Meu passeio com Ulysses


"Essas areias pesadas são linguagem que maré e vento assorearam aqui."

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Meu sim foi há muito tempo em uma livraria de Campina Grande, durante a graduação em Letras. Foi um sim adiado. Joyce era o cara "que tinha influenciado Clarice", a do coração selvagem. O livro imenso, cercado por certa aura grandiloquente, me pareceu muito, deixei pra depois. Muitas horas se passaram e formaram anos. Um dia, me vi em uma biblioteca pública inglesa de onde saí com os contos de Dubliners embaixo do braço. Simpatizei com o moço. A simpatia virou um flerte mais intenso quando, mais um tanto bom de horas depois, em Santa Catarina, uma leitura mais cuidadosa de The Dead (Os mortos) me fez recordar aquele sim. Um novo tanto de tempo depois, puxei Um retrato do artista quando jovem da estante, conheci Stephen e reencontrei Clarice. Praticamente uma dança das horas prolongada.


Pois bem. Hoje terminei minha primeira leitura de Ulysses. Várias imagens fazem pleno sentido agora: o burburinho infinito em torno do dia 16 de junho; o leitor que larga o livro no capítulo/episódio 3; quem morre de rir; quem se encosta no sofá, respira fundo e se joga; quem se cerca de livros, manuais, dicionários e lupa. E acho que tudo cabe. Há várias maneiras de se ler qualquer livro, é assim com Ulysses também. A minha leitura começou com certa reverência (oi, finalmente, vamos lá?), passou por visitas frequentes à tradução mais recente no Brasil (inclusive, li alguns capítulos integralmente ali), oscilou entre o riso e a compaixão (acho que Bloom não ia gostar de ouvir isso), me levou de volta aos contos de Dublinenses

Há quem ache que não faz diferença conhecer ou não a Odisseia de Homero para se apreciar Ulysses. É verdade, de certa forma o livro se basta, nenhuma dúvida. Porém achei bom conhecer, saber do que tratam as passagens do poema épico que, afinal, ronda a estrutura do livro. Saber o que se passou com Odisseu quando ele se deparou com o ciclope, por exemplo, deu mais graça ao episódio da taverna, em minha leitura (pessoal e intransferível), o que não é o mesmo que dizer que não saber nada do ciclope impeça alguém de apreciar o texto de Joyce. O mesmo serve para Hamlet, outro texto quase onipresente ao longo do livro. O fato é que Ulysses me parece se beneficiar de um modo muito particular das leituras prévias com as quais passeamos por suas páginas. Fico tonta só de pensar no tanto que certamente não vi - ainda assim, valeu o passeio. Sempre vale.  

De tanto querer ficar frente a frente com Leopold Bloom, é possível que o reencontro com Stephen Dedalus (protagonista de Um artista...) nos capítulos iniciais de Ulysses tenha me deixado inquieta. Talvez por isso o quarto capítulo, no qual somos apresentados ao casal Bloom, tenha para mim o selo de primeiro momento queridinho do livro. A partir daí, seguindo as andanças do protagonista ao longo do dia, gostei especialmente dos episódios que se passam no cemitério, na biblioteca e no hospital. Minha palavra para Ulysses é ternura, e talvez nesses episódios as atitudes de Leopold Bloom que suscitam essa ternura me pareçam mais evidentes. Há deslocamento e solidão e às vezes um quase apagamento que me deixavam com vontade de consolar o moço. Ou de ouvi-lo de verdade, prestando atenção - que é, me parece, algo que o faria muito bem. Ser ouvido. 

Se, contudo, o foco estiver na técnica narrativa, vou ter trabalho para escolher meu episódio favorito. Falei um pouco disso aqui. É mais fácil apontar o que me cansou e me fez torcer pelo final do capítulo: a estrutura soluçante do episódio alucinado no bordel demandou paciência. O conteúdo hilário salvou a leitura. 

O famoso monólogo de Molly Bloom está lá em toda sua glorificada fama. Mas é o capítulo que o antecede, a volta para casa na madrugada, que certamente vai me fazer reabrir o livro de vez em quando. Fiz um filme dele em minha cabeça.

2020, apesar de toda sua insistente chatice, tem sido um ano de leituras bem interessantes. Ulysses merecia um ano melhor, admito. Mas vou encarar diferente, como inspiração. O dia mundano de Bloom é todo permeado pelo que de melhor o humano tem e faz: busca, contemplação reverente diante da enormidade da natureza, compaixão, amor filial, amor universal, arte, ciência, os labirintos fascinantes de nossa mente (estou deixando de fora os elementos menos nobres, não reparem). E é assim, no fim das contas, um dia de cada vez. Sabemos que cabe a história inteirinha da humanidade, com toda sua inquieta filosofia e exuberante evolução, nas 24 horas de cada dia. É só a gente prestar atenção. Ulysses é isso: um livro de prestar atenção.  

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"-Mas não adianta, ele falou. Força, ódio, história, isso tudo. Isso não é vida pros homens e mulheres, ódio e xingamento. E todo mundo sabe que é exatamente o contrário disso que é a vida de verdade.

-O quê? o Alf falou.

-Amor, o Bloom falou."

 
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