Boa Lisboa


Partimos de Barcelona bem cedo. No meio da manhã já estávamos na terra de Fernando Pessoa (cuja casa-museu está em reforma e não pude visitar, o mundo não é justo etc). Guardamos as malas na recepção do hotel e fomos, claro, para uma padaria do bairro. Somos gulosos e precisávamos esperar o horário do check-in. Não é nossa culpa. Talvez seja.  A gente não liga. 

Vou deixar essa foto aqui como lembrete de que essa viagem foi uma sequência de boas refeições intercaladas por algum turismo.

***

"As luzes se espelhavam no Tejo. Velozes, percorriam as superfícies que brilhavam ao sol, deslizavam sobre elas, engoliam a luz e, em outro trecho, deixavam-se escapulir com um brilho afiado das sombras."
(Trem noturno para Lisboa, P. Mercier)

Começamos por Alfama, que me fez pensar nas escadarias de Valparaíso. Mas antes de descer, o Tejo nos recebeu. 



E eles nos guiaram por entre as ruazinhas íngremes com sacadas e varais de roupas sobre nossas cabeças.






Como não?


O calor foi aumentando, ela comprou um chapéu. Deve ser para eu me apaixonar mais.


Florianópolis tem um bairro que se chama Santo Antônio de Lisboa, talvez o lugar de colonização açoriana mais evidente na capital catarinense e famoso por seus restaurantes. Numa das esquinas de Alfama, demos de cara com esse restaurante que se chama Santo Antônio de Alfama. Aparentemente, Santo Antônio gosta de um bom prato. Apoiamos a causa do santo. Decorado com fotos de estrelas do cinema e da música do mundo todo, serve comida deliciosa, tem garçons super atenciosos e simpáticos e ficou na lista dos cantinhos favoritos de nosso grupo. 

Um trio possível.
Outra contribuição para o folclore da família: sou a campeã mundial imbatível de selfies ruins. Quase nunca enquadro todos os queixos e testas. Assim como taxistas antipáticos não conseguiram me fazer antipatizar com o povo de Lisboa, tampouco minha incapacidade de fazer boas selfies me convence a desistir. Sigo estragando fotos. Aqui, raro registro com queixo e testa intactos. Apreciem. 
Lu e Amanda averiguando se podiam jogar moedas na fonte. Acho que queriam pedir pastéis de Belém. 

Seguimos pela (Avenida da) Liberdade, como deve ser. 
Tínhamos praticamente uma semana pela frente para percorrer outros espaços de Lisboa. Sentimo-nos sortudos, empolgados e, nas palavras elegantes do Arthur, de "buchinho cheio". ;-)

(continua)


Livros, curvas, Barcelona


"Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com o frescor seco das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência das marchas."

Pascal Mercier, em Trem noturno para Lisboa 
(tradução de Kristina Michahelles).


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Minha mãe tinha uma edição da Bíblia dividida em sete grandes e pesados volumes encadernados com capa dura, além de um oitavo tomo extra. Morava na estante ao lado das grandes enciclopédias, os Googles de então. Diferente das enciclopédias, eu não dava muita bola para essa bíblia ilustrada, com exceção do oitavo e último volume da coleção. Tratava-se de um compêndio de fotografias de basílicas e catedrais mundo afora (acredito que todas católicas). Para passear pelas páginas recheadas de pináculos e abóbadas, eu precisava apoiar o livro no colo. Na página ao lado de cada igreja imensa, havia informações sobre localização, data de construção e outras curiosidades (não lembro bem). Eu gostava de folhear aquelas fotos, escolhia minhas favoritas e verificava onde ficava cada um daqueles monumentos arquitetônicos, alguns impressionantes (aos meus olhos). Eu não pensava nesses termos, "monumento arquitetônico", obviamente. É mais provável que eu pensasse algo como "uau, que igreja enorme". Um desses templos ficou em minha lembrança como o mais, digamos, curioso. Certamente o que chamava minha atenção eram as torres finas e longas, num estilo muito distinto das cúpulas das basílicas na maior parte das páginas. Era o Templo da Sagrada Família, em Barcelona. Muitos anos atrás, quando uma amiga me disse que iria a Barcelona ver a ainda inacabada obra de Gaudí, pensei no pesado volume que eu folheava apoiado em meu colo e suspirei de vontade. 

***

Não sou mais católica há muito tempo e há muito tempo entro em igrejas, catedrais e basílicas admirando a arte de suas arquiteturas suntuosas. Meus filhos suspiram em nossas férias, "lá vem igreja". Três semanas atrás, uma amiga me indicou o livro cuja citação abre este post. Li durante nossa viagem de férias e ali encontrei a descrição precisa, entre outras possíveis, para minha relação com esses monumentos. Já me emocionei em muitas catedrais. A beleza me comove. Gosto das muito antigas, às vezes singelas e contidas. Gosto das medievais, penso sempre em seus pedreiros. Gosto do silêncio, da altura, dos vitrais. Gosto das abadias, andei pela Westminster Abbey buscando nomes no chão. Duas semanas atrás, em uma passagem relâmpago por Barcelona, entrei na Sagrada Família. Queria ligar para minha mãe e dizer: entrei lá. Porque foi como nenhuma outra. O bosque idealizado por Gaudí me trouxe um nó à gargante no segundo em que entrei, e eu já estava espantada com uma das famosas fachadas. Ela segue em construção desde a primeira pedra colocada em 1882; segue sendo lapidada, cercada por andaimes, ainda incompleta. Gaudí sabia que provavelmente não viveria para ver a conclusão de sua maior obra, uma dessas injustiças do mundo das artes. E eu agradeço ao escritor Pascal Mercier que me ajudou a elaborar o que me comove em lugares assim. 

Vou para sempre guardar na memória o bosque de colunas-árvores iluminadas pela luz quase fugidia, erguidas rumo ao teto que parece querer tocar as nuvens. Gaudí foi movido por profunda religiosidade e por uma imensa admiração pelas formas da natureza. Deixou no mundo belezas à altura de sua fé. Eu não acredito no Deus que o inspirou, mas vi que ele se aproximou como poucos do sublime que vive na arte - a arte que, afinal, traz à tona o que o humano tem de mais bonito.

Lateral.

A fachada da Natividade com suas inúmeras esculturas contando histórias que cercam a narrativa do nascimento de Jesus.


Em contraste, a austera fachada da Paixão. Tudo no projeto de Gaudí conta uma história - as cores, a acústica, as formas, o espaço vazio, a abundância, a falta. É um livro em forma de templo. 

O bosque que nos convida e nos engole.




O teto de copas que se perdem no céu. Nenhuma foto faz jus. Mas eu me arrepio ao ver e lembrar.

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Para mim, Barcelona foi um dia entre dois voos. Antes de visitar a Sagrada Família, segui  com meu grupo pelas vielas do Bairro Gótico e passei pela catedral tão antiga e tão grande que não cabia na foto. Era um dia só, havia a Sagrada Família no planejamento, então não entrei pra ver o velho teto abobadado de 26 metros de altura. 

O sol parecia cravado no pináculo central. A fachada larga só entra nas fotos que também incluem os muitos turistas de olhos erguidos para o alto no largo em frente à catedral. Trago para cá um pedacinho só dela. 
 
O Bairro Gótico me pareceu um labirinto de cartões postais. 




Seguimos em busca de um lugar para comer. Entra aqui, dobra ali, achamos Els Quatre Gats onde, em fevereiro de 1900, Picasso realizou a primeira exposição individual de sua carreira de artista modernista. De "buchinho cheio", como diz o Arthur, fomos bater pernas pelas ramblas do planeta, tentando espiar entre uma esquina e outra os traços ondulosos e retorcidos do arquiteto que se inspirava nas curvas da natureza. Barcelona é cheia de Gaudí. Nós beliscamos o que conseguimos antes de seguir para a Sagrada Família e de lá retornar ao hotel para uma noite de descanso antes de seguir viagem.  






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Antes de dormir, li mais um pouquinho do livro do Pascal Mercier. O protagonista Gregorius já estava em Lisboa. No dia seguinte, eu iria em seu encalço. Iria na companhia de meu trio de sempre, mas também de meu sogro, Seu Miguel (que botou pilha para que essa viagem acontecesse) e de sua companheira, a querida Lu. Foram dias valiosos para o Ulisses, que curtiu muito os passeios ao lado do pai; pai que paparicou o filho e os netos; netos que adoraram a companhia do avô; um avô que viu que não é mole, não, tanta andação - mas que a gente chega, porque o mundo pode até ser grande, mas a gente é bom de fazer ponte (e sempre rola um banquinho de parque pra descansar). 




Lugar de criança


A escola de meus filhos tem uma feira literária anual em que alunos e professores montam estações, stands e apresentações para compartilhar com as famílias e visitantes o que os alunos andam lendo e pesquisando. O evento envolve do infantil ao ensino médio e transforma o prédio da escola em palco de performances artísticas de todo tipo. Algumas turmas montam esquetes teatrais para apresentar uma obra literária, outras montam oficinas; alguns trabalhos envolvem pais e professores, outros são dominados pelas crianças e adolescentes.  Os alunos vendem livros para arrecadar dinheiro para a formatura, oferecem aos visitantes comidas e bebidas relacionadas às obras lidas, dançam, declamam, interpretam, ostentam figurinos. Os pequeninos expõem orgulhosos suas confecções incríveis enquanto adolescentes se engajam em debates e temas espinhosos. Eu passeio pela feira, feliz. Adoro o ambiente escolar, sinto saudades de minhas aulas mesmo que elas nem de longe se parecessem com a riqueza que vejo nesses eventos. Lugar de criança é na escola para que o mundo lhes apareça em toda sua complexidade: tem arte, tem beleza, tem desafios, tem muito a ser construído, muito mais a ser questionado. Lugar de criança é na escola. Na escola. 

O tema da feira deste ano foi Sabores Literários. Foi uma feira sinestésica: música, literatura, poesia, teatro, fotografia, ilustrações tinham sabor e cheiro. Na entrada os professores exibiam os sabores que a literatura tem para eles e com os quais querem inspirar seus alunos.




Uma turma espiou o trabalho de Arcimboldo. Os visitantes podiam brincar também e usar frutas e legumes para representar um obra literária. O Ulisses montou O Patinho Feio. :-)

Havia vários painéis como este, com as crianças "pintadas" à la Arcimboldo. :-)



:-)
 Outra turma usou temperos para colorir as fotografias em preto e branco do Sebastião Salgado. Na sala, um aluno recebia os visitantes e lhes explicava o que sabia sobre o fotógrafo e sua obra. Aí a gente pintava com temperos. Era a sala mais cheirosa do pedaço. Saí de lá cheirando a açafrão.






O nono ano chamou pra conversa. Montou um boteco de debates. O cardápio de temas ficava na entrada. O visitante escolhia se queria conversar sobre porte de armas, aborto, nazismo, ditadura militar e outros temas com alto potencial polêmico. Era a sala mais, digamos, apimentada. Essas mesas se encheram de gente falando, argumentando e até se exaltando (pais exaltados, alunos argumentando; é, eu sei). Cada mesa tinha um aluno a favor e outro contrário à ideia em pauta. Nem sempre a tarefa a ser cumprida equivalia à ideia real do aluno. Tarefa difícil, achei o exercício bacana demais. 

Boteco dos papos cabeça. 
Em algumas salas, eu passo com o nó na garganta. Uma turma do ensino  médio montou uma esquete para representar o livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Apresentaram políticos em campanha, classe média com mesa farta e, no final, presenteavam os visitantes com uma trouxinha contendo uma frase do livro em papel comestível para "saciar sua fome". Ao som de Panis et Circenses, dos Mutantes, a esquete arrepiava. 


Outra turma, também do ensino médio, montou uma esquete com duas salas: Terra devastada e Marte transformado em refúgio para quem conseguisse chegar lá. Você escolhia para onde ir: podia ficar na Terra com sua família ou ir para Marte sozinho. Começamos pela Terra, uma sala convertida em labirinto por onde você avançava a partir de respostas a perguntas sobre engenharia genética, IA, meio ambiente; ganhamos o direito de migrar para Marte. Lá, fizemos a caminhada do privilégio para ver quem ficaria ou seria deportado. Muito, muito bacana. 

As faixas da caminhada do privilégio: um passo à frente ou atrás a partir das análises de vantagens como ter família capaz de acolher, ter sapatos, ter ou não sofrido assédio, ser saudável, falar outro idioma etc.
Os sétimos anos leram O Diário de Anne Frank. Montaram uma esquete em quatro atos: vida antes da guerra (os visitantes recebiam maçã com mel, ninguém passava fome nessa feira), a vida da família no anexo secreto, o campo de concentração e a sala da esperança, essa da foto: fitas pendiam do teto com nomes de sobreviventes. Amanda escreveu o nome da tia-avó. Eu saí de lá passando a mão nos olhos.


Na saída, uma mensagem da Anne Frank de brinde. 
Houve turma que leu Silent Spring e homenageou a cientista Rachel Carson, que ajudou a alavancar os trabalhos em torno da consciência ambiental. Em tempos de farra de agrotóxicos, tema pra lá de bem vindo. 


Por toda a escola, a gente via escritores e outros artistas que amamos ou que precisamos redescobrir.


Saí de lá com receitas da Emily pra testar. 

Receitas do fundamental 1.



No pátio, onde o sol ajudava a driblar o frio que nas primeiras horas da manhã era de 8ºC, havia um palco para pais e filhos apresentarem números de circo. Vi muito pouco, ocupada em outros ambientes, mas ouvi risadas e vi pais e mães circulando vestidos de mágico e palhaço. Em outro ponto, alunos serviam comidas típicas de vários países: comi arroz doce com manga, um feijão africano maravilhoso, bebi água saborizada com nome mágico retirado de um livro de histórias. Na véspera, Arthur e eu preparamos scones de abóbora para levar. Deve ter feito sucesso, quando cheguei ao pátio, não havia nem sombra dos scones. Enquanto eu comia, rolava uma peça aqui, alunos de repente começavam um numero de sapateado ali, professores circulavam tocando instrumentos num cortejo musical que também ajudava a espantar o frio.



Ilustradores também ocupam livros. Numa sala, dois ilustradores trabalhavam ao vivo, e a gente podia testemunhar a evolução da criação. 



***

A impressão que fica é que os alunos, ainda que tão, tão, tão privilegiados, têm uma janela aberta para o mundo que está além dos próprios quintais. O que desejo a cada um deles é que consigam transformar esse olhar tão rico em crescimento pessoal também, mas principalmente em focos de transformação social. E que para sempre cultivem o amor à arte, muito mais essencial do que a gente costuma se dar conta. 




 
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