Belém, Paço, Baixa - Lisboa e o desassossego


"No bonde, a caminho de Belém, sentiu de repente que a sua relação com a cidade estava prestes a se modificar. (...) quando agora olhava lá para fora, através da janela do bonde, o tempo que este se arrastava rangendo e gemendo pertencia totalmente a ele (...) Agora estava cruzando Lisboa, apenas e só Lisboa. (...)"


Assim falou o narrador de Trem noturno para Lisboa. A busca do herói de Mercier é filosófica e passa pela relação com as palavras, com o idioma português. Para mim, de férias no mesmo bonde, a busca era... pelo pastel de Belém. :-) 


É verdade que tomamos café com pastel e também é verdade que entramos na fila para ver a Torre, mas desistimos por causa do frio gelado que invadiu aquela manhã de verão. 

Daqui partiam os navegadores, daqui partimos para comer porque ninguém aguentava o frio. Era verão e tivemos dias bem quentes em Lisboa. Nessa manhã, contudo, o vento gelado nos empurrou pro café. 
Por mim, pode continuar famoso. 

No entanto, Belém vai ficar para mim como o canto do mundo onde foi erguido o Mosteiro dos Jerônimos com sua arquitetura... rendada. Portugal estava com os dois pés na era dos grandes "descobrimentos", e os índios daqui estavam começando a conhecer a força dos colonizadores quando, em 1501, D. Manoel I encomendou a construção do Mosteiro. Bancaram a obra recursos advindos do comércio de especiarias (Vasco da Gama tinha retornado das Índias) e pedras preciosas. Há basicamente duas alas no Mosteiro; a mais "moderna" dela abriga atualmente o Museu de Arqueologia (que as crianças percorreram rapidamente; é interessante, mas pequeno), e os estilos arquitetônicos distintos são evidentes contra o céu de Belém. A ala mais antiga abriga uma igreja, onde ficam os restos mortais de Camões e Vasco da Gama, além de um refeitório, pátios, arcadas e outros ambientes. Num canto de uma das arcadas, estão os restos mortais de Fernando Pessoa. Há ainda um salão com homenagens ao historiador Alexandre Herculano, além do túmulo simbólico de Dom Sebastião, o mítico rei desaparecido no século XVI. 

Cá, iniciava-se nossa sina de colônia saqueada. Lá, erguiam-se templos. Entrei como quem visita um outro lado da História, que é nossa também. 



Ala do Museu de Arqueologia.





Detalhe da parede do refeitório.

"Em cada lago a lua toda brilha porque alta vive." 

Interior da igreja onde jazem Camões e Vasco da Gama. 









#amandalivre

***


Na noite anterior, meu sogro tinha me falado de Fado Tropical, e eu o tinha apresentado a Tanto Mar. Cantamos, brindamos e falamos dos Cravos, da volta da democracia a Portugal e, claro, do Chico. No dia seguinte, depois de Belém, almoçamos na Praça do Comércio, palco da deposição da ditadura. O dia estava glorioso, o Tejo, absoluto. Quanto a mim, diferentemente do personagem de Mercier, não estava cruzando "só Lisboa". Estava olhando a praça, pensando nos Cravos e nas voltas que a História dá. Para onde, afinal, vamos?







Não sei como o prato da Lu não caiu no chão. Cresci o olho para o pedido dela e invejei com força. No dia seguinte, fiz pedido semelhante. Dá pra ser feliz nos restaurantes de Lisboa, viu. 

O arco que separa a Praça do Comércio - ou Terreiro do Paço - da Baixa. 

 ***

De "buchinho cheio" (alô, Arthur), fomos para a Baixa. Se eu tivesse lido o Livro do Desassossego antes de ir (estou lendo agora), teria prestado ainda mais atenção à Rua dos Douradores. Revirando as fotos, vi que estive pelas calçadas de onde Bernardo Soares observava nossa alma. Andei com Pessoa mais do que sabia. Ora, pois.






"...este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte" - Livro do Desassossego, Fernando Pessoa.


O elevador que leva turistas da Baixa ao Bairro Alto foi  nosso desapontamento lisboeta: fila longa, lenta, embarque desorganizado, atendimento sofrível. O passeio que fizemos lá em cima, contudo, compensou a espera, mas não tirou a sensação de tempo perdido. 
E você, já praticou a arte de comprar sardinhas?




***

"Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. (...) Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério."
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa.

Fonte no Rossio.
***

(continua)
Mais de Lisboa aqui.

0 comentários:

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }