Um flerte com a Pauliceia


No meio do caminho tinha uma viagem. Uma viagem que quase não foi, por causa dos redemoinhos que nada têm a ver com a previsão do tempo. Meio fui, meio me mantive aqui. São Paulo certamente tem assunto para encher muitas viagens; dessa vez, fui só pelos abraços. Porém, ah, porém. Uma vez lá, a gente se esgueira entre as esquinas e dá uma espiada em certos cantinhos. E, por fim, a alma agradece. A arte torna o mundo possível, já repararam? Os barulhos duros continuam me empurrando para longe. Mas há beleza também. E motivos. 

Como o acervo modernista da Pinacoteca.

Antropofagia, Tarsila. (Detalhe)

Distância, Tarsila. (Detalhe)

São Paulo, Tarsila. 

Bananal, Segall. (Detalhe)

Di Cavalcanti, abundante.

Portinari, meu amor.

Batuque, Carlos Prado.

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Leilão de Peixes, Enrique Martínez Cubells

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E Almeida Júnior:



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Interior da Pinacoteca.
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No espaço Itaú Cultural a exposição Brasiliana é bem impressionante. Eu adoraria saber como o acervo foi montado. As informações sobre a aquisição dos mapas, livros, documentos e gravuras são poucas ou inexistentes; o acervo em si, no entanto, é bem fascinante. Bastariam os mapas e atlas imensos mostrando como o continente americano foi sendo compreendido e redesenhado à medida que os europeus avançavam por aqui para valer a visita, mas o espaço expõe bem mais.




Primeiras edições, algumas autografadas e com dedicatórias.

Rosa.

Caligrafia do Chico, o lindo.


Ilustração de Portinari para o livro do Machado.

Di Cavalcanti, para o livro do Jorge Amado.

No mesmo prédio, a Ocupação Vladimir Herzog está emocionante. Fotografias feitas por ele, material de trabalho como uma máquina de escrever e um gravador,  matérias e colunas de jornal assinadas por Herzog e, claro, um inventário das circunstâncias de sua morte, incluindo uma carta da mãe ao primeiro juiz que reconheceu a responsabilidade do Estado pelo assassinato. (Clique na foto para ampliar.)

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O MAC USP também tem lindezas.


E cápsulas de projéteis contando o assassinato de mulheres.




Uma exposição conta a história da máquina de datilografia. Imperdível para saudosistas e novas gerações de curiosos.


Máquina que pertenceu a Mário de Andrade. Será que Amar, Verbo Intransitivo saiu desses tipos? A julgar pelas datas, bem possível (o livro foi lançado em 1927).

Não é uma fofura?
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No mais, São Paulo foi colo e bate-papo. Que passem os redemoinhos.

Ao infinito e além



Você olha longe e não é de hoje. O que enxerga varia de acordo com o entusiasmo do momento, exatamente como é bom que seja na infância. Você é a futura astronauta chef escritora cientista-de-grandes-descobertas atriz mais determinada que conheço. E não tenho dúvida de que você pode ser cada uma dessas e muitas outras coisas que decidir ser. Ou nenhuma delas e ainda assim se descobrir em uma versão toda nova que sequer vislumbramos hoje. Porque a vida é assim, meu amor. O que importa é que em gravidade zero ou com as mãos na massa você sempre se joga e se esmera. Você capricha e deixa seu brilhinho em cada coisa que toca. E olha aí a infância passando. Deixe ir. Ou agarre-se a ela mais um pouco, tudo pode. O mundo não é bolinho, estamos vendo, mas eu olho pra você, respiro fundo e penso que, sim, pessoas assim o fazem um tanto melhor. Vá, avance rumo ao horizonte e siga do jeitinho que você anda por esses dias: dançando e se espalhando. Feliz aniversário de 12 anos, minha menina (ainda). Te amo, você me faz uma pessoa melhor. Obrigada. 

O quase fim das férias e o fim das férias


Um passeio pelas imediações do Parque del Oeste para dar uma espiada no Templo de Debod, almoço no restaurante Botín, fundado em 1725, caminhadas preguiçosas para o hotel, jantarzinho num restaurante com ar-condicionado pifado. Achávamos que seria assim nossa despedida de Madrid. 

O Templo de Debod, construído no 2º século antes de Cristo, foi um presente dos egípcios para a Espanha, uma espécie de tributo a engenheiros espanhóis que atuaram em uma represa no Nilo. Esquecido durante séculos, submerso em um rio, "resgatado", desmontado e enviado à Espanha, o templo foi remontado em Madrid. Entramos e fuçamos; essas coisas só servem para nos deixar com vontade de visitar o Egito, não é mesmo? 

Lá dentro: hieróglifos, câmaras, passagens estreitas, mitologia. A fonte que cerca o templo encontra-se vazia - a água deve ter evaporado no calor duzinferno que fazia na cidade, socorro.
O parque ao redor é grandão, mas a gente ficou com fome e foi procurar um restaurante.


Achamos o Bodín. Dizem que Hemingway gostava de comer aqui. Eu achei tudo com a maior cara de taberna em que Dom Quixote faria uma parada antes de defender um reino ou dois. Sem os extintores de incêndio.

Arrumamos as malas, olhamos para a esquina, suspiramos, fomos dormir. Partiríamos cedo no dia seguinte. Esquecemos de combinar com os funcionários do aeroporto de Barcelona, lugar de nossa conexão rumo a São Paulo.

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Vou resumir nossa manhã no aeroporto de Madrid: nosso voo não aparecia no painel e constava como cancelado na internet. O moço da empresa aérea nos encaminhou para outro balcão. O moço do outro balcão nos comunicou sobre a greve em Barcelona e no encaminhou para... outro balcão. A moça do terceiro balcão nos pediu para esperar. Em nossa volta, pessoas com voos cancelados e tudo que vem no pacote. Nós nos separamos: fiquei na fila, galera foi se sentar, Ulisses foi procurar outras informações. No fim das contas, conseguimos ser realocados em outro voo. Que partiria dois dias depois. 

Eu me apeguei aos seguintes pontos: se eu estivesse no lugar dos funcionários do aeroporto de Barcelona - que alegam excesso de horas extras e pouco pessoal para dar conta do aumento absurdo de movimento no aeroporto durante as férias de verão -, certamente estaria participando da greve. Se eu estivesse no lugar da mulher com quem conversei na fila, prestes a perder o casamento do filho no outro lado do oceano, certamente estaria desesperada. Respiramos, pegamos nossos cupons de alimentação e hospedagem e nos dirigimos ao transporte que nos levaria ao hotel reservado pela companhia aérea. Passamos a tarde de banzo, queríamos voltar para casa, afinal. No dia seguinte, descansados e conformados, escolhemos o parque mais próximo do hotel e fomos bater perna. Madrid não brinca em serviço. O parque era excelente, e no fim das contas passamos o último dia (de novo) em um cenário pra ninguém, nem que teve voo cancelado, botar defeito.

O parque é o Juan Carlos I, mais um dos ótimos parques públicos de Madrid. Foi criado há quase trinta anos para celebração da cidade como Capital Cultural da Europa. É gigantesco, tem lago, olival com milhares de árvores, diversos playgrounds para crianças de várias idades, empréstimo gratuito de bicicletas e ainda um trenzinho, também gratuito, para que você possa fazer um reconhecimento do terreno sem gastar toda a sola do tênis. Ao longo do parque estão distribuídas quase vinte esculturas feitas por artistas de diversos países, inclusive do Brasil, que participaram de um simpósio de esculturas ao ar livre no ano em que o parque foi inaugurado. Foi um presentinho de Madrid numa tentativa de compensar o voo cancelado.

Minha câmera, que já não andava bem das pernas, sucumbiu. Na verdade, o carregador da bateria estragou. Restam fotos feitas com o celular; e a memória.


Ao fundo, o olival a perder de vista. O parque inteiro tem 160 hectares.

O labirinto que fez Arthur e Amanda esquecerem o cansaço. Não confirmo nem nego que adultos também brincaram lá.

A escultura mexicana se destaca na paisagem de um dos lados do parque. Subimos por subir, descobrimos o labirinto do outro lado.



 Arthur escorrendo por entre os Dedos, escultura chilena.

Acabou a festa.
(Meu sogro e a Lu não estão na foto porque estavam descansando num banquinho sombreado. Valeu a parceria, galera.) 

No dia seguinte, ufa, embarcamos. Hasta la vista, Madrid.

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Mais Espanha aqui, aqui, aqui e aqui.


Nem só de Prado


O Museu Arqueológico de Madrid não estava em nossos planos iniciais, devíamos estar loucos. Felizmente, mudamos de ideia e o incluímos no roteiro. Favorito das crianças, agradou todo mundo. O acervo é ótimo, assim como os recursos para apreciá-lo. O guia multimídia dá detalhes sobre cada peça, cada setor. Além disso, permite que você selecione um tema para moldar sua experiência no museu: quer ver o acervo sob a perspectiva do papel das mulheres nas sociedades ao longo do tempo? É só selecionar esse modo e você receberá informações específicas sobre como as mulheres de tal tribo se envolviam na confecção dos instrumentos musicais, por exemplo. O museu é muito rico, com peças que datam da pré-história ao século XIX. Muitas das peças foram descobertas em escavações feitas na Espanha. As salas que expõem mosaicos romanos foram minhas favoritas, mas há uma imensidão de bons "brinquedos". Na saída do museu, há uma réplica das pinturas paleolíticas da caverna de Altamira - nada como uma caverna de verdade, claro, mas não deixa de dar uma ideia da atividade artística de nossos antepassados. Entrei sem câmera, fiz poucas fotos no celular. Para ter uma ideia do acervo, vale dar uma espiada no website do museu.

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E já que estávamos logo ali, decidimos conferir a coleção do Museo Thyssen-Bornemisza. O "curioso" do Thyssen é a origem do acervo: as pinturas pertenciam à coleção privada de um barão. O senhor Heinrich Thyssen tinha a pretensão de unir em suas paredes obras de arte que representassem todos os períodos artísticos do ocidente, desde os italianos pré-renascimento até a arte moderna e contemporânea. E o fez. No início da década de noventa do século XX, o acervo foi instalado em um palácio não muito longe do Prado e, em seguida, vendido à nação espanhola. Em 2004, o museu abriu uma nova ala com mais de 200 novas obras adquiridas pela baronesa Thyssen. Lá fomos nós ver o que esse povo tinha conseguido reunir em suas salas. Foi um deleite. 

De cara, já fiquei pasma com o Díptico de la anunciación, de Jan van Eyck. É preciso chegar perto para acreditarmos que não estamos diante de duas esculturas, e sim de uma impressionante pintura. Feita em algum momento entre 1433 e 1435 para nosso eterno deslumbre. Das minhas obras favoritas em todo o museu.

Uau.

Vênus, toda vaidosa, pelas mãos de Rubens. 

Santa Catarina, de Caravaggio. A modelo era uma cortesã famosa das redondezas, claro. 

Amor eterno, amor verdadeiro. Rembrandt na parede? O barão tinha.

Ulisses quase mergulhou no canal de Veneza. Para sua sorte, havia outras obras de Canaletto no museu. 

Canaletto.

Canaletto.

Quadrinho envolvente do alemão Caspar Friedrich.

Antes dos amarelos todos, ele pintava assim também. Van Gogh, 1884.

O colecionador investiu em muitos quadros de pintores estadunidenses.  William Trost Richards é um deles, com ondas que parecem fotografadas.

Dalí, obviamente. 

A coleção do Thyssen é riquíssima, tá todo mundo lá, espiem

Sol, sombra e Guernica


No século XVII, o Parque del Retiro em Madrid era exclusivo da família real. Nele ficavam o palácio do Rei Felipe IV e outros casarões da realeza. Na segunda metade do século XIX, o lugar foi aberto ao público. Ainda existem palácios em meio às alamedas sombreadas, como o Palacio de Velázquez e o de Cristal, ambos usados atualmente como sedes para eventos e exposições de arte. O parque tem um lago que madrilenhos e turistas cruzam com preguiça em barquinhos a remo. Há várias ofertas de lugares para comer ou fazer um piquenique. No dia em que o visitamos, o calor nos cozinhava em fogo médio, algumas pessoas cochilavam ou liam à sombra de uma árvore, outras tomavam uma bebida gelada. Nós fizemos de tudo, andando devagar para não derreter. Num canto próximo ao lago, vendedores ambulantes sumiam em um segundo quando a polícia montada aparecia, e a gente pensava nos outros lados dessa cidade que nos pareceu tão rica. 










No meio do lago, a Amanda abandonou o barco que dividia comigo e com a Lu e pulou pro barco dos boys. Por pouco não caiu na água. 


Amanda saboreando sabe-se lá o quê.

Vou deixar aqui essa singela coleção de rádios que decorava o restaurante onde comemos nas imediações do parque.

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Em 1936, Manuel Azaña foi eleito presidente na Espanha pela Frente Popular que reunia setores liberais, socialistas e de esquerda. Pouco tempo depois, o general Franco liderou o exército em uma rebelião contra o governo de Azaña. Inicialmente, o governo republicando resistiu, especialmente em cidades estratégicas como Madrid. Mas Franco recebeu apoio das forças fascistas da Itália e da Alemanha nazista. Dois anos antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, a Espanha funcionou como um laboratório de teste para o poderio ofensivo de Hitler. Em 1937, a força aérea alemã, a serviço de forças nacionalistas de Franco, bombardeou a pequena cidade de Guernica, no norte do país. Centenas de pessoas foram mortas.

Em 1937, Picasso já era um artista renomado. O governo republicano havia encomendado uma obra para representar a Espanha em uma exposição internacional em Paris. Ao saber do bombardeio, Picasso decidiu criar o quadro que viria a ser celebrado como sua obra prima. No avião que nos levou de São Paulo a Barcelona, vi alguns episódios da Série Genius, da National Geographic, sobre Picasso. A série mostra como durante a composição de Guernica, a namorada do pintor (bem, uma delas), a fotógrafa Dora Maar, registrou os vários estágios de composição da pintura. Guernica virou mais do que um quadro, tornou-se ícone do antimilitarismo, um símbolo de resistência às ditaduras e à violência que as promove e sustenta. É considerada por muitos a mais importante obra de arte produzida no século XX. Picasso queria dominar todas as técnicas clássicas da pintura para então romper com todas elas e criar uma voz própria. Em Guernica, o quadro-história, o traço perturbador de Picasso é como um grito, mas não só dele. 

Em um dos meus momentos favoritos de Genius, o soldado nazista, vasculhando a casa onde estava Picasso (elevado à categoria de inimigo pelo governo alemão), mostra a ele uma fotografia de Guernica e pergunta:

- Você fez isso?

Ao que Picasso responde:

- Não. Vocês fizeram.

Em 1939, Picasso enviou o quadro pra Nova Iorque e afirmou que a obra só deveria voltar à Espanha depois que a democracia fosse restabelecida. Picasso morreu em 1973. Franco se manteve no poder até morrer, em 1975. Em 1981, Guernica voltou para a Espanha.

Diferente do Prado, o Centro de Arte Reina Sofia permite fotografias em seu interior - com exceção da ala dedicada ao Guernica. Na grande sala reservada para o quadro, a imensa obra ocupa lugar de honra. Na parede oposta, a sequência de fotografias produzida por Dora Maar nos mostra os passos de Picasso na criação da pintura. É emocionante ver Guernica. É um pouco apavorante, também. Para mim, foi o ponto alto de nossa curta visita a Madrid. 

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O Centro de Arte Reina Sofia tem um bom acervo para quem curte arte moderna. Dalí, Miró, Picasso, vários outros cubistas e surrealistas, além de exposições temporárias de  outras linguagens, como a fotografia. (O Centro é fechado às terças, adivinha como eu descobri? Voltei na quarta.)

Dalí, em momento meigo - Menina à janela, 1925. Ouve a brisa?
Amanda, conferindo A Mulher em Azul, da fase azul de Picasso.

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Saímos do Reina Sofia caminhando sem pressa, fazendo a mesma coisa que estávamos fazendo lá dentro. Observando, absorvendo.



Sede básica dos Correios, Palacio de Comunicaciones.













Mais de Madrid, aqui.


 
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