Dos infinitos



Esta semana a comunidade científica ao redor do mundo se despediu de Cassini, a sonda que visitou Saturno e que nos presenteou com imagens incríveis do planeta dos anéis - e do espaço ao redor, suas luas e até de nossa própria casa vista de tão longe. Quando comentei sobre o fim da missão de Cassini e de seu mergulho na órbita do planeta imenso, você se lembrou da data - que havíamos associado à proximidade de seu aniversário: "é, vai ser dia 15!". Nos últimos meses olhamos juntas algumas imagens enviadas pela sonda, e seu encantamento é uma das coisas de que gosto muito em nossas conversas, a certeza de que você enxerga a mesma beleza que me maravilha toda vez. Compartilhamos o mesmo deslumbramento diante da possibilidade concreta de esticarmos nossa visão até as esquinas mais distantes do nosso sistema solar, olhar longe no nosso universo sem fim. Você acha incrível, e esses olhares distantes inspiram seus desejos de menina curiosa que quer ser astronauta.

Saturno, seus anéis e a casa da Amanda (imagem compartilhada por Neil deGrasse Tyson no Twitter).



Você sabe que pode mudar de ideia a qualquer momento, e quando fala nas outras possibilidades - chef de cozinha, veterinária, cientista num laboratório cheio de microscópios e tubos de ensaio - eu acho bonita sua percepção de que a vida está apenas começando e de que é um privilégio imenso poder alimentar sonhos tão legais.



Mas eu queria dizer outra coisa. 

Queria dizer de novo que não importa que caminho você siga em suas escolhas futuras, você é você. O que define Amanda não é a profissão que um dia escolherá, mas a pessoa que você está construindo a cada dia, o coração que você está alimentando cada vez que escolhe a verdade, o carinho, a gentileza. E hoje, em seu aniversário de dez anos, eu queria dizer que estou muito feliz com o que vejo acontecer com você a cada dia. É uma alegria imensa poder ver suas pequenas e grandes conquistas, seu aprendizado nem sempre fácil de como fazer a escolha mais justa. Este tem sido um ano de desafios novos, nova escola, nova forma de lidar com experiências coletivas - e testemunhar suas dúvidas, seus tropeços, seus momentos mais difíceis me ajudou a ver sua força, sua vontade de crescer e aprender, mesmo que isso às vezes signifique mudar de ideia - algo dificílimo até para adultos! E como uma verdadeira cientista, você tem parado, pensado, mudado, experimentado diferente. E nos enche de orgulho.



O que desejamos para você hoje, meu amor, é que sua infância continue sendo essa aventura deliciosa que você constrói a cada pedalada, a cada descoberta, a cada cupcake devorado com gosto, a cada pirueta descabelada. Que você siga com esse entusiasmo incrível que nos contagia e que sua risada continue ecoando por aí como os sinais que Cassini nos enviou lá das bandas de Saturno. Assim como o tempo de Cassini, o tempo da infância também vai passar; mas assim como as imagens que chegaram de Saturno vão para sempre alimentar a Ciência, também suas risadas ficarão para sempre em nossas vidas - que sua alegria, minha linda, é nossa estrelinha mais brilhante. 

Te amamos muito.
Rita, Ulisses, Arthur.

O garoto e o rio


Podemos dizer que foi o acampamento dos planos furados. Durante dias a amiga pesquisou as opções disponíveis, queria conhecer outros campings, o que é sempre bom. Na véspera, eleição: fui voto solitário vencido, só eu queria ir para nosso velho conhecido acampamento do saci. Na manhã da quinta empacotamos as tralhas e seguimos rumo a um camping diferentão; uma vez lá, hesitamos. A praia linda coladinha à parte mais baixa da área era bem tentadora, porém o espaço total para os quatro dias era bem menor do que o outro camping - que já nos acostumou mal. As crianças se preocuparam com o pouco espaço disponível para os infinitos passeios de bike. A beleza da praia acabou perdendo para o tamanho total do lugar. Quem já estava lá ligou pra quem estava na estrada, que falou com quem ainda não havia saído de casa. Por fim, mudamos a rota e tomamos o rumo do velho acampamento do saci. Mais tarde descobirmos que fizemos mesmo a melhor escolha: ventou muito forte durante praticamente todo o tempo, teríamos comido areia na beira da praia bonita.


Tentação.

Pois bem, uma vez instalados, comemos (não areia, outras coisinhas). E rimos. É verdade que bebemos. Não nego que gargalhamos. Dizem que gostamos. Alguns pescaram, outros roncaram, uns colheram ameixas. Um acampamento inteirinho sem chuva é um luxo absurdo, quem acampa sabe. A lua veio, mas o vento fez com que a luneta permanecesse no carro, pena. Assim que o sol se escondia, o calorzinho do dia era logo substituído por um frio que pedia casaco e abrigo. A cada noite, as crianças invadiam e dominavam barracas enquanto os adultos criavam raízes na churrasqueira. Os bambus conversaram e cantaram como nunca, a sacizada estava em festa.

Observem a barraca estrategicamente montada para aproveitar o pórtico natural com colunas em estilo greco-saci-romanas.


A mansão da minha vizinha.

Minha residência guerreira; depois de dez acampadas, está como nova, pronta para mais dez.

Arthur levou Miss Marple para acampar. 
 
Foram necessários muitos acampamentos, mas agora finalmente temos violão. Como nenhum adulto se habilitou, restou à outra geração assumir a missão. Então teve musiquinha no spotify, mas também teve criançada no violão ou no ukulele. Vocês perderam.
 
Unidos do barulho.


"you can count on me 'cause I can count on you... uuuu...uuuu..."

"my shallow heart is the only thing that's beating..."

De certa forma este foi o acampamento do Arthur: pescou com tarrafa pela primeira vez, e foi tanta a alegria que imagino anos pela frente de conversas de pescador. 


Professor e aluno.
E não era só na pescaria: quando o amigo chegou com arco e flecha, não deu pra ninguém: Arthur Robin HoodZuuumm, na mosca. Eu vejo a adolescência chegando e temo pelo dia em que ele dirá "credo, acampar de novo??!". Vou guardar esse receio na gaveta, por enquanto. A julgar por esse último acampamento, ele será o primeiro a vigiar o calendário em busca de feriados - e partirá feliz, numa mão a tarrafa que ganhou como prêmio pelos dois primeiros peixes, na outra o violão, gritando "oba, acamps!".

Arthur Hood

O arco maior que a arqueira. 

Só não acertei o alvo porque o cabelo atrapalhou, cof cof...

Eventos clássicos se repetiram - a comitiva do sorvete seguiu de bike pelo centro da cidadezinha que sedia o camping;  crianças caíram, mosquitos picaram (bem menos, o vento os espantou), a lona que cobre a área comum entre as barracas se rasgou com o vento, alguém levou macarrão demais, o ovo acabou, a taça de plástico virou e a bebida se perdeu na areia, os dedos, senhor, os dedos ficaram pretos e a sujeirada das unhas nunca mais vai sair; a lua nos visitou, o pôr do sol vermelho acenou por trás das árvores, o rio se mostrou lindo nas primeiras horas da manhã, as coisas sumiram e reapareceram na bagunça; depois de guardar tudo de volta no carro, nós nos despedimos na tarde de domingo nos perguntando quando será o próximo - como fazemos toda vez, toda vez, toda vez.

Rolou tarefa escolar: documentário sobre acampamentos. 

Rolou musiquinha antes da canastra.




Meu parceiro de barraquices e macaquices.





***


De reencontros



"Que se há de fazer com a verdade 
de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só."

Releio pouco. É verdade que às vezes volto a trechos de livros e repasso capítulos inteiros, embalada por lembranças de leitura anterior. Também releio contos o tempo todo, procuro aquela passagem resgatada por um outro texto - para ver se é mesmo do jeito que me lembro. E releio para escrever, buscando na prosa dos grandes o conforto que a literatura me dá, procurando as lanternas. Se uma conversa ou leitura qualquer me deixa com saudades de um personagem antigo, vou lá bater um papo, procurar aquele diálogo memorável ou rever um final que me tirou o chão. Reler romances na íntegra, porém, é prática rara para mim. O que não me impede de saber bem quais eu traria de volta ao colo em caso de namoro reatado. De vez em quando volto ao Grande Sertão de Rosa, buscando passagens que marquei em minha primeira leitura, mas sei que nunca é muito. Haverá uma segunda e talvez terceira leitura integral, certamente. Até porque. Né? Releio Marquez aos pedaços também, só pra matar saudades. Releio as meninas de Lygia, só por amor. Releio Shakespeare para que fique. Releio as façanhas de Poirot para trocar figurinhas com o filho que descobriu Agatha. Pego carona nas leituras de outros e vou à estante revisitar personagens que se tornaram amigos de meus amigos, quase uma balada. 

Quando li A hora da estrela pela primeira vez, havia lido pouco Clarice Lispector. Estava
descobrindo seus contos, conhecia um ou dois outros romances da autora (talvez?). O livro ficou em minha memória como uma história curta em texto múltiplo, cheio de pistas. Eu sabia ou intuía que havia mais, que a aparente leveza daquele livrinho encerrava em si outro peso. E não é que eu já não estivesse encantada: porque eu estava. A hora da estrela foi desde o início um livro de amor: quero essa autora na minha vida, quero essa visão de mundo, como pode essa perspicácia, de onde vem esse olhar, meu deus?  Depois voltei aos contos, minha porta de entrada e morada mais quentinha na escrita de Clarice, devorei quantos pude, li outros romances, e nunca voltei ao livrinho que amei. Macabéa assumiu em minha cabeça os trejeitos da personagem de Marcélia Cartaxo na versão cinematográfica; guardei-a em minha caixinha de personagens inesquecíveis, estrela. Agora sucumbi aos encantos da "edição com manuscritos e ensaios inéditos" lançada pela Ed. Rocco para comemorar o aniversário de quarenta anos do livro. 

Foi, como desconfiava que seria, um reencontro cheio de carinho. Reconheci a Macabéa de anos atrás, mas creio que agora a vejo maior (ou seja, ainda mais miúda). Redescobri o narrador e seu jogo (incrível - quero evitar os adjetivos, mas me perdoem) de construção de vida-palavras. A hora da estrela, com suas parcas páginas, pequeno como sua protagonista, é um livro imenso, um livro do mundo. Reler essa história agora me deixou curiosa: que outros reencontros estou perdendo? Por que demorei tanto para voltar? Sem dramas, porém. Sinto-me, na verdade, feliz, daquela alegria que os bons reencontros nos trazem. A hora da estrela é como uma amiga antiga, que conhece nossos piores segredos e por isso nos ama mais, reconhece nossa humanidade, vê o que temos de espelho e o respeita. A hora da estrela é para releituras e lágrimas silenciosas. É para vermos na vidinha crua de Macabéa e no olhar de seu narrador o poder da linguagem. Há livros que com maestria (quase) desnudam as engrenagens da construção do mundo pela linguagem. A hora da estrela é um deles. E é um encanto. Não é um livro mágico, mas um que se propõe a revelar a magia: a palavra é nossa estrada e a matéria mesma de nossos tijolos. 

A vontade é gritar: leiam. Mas prefiro torcer quieta pelos encontros de amor. Talvez seja preciso que A hora da estrela seja (re)lido com carinho e só um pouco de atenção, voluntariamente. Talvez até com alguma distração, por gente desarmada e com a mente aberta. Vou deixar meu exemplar meio deslocado na baguncinha da estante, para que caia em meu colo de vez em quando. Porque a rotina nos distrai e há tanto para ver. "(...) a rotina me afasta de minhas possíveis novidades" e talvez haja muitas a cada releitura. Então vou deixá-lo ali, com a lombada projetada para fora, para que caia e junte pó e eu precise limpar, e ao limpar eu reabra e me sente na poltrona já velha, e me esqueça da água do macarrão no fogo e me lembre de novo do amor, do narrador, de Macabéa, da linguagem que nos faz.

*

"Ele falava coisas grandes mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes como ela própria. Assim registrou um portão enferrujado, retorcido, rangente e descascado que abria o caminho para uma série de casinhas iguais de vila. Vira isso do ônibus. A vila além do número 106 tinha uma plaqueta onde estava escrito o nome das casas. Chamava-se “Nascer do Sol”. Bonito o nome que também augurava coisas boas." 

*

(O objeto livro é lindo - A hora da estrela, Clarice Lispector - edição com manuscritos e ensaios inéditos, Ed. Rocco: a reprodução dos manuscritos rabiscados, corrigidos com anotações sobrepostas numa caligrafia que beira o indecifrável, são um charme à parte. Trechos escritos em versos de envelopes usados, em papéis rasgados e arrancados sabe-se lá de onde, dão pistas da construção de um romance escrito no calor da avalanche de ideias, poucos meses antes da morte da autora. E há os ensaios sobre o livro: alguns pretensiosos, outros honestos e suaves, declarações de bem-querer. Não sei se ela gostaria que fuçássemos seus escritos rascunhados, mas aí estão, pequenas vitrines do processo criativo de Clarice. Pedi licença e olhei.)


Philip, Olga & Alice


Tenho uma amiga para quem a literatura é a maior forma de expressão artística, pelo poder que os livros têm de levá-la a experimentar emoções, tempos e lugares além da realidade. Não sei se eu classificaria a literatura como "a mais" entre as artes, mas é certo que compartilho dessa sensação de alargamento de mundo proporcionada pelos livros. E se não carimbo o rótulo de "a mais" é porque sei que música, pintura e dança, por exemplo, não raro me arrancam do solo e também me lançam num furacão rumo a um reino de Oz distante e diverso. Seja como for, vamos aos fatos: nas últimas semanas, Maugham, Ferrante e Rezende me transportaram da Europa do século XIX à Porto Alegre atual, passando pela Turim de Olga, mais uma das mulheres de Ferrante que se mudaram para meu imaginário. E em cada vez que virei a última página e bati meus sapatinhos, experimentei a sensação inegável de ser uma Dorothy um tiquinho transformada, again and again. É mesmo poderosa essa tal literatura. Vai ver minha amiga genial tem razão.

***

Foi a amiga para quem a literatura é o furacão-mor que me emprestou Servidão Humana (Somerset Maugham, Ed. Abril Cultural, trad. Antônio Barata). Um exemplar velhinho de páginas grossas e amareladas, capa dura das séries de clássicos que colecionávamos nos anos 80/90, quem nunca? Levei comigo em viagem de férias e muitas horas de aeroporto - obrigada, Avianca. Foi uma boa estratégia: diante de tanta desventura na vida do inglês Philip, como reclamar de pane em aeronave no solo, não é mesmo? Fui lendo e quase comemorando cada partida atrasada. Servidão Humana é uma coleção de intempéries experimentada em cada fase da vida do órfão Philip. Nascido com uma deformidade física no pé, Philip foi criado sem muito afeto por um tio vigário, num longínquo vilarejo de Kent, encerrado numa rotina circunscrita por valores religiosos e hipócritas, atormentado pelas chacotas no colégio. O alívio acena na esquina quando o jovem descobre o universo infinito dos livros e das perguntas, e, rompendo com o roteiro que lhe fora determinado, troca o início dos estudos superiores pela aventura sempre excitante de conhecer outros mundos. Porém pobre do leitor que acreditar no alívio - que às vezes não passa de certo tom humorístico e sarcástico com que Maugham nos convida a rir das desgraças. O fato é que livrar-se das amarras do medo do fogo eterno não impediu Philip de dar tropeços homéricos. O mote de sua vida bem poderia ser: pode dar errado? vai dar. Confesso que a partir de certa altura comecei a me irritar com tanta escolha equivocada. Nas passagens pela Alemanha e França, em suas duras tentativas de se descobrir um artista de talento, ainda mantive a empatia em alto nível - até porque é fácil torcer por pessoa tão generosa. No entanto, uma vez de volta à Inglaterra, a sucessão de péssimas escolhas quase me fez gritar com ele, meu, please! Mas sou injusta: é nos anos passados em Londres que o título se mostra e se justifica (o original inglês é Of Human Bondage). E talvez aí esteja um dos pontos fortes da história: o reflexo na vida adulta de uma criação carente de afeto, e a quase previsível entrega a relações destrutivas, como vemos acontecer a partir do momento em que Mildred entra em cena. E se determinados traços do protagonista não me arrebataram (o papel da deformidade física, ora central, ora completamente esquecida, por exemplo), vi na fragilidade emocional do homem servo de suas paixões toda a tristeza do menino que ele carregava dentro de si - e muitas vezes dei-lhe colo. E a vida não é bem isso? A criança que fomos segue berrando dentro da gente, puxando teimosa nossa mão, queiramos ou não. É preciso paciência.

***

Da melancolia pontuada com certo "humor triste" de Maugham à crueza da narrativa de Ferrante. Dias de abandono (Ed. Biblioteca Azul, trad. Francesca Cricelli) carece de frestinhas de alegria. Desde a primeira linha, quando somos, sem preâmbulos, informados de que o marido de Olga resolveu comunicar o fim do casamento de 15 anos, até o final (com um bem vindo afago no leitor), assistimos à luta de Olga para remontar o quebra-cabeças de seu cotidiano - e de seu equilíbrio psíquico e emocional. A rotina não tem freios: dois filhos em idade escolar, as urgências das tarefas domésticas, a infestação de formigas pela casa, as caminhadas com o cachorro abandonado pelo dono - não há trégua para que Olga pare, respire, enfrente o estado atual de sua vida com dor, sim, mas com sapiência. O enfrentamento será, logo percebemos, em meio à confusão emocional profunda e urgente que atropela e domina a psique da personagem. À beira do precipício, Olga vê sua consciência dançando perigosamente enquanto os filhos adoecem, o cachorro se intoxica, o apartamento é invadido, os amigos somem. Permeando tudo, a linguagem certa e afiada de Ferrante, o tom que salta das páginas e nos sufoca também. Queremos o antídoto, queremos o alívio, o sossego. Respiramos ofegantes e seguimos, como quem tem fé: existe o vizinho, o parque, o médico, a sacada, a própria história, o corpo forte - onde fica a saída? Ferrante nos mostra, mas não sem antes exibir o poder de sua escrita clara, nítida, forte, veloz. Uma linguagem que contém em si o motor do enredo, um título que se revela múltiplo. Publicado originalmente nove anos antes da tetralogia admirável iniciada com A amiga genial, Dias de abandono tem a mesma força, condensada num vertiginoso mergulho nas entranhas de mais uma marcante personagem feminina. Grazie mille, ragazza!


***

Se Olga conhecesse Alice, protagonista de Quarenta dias (Maria Valéria Rezende, Ed. Alfaguara), as duas certamente teriam muitas figurinhas para trocar. De abandono elas entendem. Mas talvez as semelhanças parem aí. A Olga de Ferrante tenta recuperar seu equilíbrio colando cacos: a busca é por reencontro - de si mesma, de significados conhecidos, de conforto emocional. Alice, por sua vez, rompe, foge, busca no estranhamento de encontros antes impensados construir um novo sentido que tenha o poder de cicatrizar seus próprios abandonos. Professora aposentada, Alice é convidada pela filha, casada com um gaúcho, a se mudar de João Pessoa para Porto Alegre para que ela, a filha, possa engravidar. A ideia seria poder contar com a avó da criança por perto, e assim aliviar o peso da nova rotina que chega com o primeiro filho. Acontece que Alice não gosta da ideia, gosta de viver em João Pessoa. Lá tem seu mundo, seus amigos, o contato com o mar, sua vida simples de professora aposentada. Diante da recusa inicial, o convite se transforma em insistência, forma-se uma rede de amigos que de repente acham a ideia excelente, os preparativos são feitos, Alice é vencida. Segue para Porto Alegre ressentida, sentindo que foi arrancada da vida que escolheu e construiu para que a filha pudesse fazer a sua a seu modo. Pouco depois da chegada a Porto Alegre, novos rumos se apresentam para a filha, e Alice, tal qual temia, depara-se com o vazio. No apartamento novo, mobiliado pela filha, no qual não reconhece qualquer traço de sua história, Alice se isola no estranhamento de móveis e objetos que não são seus de verdade, ignora telefone e interfone, simula uma viagem. Uma semana depois, sem conhecidos na cidade, sem qualquer tarefa que se imponha em sua nova vida oca, Alice sai. E o que busca em sua saída não tem relação aparente com seus próprios problemas - vai em busca de notícias do filho de uma amiga paraibana, que sumira na periferia de Porto Alegre sem deixar rastros. Alice sabe quase nada: um nome, a profissão do moço, o bairro onde morava quando deixou de dar notícias para a mãe. E como sabe quase nada do rumo que precisará dar à sua própria história, entrega-se à história do Outro e através dela enfrenta sua solidão, enquanto aprofunda seu olhar sobre a cidade, seus moradores mais humildes, os esquecidos dos viadutos e praças, o feio, o sujo, o invisível. Quarenta dias cresce. A narrativa que se inicia em torno do conflito pessoal de Alice ganha contornos cada vez mais amplos na medida em que a protagonista descobre, em sua peregrinação de quarenta dias pela periferia de Porto Alegre, o mundo escondido dos moradores de rua, dos imigrantes, dos muitos que, como ela, desaparecem. A cada encontro, um misto de descobrimento e reconhecimento, evidenciando o humano que une todos nós.

Ao registrar sua aventura, Alice se dirige à boneca Barbie que ilustra a capa do caderno em que escreve. Barbie é a interlocutora muda, silenciosa, sempre jovem, sem coração ou saudades, um contraponto à urgência da protagonista em narrar para não se perder de vez. O caderno da Barbie também somos nós, leitores, que a tudo lemos, curiosos, recebendo pacientes os relatos de cada nova descoberta nas andanças de Alice. A cada esquina, praça ou ladeira da periferia porto-alegrense, uma nova toca de coelho, a corrida, a percepção alterada de nosso tamanho diante do mundo, num diálogo com a Alice de Carroll que permeia toda a narrativa. O sotaque paraibano da protagonista (Rezende, paulista, vive na Paraíba há muitos anos) ecoou em minha cabeça durante toda a leitura. Alice traz em sua voz regionalismos paraibanos inconfundíveis, um ritmo típico na escrita que a todo momento nos remete ao ritmo e jeito da fala paraibana, um elemento de riqueza a mais nesse livro precioso. Imagino o cenho franzido do leitor não familiarizado com algumas expressões, pequenas chances de conhecer variações outras de nossa múltipla fala brasileira; quanto a mim, sorrisos de reconhecimento. O final um tanto brusco me surpreendeu, acho que eu queria mais andanças, outras tocas e chapeleiros. Quem sabe não virá. Alice fecha o caderno, mas cogita reabri-lo depois para passar tudo a limpo. Quem sabe. 


Do que enche o coração


A poucos dias de embarcar em nossa curta viagem de férias pelo Nordeste ficamos, as crianças e eu, doentes. Garganta, nariz, ouvido, cada um teve seu perrengue particular em maior ou menor grau de incômodo e encheção de saco. Na véspera da partida, Arthur foi diagnosticado com otite aguda e entrou no famigerado antibiótico; Amanda tossia como nunca; eu alternava antibióticos com anti-inflamatório. Embarcamos sob a expectativa de um tímpano estourado durante o voo - o que não aconteceu, ufa; a necessaire de remédios era a mais gordinha da mala. Mesmo assim, fomos. Trocamos o frio do Sul pelo "inverno" nordestino. Os remédios fizeram sua parte, a vontade de curtir fez a sua; o ouvido se recuperou, a tosse passou, minha voz voltou ao normal. Fomos ver o casamento de meu cunhado, rever parentes, matar saudades, morrer de comer. Foi bom, aconchegante como receber colo. Foi emocionante, também - e bem quentinho. 

A Avianca contribuiu no quesito resistência. Como nosso maior temor era o tímpano do Arthur, que acabou se comportando lindamente, nem reclamamos tanto assim. Mas é verdade que nossa paciência foi testada: sete horas de espera na conexão, uma madrugada no saguão do Galeão. Já tínhamos ouvido o "tripulação, portas em automático", mas era de mentirinha. Com problemas na aeronave, tivemos de desembarcar e amargar um longo chá de cadeira. Deveríamos chegar em João Pessoa por volta da meia-noite, chegamos na manhã seguinte. Exaustos, descansamos o que deu e fomos nos preparar para a festa. Viva as férias.

***

Nos dias que se seguiram nos cercamos de sol, mar e carinho. Não satisfeitos em brindar o casamento Dudu&Dani, metemos a mão na festa: Arthur entregou as alianças aos noivos, Amanda sacou seu ukulele e cantou uma musiquinha pra eles. O noivo mais feliz do pedaço cantou e dançou todas, a noiva mais poderosa era só sorrisos. Festa é bom. Festa que celebra a alegria de quem a gente gosta é o bicho. Foi lindinho demais.
 
Os lindos, felizes.

Soltou a voz e os dedinhos - rolou até "contrato" com o noivo, cof cof. 
O pajem mais lindo.

***
E os dias foram de lenta preguiça.





Nossa trilha mais legal.




Primo mais legal não há.
  
Quando os pescadores retiravam as redes, as crianças salvavam os peixinhos pequenos demais para a pescaria,
devolviam os coitados assustados para o mar. O cachorro da foto ajudava a retirada da rede, latindo sem parar. 


***
Se João Pessoa foi de festa e praia, o interior testou meu coração. Sempre que volto à casa de minha mãe, ouço sua voz. Dessa vez não foi diferente. Antes de chegar lá, busquei meu sobrinho para passar o dia com meus filhos. E chegar lá com os três netos que ela receberia com o coração em festa foi um silêncio enorme. Eles invadiram a casa tal qual ela adoraria ver e no primeiro minuto já corriam entre o quintal, o jardim, a sala. Faziam muito barulho, certamente, mas o que eu ouvia não estava ali. Levei flores amarelas para seu túmulo, toquei mais uma vez os espaços que foram dela, os lugares em que ela me amou. Muita coisa passa, mas há tanto que ela deixou. A cidade inteira se parece com ela. 

Na cozinha me esperavam abraços valiosos e uma panela de canjica que mexi como nos velhos tempos - com ajuda, ainda bem, haja braço. Comi toda a canjica desse mundo, inclusive raspei a panela com as crianças, melhor ritual ever. Foram dois dias de comfort food para aquecer qualquer coração - galinha caipira, arroz com o molho da galinha, o mamão mais doce, carne de sol, feijão de corda, a bolacha da infância - e muuuita canjica, já falei? Parecia comida, mas era colo. Nem sei agradecer.

***

Tenho uma tia muito querida cuja voz é uma das boas lembranças de minha infância. Não sei explicar o lance da voz - eu gostava do timbre, do tom. Seu abraço era bom, fofinho e com vontade, e em sua cozinha havia o café sempre quentinho acompanhado de tapioca fofinha como o abraço. A frente de sua casa tinha um jardim comprido que eu cruzava correndo sempre que chegava lá. Há mais de dez anos o Alzheimer nos tirou seu abraço e sua conversa suave intercalada por risadas contagiantes. Minha prima gata e sabida cuida dessa minha tia tão querida desde então. Eu não as visitava há anos, que desperdício. Quando cheguei lá agora fui recebida com o mesmo café e a mesma tapioca fofíssima - minha prima, além de gata e sabida, é um doce. E pude ver minha tia. Que me reconheceu imediatamente: É Rita? Se a Avianca tivesse me deixado no aeroporto por outras sete horas, tudo teria valido a pena. Em algum lugar da memória da Tia Tereza eu ainda corro por aquele jardim e ainda peço outro café. Obrigada, prima, obrigada demais. 

***

O voo da volta foi tranquilo e pontual, e pude quase acabar a leitura de Servidão Humana. A jornada de Phillip parece enfim se encaminhar para dias menos duros. Quanto à minha, sigo comemorando tanta sorte: para onde olho, no tempo e no espaço, vejo um caminho bom. Até as pedras, se eu olhar bem, trazem luz e cor. ;-) 





A lista sem fim


Tenho um arquivo já velhinho em meu computador com uma lista de livros que pretendo ler. A lista mais cresce do que encolhe, naturalmente, são sempre tantas as obras que gostaria de conhecer, muito mais do que consigo dar conta. Incluo dicas que vejo em todo lugar, seja numa resenha publicada por ocasião de mais um lançamento, em posts de amigos nas redes sociais, nas referências que surgem dentro de outras obras. Por vezes paquero um livro na livraria, adio a compra, ponho na lista. De vez em quando surgem memes sobre dicas de leitura, minha lista ganha mais umas linhas. E assim vai. A ideia é poder consultar o arquivo naqueles dias em que decido acessar a Estante Virtual, ou aproveitar alguma semana de promoção das livrarias virtuais. 

Sempre que abro o arquivo para incluir algum título passo os olhos e vejo que, opa, esse já li no mês passado, retiro o título de lá. O último que risquei morava no rol de vontades há algum tempo, Um defeito de cor. Li o livro de fôlego da Ana Maria Gonçalves há algumas semanas, risquei da lista (como já comentei com amigos no Face, gostei e aprendi muito, apesar de lamentar algumas passagens que considero prolixas demais, extensas demais). Vale muito a leitura, uma obra que resgata tanto da pluralidade de culturas e sotaques das populações negras trazidas para o Brasil como escravos por tanto tempo. 

Passando os olhos por outros títulos em minha lista nesta semana, vi que o livro que estava lendo naquele momento também estava anotadinho ali, num trecho antigo contendo títulos sugeridos depois de um bate-papo no Face. Era O conto da aia. Fiquei pensando no quanto adiei a leitura, ainda que lesse sobre Margaret Atwood aqui e ali e sempre ficasse curiosa. Fui enfim engolida pela adaptação para a TV, assisti a série com o coração na mão, encomendei o livro (esgotado nas livrarias onde procurei, encontrei na Estante Virtual - Ed. Rocco, tradução de Ana Deiró) - e agora posso curtir/sofrer junto. Finalmente vou riscar de meu arquivo esse livro tão inquietante. Por causa da série e das loucuras políticas da atualidade mundo afora, muito tem sido dito sobre a obra, vocês nem devem mais aguentar falar no assunto. De tudo que ela retrata, o mais louco para mim é saber que nada ali foi exatamente inventado. Gostei muito da série, recomendo enfaticamente (se ainda não viu, corra). Dos medos que tenho, um dos mais inquietantes é o medo do fanatismo religioso; talvez por isso a história tenha  me tocado bastante. 

Ter visto a série antes em nada comprometeu o prazer da leitura - pelo contrário, adorei ter a figura da Elizabeth Moss em minha cabeça enquanto avançava pela narrativa em primeira pessoa. Moss é uma atriz incrível e adorei vê-la (e, de certa forma, lê-la) na pele de Offred, a protagonista dessa história tão perturbadora. Mal posso esperar pela segunda temporada, mesmo sabendo que seguirá livre do livro, já que praticamente toda a história criada por Atwood já foi retratada na primeira temporada da série. Queria dizer que deveria ter lido há mais tempo, mas a culpa é da lista - e dos outros que nem chegam a entrar nela (já estou lendo Ferrante outra vez, me aguentem).

O dia daquela


Hoje é o dia daquela que teria orgulho de ver como eu recomendo bem aos meus filhos que sempre levem o casaco. Claro que ela não iria perder a piada e diria "quem te viu, quem te vê". Faria 77 anos e acho que seria linda, miúda, cabeça branquinha, aquele olhar. Quando penso nela "como seria", abandono um pouco as lembranças dos limites impostos pela saúde frágil e penso mais nas nossas piadas particulares.
Ela também diria "que dia você chega?", que era sempre uma pergunta cheia de amor.
Hoje é seu dia. Ainda é, sempre será. Saudades, mãe.

***

(pequeno post publicado no face que agora trago pra cá, para que fique guardado nesse baú azul de minhas lembranças.)
 
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