Breve nota sobre línguas e embriões

Existe uma tabela criada por Joyce para explicitar parcialmente o esquema de Ulysses. Nela estão incluídos, por exemplo, os títulos dos capítulos*, o ambiente no qual a história se desenvolve (uma praia, as ruas de Dublin, um cemitério, etc.), a manifestação artística que em algum nível permeia o trecho (pintura, arquitetura, música) e outros elementos simbólicos ou estruturais. Uma das colunas elenca as técnicas narrativas de cada episódio e é uma diversão à  parte. A gente dá uma olhada e se depara com "peristáltica", "labirinto" ou "desenvolvimento embrionário". Esta última é a técnica narrativa do segmento que acabei de ler: um texto escrito com a técnica do desenvolvimento embrionário. Oi

Pois essa bizarrice vem a ser bem interessante, ainda que partes do texto sejam ininteligíveis. Como assim? Assim: o capítulo se passa em uma maternidade. Alguns personagens conversam no refeitório enquanto aguardam notícias de uma mulher que está prestes a dar à luz. Joyce achou uma boa ideia usar essa parte da história para falar de fecundação, parto, nascimento e temas afins de um jeito que ele adora, fazendo a coisa narrada transparecer no tecido da linguagem que a narra. Ao longo do capítulo, a língua inglesa em sua forma escrita se desenvolve tal qual um embrião. Alguns dos parágrafos iniciais são quase um aglomerado de vocábulos que somente depois de muitas linhas começam a tomar a forma de um inglês parcialmente inteligível, porém ainda estranhíssimo. Um parágrafo por vez, o texto salta de um estilo a outro, aparentemente modernizando-se pouco a pouco. A tradição escrita de uma língua acumula muitos registros distintos e, portanto, essas páginas malucas têm parágrafo que soa como romance de cavalaria seguido por outro sombrio e meio gótico, que, por sua vez, é seguido por um escrito em pomposo "juridiquês", etc. O céu é o limite. Ponto, parágrafo, erudito, ponto, parágrafo, moralista, ponto, parágrafo, rebuscado, ponto, parágrafo, prosa cristalina. Quando finalmente a leitura se torna confortável, fluente, e a gente nem franze mais o cenho, eis que o embrião formado mistura tudo e somos atropelados por uma profusão de sotaques, registros  mirabolantes, a falta de rumo do papo de bêbado. É a língua nunca pronta, solta no mundo, falada nas ruas por um grupo de homens que acaba de deixar a maternidade e cai na noite rumo ao pub, alguns ainda sóbrios, outros nem tanto; o bebê nasceu, segue a história. 

Achei doido e muito bacana. 

***

*Os títulos dos capítulos foram suprimidos por Joyce antes de iniciada a publicação seriada do livro. Incluídos na tabela, aludem a trechos da Odisseia de Homero. Existe o capítulo "Ciclope", o "Sereias", "Calipso" etc. 

P.S. Sei lá se é spoiler. Não importa, juro. 


0 comentários:

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }