Sol, sombra e Guernica


No século XVII, o Parque del Retiro em Madrid era exclusivo da família real. Nele ficavam o palácio do Rei Felipe IV e outros casarões da realeza. Na segunda metade do século XIX, o lugar foi aberto ao público. Ainda existem palácios em meio às alamedas sombreadas, como o Palacio de Velázquez e o de Cristal, ambos usados atualmente como sedes para eventos e exposições de arte. O parque tem um lago que madrilenhos e turistas cruzam com preguiça em barquinhos a remo. Há várias ofertas de lugares para comer ou fazer um piquenique. No dia em que o visitamos, o calor nos cozinhava em fogo médio, algumas pessoas cochilavam ou liam à sombra de uma árvore, outras tomavam uma bebida gelada. Nós fizemos de tudo, andando devagar para não derreter. Num canto próximo ao lago, vendedores ambulantes sumiam em um segundo quando a polícia montada aparecia, e a gente pensava nos outros lados dessa cidade que nos pareceu tão rica. 










No meio do lago, a Amanda abandonou o barco que dividia comigo e com a Lu e pulou pro barco dos boys. Por pouco não caiu na água. 


Amanda saboreando sabe-se lá o quê.

Vou deixar aqui essa singela coleção de rádios que decorava o restaurante onde comemos nas imediações do parque.

***

Em 1936, Manuel Azaña foi eleito presidente na Espanha pela Frente Popular que reunia setores liberais, socialistas e de esquerda. Pouco tempo depois, o general Franco liderou o exército em uma rebelião contra o governo de Azaña. Inicialmente, o governo republicando resistiu, especialmente em cidades estratégicas como Madrid. Mas Franco recebeu apoio das forças fascistas da Itália e da Alemanha nazista. Dois anos antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, a Espanha funcionou como um laboratório de teste para o poderio ofensivo de Hitler. Em 1937, a força aérea alemã, a serviço de forças nacionalistas de Franco, bombardeou a pequena cidade de Guernica, no norte do país. Centenas de pessoas foram mortas.

Em 1937, Picasso já era um artista renomado. O governo republicano havia encomendado uma obra para representar a Espanha em uma exposição internacional em Paris. Ao saber do bombardeio, Picasso decidiu criar o quadro que viria a ser celebrado como sua obra prima. No avião que nos levou de São Paulo a Barcelona, vi alguns episódios da Série Genius, da National Geographic, sobre Picasso. A série mostra como durante a composição de Guernica, a namorada do pintor (bem, uma delas), a fotógrafa Dora Maar, registrou os vários estágios de composição da pintura. Guernica virou mais do que um quadro, tornou-se ícone do antimilitarismo, um símbolo de resistência às ditaduras e à violência que as promove e sustenta. É considerada por muitos a mais importante obra de arte produzida no século XX. Picasso queria dominar todas as técnicas clássicas da pintura para então romper com todas elas e criar uma voz própria. Em Guernica, o quadro-história, o traço perturbador de Picasso é como um grito, mas não só dele. 

Em um dos meus momentos favoritos de Genius, o soldado nazista, vasculhando a casa onde estava Picasso (elevado à categoria de inimigo pelo governo alemão), mostra a ele uma fotografia de Guernica e pergunta:

- Você fez isso?

Ao que Picasso responde:

- Não. Vocês fizeram.

Em 1939, Picasso enviou o quadro pra Nova Iorque e afirmou que a obra só deveria voltar à Espanha depois que a democracia fosse restabelecida. Picasso morreu em 1973. Franco se manteve no poder até morrer, em 1975. Em 1981, Guernica voltou para a Espanha.

Diferente do Prado, o Centro de Arte Reina Sofia permite fotografias em seu interior - com exceção da ala dedicada ao Guernica. Na grande sala reservada para o quadro, a imensa obra ocupa lugar de honra. Na parede oposta, a sequência de fotografias produzida por Dora Maar nos mostra os passos de Picasso na criação da pintura. É emocionante ver Guernica. É um pouco apavorante, também. Para mim, foi o ponto alto de nossa curta visita a Madrid. 

***

O Centro de Arte Reina Sofia tem um bom acervo para quem curte arte moderna. Dalí, Miró, Picasso, vários outros cubistas e surrealistas, além de exposições temporárias de  outras linguagens, como a fotografia. (O Centro é fechado às terças, adivinha como eu descobri? Voltei na quarta.)

Dalí, em momento meigo - Menina à janela, 1925. Ouve a brisa?
Amanda, conferindo A Mulher em Azul, da fase azul de Picasso.

***

Saímos do Reina Sofia caminhando sem pressa, fazendo a mesma coisa que estávamos fazendo lá dentro. Observando, absorvendo.



Sede básica dos Correios, Palacio de Comunicaciones.













Mais de Madrid, aqui.


3 comentários:

Mila Fernandes disse...

Rita, VIBREI com seu depoimento! Quando a pessoa conhece o contexto histórico por trás da obra de arte, com certeza sua fruição diante dela é muito mais que estética. Aprendi um tantão agora, obrigada!
E as fotos estão ótimas!
Obrigada por dividir suas experiências e informações com a gente.

Rita disse...

Então, eu nem coloco o Picasso entre meus favoritos, honestamente. Há alguns quadros dele que adoro, acho harmônicos, gosto dos traços, da paleta de cores. Outros, nem de longe me atraem. De qualquer maneira, fui aprendendo a olhar as obras dele, acho, aos poucos; eu dizia "não gosto da tal fase azul", aí vi uma matéria com a reprodução do Velho Judeu com menino (acho que é esse o nome) e achei tão tocante. Mas Guernica vai além disso mesmo, acho que ficou maior que ele. :-)

Juliana disse...

Uma verdadeira aula de história! Ao mesmo tempo forte e delicada. Como Mila falou, também aprendi um montão.
Beijos

 
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