Wandering round and round


Encerramos esse ano turbulento de um jeito que muito nos agrada, gastando a sola da bota. Perambulamos por Londres por dez dias. Quando decidimos ir, cantei a bola: dez dias? Sempre bom, mas vai passar num piscar de olhos, e num segundo estaremos de volta. E assim foi. 

Tentei, na medida do possível, brincar de me desconectar do noticiário, me fechar no meu quarteto; acho que fui bem sucedida em alguma medida. A cidade ajudou bastante, claro. Para as crianças foi quase como a primeira vez. Estivemos lá com eles durante dois meses há oito anos. Arthur tem lembranças esparsas, Amanda tem mais impressões que memórias. Alguns reencontros tiveram sabor de "já vivi isso antes". Em vários recantos e esquinas lembrei de fotos daquele 2010 e agora me divirto comparando as carinhas. 

Em abril de 2010 fotografei minha florzinha em meio às tulipas dos jardins da rainha...

... well, em dezembro não tem tulipa real, mas a gargalhada continua gostosa, e o colo estará sempre aqui.  

Em 2010 brincamos de caça ao tesouro no British Museum. O Portland Vase valia muitos pontos... 
... agora é mais fácil achar, não precisa ficar na ponta dos pés. 


Oin.

"Arthur, senta aí." "De novo, mãe?" (errei o canto da praça, mas era por aí, nas imediações da St. Paul's)
***
A carinha de Londres também mudou, mas a madame continua me recebendo como sempre faz: me fazendo respirar fundo, fechar os olhos por um momento, puxar o zíper do casaco e dizer "que bom estar aqui outra vez". É como acampar: já volto planejando um retorno. 

A Londres de dezembro tem vento gelado e luzes, muitas luzes. Tem dias curtos e atrações que fecham às quatro da tarde com cara de dez da noite e nos fazem lamentar demais. Tem chuva teimosa. E tem dias com generosos dez graus para alegria dos turistas que podem se desfazer de luvas e toucas. A Londres de sempre tem cafés e comidinhas do céu, muros velhos e parques imensos, prédios de idas eras e edifícios do futuro. Tem pontes e esquinas tão lindas que a gente quase entende a razão por trás de tanta arte que se cria ali. Beleza traz beleza que traz beleza que traz beleza. Love you, London. Still. 

***


Olha, os Beatles! Não, pera... (mas é a Abbey Road, pelo menos)


Cara de paisagem.




 ***

Uma das coisas mais divertidas de nossos corridos dias em Londres foi... sair de Londres e visitar os estúdios da Warner onde foi produzida a série de filmes do Harry Potter. Para fãs do bruxo, imperdível. Vou poupá-los das mil fotos de cenários, maquetes, props e ambientes inteiros usados nos filmes. Foi bacanérrimo.


Amanda e o quartinho embaixo da escada. 

Compras no Beco Diagonal.
Hogwarts Express, o próprio. 
***

Hello? Is it me you're looking for?

Resolvi acatar sugestões e bater perna em Little Venice. No verão, deve bombar. No inverno, esse barco charmosinho serve chá, café e comidinhas para espantar o frio. Das mesas lá dentro dá pra ver a cozinha onde as pastries são preparadas. Eu passaria o dia lá dentro, fácil. O antigo dono do barco viveu nele por 35 anos, oh, dear.

Certo dia fomos a Hampstead. Além do melhor restaurante (La cage imaginaire), Hampstead nos deu os melhores cookies (Gail's, nham!).  Nem toda casa é como a do poeta Keats aí na foto, mas o bairro tem pose de quem sabe que é lindo. 
 



A "noite" chegando às 15h30. Vista do Hampstead Heath.
 ***

Dessa vez os planos não incluíam visita a museus. Ha ha ha. A quatro deles fomos a pedido das crianças, digo, dos pré-adolescentes. Os obrigatórios para quem viaja com crianç..., enfim, Science Museum e Natural History, claro, além da minha queridinha National Gallery e do British Museum. Ainda os arrastamos ao V&A. Todo mundo satisfeito. Deixamos passar a Tate, pecado, e mais um bilhão de galerias, mas, né, dez dias. 

Quando tentei despertar o interesse deles pela Rosetta Stone, descobri que já era velha conhecida dos dois: Rick Riordan a usou em alguma trama do Percy Jackson. Cada um se encanta por suas razões. :-)
Da Vinci, na National Gallery. 

***

Numa cidade tão antiga, cheia de prédios cheios de história, admito que também me agrada passear pela City, o coração financeiro de Londres. Gosto do contraste de prédios centenários e rastros de milênios ao lado de edificações moderníssimas, o que acaba sendo um bom retrato da cidade. A City é o berço da metrópole; passavam por lá as ruas mais antigas de quando Londres ainda era Londinium, os romanos erguiam seus muros de pedra, e o reino inglês ainda nem existia. A majestosa St. Paul's Cathedral, a Millenium Bridge, o Globe (reconstruído) de Shakespeare e as muitas luzes de prédios altíssimos dividem o espaço com engravatados e turistas que, se forem espertos, vão se perder entre as esquinas. Quando a lua vem, como veio para nós, tanto melhor.




 








 ***
Dessa vez não deixei passar a visita ao Globe. Não deu pra ver nenhuma peça (as apresentações não acontecem no inverno, a plateia morreria de frio, provavelmente), mas gostamos da visitinha. O teatro reconstruído já duas ou três vezes não é o mesmo onde Shakespeare e seus atores berravam To be or not to be, mas a administração jura que é tudo feito tal e qual - inclusive o teto (onde há teto) de palha, único na cidade; os tetos de palha foram proibidos depois do incêndio de 1666 que destruiu boa parte da City. Estão lá os assentos desconfortáveis para quem paga um pouco mais pelo ingresso, o vão central para quem for ver tudo de pé, os camarotes com cadeiras acolchoadas para quem preferir a péssima visão do palco que a nobreza tinha à época do bardo (apesar do ângulo ruim para enxergar o palco, eram lugares privilegiados porque seus ocupantes também eram vistos pela plebe, uma vez que ficavam praticamente ao lado dos atores - uma espécie de instagram da época, como bem sugeriu a guia); ou seja, o climão tá todo lá. A madeira pode ser nova, mas o astral é do tempo em que Montecchios e Capuletos protagonizavam os babados. A lojinha é um perigo, fujam dela. Ou voltem pra casa com uma edição linda dos Complete Works do tio William. Avisei. 




 ***

Mostramos a região de Westminster e seus prédios históricos para as crianç... para os filhos, aproveitamos o que o frio nos permitiu de alguns parques, comemos como esfomeados, tomamos um café com a Lolla das melhores fotos do reino inglês, jantamos com a amiga Mila de frente para a ponte mais linda. Batemos perna sob o luar e sob a chuva, vimos as luzes de Natal da região da Regent's, atravessamos pontes, trocamos o metrô pelo ônibus sempre que deu; compramos bobagens em papelarias, tomamos baldes de café do Prét a Manger, voltamos pro hotel com caixas de cupcakes, fomos ver a cidade lá de cima do Sky Garden. Fomos brincar de todo-mundo-é-criança-agora no Winter Wonderland (eu fugi da montanha russa, mas entrei no trem fantasma), fomos ao teatro ver o excelente School of Rock, voltamos pra casa com chás e geleias dentro da mala - prioridades. 





Arthur e Amanda confabulando traquinagens na Golden Jubilee Bridge. 

Com você, em qualquer cidade. Em Londres, então, é até covardia.
***

De volta à programação quase normal, trago a inspiração da Millicent Garrett Fawcett, que sabia uma coisinha ou duas sobre enfrentar perrengues. ;-)

***

Com atraso, mas com desejo sincero: Merry Christmas, you all.


2 comentários:

Tina Lopes disse...

Eu adoraria flanar por Londres com vocês. Como essas crianças/ops cresceram e estão lindos, mddc. Beijos <3

Rita disse...

Ah, quem me dera sua valiosa companhia numa cidade incrível assim, Tina. Obrigada pelo carinho. :-*

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }