Dos calendários


Diz o meme da internet que esse ano não conta. Confinados ou semiconfinados, sem encontros e celebrações, muitos de nós sem a rotina de horário, trânsito e almoço engolido às pressas, com tanta tristeza no noticiário e tanto pesadelo no comando, esse ano não vale.  Não o estamos usando da forma devida, não conseguimos dar aos dias os formatos que planejamos ou mentalizamos no réveillon. Vamos saltar para o próximo, assim que der.

Alívios cômicos à parte, a verdade é que vale, sim. Eu vou contar esse ano como uma das épocas de maior espanto de minha vida. Pela primeira vez desde que me tornei mãe há pouco mais de quinze anos tive medo de deixar meus filhos precocemente sem mim no mundo. Foi o primeiro ano em que me tranquei em casa com medo de ficar doente ou de trazer uma enfermidade ameaçadora para casa. Foi a primeira vez na vida de meus filhos que eles ficaram exclusivamente em casa por 90 dias - e seguimos contando; nem quando eram bebês foram tão caseiros. 2020 é o ano em que retomamos sozinhos, meu marido e eu, todo o cuidado com nossa casa com todas as alegrias e trabalheiras infinitas envolvidas no processo e com toda a correria para conciliar a rotina doméstica com os compromissos do trabalho. Foi o ano em que descobri que posso mais na cozinha do que desconfiava. 2020 será lembrado também como o ano da tristeza coletiva, mesmo que a gente insista, e devemos insistir, em esperar que melhore, que passe, que superemos. 2020 é o primeiro ano em que vejo meus amigos quase que exclusivamente pela tela (em raras vezes no portão). 2020 é um ano sem sala de cinema, mas vou contá-lo justamente assim, como o ano em que senti tanta falta. É que sentir falta também é viver. Então estou contando.

Aqui gostamos dos minibilhetes que guardamos em um pequeno vaso para abrirmos na virada do ano e relembrarmos as pequenas alegrias, um calendário só com dias afetuosos. O pote está praticamente vazio, a gente não anota lá o pão de azeite ou a nova receita de bolo de laranja. Talvez devêssemos, mas desconfio que estamos guardando os bilhetinhos para escrever com alegria "saímos!". Enquanto isso, criamos outro inventário, o das leituras de quarentena. Em uma folha A4 presa à porta da geladeira vamos marcando os livros que têm nos feito companhia, cada um registrando ali o título que nos ajudou a atravessar mais uma tarde, mais um final de semana sem parque ou Lagoa, mais um feriado sem camping. Porque no fim das contas existem muitas formas de marcar o tempo. É bom estarmos atentos, há tanta mudança a ser feita, talvez nossa relação com o tempo esteja entre as mais prementes.

E assim chego a mais um aniversário. Dentro de casa com meus amores, dois cães e uma gata, sinto-me quase indecente - quem pode ter tanto? Vê-se que estou contando o tempo, mas comemoro mesmo é a percepção inabalável de que o amor é o quadrinho mais iluminado do calendário. É por essa janela que quero olhar o mundo e é apoiada nela que insisto em acreditar: vamos aprender.

   

7 comentários:

Juliana disse...

Que você siga com esse olhar amoroso pra vida, Rita! Muita saúde e muita paz!

Mila Fernandes disse...

"... sinto-me quase indecente - quem pode ter tanto?"

Me identifiquei tanto com essa frase (e o texto todo, na verdade) que estou chorando aqui deste lado da tela.

Toda vez que leio você falar da sua família, tenho a impressão de que são excelente companhia. Assim como você, estou bem acompanhada no isolamento, ainda que em menor número (aqui somos só o marido e eu), e sei que na situação atual isso nos torna muito sortudas (mais do que já éramos em outros setores da vida).

Seus textos, tristes ou felizes, continuam uma delícia. Seu poder de síntese é admirável. Parabéns por isso, Rita, pela família maravilhosa que formou e pelo dia de hoje!

Juliana disse...

Rita,
que a vida seja tão amorosa e gostosa como seus textos, estamos precisando amiga.
Parabéns. Abraço

Anônimo disse...

Muitos parabéns e tudo de bom na vossa vida!
Sílvia

Daniela disse...

Parabéns Rita, esse ano conta sim, muita saúde para você, que é o que mais precisamos agora.

É realmente do ano do espanto. Não sei se vai ficar como um hiato, ou como o início de outro tipo de vida.

Quando a minha filha nasceu, eu tinha muito medo de morrer e deixá-la sem mãe. Outras amigas também pensavam muito nisso. Isso melhorou um pouco à medida que ela crescia, mas voltou com força agora por causa da pandemia. Então sigo em casa, com todas precauções, que é o que está ao meu alcance.

Os teus textos são sempre pontos iluminados, pela delicadeza e pela beleza. Obrigada por compartilhar as tuas percepções conosco.

Anônimo disse...

Parabéns! Muita saúde e tranquilidade pra vc e sua família. Obrigada pelos textos cheios de emoção e delicadeza. Eles sempre me ajudam e me lembram que temos sentimentos em comum, que ninguém está sozinho nesse mar de confusão e desentendimento.
Soemis

Rita disse...

Poxa, pessoal, muito obrigada pelos comentários carinhosos. Bateu até saudades dos bons tempos de conversas nas caixas de comentários dos blogs. Agora quase tudo acontece pelas redes e se perde na velocidade da luz. Mas as palavras guardadas aqui são como velhas cartas numa caixa colorida. Estão sempre.

Obrigada demais.

 
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