Paper windows


Depois de muitos anos, voltei a utilizar agenda de papel. Em tempos de agendas eletrônicas, lembretes no celular, alarme para avisar da consulta médica, retornei ao tempo em que os dinossauros andavam sobre a Terra. Algo no manuseio da caneta me traz conforto, tenho certeza de que tio Freud me entende. E já que vou conviver com o caderninho cheio de rabiscos por doze meses, que seja lindo. Em 2017, catei no stand da lojinha de um museu uma agenda com reproduções de pinturas impressionistas. Agora, depois de namorá-las ao longo dos meses, algumas migraram para a parede. Ou seja: agenda multifuncional, quem disse que só os smartphones o podem ser, hein?



As meninas do Renoir.

Flores do Délacroix, boom de cores.

Não tenho mais quinze anos, mas minha nova agenda tem até transfers. A Amanda anda às voltas com seus insetinhos pela casa, cobrindo com caneta figurinhas que magicamente se transportam para o papel. Eu me lembro das "figurinhas-transfer" dos anos 80, nos tempos em que eu usava canetas para alimentar meu querido diário com segredos inconfessáveis e assuntos absolutamente irrelevantes e magnânimos ao mesmo tempo. Ela me ajudou a marcar os aniversários da casa com insetos, somos uma família de assuntos sérios.









Pra garantir o bom uso da agenda, fiz uma listinha de gente grande. ;-)


Amanhã acabam as férias. Volto à minha mesa. Num cantinho dela, caneta, papel, flores e insetos me lembrando que tá tudo certo.

After the rain


Depois de cinco dias de chuvas intensas, Floripa teve manhã e tarde de sol. A tempestade no final do dia foi rápida e mais barulhenta do que aguacenta - os trovões assustaram, o dia escureceu, mas a chuva foi suave. A tarde voltou a ter céu azul e no final do dia as crianças brincavam no quintal como manda um verão normal. Sequei roupas, tapetes e tralhas do camping, lavei lençóis - quanta diversão, hein? A melhor parte: limpei o quintal e fiquei de fuxico com as plantas e os passarinhos que voavam faceiros, certamente celebrando o sol também. Uma libélula imensa entrou na sala, a tola, e passou horas se debatendo contra o vidro da porta. Triste sina num dia tão colorido lá fora.

No mais, temos suculentas. 




E vasos coloridos - gosto mais deles do que das flores, mas eu precisava de uma planta resistente ao sol (hahaha, sou uma otimista) e a única opção disponível na floricultura eram os kalanchoes - ou temperinhos, mas esses já habitam a hortinha. Aposto que vou trocar e torrar algumas plantinhas, veremos.



É preciso fotografar enquanto há tempo - Amanda normalmente colhe antes do tempo, quando ficam laranjinhas. "São fofos", diz a devoradora de tomates.




"And yet it was a lovely flower, 
Its colours bright and fair; 
It might have graced a rosy bower, 
Instead of hiding there."  (The violet, by Jane Taylor)







Andei pela casa arrancando galhinhos secos e flores murchas dos vasos. Segundo o Van Gogh, nem precisava.


Esse vasinho com cara de urna - posso chamar de urna, Fal? - guardará nossos melhores momentos de 2018. Pequenas anotações aleatórias, qualquer coisa que nos faça rir ou simplesmente sentir alegria por estar nesse canto do mundo, e que fatalmente esquecemos logo depois, soterrados na rotina. A serem lidas na última noite do ano. Hoje seria algo como "ufa, parou a chuva". 

Te quero cheia, baby.

Why do you go camping?


Os planos eram acampar por quase uma semana. Nem todos podiam, porém, e a previsão do tempo nos fez mudar de ideia de vez. Abreviamos e ficamos por quatro dias. O céu permaneceu boa parte do tempo nublado, valorizamos cada raio de sol. Uma chuva fraca veio na véspera da partida, mas a madrugada que prometia ser de chuva foi serena. O dia seguinte amanheceu bonito e ensolarado. Ainda assim, mantivemos a decisão e o bom senso. Confiamos na previsão, empacotamos tudo num timing perfeito: foi só guardar a barraca no carro para a chuva prometida chegar. Abrigados na área de apoio do parque aquático anexo ao camping, fizemos nossa última refeição em bando, rimos da muvuca - e partimos, pensando nos feriados de 2018. Amigos disseram que tenho um vício. Eu não quero a cura. ;-)

***

A gente acampa:

pra ver as crianças brincando ao ar livre o tempo (quase) todo;
pra ver criança cochilando no solzinho de fim de tarde;
pra comer bolo de rolo trazido pela amiga que acabou de chegar do Nordeste;
pra ver a infância deles indo embora, a adolescência logo ali;
pra fazer de conta que o galho é um microfone;
pra sair da barraca cedinho e ver o sol nascer na lagoa, nem que seja pra voltar pra barraca depois;
pra tomar café da manhã com os quero-queros;
pra tentar pescar o almoço, sem sucesso, mas quem liga, é legal mesmo assim;
pra botar um chapéu assim que o sol aparece e fazer pose cazamiga;
pra curtir a lua mesmo quando ela se esconde, pra contar estrelas e adivinhar que a chuva não vem, e errar e tomar chuva, e fazer foto embaixo da lona cazamiga;
pra olhar em volta e dizer "uau", toda vez;
pra jogar canastra e ganhar muito, ganhar forte, ganhar demais, não se lembrando de quando perdeu, talvez porque está com medo dos besouros esquisitos que a lanterna atrai;
pra tomar vinho e ouvir música velha;
pra fazer balada com as crianças tarde da noite, sob as estrelas, porque no acampamento pode;
pra ver as crianças dormirem no carro, exaustas, durante a volta pra casa;
pra perguntar: quando é o próximo feriado?






















 





***

(A volta nos trouxe para uma Floripa que encarava chuvas fortes há dias. Já se vão outros dois desde que voltamos, segue chovendo. O cenário é preocupante em algumas áreas, muito triste em outras. A previsão do tempo é ruim. Se no camping torci para ela estar errada, agora nem se fala. Eu gosto de chuva, mas, please, baby, enough.) 

 
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