Occupy life


"Meu imperativo talvez fosse outro, embora impossível: 
me fazer praça, me fazer rua, me fazer prédio vazio, 
e que enfim me ocupasse o incontível da vida."

***

Um escritor que visita um antigo hotel abandonado convertido em ocupação por imigrantes sem teto, refugiados, despejados; e que se dispõe a ouvir as histórias desses ocupantes temporários. A história perdida de cada um, os bombardeios, as fugas (internas ou não). Ao mesmo tempo, no universo quase etéreo da vida privada, a gravidez da esposa, a enfermidade do velho pai. Um homem que tenta enxergar o coletivo que a todo momento lhe escapa enquanto também tenta tomar as rédeas de suas próprias peregrinações pessoais. Pessoas em ruínas, relacionamentos em pedaços, memórias que desmoronam. E os afetos, a vontade de enxergar, a tentativa nem sempre feliz de superar os escombros; a ocupação do peito, dos sentidos, da cidade. 

Comecei por aí meu ano de leituras. Cercada dos barulhos do início do ano, comecei devagar. Mas hoje, no meio da praia invadida por banhistas e turistas de todos os sotaques, encontrei meu silêncio e olhei com a atenção devida para esse livro breve e valioso. Julián Fuks, mais uma vez, se mostrou excelente companhia. 

De potes e livros


Eu gosto bem da tal virada de ano. Dos pretextos que as pessoas inventam para fazer festa, marcar a dança do planeta em torno de sua estrela me parece dos mais bacanas. Não luto contra a sensação de fim de ciclo; ao invés disso, aproveito a onda e renovo planos, abandono outros, reforço torcida, a coisa toda. 

Hoje, de volta da viagem que fizemos para passar feriado de Ano Novo com amigos, abrimos o "pote de memórias" que mantemos aqui em casa e lemos os pequenos bilhetinhos que anotamos ao longo do ano, nossa pequena retrospectiva familiar. Combinamos de guardar apenas os momentos bons, como uma fonte renovada de alegria que visitamos a cada doze meses. Hoje estavam ali o dia em que Floquinho foi encontrado embaixo da casa (para nosso alívio, achamos que tinha fugido), as estreias da Amanda no teatro, a recuperação da saúde da mãe do Ulisses, amigos que vieram para o jantar, a vitória acachapante do Arthur numa partida de tabuleiro particularmente deliciosa, o dia em que adotamos a gatinha Bella, coisas miúdas e doces como uma amorinha boa. A gente bebe dessa fonte de risadas do potinho, joga fora os bilhetinhos e começa tudo de novo. 

Há anos olho para minha lista de leituras do ano que se acaba e vejo ali outros rastros, o pacote quase completo para atravessar as estações que a viagem da Terra nos dá: inspiração, fuga, crescimento, diversão, deslumbre, dor, nossa história de habitantes temporários daqui. É mais ou menos como abrir o pote da memória. Deixo aqui na forma de dicas para serem seguidas ou ignoradas, assim como as resoluções de Ano Novo. 

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Um pouco do que li de melhor em 2019, um ano difícil em níveis que nem consigo elaborar direito; entre vários outros, esses livros seguraram minha mão e me empurraram ladeira acima:

On the origin of species, Charles Darwin. - O primeiro do ano, o melhor, o mais emocionante, o abraço mais quentinho.

As cidades invisíveis, Italo Calvino, tradução de Diogo Mainardi. - O mais lindo.

As vinhas da ira, John, Steinbeck, tradução de H. Caro & E. Vinhaes. - O mais dolorido.

Rebentar, Rafael Galllo. - O mais sensível.

A série de 5 livros do Elio Gaspari sobre a ditadura militar no Brasil (A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada, A ditadura acabada) - O mais instrutivo, violento, revoltante. Brasil, uma biografia, de Schwarcz & Starling também fez parte do combo História do Brasil.

Os contos, Lygia Fagundes Telles - O reencontro mais gostoso; Lygia é minha musa, minha flor. 

Os testamentos, Margaret Atwood, tradução de Simone Campos - O mais necessário.

Barba ensopada de sangue, Daniel Galera - A melhor surpresa; caiu no meu colo, comecei e descobri um novo autor para seguir. Dele li também Meia-noite e vinte. A palavra que me vem é abundância. A escrita de Galera é rica, profunda, prenhe de boas palavras e frases certeiras.  

Frankenstein, Mary Shelley - o melhor clássico (a disputa foi boa no ano em que também li Dom Quixote e Fausto; Quixote pode ser o mais engraçado e Fausto pode ser a nossa cara (né?), mas o desespero de Frakenstein me tocou mais fundo).

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Vida longa às listas de leitura, meu povo. 

 
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