De potes e livros


Eu gosto bem da tal virada de ano. Dos pretextos que as pessoas inventam para fazer festa, marcar a dança do planeta em torno de sua estrela me parece dos mais bacanas. Não luto contra a sensação de fim de ciclo; ao invés disso, aproveito a onda e renovo planos, abandono outros, reforço torcida, a coisa toda. 

Hoje, de volta da viagem que fizemos para passar feriado de Ano Novo com amigos, abrimos o "pote de memórias" que mantemos aqui em casa e lemos os pequenos bilhetinhos que anotamos ao longo do ano, nossa pequena retrospectiva familiar. Combinamos de guardar apenas os momentos bons, como uma fonte renovada de alegria que visitamos a cada doze meses. Hoje estavam ali o dia em que Floquinho foi encontrado embaixo da casa (para nosso alívio, achamos que tinha fugido), as estreias da Amanda no teatro, a recuperação da saúde da mãe do Ulisses, amigos que vieram para o jantar, a vitória acachapante do Arthur numa partida de tabuleiro particularmente deliciosa, o dia em que adotamos a gatinha Bella, coisas miúdas e doces como uma amorinha boa. A gente bebe dessa fonte de risadas do potinho, joga fora os bilhetinhos e começa tudo de novo. 

Há anos olho para minha lista de leituras do ano que se acaba e vejo ali outros rastros, o pacote quase completo para atravessar as estações que a viagem da Terra nos dá: inspiração, fuga, crescimento, diversão, deslumbre, dor, nossa história de habitantes temporários daqui. É mais ou menos como abrir o pote da memória. Deixo aqui na forma de dicas para serem seguidas ou ignoradas, assim como as resoluções de Ano Novo. 

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Um pouco do que li de melhor em 2019, um ano difícil em níveis que nem consigo elaborar direito; entre vários outros, esses livros seguraram minha mão e me empurraram ladeira acima:

On the origin of species, Charles Darwin. - O primeiro do ano, o melhor, o mais emocionante, o abraço mais quentinho.

As cidades invisíveis, Italo Calvino, tradução de Diogo Mainardi. - O mais lindo.

As vinhas da ira, John, Steinbeck, tradução de H. Caro & E. Vinhaes. - O mais dolorido.

Rebentar, Rafael Galllo. - O mais sensível.

A série de 5 livros do Elio Gaspari sobre a ditadura militar no Brasil (A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada, A ditadura acabada) - O mais instrutivo, violento, revoltante. Brasil, uma biografia, de Schwarcz & Starling também fez parte do combo História do Brasil.

Os contos, Lygia Fagundes Telles - O reencontro mais gostoso; Lygia é minha musa, minha flor. 

Os testamentos, Margaret Atwood, tradução de Simone Campos - O mais necessário.

Barba ensopada de sangue, Daniel Galera - A melhor surpresa; caiu no meu colo, comecei e descobri um novo autor para seguir. Dele li também Meia-noite e vinte. A palavra que me vem é abundância. A escrita de Galera é rica, profunda, prenhe de boas palavras e frases certeiras.  

Frankenstein, Mary Shelley - o melhor clássico (a disputa foi boa no ano em que também li Dom Quixote e Fausto; Quixote pode ser o mais engraçado e Fausto pode ser a nossa cara (né?), mas o desespero de Frakenstein me tocou mais fundo).

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Vida longa às listas de leitura, meu povo. 

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