Dos silêncios que me chamam


Foi quando li o último livro do Yuval Noah Harari no ano passado que considerei pela primeira vez a adoção da meditação em minha rotina. Nem nos anos de yoga, com alguns minutos dedicados a algo parecido em cada aula, cheguei a cogitar com seriedade a possibilidade. Tenho uma amiga que medita diariamente, e o pouco que já compartilhou comigo de sua experiência pessoal com a meditação me parece algo positivo. No livro do Harari, vi de forma mais elaborada e, digamos, didática os argumentos em prol das supostas benesses advindas do hábito de parar por alguns minutos diariamente para "simplesmente" prestar atenção à nossa respiração e tentar limpar nossa mente dos barulhos que produzimos e que nos cercam. Mesmo assim, não o fiz. O barulho segue adianto meu silêncio. Agora, mais uma vez, diante da angústia que tem me visitado a cada vez que leio os jornais, voltei a levar a sério a ideia de meditação como prática rotineira. Outras motivações também tornam a meditação algo simpático para mim, como a ideia de que, talvez, ao prestar atenção ao silêncio eu me torne capaz de lidar melhor com os ruídos - os emocionais, especialmente - e assim contribuir para que meus filhos também o façam. 

Essa semana li o novo livro do Alex Castro, Atenção. - Por uma política do cuidado, que está sendo lançado pela Ed. Rocco. Alex, que pratica zen-budismo há anos, propõe uma abordagem radical: olhar para nosso meio social com atenção genuína, tentando nos esquivar de dogmas, julgamentos e de padrões de comportamento que nos aprisionam e que quase sempre nos impedem de ver o que deveria ser óbvio: nossa organização social é absurda. As práticas de Atenção sugeridas por Alex têm por finalidade o cuidado com o outro; portanto, o livro seria uma espécie de antítese da autoajuda, algo como um livro de "outroajuda": a atenção como caminho para o cuidado com o outro. Nada nas práticas descritas por Alex teria como objetivo tornar os leitores e leitoras pessoas melhores para elas próprias, mas pessoas mais habilitadas a realmente enxergar cada outra pessoa como alguém tão completo como nós mesmos geralmente nos enxergamos. Um desafio titânico, de fato. A prática de meditação como forma de reverter o que o mundo moderno faz de nós, contudo, muito me atrai. Muito provavelmente jamais atingirei os níveis de desapego e atenção genuína apontadas no livro, mas creio que o impossível pode mesmo ser um excelente guia.

Se Harari celebra a meditação como um meio de conhecermos um pouco melhor o funcionamento de nossas mentes e assim nos protegermos dos algoritmos que caminham a passos largos para decifrarem esse funcionamento antes de nós, Alex celebra a atenção genuína como ferramenta importante no cuidado com o outro, num exercício desafiador de redefinição do valor que damos a nossos egos. Em ambos os casos, olhar para dentro, ouvir o silêncio, prestar atenção à respiração são práticas apontadas como caminho para uma caminhada mais sã e carregada de sentido. 

***

Pode parecer fuga. Diante de impropérios diários, o silêncio nunca me pareceu tão atraente. Mas vou chamar de foco. 

***

Retomar a prática da tradução foi uma das coisas mais generosas que fiz comigo mesma nos últimos tempos. Como reencontrar um amor antigo e se casar com ele - opa, já fiz isso também. Pois bem, parece que é um hábito. :-) Ave, palavra. 


By the river


Lajeado Grande, São Francisco de Paula/RS


Som
frio.

Rio
sombrio.

O longo som
do rio
frio.

O frio 
bom 
do longo rio.

Tão longe,
tão bom,
tão frio
o claro som
do rio
sombrio.

Cecília Meireles




***

Em nossas barracas armadas às margens do rio, dormimos ao som da cachoeirinha logo ali. Sobre as lonas que cobriam nossas cabeças, a copa alta de uma araucária espiava a noite. Muito acima dela, quebrando a escuridão que vinha com o apagar da última lanterna, estrelas, estrelas infinitas. À noite, driblamos do jeito que deu o frio impensável em um início de março. Durante o dia, o calor fez das águas das cachoeiras um bálsamo, e cruzamos o rio pra lá e pra cá em busca do cantinho mais fresco. Do alto das trilhas que cercam o camping, víamos nossas barracas, os morros e vales moldados pelo tempo, o rio tão bonito. Foi a primeira vez que acampamos no interior do Rio Grande do Sul, e devo dizer que a experiência compensou com folga o deslocamento mais longo. 

No quesito bichos que nos amam, tivemos marimbondos, mosquitos não identificados, aranhas xeretas, pássaros que anunciavam o horário do café, borboletas fotogênicas, seriemas  e, nos minutos finais do feriadão, um escorpião para nos lembrar da importância de não deixar os pares de tênis ao relento - que a natureza é linda, mas tem uns lances esquisitos. ;-) 

***




As campistas veteranas agora montam sua própria barraca.

Os meninos, idem.

Acampar em grupo é um exercício de cooperação. O preparo da comida, a montagem das barracas, a conversa fiada, as piores piadas, a travessia do rio, tudo, tudo é melhor quando uma mão segura a outra. 









Bebê do rio.

Menino do rio.


"My river runs to thee..." 

Barulhinho bom.

Um grande e um maior.

Parte da galera que curte esse negócio de dormir embaixo da lona. 
Criançada adolescendo na cachoeira.
-"Rita, fiquei bem na foto?"
- "Claro, relaxa."

Seguimos trilhas para ver o rio e o camping do alto, ganhamos de brinde flores campestres, marimbondos mais ou menos amigáveis e borboletas.






O Carnaval não foi totalmente esquecido, e na noite mais fria do feriado tivemos até celebração de aniversário no clima da festa. Por volta das dez da noite, o termômetro marcava 13 graus. Pelos relatos na manhã seguinte, acreditamos que a temperatura deve ter ficado abaixo de 10 - em março, Rio Grande do Sul, pra que isso? Foi a noite dos encolhidos. 


Aqui uma das grandes invenções da modernidade, a taça de plástico. 
O trio de aniversariantes. De dia, maiôs e bermudas; à noite, camadas de roupas.
Unidos do Frio Fora de Época.

***

Olhar o calendário, falar da data com os parceiros de barraca, escolher o destino, ligar para o camping e pedir informações sobre a estrutura, fazer a lista das comidas, dividir a carga entre o grupo, desentocar a tralha (barracas, lonas, móveis desmontáveis - cadeiras, mesas, armários para as infinitas refeições do acampamento - colchões infláveis ou sacos de dormir, minifogões, pratos, copos, talheres, roupas, toalhas etc), invocar os santos e orixás dos campistas para fazer tudo caber dentro do carro, acordar cedinho, pegar a estrada - essas são as pedrinhas. Montar o acampamento já é acampar, então não conta. Mas até chegar lá, olhar em volta e dizer "que legal isso aqui, olha o rio/lagoa/mar/cânion"; até que a gente diga às crianças "sim, pode correr/nadar/pedalar", cada um do grupo põe uma pedrinha. E por ser cada um de um jeito é que fica tão bacana. 

Camping.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }