Meu passeio com Ulysses


"Essas areias pesadas são linguagem que maré e vento assorearam aqui."

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Meu sim foi há muito tempo em uma livraria de Campina Grande, durante a graduação em Letras. Foi um sim adiado. Joyce era o cara "que tinha influenciado Clarice", a do coração selvagem. O livro imenso, cercado por certa aura grandiloquente, me pareceu muito, deixei pra depois. Muitas horas se passaram e formaram anos. Um dia, me vi em uma biblioteca pública inglesa de onde saí com os contos de Dubliners embaixo do braço. Simpatizei com o moço. A simpatia virou um flerte mais intenso quando, mais um tanto bom de horas depois, em Santa Catarina, uma leitura mais cuidadosa de The Dead (Os mortos) me fez recordar aquele sim. Um novo tanto de tempo depois, puxei Um retrato do artista quando jovem da estante, conheci Stephen e reencontrei Clarice. Praticamente uma dança das horas prolongada.


Pois bem. Hoje terminei minha primeira leitura de Ulysses. Várias imagens fazem pleno sentido agora: o burburinho infinito em torno do dia 16 de junho; o leitor que larga o livro no capítulo/episódio 3; quem morre de rir; quem se encosta no sofá, respira fundo e se joga; quem se cerca de livros, manuais, dicionários e lupa. E acho que tudo cabe. Há várias maneiras de se ler qualquer livro, é assim com Ulysses também. A minha leitura começou com certa reverência (oi, finalmente, vamos lá?), passou por visitas frequentes à tradução mais recente no Brasil (inclusive, li alguns capítulos integralmente ali), oscilou entre o riso e a compaixão (acho que Bloom não ia gostar de ouvir isso), me levou de volta aos contos de Dublinenses

Há quem ache que não faz diferença conhecer ou não a Odisseia de Homero para se apreciar Ulysses. É verdade, de certa forma o livro se basta, nenhuma dúvida. Porém achei bom conhecer, saber do que tratam as passagens do poema épico que, afinal, ronda a estrutura do livro. Saber o que se passou com Odisseu quando ele se deparou com o ciclope, por exemplo, deu mais graça ao episódio da taverna, em minha leitura (pessoal e intransferível), o que não é o mesmo que dizer que não saber nada do ciclope impeça alguém de apreciar o texto de Joyce. O mesmo serve para Hamlet, outro texto quase onipresente ao longo do livro. O fato é que Ulysses me parece se beneficiar de um modo muito particular das leituras prévias com as quais passeamos por suas páginas. Fico tonta só de pensar no tanto que certamente não vi - ainda assim, valeu o passeio. Sempre vale.  

De tanto querer ficar frente a frente com Leopold Bloom, é possível que o reencontro com Stephen Dedalus (protagonista de Um artista...) nos capítulos iniciais de Ulysses tenha me deixado inquieta. Talvez por isso o quarto capítulo, no qual somos apresentados ao casal Bloom, tenha para mim o selo de primeiro momento queridinho do livro. A partir daí, seguindo as andanças do protagonista ao longo do dia, gostei especialmente dos episódios que se passam no cemitério, na biblioteca e no hospital. Minha palavra para Ulysses é ternura, e talvez nesses episódios as atitudes de Leopold Bloom que suscitam essa ternura me pareçam mais evidentes. Há deslocamento e solidão e às vezes um quase apagamento que me deixavam com vontade de consolar o moço. Ou de ouvi-lo de verdade, prestando atenção - que é, me parece, algo que o faria muito bem. Ser ouvido. 

Se, contudo, o foco estiver na técnica narrativa, vou ter trabalho para escolher meu episódio favorito. Falei um pouco disso aqui. É mais fácil apontar o que me cansou e me fez torcer pelo final do capítulo: a estrutura soluçante do episódio alucinado no bordel demandou paciência. O conteúdo hilário salvou a leitura. 

O famoso monólogo de Molly Bloom está lá em toda sua glorificada fama. Mas é o capítulo que o antecede, a volta para casa na madrugada, que certamente vai me fazer reabrir o livro de vez em quando. Fiz um filme dele em minha cabeça.

2020, apesar de toda sua insistente chatice, tem sido um ano de leituras bem interessantes. Ulysses merecia um ano melhor, admito. Mas vou encarar diferente, como inspiração. O dia mundano de Bloom é todo permeado pelo que de melhor o humano tem e faz: busca, contemplação reverente diante da enormidade da natureza, compaixão, amor filial, amor universal, arte, ciência, os labirintos fascinantes de nossa mente (estou deixando de fora os elementos menos nobres, não reparem). E é assim, no fim das contas, um dia de cada vez. Sabemos que cabe a história inteirinha da humanidade, com toda sua inquieta filosofia e exuberante evolução, nas 24 horas de cada dia. É só a gente prestar atenção. Ulysses é isso: um livro de prestar atenção.  

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"-Mas não adianta, ele falou. Força, ódio, história, isso tudo. Isso não é vida pros homens e mulheres, ódio e xingamento. E todo mundo sabe que é exatamente o contrário disso que é a vida de verdade.

-O quê? o Alf falou.

-Amor, o Bloom falou."

A dança das horas


 "De um canto correm as horas matutinas, cabelouradas, exíguas, em donzélico azul, cinturasdevespas, com mãos inocentes. Velozes dançam, girando suas cordas saltantes. 

As horas da tarde seguem em ouro ambarino. Rindo, braços dados, altos pentes reluzindo, refletem o sol em espelhos derridentes, erguendo os braços. (...)

As horas matutinas e vespertinas valsam em seus lugares girando, avançando umas até as outras, moldando suas curvas, curvando-se visavis. (...)

As horas do crepúsculo avançam de longas sombrasterrenas, dispersas, deixando-se ficar, olhânguidas, faces delicadas com hena e falsa flor tênue. Vestem-se em gaze gris com escuras mangas morcegas que tremulam à brisa terral. (...)

As horas da noite vão furtivas para o último lugar. Horas matutinas, vespertinas e crepusculares retiram-se antes delas. Estão mascaradas, com cabelo adagado e braceletes de sinos foscos. Exaustas, memesuram veladas. (...) 

Arabescando exaustamente elas tecem no chão um padrão, 

tecendo, destecendo, mesurando, regirando..."

(Trechos extraídos da tradução de C. Galindo para o Ulysses de J. Joyce.)

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Dançam as horas nos delírios de Leopold Bloom; a noite já vai alta, e os capítulos finais se avizinham. 

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"From a corner the morning hours run out, goldhaired, slim, in girlish blue, 

waspwaisted, with innocent hands..."


Flying flower


A primavera que vem aí vai encontrar nossa casa mais florida do que o habitual. Graças aos cuidados persistentes do Ulisses ao longo de meses, nossas orquídeas floresceram todas, competindo em cores, formas e tamanhos pelo  posto de mais linda. Ou de mais abundante. Achei bem a calhar ter agora uma sala mais colorida, ainda mais por flores que se prestam muito bem a um simbolismo de algo duradouro, bonito no presente, com promessas de um futuro com cores também. Queria dá-las todas a você, minha pequena grande adolescente. Bem, elas já são suas, mas acho que me faço entender. Queria dizer que em meio a esse deslumbre que tenho celebrado diante de nossas orquídeas tenho visto nelas o reflexo do que você trouxe para nossas vidas: a redescoberta diária das cores do mundo. É claro que a comparação é limitada: queriam as orquídeas ter as asas que a vejo cultivar todos os dias. Mas aceite esse jeitinho meio torto de lhe dizer o quanto de beleza você nos trouxe. 13 anos. Acabou-se a infância "oficial", e nós esperamos que as coisas mais valiosas dela a acompanhem vida afora, para sempre: a entrega ao sonho, o entusiasmo diante da descoberta, o prazer intenso e insubstituível de uma boa fatia do seu bolo favorito. Que a menina que você foi até aqui seja sua boa companheira nos anos que virão, que ela a chame para brincar todos os dias. Amo todas as suas cores, minha querida menina. Seja feliz, livre e dançarina. 


Por esses dias, amarelo é sua cor favorita. A flor da janela tá acenando pra você nessa sua manhã ensolarada. Feliz aniversário, moleca.  



Breve nota sobre línguas e embriões

Existe uma tabela criada por Joyce para explicitar parcialmente o esquema de Ulysses. Nela estão incluídos, por exemplo, os títulos dos capítulos*, o ambiente no qual a história se desenvolve (uma praia, as ruas de Dublin, um cemitério, etc.), a manifestação artística que em algum nível permeia o trecho (pintura, arquitetura, música) e outros elementos simbólicos ou estruturais. Uma das colunas elenca as técnicas narrativas de cada episódio e é uma diversão à  parte. A gente dá uma olhada e se depara com "peristáltica", "labirinto" ou "desenvolvimento embrionário". Esta última é a técnica narrativa do segmento que acabei de ler: um texto escrito com a técnica do desenvolvimento embrionário. Oi

Pois essa bizarrice vem a ser bem interessante, ainda que partes do texto sejam ininteligíveis. Como assim? Assim: o capítulo se passa em uma maternidade. Alguns personagens conversam no refeitório enquanto aguardam notícias de uma mulher que está prestes a dar à luz. Joyce achou uma boa ideia usar essa parte da história para falar de fecundação, parto, nascimento e temas afins de um jeito que ele adora, fazendo a coisa narrada transparecer no tecido da linguagem que a narra. Ao longo do capítulo, a língua inglesa em sua forma escrita se desenvolve tal qual um embrião. Alguns dos parágrafos iniciais são quase um aglomerado de vocábulos que somente depois de muitas linhas começam a tomar a forma de um inglês parcialmente inteligível, porém ainda estranhíssimo. Um parágrafo por vez, o texto salta de um estilo a outro, aparentemente modernizando-se pouco a pouco. A tradição escrita de uma língua acumula muitos registros distintos e, portanto, essas páginas malucas têm parágrafo que soa como romance de cavalaria seguido por outro sombrio e meio gótico, que, por sua vez, é seguido por um escrito em pomposo "juridiquês", etc. O céu é o limite. Ponto, parágrafo, erudito, ponto, parágrafo, moralista, ponto, parágrafo, rebuscado, ponto, parágrafo, prosa cristalina. Quando finalmente a leitura se torna confortável, fluente, e a gente nem franze mais o cenho, eis que o embrião formado mistura tudo e somos atropelados por uma profusão de sotaques, registros  mirabolantes, a falta de rumo do papo de bêbado. É a língua nunca pronta, solta no mundo, falada nas ruas por um grupo de homens que acaba de deixar a maternidade e cai na noite rumo ao pub, alguns ainda sóbrios, outros nem tanto; o bebê nasceu, segue a história. 

Achei doido e muito bacana. 

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*Os títulos dos capítulos foram suprimidos por Joyce antes de iniciada a publicação seriada do livro. Incluídos na tabela, aludem a trechos da Odisseia de Homero. Existe o capítulo "Ciclope", o "Sereias", "Calipso" etc. 

P.S. Sei lá se é spoiler. Não importa, juro. 


Gone indeed

(Esse é um post cheio de spoilers. O nome do livro está a quatro parágrafos do final do post. Se você se importa, espia lá antes de decidir ler.)

Imagine um livro sobre a guerra civil nos EUA contando uma história do ponto de vista dos que saíram perdedores do conflito, os sulistas que lutaram pela secessão e pela manutenção da escravidão em seus estados. Imagine que o livro tem como personagens centrais fazendeiros ricos cuja renda vinha do plantio de algodão com mão de obra escrava. No núcleo de personagens principais, imagine a rica filha de um fazendeiro, moça egoísta e mimada, um aristocrata culto (por quem a mocinha mimada é apaixonada), uma moça gentil e de fino trato (com quem o aristocrata culto se casa), senhores e senhoras de linhagem nobre, pessoas honradas que não chicoteiam os escravos, até cuidam deles quando ficam doentes, vejam que boas. 

Na história contada nesse livro a guerra explode, os homens se despedem, as mulheres esperam. A coisa fica feia para os sulistas, os nortistas avançam, bloqueiam, invadem. Com muitas baixas, os sulistas convocam os negros escravizados para a batalha, para lutar pela manutenção da condição de escravos. Muitos vão de bom grado porque odeiam os nortistas que estão invadindo suas terras, o sul. Porque, veja bem, nesse livro épico, os negros escravizados do sul dos Estados Unidos não queriam liberdade. Gostavam da vida que levavam porque eram bem tratados, não eram chicoteados e não precisavam de mais. A vida era boa nas plantações de algodão, o livro fala repetidamente da época pré-guerra como um idílio de paz e harmonia entre os povos. E festas. 

Mas voltemos à guerra. Os sulistas se ferram, o bloqueio traz a fome. Arrasado, o sul se curva. Os negros são libertados, o governo federal assume o poder na região, a reconstrução se inicia. Bem, esse é o pano de fundo. Em primeiro plano, os leitores desse livro acompanham a jornada daquela rica menina mimada. Ela perde tudo. O amor da vida dela (homem íntegro e honrado) está casado com a outra moça, a de fino trato, e passa muito tempo longe, nem sabemos se está vivo. A mãe morre de tifo, o pai enlouquece, a guerra não poupa ninguém. A antiga fazenda agora é terra arrasada, o algodão foi queimado, e o gado, roubado. Os negros foram embora, menos dois deles, que não são ingratos e ficam com a família agora miserável. Jamais se juntariam aos nortistas, não são como esses tais negros libertos que não querem saber de trabalhar, nos ensina o livro. 

A gente segue lendo. Aí a mocinha arregaça as mangas e mostra que é feita de muita coragem. Ara a terra, mata soldado que invade o que restou da fazenda, pega dinheiro do morto, vai à luta. No meio da peleja ela se casa com o pretendente da irmã porque ele tem dinheiro e os tempos são difíceis, ninguém tem tempo pra ser honrado, só o moço que ela ama, coitado, por onde anda. Pois o moço volta, mas ama a esposa, a mocinha sofre. Atenção ao que interessa: Atlanta (a mocinha ama a terra da fazenda, mas o dinheiro circula em Atlanta, então é pra lá que ela vai) fervilha na reconstrução. Agora é cobra engolindo cobra, há aproveitadores de todo tipo. Ela inclusive se envolve com um, um bon vivant bem esperto, o que rende muitos capítulos. 

Entre uma peripécia e outra da mocinha, aprendemos que a cidade está um inferno. Os negros agora são mão de obra cara, onde já se viu, o jeito é contratar detentos que custam quase nada. Prisioneiros doentes acorrentados são a onda do momento, negros escravizados são passado, atualizem-se. Enquanto isso, surge, olha a pouca vergonha, um tal departamento dos libertos que in-fer-ni-za a vida das pessoas de bem. Esse departamento do novo governo calhorda fiscaliza o pagamento dos salários dos negros libertos, e se você ousar não pagar pode ir preso! Além do mais, estão engajadíssimos na mudança das leis para permitir o voto dos negros - um golpe absurdo para se manter no poder, é óbvio. Sem falar na ignorância das pessoas do norte que se mudaram para o sul: ficam perguntando às pessoas negras como era a vida delas nas plantações, se apanhavam muito, se eram perseguidos quando fugiam. Olha o absurdo. Os personagens negros acham essas pessoas completamente sem noção e explicam que isso tudo é lenda, que ninguém sabe nada da cultura do sul, que o mundo tá do avesso e que eles agora estão na maior dificuldade porque não sabem o que fazer; antes sabiam, porque o dono dizia. Aparece até, olha que meigo, uma personagem negra que diz que desistiu, deu dessa tal liberdade, quer voltar lá pra fazenda, pra antiga dona. É bem bonitinho. 

Mas a mocinha, a personagem principal: fica viúva duas vezes, sai da miséria, ufa, sofre de amor, é cortejada pelo bon vivant. Na reta final da história, ela vai se casar com ele, ter uma filha, sofrer outros duros golpes do destino, comer o brioche que o diabo amassou. Porém, antes disso, nosso livro interessantíssimo tem outro trunfo: o aristocrata honrado por quem a mocinha é apaixonada e a esposa dele são como um contraponto na construção da personagem principal. A mocinha mimada e gananciosa passa o livro todo desdenhando da sonsa da esposa do aristocrata honrado, por ciúmes, claro. E só no final é que ela percebe que aquela mulher era uma pessoa de muito valor, de uma coragem diferente da dela, de uma lealdade que ela nunca conseguira apreciar de verdade. O casal aristocratinha honrado é o modelo de pessoas boas cujas vidas foram viradas do avesso pela guerra, mas que mantiveram uma conduta digna e que serve de norte moral do livro. 

Outra coisa que esse casal honrado também é: membro da Ku Klux Klan. Porque veja bem, o livro nos ensina que a Klan foi só uma organização que nasceu da união de pessoas de bem que precisaram fazer justiça com as próprias mãos e acabar com a pouca vergonha daquele governo que privilegiava negros libertos em detrimento das famílias tradicionais do sul. Para ilustrar isso bem direitinho, o livro cria uma situação em que a mocinha mimada, que a essas alturas é casada com o segundo marido (ele participa semanalmente de "reuniões políticas"), sofre uma tentativa de assalto na rua enquanto passa pelas imediações de uma comunidade negra. O marido, indignado, sai em busca do assaltante. Mas isso a gente só descobre depois, é tudo bem secreto. Ele organiza um ataque à tal comunidade negra e o faz com o auxílio do aristocrata honrado, do bon vivant e de outros personagens do núcleo central das famílias de bem, saudosistas dos bons tempos. Mas a coisa degringola e é bem aí o momento em que a heroína sem caráter descobre que o marido era membro da Klan. Ela não gosta, achava perigoso mesmo e uma péssima ideia porque atraía a atenção da polícia (não porque queimava pessoas ou algo assim). Surpresa, ela pergunta para outra personagem do núcleo do bem se o Fulano Aristocrata Que Eu Amo também é da Klan, ao que a amiga responde: querida, todos os homens honrados do sul são da Klan. Em off, o bon vivant, que a essas alturas já conquistou o apreço das pessoas de bem do sul, do leitor, da leitora, da mocinha e da torcida do flamengo, providencia a destruição das vestes usadas horas antes, aquelas com capa e capuz.

Em outro momento, quando a moça honrada conversa com o marido sobre ir para Nova Iorque ou ficar em Atlanta, ela insiste: vamos ficar, querido. Aqui nosso filhinho poderá ir à escola. Se formos para Nova Iorque ele teria de frequentar a escola com crianças negras e então precisaríamos de uma governanta para ensiná-lo em casa, seria muito caro. Na cena em que a mocinha mimada foge de Atlanta enquanto a cidade queima e sucumbe aos nortistas, ela agride a criança negra que a serve sem dó, porque precisam sair do sufoco em que estão, e a criança é lenta, desatenta, medrosa. Está com fome, amedrontada por causa das bombas que explodem por todo lado e dos corpos empilhados na estrada. Logo depois, a mocinha mimada açoita o cavalo faminto, que se recusa a andar e avançar. E então faz uma prece a Deus para que a perdoe por bater em um animal faminto. 

Li este livro porque o filme baseado nele fez parte de minha infância. Eu amava o filme. Vi várias vezes, corria feliz pra TV quando passava. À medida que fui ouvindo o audiolivro e as frases começaram a me incomodar, num crescendo que, no capítulo 37, me deixou enojada, comecei a me perguntar como cargas d'água eu não me lembrava desse nível de racismo descarado misturado a um negacionismo histórico da pior espécie e à celebração de uma das organizações supremacistas mais execráveis da história moderna quando pensava no filme. Terminei o livro, revi o filme. E vi, com certo alívio, que o filme camuflou muita coisa, escondeu qualquer referência explícita à Klan, evitou toda a discussão política referente ao pós-guerra e manteve o foco na saga pessoal da mocinha. Vi na tela outra vez as razões de meu afeto pelo filme nas cenas irretocáveis que seguem um primor até hoje, em plena era digital.

Claro que vocês já sabem que o livro é E o vento levou. Eu nunca tinha ouvido falar da fortíssima carga supremacista do livro. Só agora, durante a leitura, vi que o filme foi retirado da grade da HBO por questionamentos referentes ao tratamento dado aos poucos personagens negros na história - eles seriam muito amáveis com os carrascos, aparentemente rolou alguma discussão sobre o significado simbólico dessa caracterização. Li isso e pensei: o que dizer então dessa caracterização no livro. Para o narrador da história, as pessoas negras eram como crianças que precisam ser conduzidas, eram mais felizes escravizadas. É preciso estômago para ler a Sra. Margareth Michell. Eu precisei. Jamais vou ver a saga de Scarlet com os mesmos olhos. "Veja o tempo em que foi escrito, veja que ele retrata a postura de um grupo". Eu vejo. O problema é que o livro faz mais do que retratar, ele celebra. Para além das personagens, o livro tem um narrador saudosista. A descrição da Klan como união de "homens de bem" cansados de serem injustiçados é da narração da história, não do Butler ou do Mr. Kennedy. O mesmo para a descrição das pessoas negras como seres incapazes de autonomia, para o tratamento das violências contra escravos como se fosse lenda, para a noção de que o fim da escravidão foi uma ideia estúpida e descabida. 

O sucesso do livro que, entre outras coisas, homenageia a Klan foi instantâneo. Escrito em 1936, setenta anos depois do fim da guerra, pintou de honras o sul escravocrata, faturou o Pulitzer e bateu recorde de preço na venda de direitos para o cinema - cinquenta mil dólares na época, apenas um mês depois de lançado. 

O livro tem tantos elementos de uma boa história, o mundo não é justo. É tão fácil apreciá-lo. Rhett Butler e Scarlet O'Hara são personagens tão bons de se odiar. Ashley é tão absurdamente insuportável em sua covardia, ficamos tão felizes quando Scarlet finalmente enxerga isso, mesmo que seja, como sempre, porque lhe é conveniente enxergar isso naquele momento. Mas por trás das desventuras dos Hamilton, dos O'Hara, dos Wilkes, desenvolve-se uma história que chora o fim da escravidão, lamenta a ideia da igualdade entre os povos, celebra supremacia, ódio e morte. 

Confesso o alívio por ter confirmado que o filme deixou de fora as linhas narrativas mais intragáveis do livro. No entanto, é inegável que a coisa toda se manchou pra mim. Vendo o filme agora, quando Rhett disse "Frankly, my dear, I don't give a damn", acrescentei "me neither". Nem sofri mais. 

As primeiras horas

Como eu ia dizendo, decidi ler Ulysses. A ideia inicial era ler o original. Depois cogitei ler uma tradução. Nos dois casos, sabia que recorreria ao auxílio de paratextos. Quando li sobre o Sim, digo sim, espécie de guia de leitura escrito pelo tradutor da edição que escolhi, Caetano Galindo, cresci o olho. Por fim, peguei o pacote completo. Estou lendo o original e relendo alguns trechos na tradução. Às vezes consulto sites na internet quando uma palavra ou frase mais obscura me deixa curiosa demais para seguir sem ao menos saber a que o Joyce estaria aludindo ali. Nesses casos, tenho ido quase sempre ao joyceproject. Às vezes a palavra obscura segue obscura, vou em frente. 

Os capítulos, ou episódios, têm estruturas bem distintas. Ao terceiro capítulo, por exemplo, o mais denso dos iniciais, praticamente todo dentro da cabeça de Stephen Dedalus, segue-se o suave episódio que nos apresenta o casal Bloom. Depois de cada um, leio os comentários do Galindo sobre aquele momento no Sim, digo sim, o que sempre amarra pontas (e revela outras) e enriquece o pacote. A tradução do Galindo é uma beleza à parte, à medida que avanço vou lendo mais e mais dela. Tem sido assim, praticamente uma valsa, pra lá, pra cá, pra lá.

Antes, porém, o flerte foi longo. E foram muitas as vozes que me contaram da frustração diante de um livro cheio de partes ininteligíveis, longo, truncado, no qual muito pouco acontece. Ao mesmo tempo, em meu entorno, são igualmente abundantes as vozes dos que leram e se apaixonaram pelo livro ou partes dele, cabendo aí inclusive os que a ele reservam lugar de honra na lista de livros da vida e até celebram anualmente o Bloomsday. Nenhum dos dois grupos alterava minha decisão de "um dia" ler Ulysses. O flerte, como falei, era antigo. Mas é verdade que o primeiro grupo me levou a me cercar de paratextos. 

Adiar a leitura acabou sendo um bom negócio, para mim. A impressão que tenho, e isso é algo absolutamente particular, é que quando mais trazemos para a conversa com o livro, melhor. Tudo que li antes me serve agora. E ainda que isso seja em princípio verdadeiro para qualquer livro, diante de uma obra tão rica em referências e experimentos como Ulysses essa sensação é ainda mais forte. 

Registro: eu quis muito gostar de Ulysses. Tem sido uma alegria então descobrir que sim, eu quero sim. No meu 16 de junho ainda são 8h45 da manhã, o dia mal começou. Tem sol, mas uma nuvem grande ronda a luz. Vou lá ver qual é.

"Velozquente luz do sol veio corrente da Berkeley Road, vivaz, com sandálias exíguas, pela trilha que se abrilhantava. 
Corre, ela corre pra me encontrar, uma menina de cabelo dourado ao vento." 

Ulysses, Ulysses e Sim

Escrevi assim no Face:

Não sei vocês, mas eu tenho cá aqueles livros que "um dia vou ler"... e nunca, né. O nunca pode ter várias razões, de fila infinita a não encontrar o livro nem em sebo. E há aqueles que não leio porque deliberadamente decido que ainda não. Ainda não é hora. Ainda não tô com vontade suficiente. Ainda não tenho saco para essa conversa. Ainda não li aquele antes. Pois bem, Ulysses é um "ainda não". Ou foi, até agora. Adiei por tudo: tempo, suspeita de não estar com disposição para uma leitura que obviamente tem lá suas exigências, certeza de não estar no clima -- cada hora trazia seu motivo. Nunca a falta de curiosidade. Desde que me deparei com o volume de capa branca, não faço ideia da editora, há milênios, na época da faculdade, pensei "um dia". Depois de ler contos do Joyce, cogitei. Depois de Retrato do artista, cogitei. Depois de ler sobre, adiei. Depois de ler mais sobre, ouvir palestras sobre, ouvir tradutores sobre, quis muito. Pois bem, agora vai. Comprei original, a tradução do Galindo, além do "Sim, eu digo sim", o guia de leitura também do Galindo (este último em ebook). Tem um pouco de "finalmente", mas só um pouco. É finalmente porque quero faz tempo, mas ao mesmo tempo não é; porque não acho que exista leitura obrigatória. Obrigatório é comer bolinho de chuva e admirar a lua. Se é pra ler literatura, que seja com entrega. Lá vou eu.

O livro de Gavroche


Em parte, minha leitura de Os miseráveis "acabou" quando Gavroche saiu de cena. Depois de tantas centenas de páginas passadas, essa foi a mais pesada de se virar. Segui, claro. Ontem à noite me despedi deles todos, terminei meu passeio por ruas, praças, estalagens sombrias, Waterloo, Austerlitz, pardieiros, barricadas, levantes, esgotos, a Paris da palavra de Victor Hugo. Mas foi assim, nem Jean Valjean, nem Cosette, nem Marius. Em meu coração, é mais o livro de Gavroche do que qualquer outro.
Saio desse "romance imenso", como bem o descrevem, com a impressão de um Victor Hugo ao mesmo tempo perspicaz como poucos, ingênuo como tantos, um sonhador inocente que não poderia jamais imaginar os horrores que o século XX ainda nos traria (e nem vamos falar do XXI, shhh!), um leitor sagaz de sua própria realidade. Comovida ou sussurrando "you know nothing, Hugo Snow", comi com avidez cada nota de rodapé e cada diálogo, cada narrativa histórica e cada descrição arquitetônica, cada frase eternizada e cada repetição prolixa e apaixonada.
Ninguém sai o mesmo de uma grande obra. Não está ainda entre minhas favoritas da vida, mas certamente foi companhia caríssima nesses dias estranhos. Viva a literatura que nos salva.

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"Há um modo de fugir em tudo semelhante à procura." VH*

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*Eu adoraria ter lido Victor Hugo diretamente em seu lindo idioma, mas não tenho francês para tanto. Li o que me pareceu uma ótima tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros, numa edição bonitinha, riquíssima de notas e com apresentação de Renato Janine Ribeiro (Ed. Penguin Companhia).

(post publicado no Face, mas por lá tudo se perde; quis guardar aqui)

Como se


Decidi fazer uma festa para comemorar seus 80 anos. Como sei que você gosta de dormir cedo, programei um jantar para as 19h com pratos simples, mas caprichados, e sem bebida alcoólica. A festa é sua. Como sigo sendo a filha rebelde, comprei um vinho para o brinde. Convidei só aquelas pessoas que você sabe quem são e pedi que cheguem cedo para a gente ter bastante tempo para conversar. Seu presente será exatamente aquele que você me pediu, mas também comprei flores, como sempre. A música tocará baixinho para não atrapalhar a conversa, não se preocupe. 

Quando os convidados chegarem, você vai estar radiante. Não vai se aguentar em si de tanta satisfação. Falará dos longos anos, das vitórias e superações. Exibirá orgulhosa filhos e netos. Será tão abraçada e celebrada, meu coração vai dançar. 

Você anunciará o jantar, já vai estar na hora, não pode esfriar. Sentaremos e eu farei um brinde toda emocionada, tiraremos muitas fotos. Mal vejo a hora, que bom que o dia 03 chegou. 

A literatura sempre me salva, você sabe. Bem, isso não é um livro, é só um blog. E essa história nem é um romance, não passa de um post. Porém o que seria do mundo sem um pouco de subversão (ah, vá, você já concordou com isso, rimos até, lembra)? Pois então crio aqui meu 03 de julho de 2020 como se escritora fosse, dona de um mundo todo meu onde sou ama e senhora. Nele você não partiu. Seus olhos brilham mais azuis do que nunca, seu cabelo prateado mantém aquelas ondas que eu amava e sua voz ecoa aqui agorinha mesmo. Seus 80 anos chegaram, é dia de feliz aniversário e eu vou cantar até o bis. 

Na minha história de hoje o mundo está relativamente calmo, podemos abrir as portas para os amigos que amamos, não houve ciclone algum e os planos são tão excitantes que é difícil selecionar o próximo assunto. 

Assim com eu, você sabe que há nos livros aquele momento em que a história nos fisga e nos puxa para dentro das páginas. Às vezes acontece já na primeira frase, ou pode ser necessário um pouco mais de paciência. Quando o momento chega, a grande mágica acontece e já não estamos no sofá, mas em Paris ou Varsóvia; já não é hoje, o século XX voltou ou as catedrais que um dia serão seculares ainda estão sendo erguidas. Então veja, este post me fisgou antes mesmo da primeira palavra, olhe lá, "Decidi". Decidi que vou celebrar seu dia. Talvez eu esteja só na mesa da cozinha falando de você para seus netos, talvez eu esteja varrendo a sacada. Será, ainda assim, um dia de festa, minha festa íntima e mágica que trará você aqui, agora. 

Que bom que você veio. Ainda te amo como se. 

De contagens perdidas e encantamentos de salvação


Vi o ótimo post  da Helena sobre os cem dias de quarentena (essa expressão já traz em si a loucura dos tempos, vamos combinar?) e me dei conta: deixei passar a data. O fato mostra que, entre trancos e barrancos, continuo, ao menos em parte, a mesma de sempre. Só em parte, contudo, bem sabemos. E talvez esquecer a centena de dias seja parte do exercício de reconsiderar minha relação com o tempo. Hum, bonito, mas deve ser só distração. 

Mas, uau, cem dias. Hoje, exatamente, cento e quatro. Descontando as eventuais saídas para buscar máscaras, fazer doações, pegar a Amora, meu mundo é minha casa e o que as telas e os livros me trazem. Meu marido segue trabalhando alguns dias por semana fora de casa, em outros, por trabalho remoto; meus filhos não saíram para nada, exceto o Arthur em tentativa frustrada de vacinação contra a gripe em que ele sequer saiu do carro. Registro para que no futuro que espero testemunhar eu releia e não duvide da memória. E para que eu nunca me esqueça de que para nós aqui em casa a coisa toda se fez mais serena do que para tantos que enfrentam diariamente a necessidade de se expor. 

A escola nos consultou sobre o retorno em agosto: teríamos coragem de enviar nossos filhos? Não consigo responder, não sei o que julho nos trará depois desse junho de curva que não olha pra baixo, hospitais em sufoco e pessoas em eterna negação. Meu marido segue cruzando com pessoas sem máscara em espaços fechados, adultos com acesso a gráficos, argumentos, artigos científicos e, espera-se, alguma noção de coletividade já devidamente enraizada. E aí vamos reclamar de crianças e adolescentes que descuidem da higiene ou se atrapalhem com a incômoda máscara? Quando o elástico da máscara pressionar as orelhas ao ponto da dor, o que farão no meio da aula de Geografia? E que aula presencial de Geografia pode ser tão urgente agora? Por outro lado, não é só de Geografia que se trata, mas dos amigos, dos olhares, da presença. Da enormidade do espaço escolar tão rico de sensações e vivência. Do barulho das vozes ao vivo, dos corredores percorridos em bando. Mas como andar em bando agora? Parece simples e fácil para muitos, um rápido "sim, passou da hora" ou "não, quem é louco?", mas realmente me surpreendo com quem tem a resposta na ponta da língua. Porque eu não sei. Nunca soube tão pouco em minha vida, desconfio. Agarro-me ao alento que é a escola querer saber e se importar com o que sinto. 

Mas esse post nem era sobre a escola, é que minha escrita anda assim meio perdida, vai para onde nem desconfio. Eu queria fazer um inventário do que foram esses dias, inspirada no post da Helena, um bilhete para o futuro. Recordar que de março a junho de 2020 eu cozinhei como nunca, tive a casa visitada em uma tentativa de roubo, providenciei uma cachorra que será grande, passei a me exercitar no tapete da sala, descobri em cursos online uma maneira de escancarar minhas janelas, senti saudades dos amigos que moram ali ao lado, conversei em certo regime de urgência repetida com amigos que moram a um oceano de distância, brindei vinho pela internet, senti medo de morrer, senti pavor de perder pessoas, fiz pão de novo e de novo e de novo, desisti de fechar as abas dos sites de receita, descobri o real valor do meu quintal, trabalhei à noite para poder dobrar roupa durante o dia; fugi para a literatura e, sem nenhuma surpresa, vi de novo e de novo espelhos, horizontes e salvação, vi que não era fuga nada, era resgate. Descobri em meus filhos uma maturidade insuspeita para lidar com uma situação tão limitadora e difícil na idade deles. Tenho ido dormir todas as noites com a sensação de que meu companheiro ao lado torna essa travessia possível.

O país segue aparentemente perdido de si mesmo, as dezenas de milhares de mortos aqui parecem não comover a todos como as dezenas de milhares de outras fronteiras. O Brasil segue sendo esse desafio diário: quando mais precisamos de ar, mais nos falta fôlego para tanto desatino. Tenho inveja de quem acredita numa ruptura inevitável com o sistema financeiro cujas fragilidade e falta de propósito se fazem tão evidentes em um momento como esse, porque, honestamente, há dias em que tudo me parece um pesadelo cujo despertar será feito de negação, repressão e camuflagem. Vide privatização da água. Da água. 

E no entanto, hoje é um dia chuvoso e bonito. Sobre a tristeza pelo coletivo e o medo que não suplantei, piso com suavidade e determinação. A determinação de não sucumbir à desesperança. Ela se materializa no sofá da sala onde me sento com esses adolescentes de braços compridos e pernas imensas que moram comigo e que me dizem das mais diferentes formas que amanhã é sempre um dia bom, iluminado e desenhado com idas e vindas; e abraços; e sonhos e planos e projetos; ela se materializa na vontade de seguir amando; também na vontade de me descobrir equivocada e me surpreender com horizonte coletivo bonito daqui a pouco, esperem só, logo virá. 

O mundo, a despeito de nós, mantém sua beleza. O encanto se dá em nossa relação com ele, em nosso olhar para essa chuva, essa mariposa na janela, essa azaleia que se abriu no jardim. Que esse encantamento nos inspire quantas vezes precisemos. 


Dos calendários


Diz o meme da internet que esse ano não conta. Confinados ou semiconfinados, sem encontros e celebrações, muitos de nós sem a rotina de horário, trânsito e almoço engolido às pressas, com tanta tristeza no noticiário e tanto pesadelo no comando, esse ano não vale.  Não o estamos usando da forma devida, não conseguimos dar aos dias os formatos que planejamos ou mentalizamos no réveillon. Vamos saltar para o próximo, assim que der.

Alívios cômicos à parte, a verdade é que vale, sim. Eu vou contar esse ano como uma das épocas de maior espanto de minha vida. Pela primeira vez desde que me tornei mãe há pouco mais de quinze anos tive medo de deixar meus filhos precocemente sem mim no mundo. Foi o primeiro ano em que me tranquei em casa com medo de ficar doente ou de trazer uma enfermidade ameaçadora para casa. Foi a primeira vez na vida de meus filhos que eles ficaram exclusivamente em casa por 90 dias - e seguimos contando; nem quando eram bebês foram tão caseiros. 2020 é o ano em que retomamos sozinhos, meu marido e eu, todo o cuidado com nossa casa com todas as alegrias e trabalheiras infinitas envolvidas no processo e com toda a correria para conciliar a rotina doméstica com os compromissos do trabalho. Foi o ano em que descobri que posso mais na cozinha do que desconfiava. 2020 será lembrado também como o ano da tristeza coletiva, mesmo que a gente insista, e devemos insistir, em esperar que melhore, que passe, que superemos. 2020 é o primeiro ano em que vejo meus amigos quase que exclusivamente pela tela (em raras vezes no portão). 2020 é um ano sem sala de cinema, mas vou contá-lo justamente assim, como o ano em que senti tanta falta. É que sentir falta também é viver. Então estou contando.

Aqui gostamos dos minibilhetes que guardamos em um pequeno vaso para abrirmos na virada do ano e relembrarmos as pequenas alegrias, um calendário só com dias afetuosos. O pote está praticamente vazio, a gente não anota lá o pão de azeite ou a nova receita de bolo de laranja. Talvez devêssemos, mas desconfio que estamos guardando os bilhetinhos para escrever com alegria "saímos!". Enquanto isso, criamos outro inventário, o das leituras de quarentena. Em uma folha A4 presa à porta da geladeira vamos marcando os livros que têm nos feito companhia, cada um registrando ali o título que nos ajudou a atravessar mais uma tarde, mais um final de semana sem parque ou Lagoa, mais um feriado sem camping. Porque no fim das contas existem muitas formas de marcar o tempo. É bom estarmos atentos, há tanta mudança a ser feita, talvez nossa relação com o tempo esteja entre as mais prementes.

E assim chego a mais um aniversário. Dentro de casa com meus amores, dois cães e uma gata, sinto-me quase indecente - quem pode ter tanto? Vê-se que estou contando o tempo, mas comemoro mesmo é a percepção inabalável de que o amor é o quadrinho mais iluminado do calendário. É por essa janela que quero olhar o mundo e é apoiada nela que insisto em acreditar: vamos aprender.

   

Temporada de Amor(a)


Há cerca de duas semanas nossa casa foi invadida. Na verdade, não exatamente. Uma pessoa pulou o portão, entrou na garagem, vasculhou o carro e tal. Quando seguiu para a parte de trás da casa, Floquinho deu o alerta. Venci a preguiça e resolvi verificar o motivo dos latidos (eu já deveria ter ido verificar antes o motivo dos latidos da valente cadela dos vizinhos, mas, em vez disso, fiquei na cama reclamando do barulho). A pessoa fugiu. Dias depois, a mesma coisa aconteceu em outra casa do bairro depois de nova tentativa frustrada de pular o portão daqui. Após aquela mescla de vulnerabilidade, raiva, medo e pena, minha reação mais duradoura foi: quero um cão que vigie o jardim da frente. Sem desmerecer a prontidão do Floquinho, um cachorro com porte maior na frente da casa, acho eu, diminui bem as chances de a visita desagradável se repetir. Não à toa o não-convidado escolheu a minha casa, não a do vizinho - pode acontecer, claro, mas é mais difícil alguém se atrever a enfrentar aquela boca e aquela cara de "aqui não, gavião". Também é verdade que nosso alarme estava desligado (não estamos de parabéns?), mas um cachorro é um cachorro é um cachorro. 

Pensa daqui, pondera dali, decidimos comprar em vez de adotar. Queríamos um filhote com temperamento minimamente previsível e um cão um pouco menos benevolente do que nosso velho amigo finado Roque (que, amor à parte, certa vez praticamente abriu a porta pro gatuno, que só fugiu quando o alarme disparou). Queríamos um cão liberal no apego aos mais próximos, mas conservador no tratamento aos visitantes não convidados, se é que vocês me entendem. 

Muitas fotografias, vídeos e conversas com amigos e criadores depois, optamos por um pé de amora. 
Pé de Amora.
Mais difícil do que decidir comprar em vez de adotar, escolher a raça e lidar com a gama de cuidados envolvidos na aquisição de um filhote no meio de uma quarentena, foi escolher o nome. Listas e votações foram feitas, refeitas e anuladas. Amora venceu. A carinha preta, o olhar doce, a chance de ser azeda com quem se meter a besta - acho que o nome combinou lindamente com ela. Agora o Floquinho, nosso cão que acolhemos em um carnaval anos atrás, e a Bella, a gata que há um ano resolveu morar no nosso carro e depois se mudou de vez pra nossa casa, estão às voltas com essa filhote de pastor belga. E nós descobrimos, de novo, a alegria de decidir criar mais um bicho. Bem-vinda, Amora. O pretexto foi cuidar da frente da casa, mas ela já percebeu que amoreira se espalha; o ambiente pode ser todinho dela. É só pedir com jeitinho. 



Quarentininhas


Um blog que é quase um deserto.

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Tenho dado algumas braçadas aqui, num blog coletivo, tentando fazer chover.

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Eu faria um diário da quarentena se soubesse as palavras para descrever o que temos vivido. O que temos nós, mundo. Não apenas eu, meu marido e meus filhos, relativamente seguros em casa, com comida na mesa e sol no quintal. Disso talvez seja mais fácil falar.

Do fácil falo assim: como é difícil. Até o fácil tem sido desafiador. Viver na carne a mudança de paradigmas não é bolinho. (E é "relativamente" mesmo. Ninguém está totalmente seguro. No ambiente de trabalho que meu marido precisa frequentar, ainda que parte do trabalho esteja sendo feita de forma remota, nem todo mundo "acredita" na máscara ou gosta dela, ou se importa. Ou seja, nunca sabemos.)

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Nunca o sentido de coletividade se impôs de forma tão imperiosa. Como isso nos transformará?

"Nos transformará" - quão ingênuo, não? Não somos um bloco falando em uníssono que precisamos nos transformar. Muitos entre nós querem a "volta ao normal", o normal que tem se mostrado tão falho em lidar com uma emergência como a que vivemos. 

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Voltando a falar do fácil: o que mais me incomoda é o sumiço da escola. Há aulas remotas. Mas falo da escola propriamente dita, que vai muito além das aulas. Morro de pena desses dois (pré-)adolescentes em casa, longe dos amigos, dos embates, das descobertas, dos sustos, das caminhadas, dos tombos, dos almoços com a turma, das discussões acaloradas em sala de aula, de tudo que faz da escola uma experiência, até aqui, insubstituível. Eles? Lamentam, mas acho que acham que tiram de letra. (A ver.) No capítulo atual, quem sofre sou eu. 

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Se a literatura não existisse, eu a teria inventado na quarentena. 

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Vocês conhecem a piada do bad timing? Vou contar: era uma vez uma pessoa que interrompeu a terapia em janeiro, dois meses antes do fim do mundo. Fim. 

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Não sobrará país. Colar os cacos vai levar mais tempo do que ousamos supor agora. Respiremos. (Parada do orgulho estúpido. Não tarda.)

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(Interrompemos nossa programação para um momento good vibes.) Porém, porém, porém: há outras tribos. Há outras vozes que cantam em tons de luz, não de morte. Há muitos, são muitos os que não louvam a tortura, a guerra, o sofrimento, a estupidez ignorante e orgulhosa de sua própria torpeza; são muitos os racionais, homens e mulheres ternos, não porque não sejam firmes, mas por serem mais amorosos. Há muitos humanistas, muitos. Há muita gente no país celebrando a vida, lutando por ela e contando os dias para pararmos de sentir tanta vergonha e revolta. Virá, que eu vi. 

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(Não cura os males, mas a série ô de casas da Monica Salmaso é chá, sala e janela com sol.) 

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#fiqueemcasa


Homely Fifteen


Não chegamos a planejar propriamente como seria sua comemoração de 15 anos. Falamos por alto, meses atrás, que você reuniria amigos, mas não discutimos onde, quantos ou o que fazer. Quando a data foi se aproximando, estávamos já confinados há semanas, tentando um dia por vez lidar da melhor maneira possível com o medo, o distanciamento dos amigos, a rotina de tarefas domésticas, álcool em gel e aulas online, jogos online, conversas online, notícias online, um mundo que parece caber inteirinho, com cores e dores, dentro de nossas telinhas e telonas. Não planejamos seu aniversário antecipadamente, mas se o tivéssemos feito, certamente nossos planos incluiriam campainha tocando, gente chegando, um sushi por aí. 

Isolamento social não é nem de longe o que eu teria desejado para o seu dia. Vê-lo cercado de amigos e saber quão querido você é tem sido uma alegria constante nessa década e meia. E imagino que também você receberia feliz, se pudesse, cada um dos abraços, entre um hambúrguer e outro. Hambúrguer ou sushi? O que seria? Pizza, talvez?  

Vai ser lasanha feita por seu pai, um pedido seu, só para nós. Um pedido seu, entre os outros não muito exigentes, nada do outro mundo. Você torce que o tempo passe e a gente volte a circular, como todos nós. No entanto, torce na boa, do seu jeito tranquilo, consciente de que, dado o contexto apavorante que nos ronda, não nos cabe ocupar a linha de frente das reclamações. Não você, tão cercado de carinho e proteção, com teto, mesa posta e amor. Você sabe. E ver que você sabe e reconhece é outra alegria. Você é, Arthur, uma pessoa bonita. 

(E então você guarda toda sua reclamação para os momentos em que interrompo o videogame.)

Pois bem, nesse aniversário de presentes e abraços adiados, nós estamos juntos na missão de entender o que realmente importa nesse mundo. Desconfiamos que é um lote de valores e afetos que, quando o bicho pega, nos mantém de pé, com o coração mirando o lugar certo e a cabeça centrada naquilo que nos torna humanos e dignos. Sempre há muito a ser cultivado, nunca se esqueça, mas é um alento saber que boa parte desse lote nós podemos, sim, "trazer" para o seu aniversário: amor à vida, celebração da arte que nos torna maiores, respeito pelo outro, compaixão, solidariedade, esperança e um tanto bom de sonhos bem, bem lindos. Nada disso vai faltar, meu amor. É seu lote de aniversário. 

O futuro não está nos esperando, preciso te contar essa verdade. Ele ainda não existe. Nós o estamos construindo agora, em cada escolha e em cada plano. O que mais posso querer, se não que "o mundo", essa entidade maluquinha, acerte nas escolhas? É meu maior desejo. E que cada passinho seu na construção desse futuro seja dado com o tal lote de aniversário.  

15 anos é uma data bacana. Sua voz tá engraçada, há um bigode a caminho, você não me deixa cortar seu cabelo (sábia decisão) e, caraca, como você cresceu. Já imaginou a alegria com que a gente vai comemorar de novo depois? Com a campainha tocando? E a gente dizendo "pode entrar"?! Aguardem-nos. Né? ;-)

Até lá, a gente segue assim: não me canso de olhar pra você, seu lindo. No ano passado, escrevi aqui: "Espalhe-se." Bem, não dá muito pra se espalhar agora, mas eu topo te ajudar a esperar.  

Te amo muito, filhão. Feliz aniversário, meu amor.   





Na versão Arthur 15 anos, você faz bolo. Curti.


Você num distante dezembro, quando a gente ainda podia sair de casa. :-)

Agora larga o telefone e vai tomar sol no quintal. 

A borboleta que vem pela janela


"(...)sabão de lavar a alma,
alvejante de coração,
o chá de manter a calma,
o shampoo anti-depressão.

leites de longa vida,
balinhas de erudição,
spray de curar ferida,
azeite, disposição.(...)

A lista de versos do Paulo Cândido cai bem em qualquer quarentena. 

Eu soube do livro A canção da borboleta ausente quando ele ainda estava no prelo; o mundo já estava louco, mas ainda não tão perplexo quanto agora. E no meio dessa perplexidade, foi muito bom tê-lo enfim em minhas mãos. Foi um respiro, um saltinho na leveza. E uma descoberta das mais bacanas: aquele amigo de coração bom, das colocações certeiras e de uma cultura admirável é, também, olha só, um poeta. Não deveria ser surpresa, tamanha sua facilidade de modelar com palavras as conversas mais ricas, mas a poesia é terreno para poucos ousados. Então vibro com minha descoberta: nunca o mundo precisou tanto da poesia, visto que ela nos lembra que somos mais, muito mais. 

A canção da borboleta ausente é um projeto da Drops Editora e tem ilustrações da Fal Azevedo. Tem também prefácio da borboleta-mor, Luciana Nepomuceno. É uma janela da ar puro -- e não é hora de escancarar as janelas? E não se enganem com o título, o voo está lá.




Florzinha


Tia Mariazinha (assim, no diminutivo), a caçula na família de meu pai. A mais baixinha, a  Mariazinha. A mais engraçada, sempre. "Tia não, prima!" Tá bom. Prima. Mas eu me esquecia e chamava Tia. O aniversário pertinho do da minha mãe; nem sempre eu ligava, mas sempre me lembrava. O sobrenome da família do meu pai é Flor. Então, vejam: Mariazinha Flor. Cabe em quantas histórias?

Tenho essa foto muito linda: eu, minha mãe, três tias, uma prima, mulherada. Estou em pé no canto direito da foto entre minha mãe e minha Tia Tereza. Minha Tia Tereza é aquela da voz. Sabe a voz que a gente traz na memória desde a infância? Adoro a voz dela. Na foto, Tia Tereza tem aquele mesmo sorriso, sabe? Bem aquele antes de dizer "e num é, menina? Besteira!" No outro extremo esquerdo, está Tia Sebastiana, mais séria, né? Claro. Sei. [pisc pisc] Ao lado dela, minha prima Ângela, com carinha de adolescente ainda, nem sonhava em ser a mãe derretida que é hoje. No centro da foto, a mãe dela, a tal Tia Mariazinha. Adivinha? Rindo de boca aberta, certamente falando alguma asneira ou contando alguma piada da qual a gente se acabou de rir depois da foto. Aposto. Está toda iluminada, vestida de azul, braço estendido, talvez chamando alguém mais pra foto? Ou só dizendo: "quero sair jovem". 

Mandei essa foto pra Ângela hoje, pra ela guardar esse momento. Ela tem muitos outros, claro; a mãe está em fotos do mês passado com a netinha, na praia, olha a delícia. Hoje estamos tentando dar as mãos umas às outras. Tia Mariazinha se foi. Há um mês, nem sabíamos da doença. Hoje, precisamos abraçar a Ângela e dizer que ela foi uma luz bonita na vida da Tia Mariazinha. Não que ela não saiba, mas a gente fala o amor, sempre. 

Faz tempo que desisti de tentar entender. Eu sinto, observo, vou vivendo. Em dias assim, sinto o amor, a importância dele. 

Não é bonito? Passar por essa vida e deixar gente falando de amor por aí?

Adeus, Tia. Quer dizer, prima. Obrigada pelos abraços todos.  

Born a crime: o Apartheid numa lupa


Durante o Apartheid, o regime de segregação racial que vigorou na África do Sul entre 1948 e 1994, o relacionamento entre pessoas pertencentes a grupos raciais distintos era proibido por lei. A prática era sujeita a pena que incluía anos de prisão. Além de negros e brancos, o governo classificava pessoas como "de cor" e indianos. 

Crianças eram classificadas ao nascer. Se uma mãe negra desse à luz uma criança "de cor" (de pele mais clara devido à miscigenação), ela poderia perder a guarda da criança imediatamente além de ficar sujeita a outras penalidades. 

Curiosamente, uma pessoa "de cor" poderia ter status de branca se isso fosse conveniente para o Estado: se por alguma razão ela fosse classificada como branca, teria direito a empregos reservados aos brancos e a residir nas áreas destinadas a eles (normalmente áreas originalmente ocupadas por população negra expulsa quando o Apartheid foi instituído). Muitas pessoas "de cor" se inscreviam solicitando status de branco. No entanto, esse status  poderia ser revisto a qualquer momento, e a pessoa voltar a estar sujeita às restrições impostas à população não branca. 

Imagine a situação de um casal de homem e mulher "de cor" que gerassem um filho negro. Imagine que esse casal tivesse status de pessoas brancas (morando e trabalhando em área de brancos, com bom emprego e estrutura social razoável). Por serem "brancos", não poderiam criar uma criança negra. Para ficar com o filho ou filha, teriam de optar pelo status de negros. Normalmente, em casos assim, um dos membros do casal optava por permanecer "branco", enquanto o outro renunciava à cobiçada classificação para evitar a perda da guarda da criança. Assim, o casal necessariamente passava a viver na clandestinidade (caso não se separasse de vez), com cada um dos membros habitando uma região diferente da cidade onde morasse, e um dos membros perderia o emprego. 

Uma criança negra não poderia ser vista em público com seu pai branco, o que colocaria em risco a segurança de ambos. Uma mãe negra não poderia circular em segurança com seu filho "de cor", o que poderia chamar a atenção da polícia ou de espiões do regime. "Como pode ter um filho 'de cor'? Quem é o pai?"

"O Apartheid", essa coisa quase abstrata nos livros de história, ganha uma concretude quase insuportável quando leio sobre detalhes assim. Já é horroroso o suficiente imaginar um regime oficial de segregação, mas conhecer alguns meandros do mecanismo do regime evidencia a generosa cota de crueldade da história humana. Entrei curiosa no livro de Trevor Noah Born a crime (Ed. John Murray), e saí dele inevitavelmente comovida - e chocada, claro

Trevor Noah nasceu e passou a primeira infância na África do Sul do Apartheid. Viu o regime cair e presenciou na adolescência as consequências de décadas de segregação e escravidão: os índices absurdos de desemprego, a violência, a criminalidade, o racismo encravado no tecido humano do país. Filho de mãe negra e pai branco, ele foi um crime. Em Born a crime, ele fala dos primeiros anos de sua vida como criança "de cor", da adolescência e do início da vida adulta num país profundamente recortado. Trevor sendo Trevor, Born a crime é salpicado de humor. Trevor sendo Trevor, Born a crime é recheado de boas reflexões. A gente ri do primeiro amor frustrado na escola, mas se cala diante da descrição de algumas fotografias: ele, bebê, no colo de uma mulher "de cor" contratada pela mãe para passear com ele pelo parque, com ela, negra, ao fundo, como quem invade a fotografia. 

Muito do livro gira em torno da mãe de Trevor, uma figura sem dúvida notável. Lendo Born a crime, tentei exercitar algo que o texto de Trevor nos convida a fazer: evitar o julgamento rápido feito a partir de um lugar tão distinto daquele ocupado pelos personagens. Há tanto na conduta da mãe de Trevor que me poderia soar deslocado, surreal. Há outra leitura possível, no entanto, a visão do extraordinário: acordar todos os dias em um mundo que lhe diz que você é menor, indigno, escravo, e fazer de uma rotina assim uma luta que inclui evidenciar também o ridículo do sistema. A mãe de Trevor desafiou o proibido com as armas que tinha. Não é uma história impecável, é uma história incrível, vivida por gente marginalizada que cresceu ouvindo que o mundo não lhe pertencia. Born a crime é um pouco a história de um país, um pouco a história de sermos humanos, um pouco o retrato de como podemos ser feios. Ou lindos, ainda que em nossa imperfeição inevitável. Muito depende de que luta apoiamos.

***

(Dizem por aí que Lupita Nyong'o será a mãe de Trevor na adaptação cinematográfica de Born a crime. Esperemos.) 


Occupy life


"Meu imperativo talvez fosse outro, embora impossível: 
me fazer praça, me fazer rua, me fazer prédio vazio, 
e que enfim me ocupasse o incontível da vida."

***

Um escritor que visita um antigo hotel abandonado convertido em ocupação por imigrantes sem teto, refugiados, despejados; e que se dispõe a ouvir as histórias desses ocupantes temporários. A história perdida de cada um, os bombardeios, as fugas (internas ou não). Ao mesmo tempo, no universo quase etéreo da vida privada, a gravidez da esposa, a enfermidade do velho pai. Um homem que tenta enxergar o coletivo que a todo momento lhe escapa enquanto também tenta tomar as rédeas de suas próprias peregrinações pessoais. Pessoas em ruínas, relacionamentos em pedaços, memórias que desmoronam. E os afetos, a vontade de enxergar, a tentativa nem sempre feliz de superar os escombros; a ocupação do peito, dos sentidos, da cidade. 

Comecei por aí meu ano de leituras. Cercada dos barulhos do início do ano, comecei devagar. Mas hoje, no meio da praia invadida por banhistas e turistas de todos os sotaques, encontrei meu silêncio e olhei com a atenção devida para esse livro breve e valioso. Julián Fuks, mais uma vez, se mostrou excelente companhia. 

De potes e livros


Eu gosto bem da tal virada de ano. Dos pretextos que as pessoas inventam para fazer festa, marcar a dança do planeta em torno de sua estrela me parece dos mais bacanas. Não luto contra a sensação de fim de ciclo; ao invés disso, aproveito a onda e renovo planos, abandono outros, reforço torcida, a coisa toda. 

Hoje, de volta da viagem que fizemos para passar feriado de Ano Novo com amigos, abrimos o "pote de memórias" que mantemos aqui em casa e lemos os pequenos bilhetinhos que anotamos ao longo do ano, nossa pequena retrospectiva familiar. Combinamos de guardar apenas os momentos bons, como uma fonte renovada de alegria que visitamos a cada doze meses. Hoje estavam ali o dia em que Floquinho foi encontrado embaixo da casa (para nosso alívio, achamos que tinha fugido), as estreias da Amanda no teatro, a recuperação da saúde da mãe do Ulisses, amigos que vieram para o jantar, a vitória acachapante do Arthur numa partida de tabuleiro particularmente deliciosa, o dia em que adotamos a gatinha Bella, coisas miúdas e doces como uma amorinha boa. A gente bebe dessa fonte de risadas do potinho, joga fora os bilhetinhos e começa tudo de novo. 

Há anos olho para minha lista de leituras do ano que se acaba e vejo ali outros rastros, o pacote quase completo para atravessar as estações que a viagem da Terra nos dá: inspiração, fuga, crescimento, diversão, deslumbre, dor, nossa história de habitantes temporários daqui. É mais ou menos como abrir o pote da memória. Deixo aqui na forma de dicas para serem seguidas ou ignoradas, assim como as resoluções de Ano Novo. 

***

Um pouco do que li de melhor em 2019, um ano difícil em níveis que nem consigo elaborar direito; entre vários outros, esses livros seguraram minha mão e me empurraram ladeira acima:

On the origin of species, Charles Darwin. - O primeiro do ano, o melhor, o mais emocionante, o abraço mais quentinho.

As cidades invisíveis, Italo Calvino, tradução de Diogo Mainardi. - O mais lindo.

As vinhas da ira, John, Steinbeck, tradução de H. Caro & E. Vinhaes. - O mais dolorido.

Rebentar, Rafael Galllo. - O mais sensível.

A série de 5 livros do Elio Gaspari sobre a ditadura militar no Brasil (A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada, A ditadura encurralada, A ditadura acabada) - O mais instrutivo, violento, revoltante. Brasil, uma biografia, de Schwarcz & Starling também fez parte do combo História do Brasil.

Os contos, Lygia Fagundes Telles - O reencontro mais gostoso; Lygia é minha musa, minha flor. 

Os testamentos, Margaret Atwood, tradução de Simone Campos - O mais necessário.

Barba ensopada de sangue, Daniel Galera - A melhor surpresa; caiu no meu colo, comecei e descobri um novo autor para seguir. Dele li também Meia-noite e vinte. A palavra que me vem é abundância. A escrita de Galera é rica, profunda, prenhe de boas palavras e frases certeiras.  

Frankenstein, Mary Shelley - o melhor clássico (a disputa foi boa no ano em que também li Dom Quixote e Fausto; Quixote pode ser o mais engraçado e Fausto pode ser a nossa cara (né?), mas o desespero de Frakenstein me tocou mais fundo).

***

Vida longa às listas de leitura, meu povo. 

 
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