Em busca do equilíbrio perdido


Contamos e descobrimos que essa foi a 15ª vez. Acho que a gente acampa para, no meio de tanta loucura, buscar equilíbrio.


Equilíbrio que, sabemos, é fácil perder.


Assim como sabemos que é preciso insistir.


Para depois poder celebrar as superações. ;-)




Só assim podemos ajudar os outros na busca por seu próprio equilíbrio. 




Se tivermos sorte, quando o mundo gira, recebemos o benefício de volta. Acho que é por isso que a gente acampa. Pra dar e receber.


Acampando a gente tem a chance de se inspirar em outras equipes. Na água...


No ar...


Na terra.



Mas também é verdade que a gente acampa para observar flores aquáticas.



E amar.

Tem outra coisinha: a gente acampa para estar lá quando o pintor acorda, para ver as primeiras pinceladas do dia. 





É lindo o espelho do céu na lagoa. Por isso a gente acampa.


E também para escolher bem onde armar a rede, técnica importantíssima de sobrevivência.




Há quem diga que só acampamos para dormir sob e sobre o verde. Não nego.


Há entre nós quem acampa para fotografar a madrugada* e revelar no dia seguinte, a quem não sofre de insônia, o esplendor do nosso teto noturno. Enquanto isso, há quem durma na rede sem temer os insetos, embalado pelo silêncio da lagoa. O silêncio noturno no acampamento, verdade seja dita, sofre abalos. Roncos (quem nunca?), campistas afoitos que desrespeitam o sono alheio, gatinhos miando entre as barracas. Mas, cedo ou tarde, a calmaria assume as rédeas, enquanto as estrelas nos espiam e piscam para nós lá do infinito. A gente interpreta as piscadelas assim: voltem sempre, seus lindos.   




*Fotos noturnas feitas pelo @arvidauras


Origem



Quando li As cartas de Darwin me chamou a atenção o nível de detalhamento nas investigações daquele que ficou conhecido como o pai da biologia evolutiva. A Teoria da Evolução não foi concebida num par de anos por alguém olhando a paisagem da janela e divagando sobre o tempo e a aparência dos bichos. Ela foi resultado de décadas de um trabalho incansável e minucioso baseado em perguntas desarmadas. Um trabalho guiado pela disposição em encarar desafios, fossem do tipo que empurram uma pesquisa para a luz, ou dos que empacam essa mesma pesquisa. Das muitas coisas que me fazem admirar Darwin desde que li suas cartas, a maior delas é a honestidade intelectual. Agora que tive a chance de ler sua obra prima, um dos livros mais revolucionários da história do conhecimento humano, minha admiração só cresceu. Minha edição de On the origin of species é essa lindezinha aí ao lado. Um livro do tamanho da minha mão, com sobrecapa brilhosa e folhas em papel fino de beiradas douradas: uma embalagem caprichada para um volume precioso. Ganhei de minha filha em dezembro, e já é sério candidato ao posto de leitura mais valiosa deste ano que tá só começando. 

Um dos 14 capítulos centrais da obra é dedicado ao que Darwin chamou de "Difficulties on Theory". Ali ele encara as principais objeções da época ao entendimento que ele propunha e que já circulava em maior ou menor grau entre os naturalistas de seu tempo, sem fugir dos enfrentamentos mais difíceis. Nada de embelezamentos vagos. E certamente o fazia com conforto por saber da grandeza e da força de seus estudos e do volume das evidências disponíveis, da robustez dos argumentos que apresentava. Mas esse nem de longe é o capítulo mais interessante do livro. Há muito para nos embalar nos que apresentam a seleção natural, as leis por trás da variação das espécies, as curiosas normas de distribuição geográfica. Para mim, as páginas dedicadas aos registros geológicos são particularmente interessantes. A biologia evolutiva e a geologia caminham de mãos dadas e compõem aos poucos o quebra-cabeças que mudou a visão que temos do mundo natural e de nosso lugar nele.

Lembro das cartas que ele trocava com colegas naturalistas espalhados pelo mundo, dos relatos sobre a coleta da lama grudada aos pés de pássaros migratórios para verificação de sementes escondidas ali. Em Origin, vemos no detalhe a que servia a análise acurada dessas pequenas porções de lama. Desde o retorno da viagem no Beagle até finalmente decidir publicar seu relato, décadas depois, Darwin se debruçou sobre dados, bichos, fósseis, coleções de sementes e plantas, colônias de insetos; observou com minúcia as pistas e vestígios acumulados em ambientes naturais diversos, lagos, vales, montanhas; investigou espécies domesticadas e manipuladas pelo homem, leu e estudou com empenho tratados de geologia; realizou dissecações infinitas, conduziu experimentos que duravam anos envolvendo bichos minúsculos, embriões, plantações, testes em sementes aparentemente incapazes de germinar, dedicou-se a estudos de anatomia. A tudo imprimia seu raciocínio ponderado, aberto, brilhante. Sua obra é uma construção meticulosa apoiada em discussões fundamentadas com grandes naturalistas e geólogos - com os que o apoiavam e com os que dele discordavam - para apresentar ao mundo, com a maior clareza possível, uma proposta vigorosa que explicasse o mecanismo do surgimento das inúmeras espécies que habitam o planeta. A Teoria da Evolução não se propões a explicar a origem da vida, mas apresenta um esquema claro e lógico das regras por trás da variação das espécies. Revolucionou as Ciências Biológicas e abriu caminho para inúmeras investigações e descobertas nas décadas que se seguiram. É uma obra fascinante, extremamente bem escrita e por vezes emocionante. O entusiasmo do homem encantado com a Natureza nunca abandonou o cientista escrupuloso, uma combinação quase poética. É belo como o são as melhores ciências, as honestas e corajosas. 

Ao fim do livro Darwin apresenta um inventário de estudiosos e respectivos relatos e propostas que em variadas medidas comungavam com a teoria da modificação das espécies até 1859, data de publicação de Origin. Nada menos que trinta nomes e contribuições são destacados por Darwin. Por mais consciente que estivesse da grandeza de seu feito, Darwin não voltou os holofotes só para si, mas reconheceu que o entendimento que propunha rondava o mundo científico da época e viria à tona cedo ou tarde. Um ano antes, inclusive, em 1858, a teoria da evolução por seleção natural foi brevemente apresentada por Darwin em conjunto com Alfred Wallace, que, de forma independente, tinha chegado basicamente às mesmas conclusões de Darwin. O diferencial da contribuição de Darwin, contudo, estava no rigor investigativo, no fôlego com que detalhou os mecanismos estudados e na clareza com que vinculava os estudos geológicos aos biológicos. Ninguém até ali fora tão longe e com tanto afinco na decisão de propor tamanha guinada na visão reinante de suposta imutabilidade das espécies.  

De lá pra cá, avanços tecnológicos permitiram estudos geológicos, paleontológicos  e genéticos talvez vislumbrados por Darwin. A genética e a biologia molecular permitiram ajustes em pontos da Teoria, e o cerne do entendimento permanece e se desenvolve como base da biologia moderna. Li Origin cheia de admiração e respeito e, claro, com certo desgosto pelos desmandos que lemos aqui e ali escritos por quem se limita a associar a Teoria à equivocada gravura do símio virando homem ou que sequer se dispõe a entender o que a palavra "Teoria" significa no mundo dos estudos científicos. 

A primeira edição de On the origin of species esgotou rapidamente. Novas edições se seguiram, sempre revisadas. Darwin publicou outras obras nos anos que se seguiram, incluindo The descent of man. Morreu 23 anos depois de publicar sua obra revolucionária e nos deixou lentes novas para olhar o mundo. Não sei que livro eu levaria para uma ilha deserta, mas se me perguntarem que personagem histórico detém minha maior admiração, a resposta é fácil. 

"There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved."
Darwin, On the origin of species, 1859. 


 
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