebemos o benefício de volta. Acho que é por isso que a gente acampa. Pra dar e receber.


Acampando a gente tem a chance de se inspirar em outras equipes. Na água...


No ar...


Na terra.



Mas também é verdade que a gente acampa para observar flores aquáticas.



E amar.

Tem outra coisinha: a gente acampa para estar lá quando o pintor acorda, para ver as primeiras pinceladas do dia. 





É lindo o espelho do céu na lagoa. Por isso a gente acampa.


E também para escolher bem onde armar a rede, técnica importantíssima de sobrevivência.




Há quem diga que só acampamos para dormir sob e sobre o verde. Não nego.


Há entre nós quem acampa para fotografar a madrugada* e revelar no dia seguinte, a quem não sofre de insônia, o esplendor do nosso teto noturno. Enquanto isso, há quem durma na rede sem temer os insetos, embalado pelo silêncio da lagoa. O silêncio noturno no acampamento, verdade seja dita, sofre abalos. Roncos (quem nunca?), campistas afoitos que desrespeitam o sono alheio, gatinhos miando entre as barracas. Mas, cedo ou tarde, a calmaria assume as rédeas, enquanto as estrelas nos espiam e piscam para nós lá do infinito. A gente interpreta as piscadelas assim: voltem sempre, seus lindos.   




*Fotos noturnas feitas pelo @arvidauras


 
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