Sintra, Cascais, Roca - "Há beleza bastante em estar aqui"


É para Sintra que Basílio volta quando regressa a Portugal e enlouquece a prima. É em Sintra que os Maias se enroscam. É na estrada de Sintra que Álvaro de Campos se sente "cada vez menos perto de mim". É no Cabo da Roca que a terra se acaba e o mar de Camões começa. Parece que todo escritor e poeta português suspira por Sintra e seus arredores. E lá fomos nós, subir a serra, ver um dos fins do mundo (a gente gosta desse negócio) e comer, comer, comer. Deixamos para trás uma Lisboa ensolarada e morninha e passamos o dia na serra fria e envolta em neblina densa. A luz das fotos era ruim, o Palácio de Pena se escondia nas nuvens e nós mantivemos os casaquinhos o tempo todo. Não vi a Sintra iluminada que eu esperava, mas descobri os labirintos da Regaleira e me diverti mais do que o previsto. "Subir a Serra" em Santa Catarina costuma ser sinônimo de coisa boa - comidinha, vinhozinho, friozinho. Lá, como cá.

"Ó, Portugal, hoje és nevoeiro" - disse Fernando Pessoa. Acho que foi nesse dia aí.
Nada, não. Só uma torre com sinos. Adoro e fotografo todas. 
As imensas chaminés do Palácio Nacional de Sintra, residência real até meados de 1880. Abaixo das chaminés, a cozinha mais legal ever
Entramos no Palácio Real. Lá dentro, um mundo de azulejos e cômodos gigantescos. Meus olhos vão para a mobília. Quanto mais gavetinhas, mais segredinhos. 




Há no Palácio uma Sala dos Brasões. As famílias "relevantes" cof cof da época imperial têm seu lugarzinho no teto. 

Vista parcial do teto da Sala dos Brasões.

A mesma sala tem as paredes cobertas por azulejos decorados representando atividades rotineiras da galera animada da Corte. 
Tudo muito colorido, coisa e tal, mas gostei mesmo foi da cozinha. Cada panela serve uma família inteira. Socorro, haja detergente. Ainda não li Os Maias (vi a série exibida há muitos anos, lembram?, com Ana Paula Arósio maravilhosa), mas vi outro dia que há no livro de Eça o seguinte trecho sobre a cozinha do Palácio de Sintra: 

"E foi o que mais lhe agradou - este maciço e silencioso palácio, sem florões e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com suas belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes, resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha talhada às proporções de uma gula de rei que cada dia come todo um reino..."

Pois, Seu Eça, concordamos muito. 




***

Por causa da neblina, trocamos Pena por Regaleira. Não sem antes comer as tais queijadinhas e travesseiros acompanhados de café quentinho. Como já falei, a gente viaja pra comer. 

***

Era uma vez um homem muito, muito rico, chamado Antônio Augusto de Carvalho Monteiro. Antônio herdou a fortuna que sua família tinha engordado graças a um lugar longínquo chamado Brasil. Comercializavam pedras preciosas e um tanto de café cultivado naquela terra quase mágica onde tudo dava. Entomologista, colecionador de livros e homem de vasta cultura, Antônio empregou parte de seu rico dinheirinho herdado com muito esforço (ele teve de nascer) para adquirir e reformar a Quinta da Regaleira. Lá, soltou a imaginação e encomendou a um famoso arquiteto italiano a criação de espaços cheios de simbologia. No website da Quinta, a descrição da obra idealizada por Antônio segue assim: 

"Homem de espírito científico, vastíssima cultura e rara sensibilidade, bibliófilo notável, coleccionador criterioso e grande filantropo, deixou impresso neste livro de pedra a visão de uma cosmologia, síntese de memória espiritual da humanidade, cujas raízes mergulham na Tradição Mítica Lusa e Universal. A arquitectura e a arte do palácio, capela e demais construções foram cenicamente concebidas no contexto de um jardim edénico, salientando-se a predominância dos estilos neo-manuelino e renascentista.
O jardim, representação do microcosmo, é revelado pela sucessão de lugares imbuídos de magia e mistério. O paraíso é materializado em coexistência com um inferius – um dantesco mundo subterrâneo – ao qual o neófito seria conduzido pelo fio de Ariadne da iniciação."  

Pois bem, a gente foi brincar de andar em labirinto, entrar em caverna, andar em labirinto dentro de caverna e outras variações míticas e místicas. 


A básica casinha na Serra do Antôniio.






Dá pra brincar de minhoca e entrar nesse buracão.













O mapa é fundamental, é possível ficar horas e horas e horas entrando e saindo de grutas, labirintos, trilhas. 

***

Antes de almoçar, fomos dar uma espiada no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa. Como esperado, o vento bem que poderia nos ter feito aterrissar em Cabo Branco, o ponto mais oriental das Américas. Mas a gente segurou firme. 






Use o cabelo para comparar com a força do vento em outra ponta do mundo, o cabo que Vasco da Gama um dia afinal contornou.

"Imagina, não tem pressa, pode bater a foto com calma..."
***

Almoçamos diante de um céu azul sublinhado pela mesma neblina que nos escondeu na Serra. À medida que nos aproximávamos de Lisboa, o azul foi voltando. Cascais estava clara, na estação certa. Afinal, era verão. 




Tanto mar, tanto mar.
Mais de Portugal aqui, aqui e aqui.

2 comentários:

Mila Fernandes disse...

Que vistas!
Não fomos até o Cabo da Roca. Em compensação, passamos três vezes por Sintra (maridoffmann, a amiga Cris e eu). Ô cidade linda! Você vê, Rita, o lugar é tão suspirífero que não bastou o fôlego dos poetas portugueses. Os ingleses, quando se cansavam de ser tristes e ricos na Inglaterra, iam ser ricos e tristes em Sintra. Andaram lá pelo Palácio de Monserrate, se não me engano.
O Palácio Nacional de Sintra, devido às distintas chaminés, ganhou de nós o apelido de "sutiã da Madonna" (aposto que você lembra!).
Sua prosa é tão gostosa de ler. Espero que um dia a gente possa se encontrar para prosear pessoalmente.

Rita disse...

Hahahahahaha!!! Sutiã da Madonna!! TOTAL! Hahahahaha!

 
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