Aniversário no mato


Em minha casa, nos últimos tempos, feriadão tem sido sinônimo de acampamento. O calendário vai avançando, a barraca vai se assanhando. Na semana passada, contudo, mudamos um pouco o arranjo. Mantivemos a muvuca, os mosquitos, o meio do mato, o riozinho, a gurizada correndo, as bicicletas sacudindo o pó. Porém, no lugar de barracas, sítio. 

Em minha infância, sempre que o dia de São João colava em um final de semana, o feriado prolongado significava ainda mais canjica e pamonhas. Aqui nas Floripas da vida, o dia 24 sequer é feriado. Nosso feriadão ficou por conta do dia 20 (corpus christi) e de uma sexta-feira enforcada. Comi a canjica daqui, tão diferente da amarelinha da Paraíba, mas, a essas alturas, depois de 20 anos em Floripa, também temperada com (outros) afetos. Dancei alguns forrós na cozinha aquecida pela lenha do fogão, os amigos penduraram bandeirolas na varanda, cozinhamos milho, pus chapéu de palha e pintas no rosto. Não havia a fumaça das fogueiras invadindo a casa ou quadrilha agendada para mais tarde, mas quem muda de casa leva junto a antiga e aprende a amar a nova. Tive meu São João com outros sotaques e cheio de saudade, mas também enfeitado de aconchego.

No meio do caminho, um aniversário. Para azar de quem convive comigo, fui ainda mais mimada com paparicos. Um aniversário num sítio quase escondido do mundo, cercada de amigos e ao lado de minha família, deve gerar danos irreversíveis à minha noção. Decidi que sou a mais sortuda. Além disso, em tempos de wi-fi, todo sítio é logo ali. Apesar das oscilações da rede (não a da varanda, a outra), recebi os abraços a distância, as mensagens em tantos formatos e canais que nem me lembro mais como dávamos conta de tudo só por telefone fixo. O wi-fi multiplica os abraços e, ah, que coisa boa. Recebo, agradeço e me emociono, sabendo que não sou merecedora de metade da sorte que tenho (resquícios de noção). Obrigada, obrigada, obrigada. Não foi um passeio para comemorar, mas quem resiste a uma coincidência, certo?

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O dia do meu aniversário é de longe o dia em que mais sinto saudades de minha mãe. Essa frase não tem continuação.

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A moça da doceria entregou a torta na porteira do sítio. Ulisses, as crianças, os amigos me encheram de presentes. Eu comi como se o mundo fosse acabar. Tomei uma ou duas taças de vinho (oi?). Eu até conto os anos para não me perder no mapa do tempo, mas foco mesmo em contar diferente, assim: mais amor, mais amigos, mais abraços, mais saudades, mais motivos pra me sentir bem. Em um mundo tão difícil, as réstias de luz ao meu alcance são bem coloridas. Quero todas. 

Uma casa com varanda e gramado ensolarado, quem quer mais?
 


O rio de águas limpas atrás da casa nos fez pensar no verão. 

Preguiça não é mais pecado, ouvir dizer.

De vez em quando, o povo fugia do sítio.

Ulisses levou a filha dos amigos pra conversar com a vizinhança.
Spoiler: houve lambidas.

Ficamos ligadinhos, mais ou menos.

Foco na concha: uma concha de sopa serve dois pratos. Quem toma tanta sopa? Nós. 

É um inverno que a gente não sabe bem se vai engrenar.
Ainda assim, o frio ainda tímido foi pretexto suficiente para "ligar" o fogão a lenha.


Esperando no lado errado da janela.

Mais um. 

 Tinha amiga fora da foto, amiga pedindo a foto, amigos no coração, amigos no face, no twitter, no zap, na videochamada, no pensamento, no "ih, esqueci", no "eu nem sabia", família perto, família longe.
Foi um abraço múltiplo bem grande que não caberia em foto alguma.
(Obrigada, gente minha.)
Com você, sempre, conforme combinado e renovado todos os dias. 

 "E no terreiro, o teu olhar, que incendiou meu coração."

 
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