A árvore


Em 26/04/2005, há quatorze anos, minha mãe me mandou uma carta com a árvore genealógica de meu filho. "Seu primogênito", ela escreveu. A lista continha os nomes de três gerações dos antepassados do Arthur: os dois avós, quatro bisavós e oito trisavós maternos. Eu não me lembro se foi um pedido meu ou uma iniciativa dela, o fato é que guardo a carta como se ela fosse um misto de abraço e documento histórico do meu mundinho. Na mesma carta ela lamenta não poder vir me visitar naqueles dias, mas reafirma que está comigo a cada minuto torcendo que tudo corra bem. Arthur nasceria dali a nove dias, seu primeiro neto, meu primeiro filho. Quando ele nasceu, nós choramos juntas pelo telefone da maternidade. Naquele momento, a saudade dela virou uma árvore frondosa, mais imponente do que a dos nomes. E mesmo assim, ela estava muito presente, como se também segurasse meu bebê no colo - coisa que ela fez depois de alguns meses.    

Hoje ela faria 79 anos, eu teria ligado para ela cedinho antes de as crianças saírem para a escola para que eles pudessem dar os parabéns no início do dia. Depois ligaria de novo, com mais calma, para as fofocas de costume. Falaríamos do frio que finalmente chegou, da situação do país, do dentista que adiei, da gata que aprontou e que nos lembra do meu gato que dormia escondido no travesseiro dela quando eu era pequena. Nas minhas conversas inventadas de hoje em dia ela está sempre bem, rindo e forte. 

A maioria dos nomes na árvore genealógica dos antepassados do Arthur são só nomes para mim ou, no máximo, uma foto em preto e branco no velho álbum dela que eu guardo comigo. Eu falo sobre ela para o Arthur para que o nome dela seja mais, para que ele se lembre da ternura, nem que seja só um pouquinho. Ele tinha 5 anos em 2010. 

"Um cheiro de uma mãe que te adora". Ela encerrou a carta assim. 

Hoje é dia 03 e aquela árvore da maternidade parece até pequena perto do vazio de sequer poder telefonar.

1 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Gostaria de dizer alguma coisa, não sei o que dizer, mas escrevo como se fosse um abraço.

 
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