As primeiras horas

Como eu ia dizendo, decidi ler Ulysses. A ideia inicial era ler o original. Depois cogitei ler uma tradução. Nos dois casos, sabia que recorreria ao auxílio de paratextos. Quando li sobre o Sim, digo sim, espécie de guia de leitura escrito pelo tradutor da edição que escolhi, Caetano Galindo, cresci o olho. Por fim, peguei o pacote completo. Estou lendo o original e relendo alguns trechos na tradução. Às vezes consulto sites na internet quando uma palavra ou frase mais obscura me deixa curiosa demais para seguir sem ao menos saber a que o Joyce estaria aludindo ali. Nesses casos, tenho ido quase sempre ao joyceproject. Às vezes a palavra obscura segue obscura, vou em frente. 

Os capítulos, ou episódios, têm estruturas bem distintas. Ao terceiro capítulo, por exemplo, o mais denso dos iniciais, praticamente todo dentro da cabeça de Stephen Dedalus, segue-se o suave episódio que nos apresenta o casal Bloom. Depois de cada um, leio os comentários do Galindo sobre aquele momento no Sim, digo sim, o que sempre amarra pontas (e revela outras) e enriquece o pacote. A tradução do Galindo é uma beleza à parte, à medida que avanço vou lendo mais e mais dela. Tem sido assim, praticamente uma valsa, pra lá, pra cá, pra lá.

Antes, porém, o flerte foi longo. E foram muitas as vozes que me contaram da frustração diante de um livro cheio de partes ininteligíveis, longo, truncado, no qual muito pouco acontece. Ao mesmo tempo, em meu entorno, são igualmente abundantes as vozes dos que leram e se apaixonaram pelo livro ou partes dele, cabendo aí inclusive os que a ele reservam lugar de honra na lista de livros da vida e até celebram anualmente o Bloomsday. Nenhum dos dois grupos alterava minha decisão de "um dia" ler Ulysses. O flerte, como falei, era antigo. Mas é verdade que o primeiro grupo me levou a me cercar de paratextos. 

Adiar a leitura acabou sendo um bom negócio, para mim. A impressão que tenho, e isso é algo absolutamente particular, é que quando mais trazemos para a conversa com o livro, melhor. Tudo que li antes me serve agora. E ainda que isso seja em princípio verdadeiro para qualquer livro, diante de uma obra tão rica em referências e experimentos como Ulysses essa sensação é ainda mais forte. 

Registro: eu quis muito gostar de Ulysses. Tem sido uma alegria então descobrir que sim, eu quero sim. No meu 16 de junho ainda são 8h45 da manhã, o dia mal começou. Tem sol, mas uma nuvem grande ronda a luz. Vou lá ver qual é.

"Velozquente luz do sol veio corrente da Berkeley Road, vivaz, com sandálias exíguas, pela trilha que se abrilhantava. 
Corre, ela corre pra me encontrar, uma menina de cabelo dourado ao vento." 

Ulysses, Ulysses e Sim

Escrevi assim no Face:

Não sei vocês, mas eu tenho cá aqueles livros que "um dia vou ler"... e nunca, né. O nunca pode ter várias razões, de fila infinita a não encontrar o livro nem em sebo. E há aqueles que não leio porque deliberadamente decido que ainda não. Ainda não é hora. Ainda não tô com vontade suficiente. Ainda não tenho saco para essa conversa. Ainda não li aquele antes. Pois bem, Ulysses é um "ainda não". Ou foi, até agora. Adiei por tudo: tempo, suspeita de não estar com disposição para uma leitura que obviamente tem lá suas exigências, certeza de não estar no clima -- cada hora trazia seu motivo. Nunca a falta de curiosidade. Desde que me deparei com o volume de capa branca, não faço ideia da editora, há milênios, na época da faculdade, pensei "um dia". Depois de ler contos do Joyce, cogitei. Depois de Retrato do artista, cogitei. Depois de ler sobre, adiei. Depois de ler mais sobre, ouvir palestras sobre, ouvir tradutores sobre, quis muito. Pois bem, agora vai. Comprei original, a tradução do Galindo, além do "Sim, eu digo sim", o guia de leitura também do Galindo (este último em ebook). Tem um pouco de "finalmente", mas só um pouco. É finalmente porque quero faz tempo, mas ao mesmo tempo não é; porque não acho que exista leitura obrigatória. Obrigatório é comer bolinho de chuva e admirar a lua. Se é pra ler literatura, que seja com entrega. Lá vou eu.

O livro de Gavroche


Em parte, minha leitura de Os miseráveis "acabou" quando Gavroche saiu de cena. Depois de tantas centenas de páginas passadas, essa foi a mais pesada de se virar. Segui, claro. Ontem à noite me despedi deles todos, terminei meu passeio por ruas, praças, estalagens sombrias, Waterloo, Austerlitz, pardieiros, barricadas, levantes, esgotos, a Paris da palavra de Victor Hugo. Mas foi assim, nem Jean Valjean, nem Cosette, nem Marius. Em meu coração, é mais o livro de Gavroche do que qualquer outro.
Saio desse "romance imenso", como bem o descrevem, com a impressão de um Victor Hugo ao mesmo tempo perspicaz como poucos, ingênuo como tantos, um sonhador inocente que não poderia jamais imaginar os horrores que o século XX ainda nos traria (e nem vamos falar do XXI, shhh!), um leitor sagaz de sua própria realidade. Comovida ou sussurrando "you know nothing, Hugo Snow", comi com avidez cada nota de rodapé e cada diálogo, cada narrativa histórica e cada descrição arquitetônica, cada frase eternizada e cada repetição prolixa e apaixonada.
Ninguém sai o mesmo de uma grande obra. Não está ainda entre minhas favoritas da vida, mas certamente foi companhia caríssima nesses dias estranhos. Viva a literatura que nos salva.

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"Há um modo de fugir em tudo semelhante à procura." VH*

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*Eu adoraria ter lido Victor Hugo diretamente em seu lindo idioma, mas não tenho francês para tanto. Li o que me pareceu uma ótima tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, numa edição bonitinha, riquíssima de notas e com apresentação de Renato Janine Ribeiro (Ed. Penguin Companhia).

(post publicado no Face, mas por lá tudo se perde; quis guardar aqui)
 
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