Livros, curvas, Barcelona


"Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com o frescor seco das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência das marchas."

Pascal Mercier, em Trem noturno para Lisboa 
(tradução de Kristina Michahelles).


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Minha mãe tinha uma edição da Bíblia dividida em sete grandes e pesados volumes encadernados com capa dura, além de um oitavo tomo extra. Morava na estante ao lado das grandes enciclopédias, os Googles de então. Diferente das enciclopédias, eu não dava muita bola para essa bíblia ilustrada, com exceção do oitavo e último volume da coleção. Tratava-se de um compêndio de fotografias de basílicas e catedrais mundo afora (acredito que todas católicas). Para passear pelas páginas recheadas de pináculos e abóbadas, eu precisava apoiar o livro no colo. Na página ao lado de cada igreja imensa, havia informações sobre localização, data de construção e outras curiosidades (não lembro bem). Eu gostava de folhear aquelas fotos, escolhia minhas favoritas e verificava onde ficava cada um daqueles monumentos arquitetônicos, alguns impressionantes (aos meus olhos). Eu não pensava nesses termos, "monumento arquitetônico", obviamente. É mais provável que eu pensasse algo como "uau, que igreja enorme". Um desses templos ficou em minha lembrança como o mais, digamos, curioso. Certamente o que chamava minha atenção eram as torres finas e longas, num estilo muito distinto das cúpulas das basílicas na maior parte das páginas. Era o Templo da Sagrada Família, em Barcelona. Muitos anos atrás, quando uma amiga me disse que iria a Barcelona ver a ainda inacabada obra de Gaudí, pensei no pesado volume que eu folheava apoiado em meu colo e suspirei de vontade. 

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Não sou mais católica há muito tempo e há muito tempo entro em igrejas, catedrais e basílicas admirando a arte de suas arquiteturas suntuosas. Meus filhos suspiram em nossas férias, "lá vem igreja". Três semanas atrás, uma amiga me indicou o livro cuja citação abre este post. Li durante nossa viagem de férias e ali encontrei a descrição precisa, entre outras possíveis, para minha relação com esses monumentos. Já me emocionei em muitas catedrais. A beleza me comove. Gosto das muito antigas, às vezes singelas e contidas. Gosto das medievais, penso sempre em seus pedreiros. Gosto do silêncio, da altura, dos vitrais. Gosto das abadias, andei pela Westminster Abbey buscando nomes no chão. Duas semanas atrás, em uma passagem relâmpago por Barcelona, entrei na Sagrada Família. Queria ligar para minha mãe e dizer: entrei lá. Porque foi como nenhuma outra. O bosque idealizado por Gaudí me trouxe um nó à gargante no segundo em que entrei, e eu já estava espantada com uma das famosas fachadas. Ela segue em construção desde a primeira pedra colocada em 1882; segue sendo lapidada, cercada por andaimes, ainda incompleta. Gaudí sabia que provavelmente não viveria para ver a conclusão de sua maior obra, uma dessas injustiças do mundo das artes. E eu agradeço ao escritor Pascal Mercier que me ajudou a elaborar o que me comove em lugares assim. 

Vou para sempre guardar na memória o bosque de colunas-árvores iluminadas pela luz quase fugidia, erguidas rumo ao teto que parece querer tocar as nuvens. Gaudí foi movido por profunda religiosidade e por uma imensa admiração pelas formas da natureza. Deixou no mundo belezas à altura de sua fé. Eu não acredito no Deus que o inspirou, mas vi que ele se aproximou como poucos do sublime que vive na arte - a arte que, afinal, traz à tona o que o humano tem de mais bonito.

Lateral.

A fachada da Natividade com suas inúmeras esculturas contando histórias que cercam a narrativa do nascimento de Jesus.


Em contraste, a austera fachada da Paixão. Tudo no projeto de Gaudí conta uma história - as cores, a acústica, as formas, o espaço vazio, a abundância, a falta. É um livro em forma de templo. 

O bosque que nos convida e nos engole.




O teto de copas que se perdem no céu. Nenhuma foto faz jus. Mas eu me arrepio ao ver e lembrar.

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Para mim, Barcelona foi um dia entre dois voos. Antes de visitar a Sagrada Família, segui  com meu grupo pelas vielas do Bairro Gótico e passei pela catedral tão antiga e tão grande que não cabia na foto. Era um dia só, havia a Sagrada Família no planejamento, então não entrei pra ver o velho teto abobadado de 26 metros de altura. 

O sol parecia cravado no pináculo central. A fachada larga só entra nas fotos que também incluem os muitos turistas de olhos erguidos para o alto no largo em frente à catedral. Trago para cá um pedacinho só dela. 
 
O Bairro Gótico me pareceu um labirinto de cartões postais. 




Seguimos em busca de um lugar para comer. Entra aqui, dobra ali, achamos Els Quatre Gats onde, em fevereiro de 1900, Picasso realizou a primeira exposição individual de sua carreira de artista modernista. De "buchinho cheio", como diz o Arthur, fomos bater pernas pelas ramblas do planeta, tentando espiar entre uma esquina e outra os traços ondulosos e retorcidos do arquiteto que se inspirava nas curvas da natureza. Barcelona é cheia de Gaudí. Nós beliscamos o que conseguimos antes de seguir para a Sagrada Família e de lá retornar ao hotel para uma noite de descanso antes de seguir viagem.  






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Antes de dormir, li mais um pouquinho do livro do Pascal Mercier. O protagonista Gregorius já estava em Lisboa. No dia seguinte, eu iria em seu encalço. Iria na companhia de meu trio de sempre, mas também de meu sogro, Seu Miguel (que botou pilha para que essa viagem acontecesse) e de sua companheira, a querida Lu. Foram dias valiosos para o Ulisses, que curtiu muito os passeios ao lado do pai; pai que paparicou o filho e os netos; netos que adoraram a companhia do avô; um avô que viu que não é mole, não, tanta andação - mas que a gente chega, porque o mundo pode até ser grande, mas a gente é bom de fazer ponte (e sempre rola um banquinho de parque pra descansar). 




2 comentários:

Tina Lopes disse...

Eu li um comentário seu no twitter dizendo que tinha amado Madrid e achava que Barcelona não poderia superá-la e dei um sorrisinho de canto, pensando que ainda bem que não existe disputa, porque Barcelona diria "aguanta la meva cervesa" ;)

Rita disse...

Hahahaha! Na verdade, a comparação no meu caso é meio descabida, porque vi Barcelona correndo e tive vários dias para Madrid. Confirmo minha impressão, Madrid é maravilhosa. Mas é isso, uma impressão baseada em visitas bem distintas, né. Mas do que vi: dos centros antigos das duas cidades, gostei mais de Madrid (apesar de ser mais reformada, com projetos arquitetônicos que modificaram muito a "paisagem"); fui no verão e achei Barcelona lotada, sensação que não tive em Madrid, tudo me parecia fluir melhor; Sagrada Família não pode entrar no cômputo, porque aí desequilibra tudo, ;-) Mas eu precisaria ver Barcelona com mais calma, sim. Sem disputas, contudo. Fico feliz em gostar das duas.

 
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