Florzinha


Tia Mariazinha (assim, no diminutivo), a caçula na família de meu pai. A mais baixinha, a  Mariazinha. A mais engraçada, sempre. "Tia não, prima!" Tá bom. Prima. Mas eu me esquecia e chamava Tia. O aniversário pertinho do da minha mãe; nem sempre eu ligava, mas sempre me lembrava. O sobrenome da família do meu pai é Flor. Então, vejam: Mariazinha Flor. Cabe em quantas histórias?

Tenho essa foto muito linda: eu, minha mãe, três tias, uma prima, mulherada. Estou em pé no canto direito da foto entre minha mãe e minha Tia Tereza. Minha Tia Tereza é aquela da voz. Sabe a voz que a gente traz na memória desde a infância? Adoro a voz dela. Na foto, Tia Tereza tem aquele mesmo sorriso, sabe? Bem aquele antes de dizer "e num é, menina? Besteira!" No outro extremo esquerdo, está Tia Sebastiana, mais séria, né? Claro. Sei. [pisc pisc] Ao lado dela, minha prima Ângela, com carinha de adolescente ainda, nem sonhava em ser a mãe derretida que é hoje. No centro da foto, a mãe dela, a tal Tia Mariazinha. Adivinha? Rindo de boca aberta, certamente falando alguma asneira ou contando alguma piada da qual a gente se acabou de rir depois da foto. Aposto. Está toda iluminada, vestida de azul, braço estendido, talvez chamando alguém mais pra foto? Ou só dizendo: "quero sair jovem". 

Mandei essa foto pra Ângela hoje, pra ela guardar esse momento. Ela tem muitos outros, claro; a mãe está em fotos do mês passado com a netinha, na praia, olha a delícia. Hoje estamos tentando dar as mãos umas às outras. Tia Mariazinha se foi. Há um mês, nem sabíamos da doença. Hoje, precisamos abraçar a Ângela e dizer que ela foi uma luz bonita na vida da Tia Mariazinha. Não que ela não saiba, mas a gente fala o amor, sempre. 

Faz tempo que desisti de tentar entender. Eu sinto, observo, vou vivendo. Em dias assim, sinto o amor, a importância dele. 

Não é bonito? Passar por essa vida e deixar gente falando de amor por aí?

Adeus, Tia. Quer dizer, prima. Obrigada pelos abraços todos.  

Born a crime: o Apartheid numa lupa


Durante o Apartheid, o regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, o relacionamento entre pessoas pertencentes a grupos raciais distintos era proibido por lei. A prática era sujeita a pena que incluía anos de prisão. Além de negros e brancos, o governo classificava pessoas como "de cor" e indianos. 

Crianças eram classificadas ao nascer. Se uma mãe negra desse à luz uma criança "de cor" (de pele mais clara devido à miscigenação), ela poderia perder a guarda da criança imediatamente além de ficar sujeita a outras penalidades. 

Curiosamente, uma pessoa "de cor" poderia ter status de branca se isso fosse conveniente para o Estado: se por alguma razão ela fosse classificada como branca, teria direito a empregos reservados aos brancos e a residir nas áreas destinadas a eles (normalmente áreas originalmente ocupadas por população negra expulsa quando o Apartheid foi instituído). Muitas pessoas "de cor" se inscreviam solicitando status de branco. No entanto, esse status  poderia ser revisto a qualquer momento, e a pessoa voltar a estar sujeita às restrições impostas à população não branca. 

Imagine a situação de um casal de homem e mulher "de cor" que gerassem um filho negro. Imagine que esse casal tivesse status de pessoas brancas (morando e trabalhando em área de brancos, com bom emprego e estrutura social razoável). Por serem "brancos", não poderiam criar uma criança negra. Para ficar com o filho ou filha, teriam de optar pelo status de negros. Normalmente, em casos assim, um dos membros do casal optava por permanecer "branco", enquanto o outro renunciava à cobiçada classificação para evitar a perda da guarda da criança. Assim, o casal necessariamente passava a viver na clandestinidade (caso não se separasse de vez), com cada um dos membros habitando uma região diferente da cidade onde morasse, e um dos membros perderia o emprego. 

Uma criança negra não poderia ser vista em público com seu pai branco, o que colocaria em risco a segurança de ambos. Uma mãe negra não poderia circular em segurança com seu filho "de cor", o que poderia chamar a atenção da polícia ou de espiões do regime. "Como pode ter um filho 'de cor'? Quem é o pai?"

"O Apartheid", essa coisa quase abstrata nos livros de história, ganha uma concretude quase insuportável quando leio sobre detalhes assim. Já é horroroso o suficiente imaginar um regime oficial de segregação, mas conhecer alguns meandros do mecanismo do regime evidencia a generosa cota de crueldade da história humana. Entrei curiosa no livro de Trevor Noah Born a crime (Ed. John Murray), e saí dele inevitavelmente comovida - e chocada, claro

Trevor Noah nasceu e passou a primeira infância na África do Sul do Apartheid. Viu o regime cair e presenciou na adolescência as consequências de décadas de segregação e escravidão: os índices absurdos de desemprego, a violência, a criminalidade, o racismo encravado no tecido humano do país. Filho de mãe negra e pai branco, ele foi um crime. Em Born a crime, ele fala dos primeiros anos de sua vida como criança "de cor", da adolescência e do início da vida adulta num país profundamente recortado. Trevor sendo Trevor, Born a crime é salpicado de humor. Trevor sendo Trevor, Born a crime é recheado de boas reflexões. A gente ri do primeiro amor frustrado na escola, mas se cala diante da descrição de algumas fotografias: ele, bebê, no colo de uma mulher "de cor" contratada pela mãe para passear com ele pelo parque, com ela, negra, ao fundo, como quem invade a fotografia. 

Muito do livro gira em torno da mãe de Trevor, uma figura sem dúvida notável. Lendo Born a crime, tentei exercitar algo que o texto de Trevor nos convida a fazer: evitar o julgamento rápido feito a partir de um lugar tão distinto daquele ocupado pelos personagens. Há tanto na conduta da mãe de Trevor que me poderia soar deslocado, surreal. Há outra leitura possível, no entanto, a visão do extraordinário: acordar todos os dias em um mundo que lhe diz que você é menor, indigno, escravo, e fazer de uma rotina assim uma luta que inclui evidenciar também o ridículo do sistema. A mãe de Trevor desafiou o proibido com as armas que tinha. Não é uma história impecável, é uma história incrível, vivida por gente marginalizada que cresceu ouvindo que o mundo não lhe pertencia. Born a crime é um pouco a história de um país, um pouco a história de sermos humanos, um pouco o retrato de como podemos ser feios. Ou lindos, ainda que em nossa imperfeição inevitável. Muito depende de que luta apoiamos.

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(Dizem por aí que Lupita Nyong'o será a mãe de Trevor na adaptação cinematográfica de Born a crime. Esperemos.) 


 
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