Quarentininhas


Um blog que é quase um deserto.

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Tenho dado algumas braçadas aqui, num blog coletivo, tentando fazer chover.

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Eu faria um diário da quarentena se soubesse as palavras para descrever o que temos vivido. O que temos nós, mundo. Não apenas eu, meu marido e meus filhos, relativamente seguros em casa, com comida na mesa e sol no quintal. Disso talvez seja mais fácil falar.

Do fácil falo assim: como é difícil. Até o fácil tem sido desafiador. Viver na carne a mudança de paradigmas não é bolinho. (E é "relativamente" mesmo. Ninguém está totalmente seguro. No ambiente de trabalho que meu marido precisa frequentar, ainda que parte do trabalho esteja sendo feita de forma remota, nem todo mundo "acredita" na máscara ou gosta dela, ou se importa. Ou seja, nunca sabemos.)

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Nunca o sentido de coletividade se impôs de forma tão imperiosa. Como isso nos transformará?

"Nos transformará" - quão ingênuo, não? Não somos um bloco falando em uníssono que precisamos nos transformar. Muitos entre nós querem a "volta ao normal", o normal que tem se mostrado tão falho em lidar com uma emergência como a que vivemos. 

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Voltando a falar do fácil: o que mais me incomoda é o sumiço da escola. Há aulas remotas. Mas falo da escola propriamente dita, que vai muito além das aulas. Morro de pena desses dois (pré-)adolescentes em casa, longe dos amigos, dos embates, das descobertas, dos sustos, das caminhadas, dos tombos, dos almoços com a turma, das discussões acaloradas em sala de aula, de tudo que faz da escola uma experiência, até aqui, insubstituível. Eles? Lamentam, mas acho que acham que tiram de letra. (A ver.) No capítulo atual, quem sofre sou eu. 

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Se a literatura não existisse, eu a teria inventado na quarentena. 

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Vocês conhecem a piada do bad timing? Vou contar: era uma vez uma pessoa que interrompeu a terapia em janeiro, dois meses antes do fim do mundo. Fim. 

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Não sobrará país. Colar os cacos vai levar mais tempo do que ousamos supor agora. Respiremos. (Parada do orgulho estúpido. Não tarda.)

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(Interrompemos nossa programação para um momento good vibes.) Porém, porém, porém: há outras tribos. Há outras vozes que cantam em tons de luz, não de morte. Há muitos, são muitos os que não louvam a tortura, a guerra, o sofrimento, a estupidez ignorante e orgulhosa de sua própria torpeza; são muitos os racionais, homens e mulheres ternos, não porque não sejam firmes, mas por serem mais amorosos. Há muitos humanistas, muitos. Há muita gente no país celebrando a vida, lutando por ela e contando os dias para pararmos de sentir tanta vergonha e revolta. Virá, que eu vi. 

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(Não cura os males, mas a série ô de casas da Monica Salmaso é chá, sala e janela com sol.) 

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#fiqueemcasa


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