Bittersweet



Hoje nos reunimos em torno da mesa da cozinha e despejamos sobre ela os pedacinhos de papel que colecionamos em nosso pote de lembranças ao longo do ano. Combinamos de anotar pequenas alegrias ou acontecimentos que, mesmo que não sejam exatamente grandiosos, gostaríamos de relembrar no apagar das luzes de 2018. Estavam lá pequenas conquistas das crianças/pré-adolescentes desta casa, como os gols na partida de handebol e a melodia desafiadora tocada no piano; estavam a volta pra casa depois da reforma e o dia em que compramos as passagens das férias; o dia em que a Amazon entregou a encomenda e o dia em que os novos amigos vieram jantar pela primeira vez. Lemos os bilhetinhos escritos para nós mesmos com risadas e expressões como "nossa, verdade!" ou "caraca, isso foi em janeiro?!". Havia também uma notinha sobre o dia em que o Roque nos deixou para nos lembrarmos da alegria de ter tido ele conosco por tantos anos. Foi um ano difícil em vários aspectos, com momentos de desânimo e perplexidade, mas também cheio de pequenas grandes alegrias em meu pequeno universo particular. Foi bom ler nossos bilhetes, foi como ver um curta sobre os melhores pequenos momentos dos últimos doze meses. A vida é feita desses pequenos momentos, são eles que nos alimentam para os grandes passos e nos mantêm de pé diante dos desafios. Que nosso pote azul das lembranças esteja ainda mais cheio daqui a doze meses. 

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Em meio ao turbulento 2018, a leitura foi a companheira fiel de sempre. Deixo aqui minha pequena listinha dos livros que mais me tocaram neste ano.

Não ficção:

- Negociando com os mortos, de Margaret Atwood - sobre a escrita, sobre o uso dela como lanterna a nos guiar nesse mundão.
- Todo dia a mesma noite - a história não contada da boate Kiss, de Daniela Arbex - o relato daquela noite com foco em algumas das famílias atingidas, no trabalho dos bombeiros e médicos, e no conjunto de falhas e erros que levaram à tragédia.
- A trégua, de Primo Levi. A saga real e absurda da volta para casa de um grupo de sobreviventes do holocausto. A peregrinação de Primo por estradas e ferrovias semidestruídas Europa afora, lutando contra fome, doenças, medo e solidão, é mais um daqueles relatos que nos lembram (ou deveriam) a estupidez das guerras.  
- Leonardo da Vinci, Walter Isaacson - li poucas biografias em 2018; a do Da Vinci foi a mais envolvente. Isaacson exagera no deslumbre aqui e ali, mas a vida de Leonardo garante a diversão. Foi mesmo uma pessoa excepcional. 

Ficção - li vários livros mais ou menos neste ano. Criei expectativas e me decepcionei, li por curiosidade e acabei perdendo tempo, coisas desse tipo. Deixo aqui duas indicações que compensaram os meia-boca:

- The waves, de Virginia Woolf. Um quadro em forma de livro, talvez? Isso: uma pintura. Virginia, mostrando que não era exatamente deste mundo. Maravilhoso - logo teremos nova tradução dessa lindeza em português pelas mãos da Denise Bottmann. 
O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer - 2018 nos tirou Victor, mas sua escrita maiúscula permanece e o eterniza. Quero ler tudo dele. 

Em 2018, embalada pela sucessão de eventos inacreditáveis em nossa política, chutei o balde e mergulhei nas distopias. Se é pra tomar susto, vamos ao menos fazê-lo admirando a genialidade de bons escritores, certo? Li três clássicas distopias e agora me sinto menos despreparada para encarar certas sandices -  ou não. Recomendo todas, com destaque para a obra prima de Orwell, claro.

- Admirável mundo novo, de Aldous Huxley - humanos selecionados, modificados e programados para obedecer e dizer amém. Um mundo de não pensantes abobalhados e deslumbrados com a limpeza, a beleza, a juventude, a retidão; um mundo sem libido, sem dúvidas, sem surpresas. O horror.  
- Fahrenheit 451, de Ray Bradbury - um mundo em que livros são proibidos; onde leitores rebeldes vivem na clandestinidade e são caçados sem misericórdia; uma fábula sobre o poder da leitura, da arte e da informação. Achei delicioso. 
- 1984, de Orwell - dispensa apresentações, mas nem por isso me assustou menos. Ler sobre a reconstrução do passado através da manipulação da linguagem; sobre o empobrecimento intencional dessa mesma linguagem como forma de reduzir a gama de argumentos; sobre a mentira repetida que se torna versão oficial - ao mesmo tempo em que vivemos o 2018 que vivemos, olha, foi surreal. Sem falar no grande olho... Orwell não sabia dos algoritmos tal como o conhecemos hoje, mas, em certa medida, está tudo ali. De arrepiar. 

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Acabou o ano. Estou me preparando para entrar 2019 cercada de risos e alegria, carinho e chamego. Vou deixar minha casa florida, aumentar o som, encarar o que vier. Quem me conhece sabe, estou apreensiva e desanimada. Mas virada do ano tem esse simbolismo bom de renovação: de minha parte, vou renovar as energias, acho que vou precisar - nem que seja pra suspirar e revirar os olhinhos. Vamos ver o que virá.

Desejo luz e muito amor. Que os desmandos todos desandem e virem água, que a sensatez e o amor ao próximo mais necessitado prevaleçam. Desejo muita leitura boa e menos armas. Desejo que o discurso de ódio se desmanche e que a diversidade se agigante. Que a gente acolha, converse e ouça. Que vocês, lindos, continuem lindos. Feliz ano novo, queridos companheiros de estrada. Vumbora. 


2 comentários:

Juliana disse...

Feliz ano novo, Rita! Beijos.

dionete bugyi-zande disse...

feliz ano novo, rita - obrigada por tanta leveza, por tanta poesia nos detalhes, por tantas maravilhas ♥

 
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