Origem



Quando li As cartas de Darwin me chamou a atenção o nível de detalhamento nas investigações daquele que ficou conhecido como o pai da biologia evolutiva. A Teoria da Evolução não foi concebida num par de anos por alguém olhando a paisagem da janela e divagando sobre o tempo e a aparência dos bichos. Ela foi resultado de décadas de um trabalho incansável e minucioso baseado em perguntas desarmadas. Um trabalho guiado pela disposição em encarar desafios, fossem do tipo que empurram uma pesquisa para a luz, ou dos que empacam essa mesma pesquisa. Das muitas coisas que me fazem admirar Darwin desde que li suas cartas, a maior delas é a honestidade intelectual. Agora que tive a chance de ler sua obra prima, um dos livros mais revolucionários da história do conhecimento humano, minha admiração só cresceu. Minha edição de On the origin of species é essa lindezinha aí ao lado. Um livro do tamanho da minha mão, com sobrecapa brilhosa e folhas em papel fino de beiradas douradas: uma embalagem caprichada para um volume precioso. Ganhei de minha filha em dezembro, e já é sério candidato ao posto de leitura mais valiosa deste ano que tá só começando. 

Um dos 14 capítulos centrais da obra é dedicado ao que Darwin chamou de "Difficulties on Theory". Ali ele encara as principais objeções da época ao entendimento que ele propunha e que já circulava em maior ou menor grau entre os naturalistas de seu tempo, sem fugir dos enfrentamentos mais difíceis. Nada de embelezamentos vagos. E certamente o fazia com conforto por saber da grandeza e da força de seus estudos e do volume das evidências disponíveis, da robustez dos argumentos que apresentava. Mas esse nem de longe é o capítulo mais interessante do livro. Há muito para nos embalar nos que apresentam a seleção natural, as leis por trás da variação das espécies, as curiosas normas de distribuição geográfica. Para mim, as páginas dedicadas aos registros geológicos são particularmente interessantes. A biologia evolutiva e a geologia caminham de mãos dadas e compõem aos poucos o quebra-cabeças que mudou a visão que temos do mundo natural e de nosso lugar nele.

Lembro das cartas que ele trocava com colegas naturalistas espalhados pelo mundo, dos relatos sobre a coleta da lama grudada aos pés de pássaros migratórios para verificação de sementes escondidas ali. Em Origin, vemos no detalhe a que servia a análise acurada dessas pequenas porções de lama. Desde o retorno da viagem no Beagle até finalmente decidir publicar seu relato, décadas depois, Darwin se debruçou sobre dados, bichos, fósseis, coleções de sementes e plantas, colônias de insetos; observou com minúcia as pistas e vestígios acumulados em ambientes naturais diversos, lagos, vales, montanhas; investigou espécies domesticadas e manipuladas pelo homem, leu e estudou com empenho tratados de geologia; realizou dissecações infinitas, conduziu experimentos que duravam anos envolvendo bichos minúsculos, embriões, plantações, testes em sementes aparentemente incapazes de germinar, dedicou-se a estudos de anatomia. A tudo imprimia seu raciocínio ponderado, aberto, brilhante. Sua obra é uma construção meticulosa apoiada em discussões fundamentadas com grandes naturalistas e geólogos - com os que o apoiavam e com os que dele discordavam - para apresentar ao mundo, com a maior clareza possível, uma proposta vigorosa que explicasse o mecanismo do surgimento das inúmeras espécies que habitam o planeta. A Teoria da Evolução não se propões a explicar a origem da vida, mas apresenta um esquema claro e lógico das regras por trás da variação das espécies. Revolucionou as Ciências Biológicas e abriu caminho para inúmeras investigações e descobertas nas décadas que se seguiram. É uma obra fascinante, extremamente bem escrita e por vezes emocionante. O entusiasmo do homem encantado com a Natureza nunca abandonou o cientista escrupuloso, uma combinação quase poética. É belo como o são as melhores ciências, as honestas e corajosas. 

Ao fim do livro Darwin apresenta um inventário de estudiosos e respectivos relatos e propostas que em variadas medidas comungavam com a teoria da modificação das espécies até 1859, data de publicação de Origin. Nada menos que trinta nomes e contribuições são destacados por Darwin. Por mais consciente que estivesse da grandeza de seu feito, Darwin não voltou os holofotes só para si, mas reconheceu que o entendimento que propunha rondava o mundo científico da época e viria à tona cedo ou tarde. Um ano antes, inclusive, em 1858, a teoria da evolução por seleção natural foi brevemente apresentada por Darwin em conjunto com Alfred Wallace, que, de forma independente, tinha chegado basicamente às mesmas conclusões de Darwin. O diferencial da contribuição de Darwin, contudo, estava no rigor investigativo, no fôlego com que detalhou os mecanismos estudados e na clareza com que vinculava os estudos geológicos aos biológicos. Ninguém até ali fora tão longe e com tanto afinco na decisão de propor tamanha guinada na visão reinante de suposta imutabilidade das espécies.  

De lá pra cá, avanços tecnológicos permitiram estudos geológicos, paleontológicos  e genéticos talvez vislumbrados por Darwin. A genética e a biologia molecular permitiram ajustes em pontos da Teoria, e o cerne do entendimento permanece e se desenvolve como base da biologia moderna. Li Origin cheia de admiração e respeito e, claro, com certo desgosto pelos desmandos que lemos aqui e ali escritos por quem se limita a associar a Teoria à equivocada gravura do símio virando homem ou que sequer se dispõe a entender o que a palavra "Teoria" significa no mundo dos estudos científicos. 

A primeira edição de On the origin of species esgotou rapidamente. Novas edições se seguiram, sempre revisadas. Darwin publicou outras obras nos anos que se seguiram, incluindo The descent of man. Morreu 23 anos depois de publicar sua obra revolucionária e nos deixou lentes novas para olhar o mundo. Não sei que livro eu levaria para uma ilha deserta, mas se me perguntarem que personagem histórico detém minha maior admiração, a resposta é fácil. 

"There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved."
Darwin, On the origin of species, 1859. 


Bittersweet



Hoje nos reunimos em torno da mesa da cozinha e despejamos sobre ela os pedacinhos de papel que colecionamos em nosso pote de lembranças ao longo do ano. Combinamos de anotar pequenas alegrias ou acontecimentos que, mesmo que não sejam exatamente grandiosos, gostaríamos de relembrar no apagar das luzes de 2018. Estavam lá pequenas conquistas das crianças/pré-adolescentes desta casa, como os gols na partida de handebol e a melodia desafiadora tocada no piano; estavam a volta pra casa depois da reforma e o dia em que compramos as passagens das férias; o dia em que a Amazon entregou a encomenda e o dia em que os novos amigos vieram jantar pela primeira vez. Lemos os bilhetinhos escritos para nós mesmos com risadas e expressões como "nossa, verdade!" ou "caraca, isso foi em janeiro?!". Havia também uma notinha sobre o dia em que o Roque nos deixou para nos lembrarmos da alegria de ter tido ele conosco por tantos anos. Foi um ano difícil em vários aspectos, com momentos de desânimo e perplexidade, mas também cheio de pequenas grandes alegrias em meu pequeno universo particular. Foi bom ler nossos bilhetes, foi como ver um curta sobre os melhores pequenos momentos dos últimos doze meses. A vida é feita desses pequenos momentos, são eles que nos alimentam para os grandes passos e nos mantêm de pé diante dos desafios. Que nosso pote azul das lembranças esteja ainda mais cheio daqui a doze meses. 

***

Em meio ao turbulento 2018, a leitura foi a companheira fiel de sempre. Deixo aqui minha pequena listinha dos livros que mais me tocaram neste ano.

Não ficção:

- Negociando com os mortos, de Margaret Atwood - sobre a escrita, sobre o uso dela como lanterna a nos guiar nesse mundão.
- Todo dia a mesma noite - a história não contada da boate Kiss, de Daniela Arbex - o relato daquela noite com foco em algumas das famílias atingidas, no trabalho dos bombeiros e médicos, e no conjunto de falhas e erros que levaram à tragédia.
- A trégua, de Primo Levi. A saga real e absurda da volta para casa de um grupo de sobreviventes do holocausto. A peregrinação de Primo por estradas e ferrovias semidestruídas Europa afora, lutando contra fome, doenças, medo e solidão, é mais um daqueles relatos que nos lembram (ou deveriam) a estupidez das guerras.  
- Leonardo da Vinci, Walter Isaacson - li poucas biografias em 2018; a do Da Vinci foi a mais envolvente. Isaacson exagera no deslumbre aqui e ali, mas a vida de Leonardo garante a diversão. Foi mesmo uma pessoa excepcional. 

Ficção - li vários livros mais ou menos neste ano. Criei expectativas e me decepcionei, li por curiosidade e acabei perdendo tempo, coisas desse tipo. Deixo aqui duas indicações que compensaram os meia-boca:

- The waves, de Virginia Woolf. Um quadro em forma de livro, talvez? Isso: uma pintura. Virginia, mostrando que não era exatamente deste mundo. Maravilhoso - logo teremos nova tradução dessa lindeza em português pelas mãos da Denise Bottmann. 
O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer - 2018 nos tirou Victor, mas sua escrita maiúscula permanece e o eterniza. Quero ler tudo dele. 

Em 2018, embalada pela sucessão de eventos inacreditáveis em nossa política, chutei o balde e mergulhei nas distopias. Se é pra tomar susto, vamos ao menos fazê-lo admirando a genialidade de bons escritores, certo? Li três clássicas distopias e agora me sinto menos despreparada para encarar certas sandices -  ou não. Recomendo todas, com destaque para a obra prima de Orwell, claro.

- Admirável mundo novo, de Aldous Huxley - humanos selecionados, modificados e programados para obedecer e dizer amém. Um mundo de não pensantes abobalhados e deslumbrados com a limpeza, a beleza, a juventude, a retidão; um mundo sem libido, sem dúvidas, sem surpresas. O horror.  
- Fahrenheit 451, de Ray Bradbury - um mundo em que livros são proibidos; onde leitores rebeldes vivem na clandestinidade e são caçados sem misericórdia; uma fábula sobre o poder da leitura, da arte e da informação. Achei delicioso. 
- 1984, de Orwell - dispensa apresentações, mas nem por isso me assustou menos. Ler sobre a reconstrução do passado através da manipulação da linguagem; sobre o empobrecimento intencional dessa mesma linguagem como forma de reduzir a gama de argumentos; sobre a mentira repetida que se torna versão oficial - ao mesmo tempo em que vivemos o 2018 que vivemos, olha, foi surreal. Sem falar no grande olho... Orwell não sabia dos algoritmos tal como o conhecemos hoje, mas, em certa medida, está tudo ali. De arrepiar. 

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Acabou o ano. Estou me preparando para entrar 2019 cercada de risos e alegria, carinho e chamego. Vou deixar minha casa florida, aumentar o som, encarar o que vier. Quem me conhece sabe, estou apreensiva e desanimada. Mas virada do ano tem esse simbolismo bom de renovação: de minha parte, vou renovar as energias, acho que vou precisar - nem que seja pra suspirar e revirar os olhinhos. Vamos ver o que virá.

Desejo luz e muito amor. Que os desmandos todos desandem e virem água, que a sensatez e o amor ao próximo mais necessitado prevaleçam. Desejo muita leitura boa e menos armas. Desejo que o discurso de ódio se desmanche e que a diversidade se agigante. Que a gente acolha, converse e ouça. Que vocês, lindos, continuem lindos. Feliz ano novo, queridos companheiros de estrada. Vumbora. 


Wandering round and round


Encerramos esse ano turbulento de um jeito que muito nos agrada, gastando a sola da bota. Perambulamos por Londres por dez dias. Quando decidimos ir, cantei a bola: dez dias? Sempre bom, mas vai passar num piscar de olhos, e num segundo estaremos de volta. E assim foi. 

Tentei, na medida do possível, brincar de me desconectar do noticiário, me fechar no meu quarteto; acho que fui bem sucedida em alguma medida. A cidade ajudou bastante, claro. Para as crianças foi quase como a primeira vez. Estivemos lá com eles durante dois meses há oito anos. Arthur tem lembranças esparsas, Amanda tem mais impressões que memórias. Alguns reencontros tiveram sabor de "já vivi isso antes". Em vários recantos e esquinas lembrei de fotos daquele 2010 e agora me divirto comparando as carinhas. 

Em abril de 2010 fotografei minha florzinha em meio às tulipas dos jardins da rainha...

... well, em dezembro não tem tulipa real, mas a gargalhada continua gostosa, e o colo estará sempre aqui.  

Em 2010 brincamos de caça ao tesouro no British Museum. O Portland Vase valia muitos pontos... 
... agora é mais fácil achar, não precisa ficar na ponta dos pés. 


Oin.

"Arthur, senta aí." "De novo, mãe?" (errei o canto da praça, mas era por aí, nas imediações da St. Paul's)
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A carinha de Londres também mudou, mas a madame continua me recebendo como sempre faz: me fazendo respirar fundo, fechar os olhos por um momento, puxar o zíper do casaco e dizer "que bom estar aqui outra vez". É como acampar: já volto planejando um retorno. 

A Londres de dezembro tem vento gelado e luzes, muitas luzes. Tem dias curtos e atrações que fecham às quatro da tarde com cara de dez da noite e nos fazem lamentar demais. Tem chuva teimosa. E tem dias com generosos dez graus para alegria dos turistas que podem se desfazer de luvas e toucas. A Londres de sempre tem cafés e comidinhas do céu, muros velhos e parques imensos, prédios de idas eras e edifícios do futuro. Tem pontes e esquinas tão lindas que a gente quase entende a razão por trás de tanta arte que se cria ali. Beleza traz beleza que traz beleza que traz beleza. Love you, London. Still. 

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Olha, os Beatles! Não, pera... (mas é a Abbey Road, pelo menos)


Cara de paisagem.




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Uma das coisas mais divertidas de nossos corridos dias em Londres foi... sair de Londres e visitar os estúdios da Warner onde foi produzida a série de filmes do Harry Potter. Para fãs do bruxo, imperdível. Vou poupá-los das mil fotos de cenários, maquetes, props e ambientes inteiros usados nos filmes. Foi bacanérrimo.


Amanda e o quartinho embaixo da escada. 

Compras no Beco Diagonal.
Hogwarts Express, o próprio. 
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Hello? Is it me you're looking for?

Resolvi acatar sugestões e bater perna em Little Venice. No verão, deve bombar. No inverno, esse barco charmosinho serve chá, café e comidinhas para espantar o frio. Das mesas lá dentro dá pra ver a cozinha onde as pastries são preparadas. Eu passaria o dia lá dentro, fácil. O antigo dono do barco viveu nele por 35 anos, oh, dear.

Certo dia fomos a Hampstead. Além do melhor restaurante (La cage imaginaire), Hampstead nos deu os melhores cookies (Gail's, nham!).  Nem toda casa é como a do poeta Keats aí na foto, mas o bairro tem pose de quem sabe que é lindo. 
 



A "noite" chegando às 15h30. Vista do Hampstead Heath.
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Dessa vez os planos não incluíam visita a museus. Ha ha ha. A quatro deles fomos a pedido das crianças, digo, dos pré-adolescentes. Os obrigatórios para quem viaja com crianç..., enfim, Science Museum e Natural History, claro, além da minha queridinha National Gallery e do British Museum. Ainda os arrastamos ao V&A. Todo mundo satisfeito. Deixamos passar a Tate, pecado, e mais um bilhão de galerias, mas, né, dez dias. 

Quando tentei despertar o interesse deles pela Rosetta Stone, descobri que já era velha conhecida dos dois: Rick Riordan a usou em alguma trama do Percy Jackson. Cada um se encanta por suas razões. :-)
Da Vinci, na National Gallery. 

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Numa cidade tão antiga, cheia de prédios cheios de história, admito que também me agrada passear pela City, o coração financeiro de Londres. Gosto do contraste de prédios centenários e rastros de milênios ao lado de edificações moderníssimas, o que acaba sendo um bom retrato da cidade. A City é o berço da metrópole; passavam por lá as ruas mais antigas de quando Londres ainda era Londinium, os romanos erguiam seus muros de pedra, e o reino inglês ainda nem existia. A majestosa St. Paul's Cathedral, a Millenium Bridge, o Globe (reconstruído) de Shakespeare e as muitas luzes de prédios altíssimos dividem o espaço com engravatados e turistas que, se forem espertos, vão se perder entre as esquinas. Quando a lua vem, como veio para nós, tanto melhor.




 








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Dessa vez não deixei passar a visita ao Globe. Não deu pra ver nenhuma peça (as apresentações não acontecem no inverno, a plateia morreria de frio, provavelmente), mas gostamos da visitinha. O teatro reconstruído já duas ou três vezes não é o mesmo onde Shakespeare e seus atores berravam To be or not to be, mas a administração jura que é tudo feito tal e qual - inclusive o teto (onde há teto) de palha, único na cidade; os tetos de palha foram proibidos depois do incêndio de 1666 que destruiu boa parte da City. Estão lá os assentos desconfortáveis para quem paga um pouco mais pelo ingresso, o vão central para quem for ver tudo de pé, os camarotes com cadeiras acolchoadas para quem preferir a péssima visão do palco que a nobreza tinha à época do bardo (apesar do ângulo ruim para enxergar o palco, eram lugares privilegiados porque seus ocupantes também eram vistos pela plebe, uma vez que ficavam praticamente ao lado dos atores - uma espécie de instagram da época, como bem sugeriu a guia); ou seja, o climão tá todo lá. A madeira pode ser nova, mas o astral é do tempo em que Montecchios e Capuletos protagonizavam os babados. A lojinha é um perigo, fujam dela. Ou voltem pra casa com uma edição linda dos Complete Works do tio William. Avisei. 




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Mostramos a região de Westminster e seus prédios históricos para as crianç... para os filhos, aproveitamos o que o frio nos permitiu de alguns parques, comemos como esfomeados, tomamos um café com a Lolla das melhores fotos do reino inglês, jantamos com a amiga Mila de frente para a ponte mais linda. Batemos perna sob o luar e sob a chuva, vimos as luzes de Natal da região da Regent's, atravessamos pontes, trocamos o metrô pelo ônibus sempre que deu; compramos bobagens em papelarias, tomamos baldes de café do Prét a Manger, voltamos pro hotel com caixas de cupcakes, fomos ver a cidade lá de cima do Sky Garden. Fomos brincar de todo-mundo-é-criança-agora no Winter Wonderland (eu fugi da montanha russa, mas entrei no trem fantasma), fomos ao teatro ver o excelente School of Rock, voltamos pra casa com chás e geleias dentro da mala - prioridades. 





Arthur e Amanda confabulando traquinagens na Golden Jubilee Bridge. 

Com você, em qualquer cidade. Em Londres, então, é até covardia.
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De volta à programação quase normal, trago a inspiração da Millicent Garrett Fawcett, que sabia uma coisinha ou duas sobre enfrentar perrengues. ;-)

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Com atraso, mas com desejo sincero: Merry Christmas, you all.


A cola


Há algumas semanas a tampa da minha bomboniere azul se quebrou. Foi um acidente banal desses que acontecem na cozinha quase todos os dias. Normalmente, eu lamentaria e jogaria a tampa no lixo. Depois ficaria imaginando possíveis usos para o pote sem tampa. Dessa vez, no entanto, guardei os pedaços de vidro azul, comprei cola no mercado, colei com cuidado e torcida e esperei. Depois voltei a pôr a tampa remendada no pote e o guardei, a bomboniere que era sua, em lugar que julguei mais seguro. Uma prateleira acima de onde guardei o pote mora aquela taça muito antiga que você mesma colou, lembra?

Hoje faz oito anos. Minhas lembranças de você me acompanham, ainda converso com sua voz e conto muita coisa, imagino suas reações. Dia 09 de dezembro tem sempre o som de coisa se quebrando dentro de mim. Eu uso a cola que retiro da vida que você me ajudou a ter e tento manter os armários bonitos.

Ainda amo tanto você.

Travessia


Acampar é um pouco como fazer uma travessia. O mundo de lá é coletivo, divertido, natureba e sonolento. O estado atual do mundo de cá quase não me deixou ir; como se parte de mim não quisesse tirar folga do enfado. Venceu um outro lado, e fui. Aceitei a promessa de paz e preguiça. 

É engraçado encarar um acampamento como "preguiça", porque, fisicamente, há uma enorme trabalheira envolvida: a fome vem, é necessário preparar comida; comida gera louça suja, é necessário limpar tudo; barracas não se montam sozinhas. Ainda assim, a sensação dominante é de um tempo que passa em outro ritmo, em outra balada. É uma pausa. Dentro dos parênteses que se abrem em um acampamento, sempre há certa troca de olhares que diz "aqui estamos, que bom". 

Atravessamos.


A tarde cai e traz a tal paz. 


Depois da tarde lindinha vem a noite e, com ela, nossas luzinhas e lanternas em torno das barracas. Luzinhas no mato atraem todos os besouros. Falo de "paz", e as fotos podem dar a ideia de um final de semana idílico, porém a verdade é que criaturas cascudas em nossos cabelos podem gerar cenas escandalosas e patéticas, não nego; nem confirmo. Digamos que há toda uma arte envolvida no preparo do macarrão em meio a zumbidos e patinhas ligeiras. Dominamos, mas é um processo barulhento. 

À noite, besouros; de dia, lagartas. Foi fácil ver que estamos na época das temidas lagartas cabeludas. Elas se esgueiravam pelas árvores de folhas semidevoradas, aproximavam-se das barracas, avisavam que o terreno era delas. Preferimos a borboleta grandona de imensas asas azuis que nos visitava todas as manhãs, mas a vida pede paciência, lagarta primeiro. Outros visitantes vieram, como o amigo preguiçoso de quatro patas ou o pássaro grandão que, creio eu, deve estar feliz com as lagartas. 




Um grande lagarto também rondou o camping; gerou correria e espanto, mas nenhuma foto. Gerou também um comentário tranquilizador: onde há lagarto, não há cobra, disseram. Para provar que não sabemos de nada nessa vida, alguém olhou para o telhado da área comum do camping, onde ficam pias e churrasqueiras, e lá estava a magnânima. 


Ninguém no grupo jamais lavará louça sem olhar para cima. 
Vejamos pelo lado bom: não apareceu nenhum leão. Os outros momentos de tensão ficaram por conta do Coup e da canastra.

Tenso: quem será o próximo assassino?

Spoiler: ganhei da minha freguesa outra vez, hohoho. ;-)
***

Sempre levo um livro comigo, gosto de ler na semiescuridão da barraca antes de dormir. Normalmente a leitura rende nada, uma, duas páginas no máximo, mas vamos combater o vício no açúcar, deixemos os bons vícios em paz. Agora arrumei uma companheira que também mantém a leitura em dia no meio do mato. 


Ela disse "noossaesquilinho!"
Depois de ler, ela comeu papinha de manga. A rigor, seriam necessários outros dois babadores na foto abaixo. Não para o bebê, para os babões.




Ninada mútua. 

Não falei que rola uma preguiça?

Pois.
***

Foi o camping dos bichos, mas também das flores e frutas. Ei-las. 


Nham!

***


(...) Caminho do campo verde,

estrada depois de estrada.

Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.(...) - Cecília Meireles

Talvez cada uma ande sozinha (não é assim, tantas vezes?). Porém juntas. 

Que toda travessia traga o riso.


 
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