O livro de Gavroche


Em parte, minha leitura de Os miseráveis "acabou" quando Gavroche saiu de cena. Depois de tantas centenas de páginas passadas, essa foi a mais pesada de se virar. Segui, claro. Ontem à noite me despedi deles todos, terminei meu passeio por ruas, praças, estalagens sombrias, Waterloo, Austerlitz, pardieiros, barricadas, levantes, esgotos, a Paris da palavra de Victor Hugo. Mas foi assim, nem Jean Valjean, nem Cosette, nem Marius. Em meu coração, é mais o livro de Gavroche do que qualquer outro.
Saio desse "romance imenso", como bem o descrevem, com a impressão de um Victor Hugo ao mesmo tempo perspicaz como poucos, ingênuo como tantos, um sonhador inocente que não poderia jamais imaginar os horrores que o século XX ainda nos traria (e nem vamos falar do XXI, shhh!), um leitor sagaz de sua própria realidade. Comovida ou sussurrando "you know nothing, Hugo Snow", comi com avidez cada nota de rodapé e cada diálogo, cada narrativa histórica e cada descrição arquitetônica, cada frase eternizada e cada repetição prolixa e apaixonada.
Ninguém sai o mesmo de uma grande obra. Não está ainda entre minhas favoritas da vida, mas certamente foi companhia caríssima nesses dias estranhos. Viva a literatura que nos salva.

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"Há um modo de fugir em tudo semelhante à procura." VH*

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*Eu adoraria ter lido Victor Hugo diretamente em seu lindo idioma, mas não tenho francês para tanto. Li o que me pareceu uma ótima tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, numa edição bonitinha, riquíssima de notas e com apresentação de Renato Janine Ribeiro (Ed. Penguin Companhia).

(post publicado no Face, mas por lá tudo se perde; quis guardar aqui)

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