Born a crime: o Apartheid numa lupa


Durante o Apartheid, o regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, o relacionamento entre pessoas pertencentes a grupos raciais distintos era proibido por lei. A prática era sujeita a pena que incluía anos de prisão. Além de negros e brancos, o governo classificava pessoas como "de cor" e indianos. 

Crianças eram classificadas ao nascer. Se uma mãe negra desse à luz uma criança "de cor" (de pele mais clara devido à miscigenação), ela poderia perder a guarda da criança imediatamente além de ficar sujeita a outras penalidades. 

Curiosamente, uma pessoa "de cor" poderia ter status de branca se isso fosse conveniente para o Estado: se por alguma razão ela fosse classificada como branca, teria direito a empregos reservados aos brancos e a residir nas áreas destinadas a eles (normalmente áreas originalmente ocupadas por população negra expulsa quando o Apartheid foi instituído). Muitas pessoas "de cor" se inscreviam solicitando status de branco. No entanto, esse status  poderia ser revisto a qualquer momento, e a pessoa voltar a estar sujeita às restrições impostas à população não branca. 

Imagine a situação de um casal de homem e mulher "de cor" que gerassem um filho negro. Imagine que esse casal tivesse status de pessoas brancas (morando e trabalhando em área de brancos, com bom emprego e estrutura social razoável). Por serem "brancos", não poderiam criar uma criança negra. Para ficar com o filho ou filha, teriam de optar pelo status de negros. Normalmente, em casos assim, um dos membros do casal optava por permanecer "branco", enquanto o outro renunciava à cobiçada classificação para evitar a perda da guarda da criança. Assim, o casal necessariamente passava a viver na clandestinidade (caso não se separasse de vez), com cada um dos membros habitando uma região diferente da cidade onde morasse, e um dos membros perderia o emprego. 

Uma criança negra não poderia ser vista em público com seu pai branco, o que colocaria em risco a segurança de ambos. Uma mãe negra não poderia circular em segurança com seu filho "de cor", o que poderia chamar a atenção da polícia ou de espiões do regime. "Como pode ter um filho 'de cor'? Quem é o pai?"

"O Apartheid", essa coisa quase abstrata nos livros de história, ganha uma concretude quase insuportável quando leio sobre detalhes assim. Já é horroroso o suficiente imaginar um regime oficial de segregação, mas conhecer alguns meandros do mecanismo do regime evidencia a generosa cota de crueldade da história humana. Entrei curiosa no livro de Trevor Noah Born a crime (Ed. John Murray), e saí dele inevitavelmente comovida - e chocada, claro

Trevor Noah nasceu e passou a primeira infância na África do Sul do Apartheid. Viu o regime cair e presenciou na adolescência as consequências de décadas de segregação e escravidão: os índices absurdos de desemprego, a violência, a criminalidade, o racismo encravado no tecido humano do país. Filho de mãe negra e pai branco, ele foi um crime. Em Born a crime, ele fala dos primeiros anos de sua vida como criança "de cor", da adolescência e do início da vida adulta num país profundamente recortado. Trevor sendo Trevor, Born a crime é salpicado de humor. Trevor sendo Trevor, Born a crime é recheado de boas reflexões. A gente ri do primeiro amor frustrado na escola, mas se cala diante da descrição de algumas fotografias: ele, bebê, no colo de uma mulher "de cor" contratada pela mãe para passear com ele pelo parque, com ela, negra, ao fundo, como quem invade a fotografia. 

Muito do livro gira em torno da mãe de Trevor, uma figura sem dúvida notável. Lendo Born a crime, tentei exercitar algo que o texto de Trevor nos convida a fazer: evitar o julgamento rápido feito a partir de um lugar tão distinto daquele ocupado pelos personagens. Há tanto na conduta da mãe de Trevor que me poderia soar deslocado, surreal. Há outra leitura possível, no entanto, a visão do extraordinário: acordar todos os dias em um mundo que lhe diz que você é menor, indigno, escravo, e fazer de uma rotina assim uma luta que inclui evidenciar também o ridículo do sistema. A mãe de Trevor desafiou o proibido com as armas que tinha. Não é uma história impecável, é uma história incrível, vivida por gente marginalizada que cresceu ouvindo que o mundo não lhe pertencia. Born a crime é um pouco a história de um país, um pouco a história de sermos humanos, um pouco o retrato de como podemos ser feios. Ou lindos, ainda que em nossa imperfeição inevitável. Muito depende de que luta apoiamos.

***

(Dizem por aí que Lupita Nyong'o será a mãe de Trevor na adaptação cinematográfica de Born a crime. Esperemos.) 


2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Por um mundo em que as pessoas lessem com(o) você

Rita disse...

Oin, sua flor. Você leu esse? Rende risadas e choro. Devorei.

 
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