A borboleta que vem pela janela


"(...)sabão de lavar a alma,
alvejante de coração,
o chá de manter a calma,
o shampoo anti-depressão.

leites de longa vida,
balinhas de erudição,
spray de curar ferida,
azeite, disposição.(...)

A lista de versos do Paulo Cândido cai bem em qualquer quarentena. 

Eu soube do livro A canção da borboleta ausente quando ele ainda estava no prelo; o mundo já estava louco, mas ainda não tão perplexo quanto agora. E no meio dessa perplexidade, foi muito bom tê-lo enfim em minhas mãos. Foi um respiro, um saltinho na leveza. E uma descoberta das mais bacanas: aquele amigo de coração bom, das colocações certeiras e de uma cultura admirável é, também, olha só, um poeta. Não deveria ser surpresa, tamanha sua facilidade de modelar com palavras as conversas mais ricas, mas a poesia é terreno para poucos ousados. Então vibro com minha descoberta: nunca o mundo precisou tanto da poesia, visto que ela nos lembra que somos mais, muito mais. 

A canção da borboleta ausente é um projeto da Drops Editora e tem ilustrações da Fal Azevedo. Tem também prefácio da borboleta-mor, Luciana Nepomuceno. É uma janela da ar puro -- e não é hora de escancarar as janelas? E não se enganem com o título, o voo está lá.




Florzinha


Tia Mariazinha (assim, no diminutivo), a caçula na família de meu pai. A mais baixinha, a  Mariazinha. A mais engraçada, sempre. "Tia não, prima!" Tá bom. Prima. Mas eu me esquecia e chamava Tia. O aniversário pertinho do da minha mãe; nem sempre eu ligava, mas sempre me lembrava. O sobrenome da família do meu pai é Flor. Então, vejam: Mariazinha Flor. Cabe em quantas histórias?

Tenho essa foto muito linda: eu, minha mãe, três tias, uma prima, mulherada. Estou em pé no canto direito da foto entre minha mãe e minha Tia Tereza. Minha Tia Tereza é aquela da voz. Sabe a voz que a gente traz na memória desde a infância? Adoro a voz dela. Na foto, Tia Tereza tem aquele mesmo sorriso, sabe? Bem aquele antes de dizer "e num é, menina? Besteira!" No outro extremo esquerdo, está Tia Sebastiana, mais séria, né? Claro. Sei. [pisc pisc] Ao lado dela, minha prima Ângela, com carinha de adolescente ainda, nem sonhava em ser a mãe derretida que é hoje. No centro da foto, a mãe dela, a tal Tia Mariazinha. Adivinha? Rindo de boca aberta, certamente falando alguma asneira ou contando alguma piada da qual a gente se acabou de rir depois da foto. Aposto. Está toda iluminada, vestida de azul, braço estendido, talvez chamando alguém mais pra foto? Ou só dizendo: "quero sair jovem". 

Mandei essa foto pra Ângela hoje, pra ela guardar esse momento. Ela tem muitos outros, claro; a mãe está em fotos do mês passado com a netinha, na praia, olha a delícia. Hoje estamos tentando dar as mãos umas às outras. Tia Mariazinha se foi. Há um mês, nem sabíamos da doença. Hoje, precisamos abraçar a Ângela e dizer que ela foi uma luz bonita na vida da Tia Mariazinha. Não que ela não saiba, mas a gente fala o amor, sempre. 

Faz tempo que desisti de tentar entender. Eu sinto, observo, vou vivendo. Em dias assim, sinto o amor, a importância dele. 

Não é bonito? Passar por essa vida e deixar gente falando de amor por aí?

Adeus, Tia. Quer dizer, prima. Obrigada pelos abraços todos.  

Born a crime: o Apartheid numa lupa


Durante o Apartheid, o regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, o relacionamento entre pessoas pertencentes a grupos raciais distintos era proibido por lei. A prática era sujeita a pena que incluía anos de prisão. Além de negros e brancos, o governo classificava pessoas como "de cor" e indianos. 

Crianças eram classificadas ao nascer. Se uma mãe negra desse à luz uma criança "de cor" (de pele mais clara devido à miscigenação), ela poderia perder a guarda da criança imediatamente além de ficar sujeita a outras penalidades. 

Curiosamente, uma pessoa "de cor" poderia ter status de branca se isso fosse conveniente para o Estado: se por alguma razão ela fosse classificada como branca, teria direito a empregos reservados aos brancos e a residir nas áreas destinadas a eles (normalmente áreas originalmente ocupadas por população negra expulsa quando o Apartheid foi instituído). Muitas pessoas "de cor" se inscreviam solicitando status de branco. No entanto, esse status  poderia ser revisto a qualquer momento, e a pessoa voltar a estar sujeita às restrições impostas à população não branca. 

Imagine a situação de um casal de homem e mulher "de cor" que gerassem um filho negro. Imagine que esse casal tivesse status de pessoas brancas (morando e trabalhando em área de brancos, com bom emprego e estrutura social razoável). Por serem "brancos", não poderiam criar uma criança negra. Para ficar com o filho ou filha, teriam de optar pelo status de negros. Normalmente, em casos assim, um dos membros do casal optava por permanecer "branco", enquanto o outro renunciava à cobiçada classificação para evitar a perda da guarda da criança. Assim, o casal necessariamente passava a viver na clandestinidade (caso não se separasse de vez), com cada um dos membros habitando uma região diferente da cidade onde morasse, e um dos membros perderia o emprego. 

Uma criança negra não poderia ser vista em público com seu pai branco, o que colocaria em risco a segurança de ambos. Uma mãe negra não poderia circular em segurança com seu filho "de cor", o que poderia chamar a atenção da polícia ou de espiões do regime. "Como pode ter um filho 'de cor'? Quem é o pai?"

"O Apartheid", essa coisa quase abstrata nos livros de história, ganha uma concretude quase insuportável quando leio sobre detalhes assim. Já é horroroso o suficiente imaginar um regime oficial de segregação, mas conhecer alguns meandros do mecanismo do regime evidencia a generosa cota de crueldade da história humana. Entrei curiosa no livro de Trevor Noah Born a crime (Ed. John Murray), e saí dele inevitavelmente comovida - e chocada, claro

Trevor Noah nasceu e passou a primeira infância na África do Sul do Apartheid. Viu o regime cair e presenciou na adolescência as consequências de décadas de segregação e escravidão: os índices absurdos de desemprego, a violência, a criminalidade, o racismo encravado no tecido humano do país. Filho de mãe negra e pai branco, ele foi um crime. Em Born a crime, ele fala dos primeiros anos de sua vida como criança "de cor", da adolescência e do início da vida adulta num país profundamente recortado. Trevor sendo Trevor, Born a crime é salpicado de humor. Trevor sendo Trevor, Born a crime é recheado de boas reflexões. A gente ri do primeiro amor frustrado na escola, mas se cala diante da descrição de algumas fotografias: ele, bebê, no colo de uma mulher "de cor" contratada pela mãe para passear com ele pelo parque, com ela, negra, ao fundo, como quem invade a fotografia. 

Muito do livro gira em torno da mãe de Trevor, uma figura sem dúvida notável. Lendo Born a crime, tentei exercitar algo que o texto de Trevor nos convida a fazer: evitar o julgamento rápido feito a partir de um lugar tão distinto daquele ocupado pelos personagens. Há tanto na conduta da mãe de Trevor que me poderia soar deslocado, surreal. Há outra leitura possível, no entanto, a visão do extraordinário: acordar todos os dias em um mundo que lhe diz que você é menor, indigno, escravo, e fazer de uma rotina assim uma luta que inclui evidenciar também o ridículo do sistema. A mãe de Trevor desafiou o proibido com as armas que tinha. Não é uma história impecável, é uma história incrível, vivida por gente marginalizada que cresceu ouvindo que o mundo não lhe pertencia. Born a crime é um pouco a história de um país, um pouco a história de sermos humanos, um pouco o retrato de como podemos ser feios. Ou lindos, ainda que em nossa imperfeição inevitável. Muito depende de que luta apoiamos.

***

(Dizem por aí que Lupita Nyong'o será a mãe de Trevor na adaptação cinematográfica de Born a crime. Esperemos.) 


Occupy life


"Meu imperativo talvez fosse outro, embora impossível: 
me fazer praça, me fazer rua, me fazer prédio vazio, 
e que enfim me ocupasse o incontível da vida."

***

Um escritor que visita um antigo hotel abandonado convertido em ocupação por imigrantes sem teto, refugiados, despejados; e que se dispõe a ouvir as histórias desses ocupantes temporários. A história perdida de cada um, os bombardeios, as fugas (internas ou não). Ao mesmo tempo, no universo quase etéreo da vida privada, a gravidez da esposa, a enfermidade do velho pai. Um homem que tenta enxergar o coletivo que a todo momento lhe escapa enquanto também tenta tomar as rédeas de suas próprias peregrinações pessoais. Pessoas em ruínas, relacionamentos em pedaços, memórias que desmoronam. E os afetos, a vontade de enxergar, a tentativa nem sempre feliz de superar os escombros; a ocupação do peito, dos sentidos, da cidade. 

Comecei por aí meu ano de leituras. Cercada dos barulhos do início do ano, comecei devagar. Mas hoje, no meio da praia invadida por banhistas e turistas de todos os sotaques, encontrei meu silêncio e olhei com a atenção devida para esse livro breve e valioso. Julián Fuks, mais uma vez, se mostrou excelente companhia. 

De potes e livros


Eu gosto bem da tal virada de ano. Dos pretextos que as pessoas inventam para fazer festa, marcar a dança do planeta em torno de sua estrela me parece dos mais bacanas. Não luto contra a sensação de fim de ciclo; ao invés disso, aproveito a onda e renovo planos, abandono outros, reforço torcida, a coisa toda. 

Hoje, de volta da viagem que fizemos para passar feriado de Ano Novo com amigos, abrimos o "pote de memórias" que mantemos aqui em casa e lemos os pequenos bilhetinhos que anotamos ao longo do ano, nossa pequena retrospectiva familiar. Combinamos de guardar apenas os momentos bons, como uma fonte renovada de alegria que visitamos a cada doze meses. Hoje estavam ali o dia em que Floquinho foi encontrado embaixo da casa (para nosso alívio, achamos que tinha fugido), as estreias da Amanda no teatro, a recuperação da saúde da mãe do Ulisses, amigos que vieram para o jantar, a vitória acachapante do Arthur numa partida de tabuleiro particularmente deliciosa, o dia em que adotamos a gatinha Bella, coisas miúdas e doces como uma amorinha boa. A gente bebe dessa fonte de risadas do potinho, joga fora os bilhetinhos e começa tudo de novo. 

Há anos olho para minha lista de leituras do ano que se acaba e vejo ali outros rastros, o pacote quase completo para atravessar as estações que a viagem da Terra nos dá: inspiração, fuga, crescimento, diversão, deslumbre, dor, nossa história de habitantes temporários daqui. É mais ou menos como abrir o pote da memória. Deixo aqui na forma de dicas para serem seguidas ou ignoradas, assim como as resoluções de Ano Novo. 

***

Um pouco do que li de melhor em 2019, um ano difícil em níveis que nem consigo elaborar direito; entre vários outros, esses livros seguraram minha mão e me empurraram ladeira acima:

On the origin of species, Charles Darwin. - O primeiro do ano, o melhor, o mais emocionante, o abraço mais quentinho.

As cidades invisíveis, Italo Calvino, tradução de Diogo Mainardi. - O mais lindo.

As vinhas da ira, John, Steinbeck, tradução de H. Caro & E. Vinhaes. - O mais dolorido.

Rebentar, Rafael Galllo. - O mais sensível.

A série de 5 livros do Elio Gaspari sobre a ditadura militar no Brasil (A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada, A ditadura acabada) - O mais instrutivo, violento, revoltante. Brasil, uma biografia, de Schwarcz & Starling também fez parte do combo História do Brasil.

Os contos, Lygia Fagundes Telles - O reencontro mais gostoso; Lygia é minha musa, minha flor. 

Os testamentos, Margaret Atwood, tradução de Simone Campos - O mais necessário.

Barba ensopada de sangue, Daniel Galera - A melhor surpresa; caiu no meu colo, comecei e descobri um novo autor para seguir. Dele li também Meia-noite e vinte. A palavra que me vem é abundância. A escrita de Galera é rica, profunda, prenhe de boas palavras e frases certeiras.  

Frankenstein, Mary Shelley - o melhor clássico (a disputa foi boa no ano em que também li Dom Quixote e Fausto; Quixote pode ser o mais engraçado e Fausto pode ser a nossa cara (né?), mas o desespero de Frakenstein me tocou mais fundo).

***

Vida longa às listas de leitura, meu povo. 

 
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