Os Testamentos - ou: vai passar


"Burra, burra, burra: acreditei naquela papagaiada toda de vida, liberdade, democracia, e dos direitos do indivíduo (...) Eram verdades eternas e nós as defendemos para todo sempre."

"Desistir virou a normalidade, e preciso dizer que era contagioso."

"... quanta crença não nasce por causa de anseios?"

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(Talvez esse breve texto contenha spoilers. Não sei. Leia por sua conta e risco.)

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Uma das coisas boas em Os Testamentos (Margaret Atwood, Ed. Rocco, tradução de Simone Campos) é a perspectiva histórica dada à República de Gilead. Se no Conto da Aia o mergulho em um país governado por uma milícia de fundamentalistas misóginos nos soterra em angústia urgente, Testamentos nos empurra no tempo e nos relembra que toda resistência tem como mira principal o dia seguinte. Diante de um presente absurdo e derrotado no qual a morte é o mote, e a negação da vida, da arte e da liberdade quase reduz a população a um amontoado de autômatos alucinados, é na passagem das décadas que a história se faz memória e aprendizado. This too shall pass. Naturalmente, se a redenção só se concretiza na luta que se estende às gerações futuras, torna-se evidente que é no coletivo que nos salvamos. Resiste-se para que o próximo na fila sofra menos, perceba as brechas que ajudei a cavar e tenha mais forças do que eu para abrir outros caminhos possíveis para quem vier depois. Até o dia em que o império da hipocrisia e do fanatismo vire ruínas. E, principalmente, até o dia em que os olhares se voltem para o horror e entendam que não é possível que aquilo se repita. Testamentos tem heroínas, sim. Mas tem, acima de tudo, uma rede: silenciosa quando necessário, ousada no momento inadiável, solidária com quem está aqui, com a memória de quem se sacrificou ou sucumbiu e, especialmente, com quem virá. É bonito demais para que a gente não preste atenção. 

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