Gone indeed

(Esse é um post cheio de spoilers. O nome do livro está a quatro parágrafos do final do post. Se você se importa, espia lá antes de decidir ler.)

Imagine um livro sobre a guerra civil nos EUA contando uma história do ponto de vista dos que saíram perdedores do conflito, os sulistas que lutaram pela secessão e pela manutenção da escravidão em seus estados. Imagine que o livro tem como personagens centrais fazendeiros ricos cuja renda vinha do plantio de algodão com mão de obra escrava. No núcleo de personagens principais, imagine a rica filha de um fazendeiro, moça egoísta e mimada, um aristocrata culto (por quem a mocinha mimada é apaixonada), uma moça gentil e de fino trato (com quem o aristocrata culto se casa), senhores e senhoras de linhagem nobre, pessoas honradas que não chicoteiam os escravos, até cuidam deles quando ficam doentes, vejam que boas. 

Na história contada nesse livro a guerra explode, os homens se despedem, as mulheres esperam. A coisa fica feia para os sulistas, os nortistas avançam, bloqueiam, invadem. Com muitas baixas, os sulistas convocam os negros escravizados para a batalha, para lutar pela manutenção da condição de escravos. Muitos vão de bom grado porque odeiam os nortistas que estão invadindo suas terras, o sul. Porque, veja bem, nesse livro épico, os negros escravizados do sul dos Estados Unidos não queriam liberdade. Gostavam da vida que levavam porque eram bem tratados, não eram chicoteados e não precisavam de mais. A vida era boa nas plantações de algodão, o livro fala repetidamente da época pré-guerra como um idílio de paz e harmonia entre os povos. E festas. 

Mas voltemos à guerra. Os sulistas se ferram, o bloqueio traz a fome. Arrasado, o sul se curva. Os negros são libertados, o governo federal assume o poder na região, a reconstrução se inicia. Bem, esse é o pano de fundo. Em primeiro plano, os leitores desse livro acompanham a jornada daquela rica menina mimada. Ela perde tudo. O amor da vida dela (homem íntegro e honrado) está casado com a outra moça, a de fino trato, e passa muito tempo longe, nem sabemos se está vivo. A mãe morre de tifo, o pai enlouquece, a guerra não poupa ninguém. A antiga fazenda agora é terra arrasada, o algodão foi queimado, e o gado, roubado. Os negros foram embora, menos dois deles, que não são ingratos e ficam com a família agora miserável. Jamais se juntariam aos nortistas, não são como esses tais negros libertos que não querem saber de trabalhar, nos ensina o livro. 

A gente segue lendo. Aí a mocinha arregaça as mangas e mostra que é feita de muita coragem. Ara a terra, mata soldado que invade o que restou da fazenda, pega dinheiro do morto, vai à luta. No meio da peleja ela se casa com o pretendente da irmã porque ele tem dinheiro e os tempos são difíceis, ninguém tem tempo pra ser honrado, só o moço que ela ama, coitado, por onde anda. Pois o moço volta, mas ama a esposa, a mocinha sofre. Atenção ao que interessa: Atlanta (a mocinha ama a terra da fazenda, mas o dinheiro circula em Atlanta, então é pra lá que ela vai) fervilha na reconstrução. Agora é cobra engolindo cobra, há aproveitadores de todo tipo. Ela inclusive se envolve com um, um bon vivant bem esperto, o que rende muitos capítulos. 

Entre uma peripécia e outra da mocinha, aprendemos que a cidade está um inferno. Os negros agora são mão de obra cara, onde já se viu, o jeito é contratar detentos que custam quase nada. Prisioneiros doentes acorrentados são a onda do momento, negros escravizados são passado, atualizem-se. Enquanto isso, surge, olha a pouca vergonha, um tal departamento dos libertos que in-fer-ni-za a vida das pessoas de bem. Esse departamento do novo governo calhorda fiscaliza o pagamento dos salários dos negros libertos, e se você ousar não pagar pode ir preso! Além do mais, estão engajadíssimos na mudança das leis para permitir o voto dos negros - um golpe absurdo para se manter no poder, é óbvio. Sem falar na ignorância das pessoas do norte que se mudaram para o sul: ficam perguntando às pessoas negras como era a vida delas nas plantações, se apanhavam muito, se eram perseguidos quando fugiam. Olha o absurdo. Os personagens negros acham essas pessoas completamente sem noção e explicam que isso tudo é lenda, que ninguém sabe nada da cultura do sul, que o mundo tá do avesso e que eles agora estão na maior dificuldade porque não sabem o que fazer; antes sabiam, porque o dono dizia. Aparece até, olha que meigo, uma personagem negra que diz que desistiu, deu dessa tal liberdade, quer voltar lá pra fazenda, pra antiga dona. É bem bonitinho. 

Mas a mocinha, a personagem principal: fica viúva duas vezes, sai da miséria, ufa, sofre de amor, é cortejada pelo bon vivant. Na reta final da história, ela vai se casar com ele, ter uma filha, sofrer outros duros golpes do destino, comer o brioche que o diabo amassou. Porém, antes disso, nosso livro interessantíssimo tem outro trunfo: o aristocrata honrado por quem a mocinha é apaixonada e a esposa dele são como um contraponto na construção da personagem principal. A mocinha mimada e gananciosa passa o livro todo desdenhando da sonsa da esposa do aristocrata honrado, por ciúmes, claro. E só no final é que ela percebe que aquela mulher era uma pessoa de muito valor, de uma coragem diferente da dela, de uma lealdade que ela nunca conseguira apreciar de verdade. O casal aristocratinha honrado é o modelo de pessoas boas cujas vidas foram viradas do avesso pela guerra, mas que mantiveram uma conduta digna e que serve de norte moral do livro. 

Outra coisa que esse casal honrado também é: membro da Ku Klux Klan. Porque veja bem, o livro nos ensina que a Klan foi só uma organização que nasceu da união de pessoas de bem que precisaram fazer justiça com as próprias mãos e acabar com a pouca vergonha daquele governo que privilegiava negros libertos em detrimento das famílias tradicionais do sul. Para ilustrar isso bem direitinho, o livro cria uma situação em que a mocinha mimada, que a essas alturas é casada com o segundo marido (ele participa semanalmente de "reuniões políticas"), sofre uma tentativa de assalto na rua enquanto passa pelas imediações de uma comunidade negra. O marido, indignado, sai em busca do assaltante. Mas isso a gente só descobre depois, é tudo bem secreto. Ele organiza um ataque à tal comunidade negra e o faz com o auxílio do aristocrata honrado, do bon vivant e de outros personagens do núcleo central das famílias de bem, saudosistas dos bons tempos. Mas a coisa degringola e é bem aí o momento em que a heroína sem caráter descobre que o marido era membro da Klan. Ela não gosta, achava perigoso mesmo e uma péssima ideia porque atraía a atenção da polícia (não porque queimava pessoas ou algo assim). Surpresa, ela pergunta para outra personagem do núcleo do bem se o Fulano Aristocrata Que Eu Amo também é da Klan, ao que a amiga responde: querida, todos os homens honrados do sul são da Klan. Em off, o bon vivant, que a essas alturas já conquistou o apreço das pessoas de bem do sul, do leitor, da leitora, da mocinha e da torcida do flamengo, providencia a destruição das vestes usadas horas antes, aquelas com capa e capuz.

Em outro momento, quando a moça honrada conversa com o marido sobre ir para Nova Iorque ou ficar em Atlanta, ela insiste: vamos ficar, querido. Aqui nosso filhinho poderá ir à escola. Se formos para Nova Iorque ele teria de frequentar a escola com crianças negras e então precisaríamos de uma governanta para ensiná-lo em casa, seria muito caro. Na cena em que a mocinha mimada foge de Atlanta enquanto a cidade queima e sucumbe aos nortistas, ela agride a criança negra que a serve sem dó, porque precisam sair do sufoco em que estão, e a criança é lenta, desatenta, medrosa. Está com fome, amedrontada por causa das bombas que explodem por todo lado e dos corpos empilhados na estrada. Logo depois, a mocinha mimada açoita o cavalo faminto, que se recusa a andar e avançar. E então faz uma prece a Deus para que a perdoe por bater em um animal faminto. 

Li este livro porque o filme baseado nele fez parte de minha infância. Eu amava o filme. Vi várias vezes, corria feliz pra TV quando passava. À medida que fui ouvindo o audiolivro e as frases começaram a me incomodar, num crescendo que, no capítulo 37, me deixou enojada, comecei a me perguntar como cargas d'água eu não me lembrava desse nível de racismo descarado misturado a um negacionismo histórico da pior espécie e à celebração de uma das organizações supremacistas mais execráveis da história moderna quando pensava no filme. Terminei o livro, revi o filme. E vi, com certo alívio, que o filme camuflou muita coisa, escondeu qualquer referência explícita à Klan, evitou toda a discussão política referente ao pós-guerra e manteve o foco na saga pessoal da mocinha. Vi na tela outra vez as razões de meu afeto pelo filme nas cenas irretocáveis que seguem um primor até hoje, em plena era digital.

Claro que vocês já sabem que o livro é E o vento levou. Eu nunca tinha ouvido falar da fortíssima carga supremacista do livro. Só agora, durante a leitura, vi que o filme foi retirado da grade da HBO por questionamentos referentes ao tratamento dado aos poucos personagens negros na história - eles seriam muito amáveis com os carrascos, aparentemente rolou alguma discussão sobre o significado simbólico dessa caracterização. Li isso e pensei: o que dizer então dessa caracterização no livro. Para o narrador da história, as pessoas negras eram como crianças que precisam ser conduzidas, eram mais felizes escravizadas. É preciso estômago para ler a Sra. Margareth Michell. Eu precisei. Jamais vou ver a saga de Scarlet com os mesmos olhos. "Veja o tempo em que foi escrito, veja que ele retrata a postura de um grupo". Eu vejo. O problema é que o livro faz mais do que retratar, ele celebra. Para além das personagens, o livro tem um narrador saudosista. A descrição da Klan como união de "homens de bem" cansados de serem injustiçados é da narração da história, não do Butler ou do Mr. Kennedy. O mesmo para a descrição das pessoas negras como seres incapazes de autonomia, para o tratamento das violências contra escravos como se fosse lenda, para a noção de que o fim da escravidão foi uma ideia estúpida e descabida. 

O sucesso do livro que, entre outras coisas, homenageia a Klan foi instantâneo. Escrito em 1936, setenta anos depois do fim da guerra, pintou de honras o sul escravocrata, faturou o Pulitzer e bateu recorde de preço na venda de direitos para o cinema - cinquenta mil dólares na época, apenas um mês depois de lançado. 

O livro tem tantos elementos de uma boa história, o mundo não é justo. É tão fácil apreciá-lo. Rhett Butler e Scarlet O'Hara são personagens tão bons de se odiar. Ashley é tão absurdamente insuportável em sua covardia, ficamos tão felizes quando Scarlet finalmente enxerga isso, mesmo que seja, como sempre, porque lhe é conveniente enxergar isso naquele momento. Mas por trás das desventuras dos Hamilton, dos O'Hara, dos Wilkes, desenvolve-se uma história que chora o fim da escravidão, lamenta a ideia da igualdade entre os povos, celebra supremacia, ódio e morte. 

Confesso o alívio por ter confirmado que o filme deixou de fora as linhas narrativas mais intragáveis do livro. No entanto, é inegável que a coisa toda se manchou pra mim. Vendo o filme agora, quando Rhett disse "Frankly, my dear, I don't give a damn", acrescentei "me neither". Nem sofri mais. 

2 comentários:

Ana Paula Garcia de Medeiros disse...

Que texto maravilhoso!

Rita disse...

Obrigada. :-)

 
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