Lugar de criança


A escola de meus filhos tem uma feira literária anual em que alunos e professores montam estações, stands e apresentações para compartilhar com as famílias e visitantes o que os alunos andam lendo e pesquisando. O evento envolve do infantil ao ensino médio e transforma o prédio da escola em palco de performances artísticas de todo tipo. Algumas turmas montam esquetes teatrais para apresentar uma obra literária, outras montam oficinas; alguns trabalhos envolvem pais e professores, outros são dominados pelas crianças e adolescentes.  Os alunos vendem livros para arrecadar dinheiro para a formatura, oferecem aos visitantes comidas e bebidas relacionadas às obras lidas, dançam, declamam, interpretam, ostentam figurinos. Os pequeninos expõem orgulhosos suas confecções incríveis enquanto adolescentes se engajam em debates e temas espinhosos. Eu passeio pela feira, feliz. Adoro o ambiente escolar, sinto saudades de minhas aulas mesmo que elas nem de longe se parecessem com a riqueza que vejo nesses eventos. Lugar de criança é na escola para que o mundo lhes apareça em toda sua complexidade: tem arte, tem beleza, tem desafios, tem muito a ser construído, muito mais a ser questionado. Lugar de criança é na escola. Na escola. 

O tema da feira deste ano foi Sabores Literários. Foi uma feira sinestésica: música, literatura, poesia, teatro, fotografia, ilustrações tinham sabor e cheiro. Na entrada os professores exibiam os sabores que a literatura tem para eles e com os quais querem inspirar seus alunos.




Uma turma espiou o trabalho de Arcimboldo. Os visitantes podiam brincar também e usar frutas e legumes para representar um obra literária. O Ulisses montou O Patinho Feio. :-)

Havia vários painéis como este, com as crianças "pintadas" à la Arcimboldo. :-)



:-)
 Outra turma usou temperos para colorir as fotografias em preto e branco do Sebastião Salgado. Na sala, um aluno recebia os visitantes e lhes explicava o que sabia sobre o fotógrafo e sua obra. Aí a gente pintava com temperos. Era a sala mais cheirosa do pedaço. Saí de lá cheirando a açafrão.






O nono ano chamou pra conversa. Montou um boteco de debates. O cardápio de temas ficava na entrada. O visitante escolhia se queria conversar sobre porte de armas, aborto, nazismo, ditadura militar e outros temas com alto potencial polêmico. Era a sala mais, digamos, apimentada. Essas mesas se encheram de gente falando, argumentando e até se exaltando (pais exaltados, alunos argumentando; é, eu sei). Cada mesa tinha um aluno a favor e outro contrário à ideia em pauta. Nem sempre a tarefa a ser cumprida equivalia à ideia real do aluno. Tarefa difícil, achei o exercício bacana demais. 

Boteco dos papos cabeça. 
Em algumas salas, eu passo com o nó na garganta. Uma turma do ensino  médio montou uma esquete para representar o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Apresentaram políticos em campanha, classe média com mesa farta e, no final, presenteavam os visitantes com uma trouxinha contendo uma frase do livro em papel comestível para "saciar sua fome". Ao som de Panis et Circenses, dos Mutantes, a esquete arrepiava. 


Outra turma, também do ensino médio, montou uma esquete com duas salas: Terra devastada e Marte transformado em refúgio para quem conseguisse chegar lá. Você escolhia para onde ir: podia ficar na Terra com sua família ou ir para Marte sozinho. Começamos pela Terra, uma sala convertida em labirinto por onde você avançava a partir de respostas a perguntas sobre engenharia genética, IA, meio ambiente; ganhamos o direito de migrar para Marte. Lá, fizemos a caminhada do privilégio para ver quem ficaria ou seria deportado. Muito, muito bacana. 

As faixas da caminhada do privilégio: um passo à frente ou atrás a partir das análises de vantagens como ter família capaz de acolher, ter sapatos, ter ou não sofrido assédio, ser saudável, falar outro idioma etc.
Os sétimos anos leram O Diário de Anne Frank. Montaram uma esquete em quatro atos: vida antes da guerra (os visitantes recebiam maçã com mel, ninguém passava fome nessa feira), a vida da família no anexo secreto, o campo de concentração e a sala da esperança, essa da foto: fitas pendiam do teto com nomes de sobreviventes. Amanda escreveu o nome da tia-avó. Eu saí de lá passando a mão nos olhos.


Na saída, uma mensagem da Anne Frank de brinde. 
Houve turma que leu Silent Spring e homenageou a cientista Rachel Carson, que ajudou a alavancar os trabalhos em torno da consciência ambiental. Em tempos de farra de agrotóxicos, tema pra lá de bem vindo. 


Por toda a escola, a gente via escritores e outros artistas que amamos ou que precisamos redescobrir.


Saí de lá com receitas da Emily pra testar. 

Receitas do fundamental 1.



No pátio, onde o sol ajudava a driblar o frio que nas primeiras horas da manhã era de 8ºC, havia um palco para pais e filhos apresentarem números de circo. Vi muito pouco, ocupada em outros ambientes, mas ouvi risadas e vi pais e mães circulando vestidos de mágico e palhaço. Em outro ponto, alunos serviam comidas típicas de vários países: comi arroz doce com manga, um feijão africano maravilhoso, bebi água saborizada com nome mágico retirado de um livro de histórias. Na véspera, Arthur e eu preparamos scones de abóbora para levar. Deve ter feito sucesso, quando cheguei ao pátio, não havia nem sombra dos scones. Enquanto eu comia, rolava uma peça aqui, alunos de repente começavam um numero de sapateado ali, professores circulavam tocando instrumentos num cortejo musical que também ajudava a espantar o frio.



Ilustradores também ocupam livros. Numa sala, dois ilustradores trabalhavam ao vivo, e a gente podia testemunhar a evolução da criação. 



***

A impressão que fica é que os alunos, ainda que tão, tão, tão privilegiados, têm uma janela aberta para o mundo que está além dos próprios quintais. O que desejo a cada um deles é que consigam transformar esse olhar tão rico em crescimento pessoal também, mas principalmente em focos de transformação social. E que para sempre cultivem o amor à arte, muito mais essencial do que a gente costuma se dar conta. 




1 comentários:

Juliana disse...

Que lindeza!

 
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