Temporada de Amor(a)


Há cerca de duas semanas nossa casa foi invadida. Na verdade, não exatamente. Uma pessoa pulou o portão, entrou na garagem, vasculhou o carro e tal. Quando seguiu para a parte de trás da casa, Floquinho deu o alerta. Venci a preguiça e resolvi verificar o motivo dos latidos (eu já deveria ter ido verificar antes o motivo dos latidos da valente cadela dos vizinhos, mas, em vez disso, fiquei na cama reclamando do barulho). A pessoa fugiu. Dias depois, a mesma coisa aconteceu em outra casa do bairro depois de nova tentativa frustrada de pular o portão daqui. Após aquela mescla de vulnerabilidade, raiva, medo e pena, minha reação mais duradoura foi: quero um cão que vigie o jardim da frente. Sem desmerecer a prontidão do Floquinho, um cachorro com porte maior na frente da casa, acho eu, diminui bem as chances de a visita desagradável se repetir. Não à toa o não-convidado escolheu a minha casa, não a do vizinho - pode acontecer, claro, mas é mais difícil alguém se atrever a enfrentar aquela boca e aquela cara de "aqui não, gavião". Também é verdade que nosso alarme estava desligado (não estamos de parabéns?), mas um cachorro é um cachorro é um cachorro. 

Pensa daqui, pondera dali, decidimos comprar em vez de adotar. Queríamos um filhote com temperamento minimamente previsível e um cão um pouco menos benevolente do que nosso velho amigo finado Roque (que, amor à parte, certa vez praticamente abriu a porta pro gatuno, que só fugiu quando o alarme disparou). Queríamos um cão liberal no apego aos mais próximos, mas conservador no tratamento aos visitantes não convidados, se é que vocês me entendem. 

Muitas fotografias, vídeos e conversas com amigos e criadores depois, optamos por um pé de amora. 
Pé de Amora.
Mais difícil do que decidir comprar em vez de adotar, escolher a raça e lidar com a gama de cuidados envolvidos na aquisição de um filhote no meio de uma quarentena, foi escolher o nome. Listas e votações foram feitas, refeitas e anuladas. Amora venceu. A carinha preta, o olhar doce, a chance de ser azeda com quem se meter a besta - acho que o nome combinou lindamente com ela. Agora o Floquinho, nosso cão que acolhemos em um carnaval anos atrás, e a Bella, a gata que há um ano resolveu morar no nosso carro e depois se mudou de vez pra nossa casa, estão às voltas com essa filhote de pastor belga. E nós descobrimos, de novo, a alegria de decidir criar mais um bicho. Bem-vinda, Amora. O pretexto foi cuidar da frente da casa, mas ela já percebeu que amoreira se espalha; o ambiente pode ser todinho dela. É só pedir com jeitinho. 



Quarentininhas


Um blog que é quase um deserto.

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Tenho dado algumas braçadas aqui, num blog coletivo, tentando fazer chover.

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Eu faria um diário da quarentena se soubesse as palavras para descrever o que temos vivido. O que temos nós, mundo. Não apenas eu, meu marido e meus filhos, relativamente seguros em casa, com comida na mesa e sol no quintal. Disso talvez seja mais fácil falar.

Do fácil falo assim: como é difícil. Até o fácil tem sido desafiador. Viver na carne a mudança de paradigmas não é bolinho. (E é "relativamente" mesmo. Ninguém está totalmente seguro. No ambiente de trabalho que meu marido precisa frequentar, ainda que parte do trabalho esteja sendo feita de forma remota, nem todo mundo "acredita" na máscara ou gosta dela, ou se importa. Ou seja, nunca sabemos.)

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Nunca o sentido de coletividade se impôs de forma tão imperiosa. Como isso nos transformará?

"Nos transformará" - quão ingênuo, não? Não somos um bloco falando em uníssono que precisamos nos transformar. Muitos entre nós querem a "volta ao normal", o normal que tem se mostrado tão falho em lidar com uma emergência como a que vivemos. 

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Voltando a falar do fácil: o que mais me incomoda é o sumiço da escola. Há aulas remotas. Mas falo da escola propriamente dita, que vai muito além das aulas. Morro de pena desses dois (pré-)adolescentes em casa, longe dos amigos, dos embates, das descobertas, dos sustos, das caminhadas, dos tombos, dos almoços com a turma, das discussões acaloradas em sala de aula, de tudo que faz da escola uma experiência, até aqui, insubstituível. Eles? Lamentam, mas acho que acham que tiram de letra. (A ver.) No capítulo atual, quem sofre sou eu. 

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Se a literatura não existisse, eu a teria inventado na quarentena. 

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Vocês conhecem a piada do bad timing? Vou contar: era uma vez uma pessoa que interrompeu a terapia em janeiro, dois meses antes do fim do mundo. Fim. 

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Não sobrará país. Colar os cacos vai levar mais tempo do que ousamos supor agora. Respiremos. (Parada do orgulho estúpido. Não tarda.)

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(Interrompemos nossa programação para um momento good vibes.) Porém, porém, porém: há outras tribos. Há outras vozes que cantam em tons de luz, não de morte. Há muitos, são muitos os que não louvam a tortura, a guerra, o sofrimento, a estupidez ignorante e orgulhosa de sua própria torpeza; são muitos os racionais, homens e mulheres ternos, não porque não sejam firmes, mas por serem mais amorosos. Há muitos humanistas, muitos. Há muita gente no país celebrando a vida, lutando por ela e contando os dias para pararmos de sentir tanta vergonha e revolta. Virá, que eu vi. 

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(Não cura os males, mas a série ô de casas da Monica Salmaso é chá, sala e janela com sol.) 

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#fiqueemcasa


Homely Fifteen


Não chegamos a planejar propriamente como seria sua comemoração de 15 anos. Falamos por alto, meses atrás, que você reuniria amigos, mas não discutimos onde, quantos ou o que fazer. Quando a data foi se aproximando, estávamos já confinados há semanas, tentando um dia por vez lidar da melhor maneira possível com o medo, o distanciamento dos amigos, a rotina de tarefas domésticas, álcool em gel e aulas online, jogos online, conversas online, notícias online, um mundo que parece caber inteirinho, com cores e dores, dentro de nossas telinhas e telonas. Não planejamos seu aniversário antecipadamente, mas se o tivéssemos feito, certamente nossos planos incluiriam campainha tocando, gente chegando, um sushi por aí. 

Isolamento social não é nem de longe o que eu teria desejado para o seu dia. Vê-lo cercado de amigos e saber quão querido você é tem sido uma alegria constante nessa década e meia. E imagino que também você receberia feliz, se pudesse, cada um dos abraços, entre um hambúrguer e outro. Hambúrguer ou sushi? O que seria? Pizza, talvez?  

Vai ser lasanha feita por seu pai, um pedido seu, só para nós. Um pedido seu, entre os outros não muito exigentes, nada do outro mundo. Você torce que o tempo passe e a gente volte a circular, como todos nós. No entanto, torce na boa, do seu jeito tranquilo, consciente de que, dado o contexto apavorante que nos ronda, não nos cabe ocupar a linha de frente das reclamações. Não você, tão cercado de carinho e proteção, com teto, mesa posta e amor. Você sabe. E ver que você sabe e reconhece é outra alegria. Você é, Arthur, uma pessoa bonita. 

(E então você guarda toda sua reclamação para os momentos em que interrompo o videogame.)

Pois bem, nesse aniversário de presentes e abraços adiados, nós estamos juntos na missão de entender o que realmente importa nesse mundo. Desconfiamos que é um lote de valores e afetos que, quando o bicho pega, nos mantém de pé, com o coração mirando o lugar certo e a cabeça centrada naquilo que nos torna humanos e dignos. Sempre há muito a ser cultivado, nunca se esqueça, mas é um alento saber que boa parte desse lote nós podemos, sim, "trazer" para o seu aniversário: amor à vida, celebração da arte que nos torna maiores, respeito pelo outro, compaixão, solidariedade, esperança e um tanto bom de sonhos bem, bem lindos. Nada disso vai faltar, meu amor. É seu lote de aniversário. 

O futuro não está nos esperando, preciso te contar essa verdade. Ele ainda não existe. Nós o estamos construindo agora, em cada escolha e em cada plano. O que mais posso querer, se não que "o mundo", essa entidade maluquinha, acerte nas escolhas? É meu maior desejo. E que cada passinho seu na construção desse futuro seja dado com o tal lote de aniversário.  

15 anos é uma data bacana. Sua voz tá engraçada, há um bigode a caminho, você não me deixa cortar seu cabelo (sábia decisão) e, caraca, como você cresceu. Já imaginou a alegria com que a gente vai comemorar de novo depois? Com a campainha tocando? E a gente dizendo "pode entrar"?! Aguardem-nos. Né? ;-)

Até lá, a gente segue assim: não me canso de olhar pra você, seu lindo. No ano passado, escrevi aqui: "Espalhe-se." Bem, não dá muito pra se espalhar agora, mas eu topo te ajudar a esperar.  

Te amo muito, filhão. Feliz aniversário, meu amor.   





Na versão Arthur 15 anos, você faz bolo. Curti.


Você num distante dezembro, quando a gente ainda podia sair de casa. :-)

Agora larga o telefone e vai tomar sol no quintal. 

A borboleta que vem pela janela


"(...)sabão de lavar a alma,
alvejante de coração,
o chá de manter a calma,
o shampoo anti-depressão.

leites de longa vida,
balinhas de erudição,
spray de curar ferida,
azeite, disposição.(...)

A lista de versos do Paulo Cândido cai bem em qualquer quarentena. 

Eu soube do livro A canção da borboleta ausente quando ele ainda estava no prelo; o mundo já estava louco, mas ainda não tão perplexo quanto agora. E no meio dessa perplexidade, foi muito bom tê-lo enfim em minhas mãos. Foi um respiro, um saltinho na leveza. E uma descoberta das mais bacanas: aquele amigo de coração bom, das colocações certeiras e de uma cultura admirável é, também, olha só, um poeta. Não deveria ser surpresa, tamanha sua facilidade de modelar com palavras as conversas mais ricas, mas a poesia é terreno para poucos ousados. Então vibro com minha descoberta: nunca o mundo precisou tanto da poesia, visto que ela nos lembra que somos mais, muito mais. 

A canção da borboleta ausente é um projeto da Drops Editora e tem ilustrações da Fal Azevedo. Tem também prefácio da borboleta-mor, Luciana Nepomuceno. É uma janela da ar puro -- e não é hora de escancarar as janelas? E não se enganem com o título, o voo está lá.




Florzinha


Tia Mariazinha (assim, no diminutivo), a caçula na família de meu pai. A mais baixinha, a  Mariazinha. A mais engraçada, sempre. "Tia não, prima!" Tá bom. Prima. Mas eu me esquecia e chamava Tia. O aniversário pertinho do da minha mãe; nem sempre eu ligava, mas sempre me lembrava. O sobrenome da família do meu pai é Flor. Então, vejam: Mariazinha Flor. Cabe em quantas histórias?

Tenho essa foto muito linda: eu, minha mãe, três tias, uma prima, mulherada. Estou em pé no canto direito da foto entre minha mãe e minha Tia Tereza. Minha Tia Tereza é aquela da voz. Sabe a voz que a gente traz na memória desde a infância? Adoro a voz dela. Na foto, Tia Tereza tem aquele mesmo sorriso, sabe? Bem aquele antes de dizer "e num é, menina? Besteira!" No outro extremo esquerdo, está Tia Sebastiana, mais séria, né? Claro. Sei. [pisc pisc] Ao lado dela, minha prima Ângela, com carinha de adolescente ainda, nem sonhava em ser a mãe derretida que é hoje. No centro da foto, a mãe dela, a tal Tia Mariazinha. Adivinha? Rindo de boca aberta, certamente falando alguma asneira ou contando alguma piada da qual a gente se acabou de rir depois da foto. Aposto. Está toda iluminada, vestida de azul, braço estendido, talvez chamando alguém mais pra foto? Ou só dizendo: "quero sair jovem". 

Mandei essa foto pra Ângela hoje, pra ela guardar esse momento. Ela tem muitos outros, claro; a mãe está em fotos do mês passado com a netinha, na praia, olha a delícia. Hoje estamos tentando dar as mãos umas às outras. Tia Mariazinha se foi. Há um mês, nem sabíamos da doença. Hoje, precisamos abraçar a Ângela e dizer que ela foi uma luz bonita na vida da Tia Mariazinha. Não que ela não saiba, mas a gente fala o amor, sempre. 

Faz tempo que desisti de tentar entender. Eu sinto, observo, vou vivendo. Em dias assim, sinto o amor, a importância dele. 

Não é bonito? Passar por essa vida e deixar gente falando de amor por aí?

Adeus, Tia. Quer dizer, prima. Obrigada pelos abraços todos.  

Born a crime: o Apartheid numa lupa


Durante o Apartheid, o regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, o relacionamento entre pessoas pertencentes a grupos raciais distintos era proibido por lei. A prática era sujeita a pena que incluía anos de prisão. Além de negros e brancos, o governo classificava pessoas como "de cor" e indianos. 

Crianças eram classificadas ao nascer. Se uma mãe negra desse à luz uma criança "de cor" (de pele mais clara devido à miscigenação), ela poderia perder a guarda da criança imediatamente além de ficar sujeita a outras penalidades. 

Curiosamente, uma pessoa "de cor" poderia ter status de branca se isso fosse conveniente para o Estado: se por alguma razão ela fosse classificada como branca, teria direito a empregos reservados aos brancos e a residir nas áreas destinadas a eles (normalmente áreas originalmente ocupadas por população negra expulsa quando o Apartheid foi instituído). Muitas pessoas "de cor" se inscreviam solicitando status de branco. No entanto, esse status  poderia ser revisto a qualquer momento, e a pessoa voltar a estar sujeita às restrições impostas à população não branca. 

Imagine a situação de um casal de homem e mulher "de cor" que gerassem um filho negro. Imagine que esse casal tivesse status de pessoas brancas (morando e trabalhando em área de brancos, com bom emprego e estrutura social razoável). Por serem "brancos", não poderiam criar uma criança negra. Para ficar com o filho ou filha, teriam de optar pelo status de negros. Normalmente, em casos assim, um dos membros do casal optava por permanecer "branco", enquanto o outro renunciava à cobiçada classificação para evitar a perda da guarda da criança. Assim, o casal necessariamente passava a viver na clandestinidade (caso não se separasse de vez), com cada um dos membros habitando uma região diferente da cidade onde morasse, e um dos membros perderia o emprego. 

Uma criança negra não poderia ser vista em público com seu pai branco, o que colocaria em risco a segurança de ambos. Uma mãe negra não poderia circular em segurança com seu filho "de cor", o que poderia chamar a atenção da polícia ou de espiões do regime. "Como pode ter um filho 'de cor'? Quem é o pai?"

"O Apartheid", essa coisa quase abstrata nos livros de história, ganha uma concretude quase insuportável quando leio sobre detalhes assim. Já é horroroso o suficiente imaginar um regime oficial de segregação, mas conhecer alguns meandros do mecanismo do regime evidencia a generosa cota de crueldade da história humana. Entrei curiosa no livro de Trevor Noah Born a crime (Ed. John Murray), e saí dele inevitavelmente comovida - e chocada, claro

Trevor Noah nasceu e passou a primeira infância na África do Sul do Apartheid. Viu o regime cair e presenciou na adolescência as consequências de décadas de segregação e escravidão: os índices absurdos de desemprego, a violência, a criminalidade, o racismo encravado no tecido humano do país. Filho de mãe negra e pai branco, ele foi um crime. Em Born a crime, ele fala dos primeiros anos de sua vida como criança "de cor", da adolescência e do início da vida adulta num país profundamente recortado. Trevor sendo Trevor, Born a crime é salpicado de humor. Trevor sendo Trevor, Born a crime é recheado de boas reflexões. A gente ri do primeiro amor frustrado na escola, mas se cala diante da descrição de algumas fotografias: ele, bebê, no colo de uma mulher "de cor" contratada pela mãe para passear com ele pelo parque, com ela, negra, ao fundo, como quem invade a fotografia. 

Muito do livro gira em torno da mãe de Trevor, uma figura sem dúvida notável. Lendo Born a crime, tentei exercitar algo que o texto de Trevor nos convida a fazer: evitar o julgamento rápido feito a partir de um lugar tão distinto daquele ocupado pelos personagens. Há tanto na conduta da mãe de Trevor que me poderia soar deslocado, surreal. Há outra leitura possível, no entanto, a visão do extraordinário: acordar todos os dias em um mundo que lhe diz que você é menor, indigno, escravo, e fazer de uma rotina assim uma luta que inclui evidenciar também o ridículo do sistema. A mãe de Trevor desafiou o proibido com as armas que tinha. Não é uma história impecável, é uma história incrível, vivida por gente marginalizada que cresceu ouvindo que o mundo não lhe pertencia. Born a crime é um pouco a história de um país, um pouco a história de sermos humanos, um pouco o retrato de como podemos ser feios. Ou lindos, ainda que em nossa imperfeição inevitável. Muito depende de que luta apoiamos.

***

(Dizem por aí que Lupita Nyong'o será a mãe de Trevor na adaptação cinematográfica de Born a crime. Esperemos.) 


Occupy life


"Meu imperativo talvez fosse outro, embora impossível: 
me fazer praça, me fazer rua, me fazer prédio vazio, 
e que enfim me ocupasse o incontível da vida."

***

Um escritor que visita um antigo hotel abandonado convertido em ocupação por imigrantes sem teto, refugiados, despejados; e que se dispõe a ouvir as histórias desses ocupantes temporários. A história perdida de cada um, os bombardeios, as fugas (internas ou não). Ao mesmo tempo, no universo quase etéreo da vida privada, a gravidez da esposa, a enfermidade do velho pai. Um homem que tenta enxergar o coletivo que a todo momento lhe escapa enquanto também tenta tomar as rédeas de suas próprias peregrinações pessoais. Pessoas em ruínas, relacionamentos em pedaços, memórias que desmoronam. E os afetos, a vontade de enxergar, a tentativa nem sempre feliz de superar os escombros; a ocupação do peito, dos sentidos, da cidade. 

Comecei por aí meu ano de leituras. Cercada dos barulhos do início do ano, comecei devagar. Mas hoje, no meio da praia invadida por banhistas e turistas de todos os sotaques, encontrei meu silêncio e olhei com a atenção devida para esse livro breve e valioso. Julián Fuks, mais uma vez, se mostrou excelente companhia. 
 
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