As letrinhas que faltam na sopa


Durante muito tempo fui leitora de um livro só. Um por vez, entenda-se. De uns tempos pra cá, sabe-se lá por qual motivo, dei pra iniciar leituras paralelas. Normalmente, mas não necessariamente, olho em volta e há uma leitura em andamento em livro impresso, outra no kindle e um audiolivro para ouvir durante tarefas enfadonhas. Ou um literário qualquer, um não ficção, uma antologia de contos. Varia com as marés. 

Nessa sopa de letrinhas, ocorre aqui e ali de um livro ficar meio encalhado, enquanto me ocupo de outro, vai da lua. Dia desses, comprei uma cópia impressa do Escola de Tradutores, do Paulo Rónai, livrinho antigo que há muito eu queria ler. Li uns três ou quatro capítulos, larguei ao lado do computador -- na mesa da sala convertida em escritório durante esse confinamento (sem-fim-namento), já que o escritório propriamente dito foi convertido em sala de aula do filho mais velho -- e comecei a ler o Oráculo da noite, livro sobre a ciência a história do sonho, do cientista brasileiro Sidarta Ribeiro. Enquanto lia o Oráculo, comecei a ouvir The ambassadors, do Henry James, porque... porque Paris, talvez.   

Acontece que, nesse meio tempo, minha amiga Luciana, por falar em Paris, fez uma postagem sobre "As ligações perigosas", o filme, que ela tinha acabador de rever pela zinquenquésima vez, o que me fez pensar no livro do Choderlos de Laclos, que, coincidentemente, eu tinha acabado de acrescentar à minha listinha de desejos por causa de um texto sobre ele em outro livro, outro papo. Dei uma fuçada aqui e ali para decidir que tradução comprar, porque, vocês sabem, coitado do meu francês eternamente pré-intermediário nos dias de sol, quase inexistente nos de chuva. Descobri que a tradução de Sérgio Milliet era ponta firme, fui nela. Um sebo bacana enviou o livro sem demora, pus na pilha para depois do Rónai (que, a essas alturas, eu tinha retomado, pois já havia parado de sonhar com o Sidarta, algo assim). 

Coleciono pequenas coincidências insignificantes. Dois dias depois de receber meu exemplar de Relações perigosas (esse é o título na tradução de Milliet),  vejo no livro do Rónai que ele dedicou um capítulo inteirinho às traduções em língua portuguesa de Les liaisons dangereuses. Vi e falei oba. Li e falei droga. Aprendi com o Rónai que o Choderlos de Laclos, quando lançou o livro que lhe deu fama eterna, fez um jogo de cena semelhante ao de Daniel Defoe ao lançar Robinson Crusoé: fingiu para seus leitores que sua obra não era ficção coisa nenhuma, que aquelas cartas (Les liasisons é um romance epistolar) teriam sido encontradas em tais e tais circunstâncias e coisa e tal  (na primeira edição de Robinson Crusoé, o nome de Defoe sequer aparecia, esperava-se que o leitor acreditasse em todas aquelas aventuras narradas por um sujeito que de fato se chamava Crusoé). 

E daí? E daí que o Rónai me conta que, na tradução de Milliet, a introdução do autor sobre as cartas, o jogo de cena "isso realmente aconteceu", foi eliminada. A tradução que comprei começa com a primeira carta, deixando de fora a introdução da obra original - não era um prefácio a uma edição específica, mas parte integrante do texto de Laclos. Se eu tivesse avançado no livro do Rónai um pouco mais, antes de comprar meu Relações perigosas, provavelmente teria escolhido outra edição, uma que contivesse o texto completo.  

Moral da história: não tem. Acontece, quem mandou interromper o francês. (Imagino que nem seja difícil encontrar o texto de Laclos traduzido para o português ou o inglês na internet; mas há certas obras que gosto de ler no sofá, virando as páginas; essa, então, por mim, podia até ter os envelopes para a gente abrir - ou o selo de cera pra gente romper? o lacinho para desamarrar o rolinho de papel?)

***

Fiquem bem. Não acabou ainda, mas a saída do túnel é logo ali.  


 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }