Big little things


O marcador deste post é #vidinha, a tag com que rotulo os posts que falam de miudezas. Mas deveria ser #vidão, já que na verdade é nos cantinhos da casa, das letras, das conversas onde normalmente encontro os maiores sentidos, onde cabem todos os aumentativos.

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Meu vaso mais valioso: pintado pelo Arthur, aos dois anos.

Um vaso que não combina com nada e que, por isso, cada dia está num lugar diferente. Vai ganhar flores pequeninas em breve, prometo. 

A estante da Amanda, onde eu poderia morar. Observem como a corujinha se esforça para recolher a sujeira que a planta espalhou.

Um outro canto da mesma estante. O livro de origamis é o queridinho do momento. Há sapos de papel pela casa.

Um filtro de pesadelos, segundo ela me contou.


No quarto do Arthur, o Spiderman aguarda o salto do Peter Pan. Faz tempo.

Uma outra versão de Peter Pan, mas essa cresceu. Restam fragmentos de infância no quarto do quase adolescente.

Mulheres que amo e que são luz.
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"Nossos filhos acertarão as contas, como nós, com os pequenos e grandes abalos que irão subverter o que hoje lhes parece estável e definitivo. E aprenderão à própria custa, como nós, que nada, no bem e no mal, nos é dado para sempre e que nossos direitos fundamentais devem ser continuamente reconquistados." - 
Elena Ferrante, em Frantumaglia.

O piano flutuante


Uma segunda-feira que começou com rinite e a correria costumeira. Em algum momento da manhã, uma espiada no Face: o pianista polonês Grzegorz Niemczuk faria um recital às 20h, no auditório da UDESC. O dia seguiu com seus atropelamentos e camuflou a informação no fundo da mente. Uma pequena surpresa aqui, um breve engarrafamento ali, um almoço corrido, mais do mesmo no trabalho. No final do dia, jantar com a tagarelice usual, o dia passado a limpo, uma cozinha arrumada a oito mãos, roupas no varal, mais roupa na máquina, vou tomar banho e... que horas são? 19h40. Putz, o recital. Nem sabíamos se ainda daria tempo, mas resolvemos arriscar. Chegamos ao pequeno auditório da UDESC a cinco minutos do início, havia alguns lugares ainda disponíveis. Ieba!, como diria a Amanda.

Sabíamos que Chopin estava no repertório, mas não esperávamos ouvir algumas de nossas peças favoritas naquele pequeno (e quente) auditório. Foi como um presente. Ulisses ouviu sua valsa favorita, eu poderia ter ido embora depois do segundo noturno e já estaria feliz. Antes de cada peça, Niemczuk, a simpatia em forma de pianista, com o auxílio de um intérprete, apresentava ao público de cerca de cem sortudos o contexto de cada obra, contava um pouco da história de seu conterrâneo mais ilustre. Além de viajarmos em melodias impossíveis, ainda podíamos imaginar o jovem Chopin apaixonado, saudoso de sua terra, doente ou indignado, sempre genial, a partir das anedotas contadas por Niemczuk. Depois do breve silêncio que seguia cada relato, ele se reencontrava com o piano e quando suas mãos começavam a pintura, suspendíamos a respiração. Em certo momento, enquanto executava o terceiro movimento de uma sonata que disse ser sua favorita, parecia flutuar pelo espaço, longe de tudo, quebrando com sei lá que feitiço o silêncio lá de cima. Niemczuk toca com o corpo inteiro, sua interpretação é uma alegria.

Por causa do ruído, o ar condicionado foi desligado. O calor tomou conta da sala pequena e lotada. Nas peças finais, víamos as gotas de suor que saltavam da testa do pianista, a plateia prendia os cabelos, suava em bicas. Algumas cadeiras rangiam e não faltaram os teimosos que insistiam em filmar com seus celulares. Mas eu vou focar no copo meio cheio. Um recital com mais de duas horas de duração que caiu no meu colo, gratuito, com canções do meu compositor favorito executadas com primor - e paixão. Vou reclamar não. (Niemczuk encerrou com duas peças de Liszt pra provar que tem 80 dedos em cada mão. Um deleite.)

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Numa segunda-feira tão banal, quem diria às seis da manhã que ela terminaria com um moço à deriva no espaço com seu piano? Penso numa canção pop do Herbert Viana que fala que a lua merecia a visita não de militares, mas de bailarinos. Merecia o piano de Niemczuk também.

Laços



Um casamento em ruínas, dois filhos, um gato, uma amante; os avessos de um passado revelado em documentos, fotografias e objetos espalhados pelo chão de uma casa invadida e revirada; e um texto fluente para ser lido em único fôlego. Esses são alguns dos elementos de Laços, de Domenico Starnone (Ed. Todavia, tradução de Maurício Santana Dias). É verdade que esse pequeno livro, de pouco mais de 140 páginas, remete os leitores de Elena Ferrante ao enredo de Dias de Abandono, porém com perspectivas adicionais: em Laços lemos as cartas, ouvimos os filhos, os ângulos se multiplicam. Em contrapartida, talvez Laços não tenha a força de Dias de Abandono, seus personagens não se desnudam como a inesquecível Olga; ainda assim, o texto traz a angústia dos que percebem que os papéis que assumimos nos moldam e limitam (inevitavelmente?), e apresenta um desenho da viagem vertiginosa desencadeada por essa percepção. 

Da poesia que ganha vida


"Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota; provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas. E se muitos prêmios alcancei, prêmios fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prêmio maior, um prêmio que muitos desdenham, mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei, através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta de meu povo. Meu prêmio é esse, não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar minhas palavras. Meu prêmio é esse momento grave de minha vida quando no fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada, do socavão a pique subiu um homem como se ascendesse do inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa em suas calosidades e em suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: 'Conhecia-te há muito tempo, irmão'. Esse é o laurel de minha poesia, o agulheiro no pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile têm dito muitas vezes: 'Não estás só; há um poeta que pensa em teu sofrimento'."
Pablo Neruda, 
em Confesso que vivi (Ed. Bertrand Brasil, tradução de Olga Savary)

Eu ia escrever qualquer coisa sobre a biografia de Neruda, cujas últimas páginas foram escritas poucos dias antes de sua morte, ainda no calor do assassinato de Allende, em 1973. Porém reli o texto da Tina e optei por indicá-lo. Está ali uma ótima resenha desse livro cheio de histórias engraçadas e tristes, que narram aventuras e enormes decepções políticas, que fala da utopia e da tragédia diária de nosso mundo - entre casos e anedotas envolvendo grandes personagens da literatura e da política do século XX.  Espiem láNo livro vi o que talvez seja uma descrição honesta de um Neruda que errou e acertou; não é um livro para criar um mito a ser idolatrado, mas para se conhecer um homem e sua história de altos (louváveis) e baixos (alguns indigestos para mim), como é a história de todos nós. (Acima, em destaque, meu trecho favorito.)


Camping gourmet - e mesmo assim gostei, não tenho salvação


Quase pronto.

Um camping cravado no meio de um quarteirão urbano. Em vez de uma entradinha simpática, uma recepção onde se faz o "check-in" e podemos ver os monitores de segurança. Um camping de Lego: bonitinho, quadradinho, arrumadinho, organizadinho, com placas proibindo bicicleta e cachorro. Na hora de escolher o lugar onde armar a barraca, nada de "ao lado do bambuzal", "perto daquela árvore" ou "mais pra lá", mas plataformas numeradas. Pra quem já acampou num lugar onde gatos de rua passeavam por cima da pia da churrasqueira, acampar onde animais de estimação são proibidos seria como acampar num ambiente esterilizado. E antipático. 

Uma das coisas que me fazem gostar de acampar é a sensação de escapada. Por alguns dias, que sempre passam rápido demais, ficam para trás trânsito, relógio, tretas, noticiário deprimente. Nesses dias, os problemas possíveis são mosquitos, nuvens carregadas ou joelho de criança ralado. É como entrar numa cápsula. Ainda que meu camping style (hahaha, me aguentem) não seja nada roots, afinal nunca acampei no meio do mato sem banheiro, nem nunca precisei pescar o almoço, a verdade é que quanto mais verde, melhor; quanto mais longe de construções que me lembrem cidades, melhor. Qualquer lugar que garanta um mínimo de sensação de isolamento já me faz feliz. 

Eis que pegamos a estrada rumo a uma região cheia de praias badaladas de Santa Catarina, um lugar impensável no auge da temporada de verão. Assim que cheguei ao destino escolhido para o feriado senti vontade de sair correndo, descobri que tinha me dirigido a um acampamento gourmet. Mas quem tá na chuva... Armamos a barraca, fizemos do limão uma caipirinha e tratamos de curtir o que de melhor o camping tinha: os arredores de praia, costão, trilhas. A ótima praia quase vazia estava ao alcance de poucos passos; entre ficar reclamando e ir curtir, optamos pelo óbvio. 

Quanto ao camping propriamente dito, acabamos nos ambientando. A passarada e o ambiente arborizado ajudaram. Quando a chuva veio, a ótima área de churrasqueiras coletivas veio a calhar. Reclamei do ambiente metido, mas adorei o chuveiro quente e os banheiros excelentes. A lua cheia nos visitou todas as noites, que bom que levamos a luneta. 

Saí de lá reclamando de várias coisas. Ainda assim, mal dobrei a esquina e já estava me perguntando quando acamparei novamente. Não tenho remédio, nem acampamento gourmet me cura.

Nova tralha, digo, novo equipamento indispensável.

Inspeção matutina da barraca.
Campistas profissionais.
A praia que me fez perdoar a gourmetização do camping.

Um menino e uma ilha (só sei o nome do menino).

Amanda virando sereia.
A subida da trilha do Morro do Macaco tem trechos com visual incrível.

No alto do Morro do Macaco, com o mundo lááá embaixo.


Dia nublado, fotos sem brilho, mas a gente curtiu mesmo assim - aliás, agradecemos o sol ter se escondido durante os cerca de 50 minutos em que subimos, subimos, subimos... É possível fazer a trilha em menos tempo, mas nosso grupo tinha crianças e nenhuma pressa.

Mar de baía, mar aberto, um espelho do outro.


Moradores do lugar.
Estrelinhas de fim de tarde.

As mulheres de Adichie



O último conto de No seu pescoço, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (Cia das Letras, tradução de Julia Romeu), fala dos mundos diferentes em que viveram os membros de uma família ao longo de três gerações. Desde a infância da avó num clã rural no interior do país até a vida acadêmica da neta na Europa, menina criada pelo pai convertido ao cristianismo, o conto foi uma ótima escolha para encerrar esse livro-mosaico muito bem desenhado por Adichie. Imigrantes nigerianos nos Estados Unidos, parentes que ficaram, imigrantes que voltaram, a mãe que perde o filho por causa de um conflito absurdo, filhos de famílias em diáspora, a mulher acadêmica, a esposa em um casamento arranjado, o imigrante ilegal, o deslumbrado, o resistente, o convertido, a criança sozinha - cada personagem em No seu pescoço mostra um pedacinho da Nigéria no olhar de Adichie e um monte de pedacinhos da humanidade que trazemos em nós. No conto final, é como se cada um desses diferentes cenários rondasse a história de vida daquela família - o contato com o diferente, os conflitos que nascem daí, as reflexões sobre o lugar de cada um nesse mundo, temas que permeiam quase todos os contos.

Como nos romances que li da autora, encontrei outra vez personagens tão "vivos" que a empatia se apresenta imediatamente. Mais uma vez, as mulheres de Adichie têm aquele olhar aguçado para o mundo ao seu redor que as torna a um só tempo fortes e vulneráveis - forte pela sagacidade de quem vê além da superfície, vulnerável pelas revelações nem sempre palatáveis que essa mesma sagacidade traz à tona. Ainda que nem todos os contos tenham me tocado com a mesma intensidade, cada um deles vale pelo conforto com que Adichie parece escrevê-los. Não à toa suas personagens femininas são tão "sólidas": quem já teve a chance de ver uma palestra ou entrevista com a autora certamente percebe de onde as personagens herdam aquele olhar que as leva além. Segue minha admiração pela escritora, autora de bons romances (leiam Meio sol amarelo, se ainda não o fizeram) e de contos igualmente ricos.

O olhar de Munro


Havia na época em que eu retirava livros na biblioteca da escola uma sensação da qual me lembro muito bem: uma comunhão com a "atmosfera" de alguns livros que muitas vezes era mais forte do que meu apreço pelas histórias propriamente ditas. Acontecia não raras vezes de eu gostar mais do cenário do que do enredo, de modo que não importava muito o que acontecesse com a personagem principal, ao final da leitura eu ficava com saudades dos lugares descritos. Podia ser uma casa ou um recanto de jardim, talvez uma praia; a combinação casa + penhasco era um clássico da saudade de lugares imaginários. Não me lembro de praticamente nada de uma história que li em que a protagonista, por alguma razão, tinha cabelos roxos; mas trago até hoje muito clara a memória das passagens que descreviam o caminho que ela seguia regularmente, talvez para ir à escola. O enredo, o nome do livro, autor(a), tudo sumiu; ficou a imagem daquela estrada (e o cabelo roxo da menina - ou seria vermelho?) que pintei em minha cabeça à medida que lia sei lá o quê naquele livro. Eu gostava da "atmosfera" da história.


Aconteceu de novo agora lendo A vista de Castle Rock, de Alice Munro (Ed. Biblioteca Azul, tradução de Cid Knippel). Na segunda metade do livro, autobiográfica, eu não me importava muito com o que ela tinha a me contar sobre sua vida, desde que continuasse me mostrando o cenário de suas andanças - nada muito opulento - ou me falando da zona rural onde cresceu. E mesmo que parte da sedução que o livro lançou sobre mim viesse de seus personagens, é a tal "atmosfera" de suas páginas que me faz sentir saudades. Mas isso é só parte do pacote, é verdade.

Munro fez uma pesquisa que eu mesma adoraria fazer sobre mim: levantou registros sobre sete gerações de seus antepassados. Encontrou diários valiosos, documentos, lápides; rastreou relatos, conversou, buscou. O resultado é um inventário invejável, uma árvore genealógica cheia de galhos muito velhos, carregados de histórias não exatamente incríveis, mas certamente reveladoras dos tempos e caminhos que a formaram. Esse é o conteúdo da primeira metade de Castle Rock. Sete gerações. A vista de Castle Rock começa na Escócia, antes da migração do tatataravô de Munro para a América. A partir de registros feitos por um ministro paroquial no vale do Ettrick, na Escócia, de um diário produzido a bordo do navio que fez a travessia para a América em 1818, de escritos tardios de seu pai, Munro resgata histórias que ouviu da avó, da tia avó, de conhecidos da família, e costura tudo com sua prosa firme, preenchendo as lacunas com conjecturas e imaginação. O tecido final é um misto de história real com "quem sabe foi assim", num estilo tão envolvente que pouco nos importa onde acaba o diário e entra a contista. Penso na boa sorte que possibilitou essa reconstrução: uma família de pessoas que gostavam de escrever; diários que sobreviveram (imagine encontrar um diário produzido em 1818 por um antepassado direto seu!); encontrar e reconstruir esses rastros. 

Na segunda metade do livro temos as memórias da própria escritora, sua vida de menina pobre que mantinha escondido seu deslumbre pela natureza - porque não pegava muito bem sair por aí dizendo que se encantava com as árvores imensas margeando aquela estrada enquanto havia tanto trabalho por fazer. Tampouco pegava bem viver com a cara enfiada nos livros, onde já se viu, e também o interesse pelos livros era mantido sob um manto de discrição e silêncio. Vemos como se formou essa escritora, ainda que não haja em Castle Rock qualquer informação sobre a rotina profissional de Munro. Ela parece saber que o que a transformou na escritora que é vem dali, daquele olhar sobre as árvores, sobre a estrada, vem do desejo secreto de se deitar sob a copa da macieira para ver o céu por entre as folhas. Ela sabe que era ali que a escritora se fazia. E a gente percebe isso muito bem, é o olhar do artista que faz toda a diferença. 

Para fãs dos ricos contos de Munro, leitura indispensável. Para fãs de árvores genealógicas,  um livro para nos matar de inveja. 


 
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