De contagens perdidas e encantamentos de salvação


Vi o ótimo post  da Helena sobre os cem dias de quarentena (essa expressão já traz em si a loucura dos tempos, vamos combinar?) e me dei conta: deixei passar a data. O fato mostra que, entre trancos e barrancos, continuo, ao menos em parte, a mesma de sempre. Só em parte, contudo, bem sabemos. E talvez esquecer a centena de dias seja parte do exercício de reconsiderar minha relação com o tempo. Hum, bonito, mas deve ser só distração. 

Mas, uau, cem dias. Hoje, exatamente, cento e quatro. Descontando as eventuais saídas para buscar máscaras, fazer doações, pegar a Amora, meu mundo é minha casa e o que as telas e os livros me trazem. Meu marido segue trabalhando alguns dias por semana fora de casa, em outros, por trabalho remoto; meus filhos não saíram para nada, exceto o Arthur em tentativa frustrada de vacinação contra a gripe em que ele sequer saiu do carro. Registro para que no futuro que espero testemunhar eu releia e não duvide da memória. E para que eu nunca me esqueça de que para nós aqui em casa a coisa toda se fez mais serena do que para tantos que enfrentam diariamente a necessidade de se expor. 

A escola nos consultou sobre o retorno em agosto: teríamos coragem de enviar nossos filhos? Não consigo responder, não sei o que julho nos trará depois desse junho de curva que não olha pra baixo, hospitais em sufoco e pessoas em eterna negação. Meu marido segue cruzando com pessoas sem máscara em espaços fechados, adultos com acesso a gráficos, argumentos, artigos científicos e, espera-se, alguma noção de coletividade já devidamente enraizada. E aí vamos reclamar de crianças e adolescentes que descuidem da higiene ou se atrapalhem com a incômoda máscara? Quando o elástico da máscara pressionar as orelhas ao ponto da dor, o que farão no meio da aula de Geografia? E que aula presencial de Geografia pode ser tão urgente agora? Por outro lado, não é só de Geografia que se trata, mas dos amigos, dos olhares, da presença. Da enormidade do espaço escolar tão rico de sensações e vivência. Do barulho das vozes ao vivo, dos corredores percorridos em bando. Mas como andar em bando agora? Parece simples e fácil para muitos, um rápido "sim, passou da hora" ou "não, quem é louco?", mas realmente me surpreendo com quem tem a resposta na ponta da língua. Porque eu não sei. Nunca soube tão pouco em minha vida, desconfio. Agarro-me ao alento que é a escola querer saber e se importar com o que sinto. 

Mas esse post nem era sobre a escola, é que minha escrita anda assim meio perdida, vai para onde nem desconfio. Eu queria fazer um inventário do que foram esses dias, inspirada no post da Helena, um bilhete para o futuro. Recordar que de março a junho de 2020 eu cozinhei como nunca, tive a casa visitada em uma tentativa de roubo, providenciei uma cachorra que será grande, passei a me exercitar no tapete da sala, descobri em cursos online uma maneira de escancarar minhas janelas, senti saudades dos amigos que moram ali ao lado, conversei em certo regime de urgência repetida com amigos que moram a um oceano de distância, brindei vinho pela internet, senti medo de morrer, senti pavor de perder pessoas, fiz pão de novo e de novo e de novo, desisti de fechar as abas dos sites de receita, descobri o real valor do meu quintal, trabalhei à noite para poder dobrar roupa durante o dia; fugi para a literatura e, sem nenhuma surpresa, vi de novo e de novo espelhos, horizontes e salvação, vi que não era fuga nada, era resgate. Descobri em meus filhos uma maturidade insuspeita para lidar com uma situação tão limitadora e difícil na idade deles. Tenho ido dormir todas as noites com a sensação de que meu companheiro ao lado torna essa travessia possível.

O país segue aparentemente perdido de si mesmo, as dezenas de milhares de mortos aqui parecem não comover a todos como as dezenas de milhares de outras fronteiras. O Brasil segue sendo esse desafio diário: quando mais precisamos de ar, mais nos falta fôlego para tanto desatino. Tenho inveja de quem acredita numa ruptura inevitável com o sistema financeiro cujas fragilidade e falta de propósito se fazem tão evidentes em um momento como esse, porque, honestamente, há dias em que tudo me parece um pesadelo cujo despertar será feito de negação, repressão e camuflagem. Vide privatização da água. Da água. 

E no entanto, hoje é um dia chuvoso e bonito. Sobre a tristeza pelo coletivo e o medo que não suplantei, piso com suavidade e determinação. A determinação de não sucumbir à desesperança. Ela se materializa no sofá da sala onde me sento com esses adolescentes de braços compridos e pernas imensas que moram comigo e que me dizem das mais diferentes formas que amanhã é sempre um dia bom, iluminado e desenhado com idas e vindas; e abraços; e sonhos e planos e projetos; ela se materializa na vontade de seguir amando; também na vontade de me descobrir equivocada e me surpreender com horizonte coletivo bonito daqui a pouco, esperem só, logo virá. 

O mundo, a despeito de nós, mantém sua beleza. O encanto se dá em nossa relação com ele, em nosso olhar para essa chuva, essa mariposa na janela, essa azaleia que se abriu no jardim. Que esse encantamento nos inspire quantas vezes precisemos. 


5 comentários:

Renata Lins disse...

li o seu, li o da Helê e agora fiquei com vontade de contar tb. porque, de alguma forma, reconforta. sei lá.
não conto os dias. não consigo e me sufoca. vivo, de verdade, um dia depois do outro. não quero planejar nada, pensar no pós, fazer projetos. é um pé na frente do outro, um dia depois do outro, no longo colar de contas dia-dia-dia-dia. aniversários, zoom com os amigos, zoom de aniversários, seminários, laives, grupo de pesquisa, grupo de amigos, grupo da família, grupo dos filhos, grupo das primas, grupo.
beijo grande.

Luciana Nepomuceno disse...

eu, de vez em quanto, conto. às vezes os dias. às vezes as histórias. os dias passados. as histórias lembradas. nenhum plano, nenhuma certeza. ou uma: perdi algo de mim nesse caminho. nunca fui da música, hoje faço listas no youtube. enfim. tem estes portos, ou bóias, você, por exemplo. a renata, aqui em cima. sou bem mais incompetente em sobreviver que vocês. mas insisto.





Rita disse...

Renata e Lu, vocês são inspiração e parceria. Obrigada por tudo.

Helê disse...

Nossa, Rita, que texto lindo! Eu me senti contemplada e refletida em várias passagens: na escola que liga para o que eu penso,, no resgate ao invés da fuga, e no trecho que fala sobre a manutenção da beleza do mundo, apesar. Lembrou de um texto do Max Ehrmann, Desiderata, que pra mim tem feitio de oração. Escrever também é abraçar, obrigada por esse.

Rita disse...

Ah, Helê, querida, obrigada a você por comentário tão carinhoso.

 
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