La bella


Quando estávamos escolhendo um hotel para ficar em Madrid, consultei alguns blogs de viagem para ter uma ideia de localização; eu não podia contar com meu conhecimento praticamente nulo sobre a cidade. Em um deles, a autora sugeria um quadrante x no mapa e dizia: qualquer lugar entre esse e aquele ponto está "bom". Eu me lembro de ver as áreas verdes no mapa e torcer para encontrar um hotel que fosse perto de uma delas, especialmente por causa do Arthur e da Amanda. Tentamos um site que agrupa os hotéis por faixa de preço e sugere o melhor esquema para determinadas datas e, pronto, ficamos com o sugerido pelo site. Eu fazia ideia de onde estava ficando, mas era uma ideia um tanto nebulosa. No fim, o hotel era bem decente, o café da manhã não era a maravilhosidade do hotel de Lisboa, mas só estou pensando nisso agora. Lá, eu não pude acreditar. De todas as esquinas da imensa Madrid, calhei de ficar hospedada em meio a esse cantinho do mundo:



Dentre as centenas de fotos, entre boas e muito ruins, que fiz durante a semana que passamos em Madrid, essa é minha favorita. Uma foto tirada pelo celular, com cores que sequer refletem a paleta dessas esquinas, mas que me leva de volta àqueles dias que ficaram em mim. Olho para essa foto e vejo as caminhadas que fizemos por essa área da Gran Via e da Calle de Alcala. Lembro-me do encanto que foi chegar a Madrid à noite e ver pela janela do táxi o festival arquitetônico que me rodeava. No caminho para o hotel, já falei para o Ulisses: tá vendo que linda? Nosso idioma é tão rico, mas eu nem vou buscar muito recurso para me referir a Madrid. Acho que vai ser sempre assim: linda. Bella.

Nos primeiros dois dias, circulamos pela cidade fazendo uma triagem dos deslumbres, comendo em cantinhos decorados para competir com a beleza das ruas, matando o tempo em parques, entrando aqui e ali para dar uma espiada, namorando as cercanias do Prado. Não tenho muito a dizer. Acho que não precisa (e talvez seja por isso que ninguém nunca tenha me dito antes). De certa forma, Madrid nos cala.

Vi a Puerta de Alcalá pela primeira vez no caminho entre o aeroporto e o hotel. À noite, estava iluminada e me preparou para o que viria na Gran Via. Até meados do Século XIX, marcava o limite da cidade. Hoje fica no centro do burburinho. 





 






A foto é ruim, mas o bairro Chuecas é charmoso e bom de percorrer a pé. Lá comi num restaurante italiano com cara de cantina e atendimento maravilhoso, quase rezei. Fratelli d'Italia, anotem. (Também apreciamos a culinária local, mas os italianos sempre têm lugar garantido em nossas andanças.)

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Catedral de la Almudena. É "jovem", construída no final do século XIX. O interior vale a visita.


Teto.

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A Espanha é uma monarquia (zzzz...), tem lá seus palácios. O Palácio Real gigantesco é atualmente usado para cerimônias oficiais (o rei mora num outro lugarzinho mais modesto). É possível visitar o interior do palácio, mas decidimos não entrar e ficamos curtindo o calorzinho de 38 graus no jardim básico nos fundos do prédio.






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Tem rei, mas também tem a outra galera. Essa é a sede do Congresso. Havia uma manifestação rolando na praça em frente. Não sei qual era a causa, mas a gente apoiou. 
O Miguel apoiou também.

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Somente no segundo dia entrei no Prado. Antes disso, passamos pelos arredores e vimos os guardiões do prédio e a Iglesia de San Jerónimo, mimo do século XVI, localizada num terreno anexo ao museu. 

Velázquez, impaciente, me esperando. 

"Amanhã, tio", falei pra ele.


Jardim botânico, pertinho do Prado.

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Mas o flerte com o Prado foi à tarde. Antes disso fomos à Plaza Mayor em busca de um lugar para comer. A praça que já foi palco de touradas, execuções e julgamentos da Inquisição hoje é cercada de lojas, cafés e restaurantes. É um lugar vibrante, com o ótimo Mercado de San Miguel logo ali. Aqui batemos perna, comemos e nos esquecemos da hora, entre leques a andarilhos como nós. Ao nosso redor, colunas de quatrocentos anos que, se pudessem falar, narrariam episódios horripilantes.





Meu sogro, Seu Miguel, tomando posse do mercado que leva seu nome. (Não falta Miguel na Espanha, foi uma festa.)


Amanda segue sua busca pelo melhor macaron do mundo. (O mercado é lindo, construído em ferro, dá vontade de ficar lá.)

Nos arredores da Plaza Mayor, Madrid é velha, velha.

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O Edifício Metrópolis, cartão postal da Madrid modernizada no início do século XX, é o retrato da "minha" Madrid. Era ele que me recebia na esquina, agigantando-se "como uma proa de navio", como bem descreve o guia de viagem. Nas noites dos dias em que os termômetros bateram os 40 graus, saímos para jantar nas imediações da Gran Via, às vezes penetrando nas ruas do Chueca com as sacadas coloridas pela bandeira da diversidade, às vezes seguindo pelas ruas adjacentes à Calle de Alcala. Na volta, lá estava ele, iluminado e me dizendo pra ficar mais um pouquinho.





De qualquer ângulo que se olhe.

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Na tarde do segundo dia, entramos no Prado. Sem máquina para fotos ruins (não é permitido fotografar), fui passear pelas alas desse senhor que em 2019 celebra 200 anos de existência. 

Acho que meu interesse por Las Meninas nasceu quando minha orientadora, em outra encarnação, sugeriu que eu lesse o Stuart Hall. Num artigo sobre o conceito de "representação", lá está o quadro de Velázquez e toda uma discussão muito interessante sobre a leitura que Foucault fez da pintura. Se bem me lembro, Las Meninas é o fio condutor para um debate em torno do papel do visível e do invisível na construção de nossa visão de mundo. Pois bem, visto Las Meninas, enquanto Arthur e Amanda percorriam outras alas na tradicional "caça ao tesouro", admito que, minutos depois, algumas salas à frente, um outro Velázquez roubou a cena. As Fiandeiras - The Fable of Arachne é agora um dos motivos pelos quais direi: "ah, quem dera voltar ao Prado". Espero que as meninas me perdoem e, se eu voltar, prometo visitá-las novamente também. 

Não é fácil visitar o Prado. Escolher o que ver nas horas disponíveis para circular pelos três pisos - e nem vamos falar das exposições temporárias (Vermeer estava lá, apenas) - é tarefa desanimadora. Fiz o que pude, optei por ver menos com mais calma ao invés de correr pelas alas. Busquei quadros que a curiosidade ordenou (o perturbador Saturno e outros, de Goya, O Jardim das Delícias, de Bosch -  esse, uma vontade antiga - pinturas de Rubens e Rembrandt - a exposição temporária com quadros do Vermeer chama-se Parallel Visions e inclui também obras de Rembrandt e Velázquez, portanto nem toda obra do Rembrandt estava disponível para quem não visitasse a exposição). Como costuma acontecer onde Caravaggio dá as caras, foi ele mais uma vez quem me puxou pela mão: David with the Head of Goliath. No quesito descobertas, os Hércules de Zurbarán. No mais, caminhei sem pressa pelo museu, como fazia na volta para o hotel. Assim como na Gran Via, o entorno era de encher os olhos.

As Fiandeiras, Velázquez,


4 comentários:

Daniela disse...

Tô chorando aqui porque esse quadrado que tanto te enamorou era o "meu" quadrado. Eu descia do metrô em frente ao prédio do Instituto Cervantes. Olhava pro Merrópolis todo santo dia, todas as manhãs e pensava em como era sortuda de morar em uma cidade tão linda. Ai caminhava ate la Carrera de San Jerónimo. A rua que eu estudava é aquela que fica quase em frente ao congresso. Depois fui morar por um mêa em Retiro e passava pela Puerta de Alcalá todos os dias também. Eu fico feliz de saber que você se encantou tanto quanto eu. Mas o verão lá...cruel 🤣🤣

Mila Fernandes disse...

Que delícia de relato, Rita. O verão espanhol tende a ser diabólico mesmo, mas este ano o calor está cozinhando todo mundo na Europa em fogo alto.
Eu não sabia que você ia para Madri. Teria oferecido todas as referências que tenho em matéria de vizinhança. Mas vejo que não ficou desassistida. A região da Gran Vía é ótima, né? E a Vía é um desbum! Fiquei abismada da primeira vez que vi. E da segunda. E...
No último verão que passei aí, me hospedei no Barrio de las Letras, na mesma rua onde morou o Cervantes. O mais gozado: foi sem querer. Maridoffmann e eu stávamos procurando um lugar relativamente barato e centralizado, e era lá que ele ficava. :O

Mila Fernandes disse...

Ah! Você chegou a visitar La Central, na Plaza del Callao? É de cair para trás...

Rita disse...

Não visitei, Camila. :-( Chico triste. Preciso voltar. Chico feliz. :-)

 
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