O tecido


(Sua voz ainda chama meu nome.) 

A morte de Tia Maria. Nossos bichos de estimação que você nunca viu. Os amigos que entraram em minha vida. Os reencontros. A reforma que fiz em minha casa. As fotos das crianças que nunca mais revelei. Quase toda a infância de meus filhos. Os adolescentes que tenho em casa agora. O tamanho deles. Seus  netos no piano, você ia gostar. O vestido verde que você teria aprovado. As coisas que aprendi a cozinhar. As miudezas da rotina: não preencheríamos todos os papiros e papéis? "Tempo, o tecido da vida." 

E tudo que não foi. O que você me contaria e o que me perguntaria. As videochamadas que nunca fizemos. Nosso assombro em comum diante das notícias do mundo.

O mundo, aliás. Você estaria muitíssimo impressionada. 

Dez anos sem você. Todas as conversas que não tivemos existem em linguagem feita de uma substância diferente das palavras. Elas insistem. Inventei o lugar delas. Eu me volto para lá (cá) e busco sua mão. Atravesso algumas ruas mais turbulentas assim, compartilhando o espanto com sua presença em mim. 

Dez anos. 



4 comentários:

Marcia disse...

Um abraço bem apertado, Rita. E que todas as boas memórias com a sua mãe lhe acalente neste Dezembro. xx

weepingwillow88 disse...

abraço de urso ♥

Luciana Nepomuceno disse...

dez anos, se eu mal posso acreditar, imagino como - para você - vez em quando seja uma grande estranhamento essa ausência tão presente (ou vice versa?). deixo um abraço com muito amor.

Socorro Rocha disse...

Minha querida Rita, os teus sentimentos traduzidos em palavras me emocionam. Saudades de ti pequenina. Lá, lá no Pequeno Príncipe eu visualizei e testemunhei suas habilidades com as letras. Tua desenvoltura, e outras virtudes se assemelham sim, a inesquecível e admirável Doutora Bernadete. Bjs

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }