Travessia


Acampar é um pouco como fazer uma travessia. O mundo de lá é coletivo, divertido, natureba e sonolento. O estado atual do mundo de cá quase não me deixou ir; como se parte de mim não quisesse tirar folga do enfado. Venceu um outro lado, e fui. Aceitei a promessa de paz e preguiça. 

É engraçado encarar um acampamento como "preguiça", porque, fisicamente, há uma enorme trabalheira envolvida: a fome vem, é necessário preparar comida; comida gera louça suja, é necessário limpar tudo; barracas não se montam sozinhas. Ainda assim, a sensação dominante é de um tempo que passa em outro ritmo, em outra balada. É uma pausa. Dentro dos parênteses que se abrem em um acampamento, sempre há certa troca de olhares que diz "aqui estamos, que bom". 

Atravessamos.


A tarde cai e traz a tal paz. 


Depois da tarde lindinha vem a noite e, com ela, nossas luzinhas e lanternas em torno das barracas. Luzinhas no mato atraem todos os besouros. Falo de "paz", e as fotos podem dar a ideia de um final de semana idílico, porém a verdade é que criaturas cascudas em nossos cabelos podem gerar cenas escandalosas e patéticas, não nego; nem confirmo. Digamos que há toda uma arte envolvida no preparo do macarrão em meio a zumbidos e patinhas ligeiras. Dominamos, mas é um processo barulhento. 

À noite, besouros; de dia, lagartas. Foi fácil ver que estamos na época das temidas lagartas cabeludas. Elas se esgueiravam pelas árvores de folhas semidevoradas, aproximavam-se das barracas, avisavam que o terreno era delas. Preferimos a borboleta grandona de imensas asas azuis que nos visitava todas as manhãs, mas a vida pede paciência, lagarta primeiro. Outros visitantes vieram, como o amigo preguiçoso de quatro patas ou o pássaro grandão que, creio eu, deve estar feliz com as lagartas. 




Um grande lagarto também rondou o camping; gerou correria e espanto, mas nenhuma foto. Gerou também um comentário tranquilizador: onde há lagarto, não há cobra, disseram. Para provar que não sabemos de nada nessa vida, alguém olhou para o telhado da área comum do camping, onde ficam pias e churrasqueiras, e lá estava a magnânima. 


Ninguém no grupo jamais lavará louça sem olhar para cima. 
Vejamos pelo lado bom: não apareceu nenhum leão. Os outros momentos de tensão ficaram por conta do Coup e da canastra.

Tenso: quem será o próximo assassino?

Spoiler: ganhei da minha freguesa outra vez, hohoho. ;-)
***

Sempre levo um livro comigo, gosto de ler na semiescuridão da barraca antes de dormir. Normalmente a leitura rende nada, uma, duas páginas no máximo, mas vamos combater o vício no açúcar, deixemos os bons vícios em paz. Agora arrumei uma companheira que também mantém a leitura em dia no meio do mato. 


Ela disse "noossaesquilinho!"
Depois de ler, ela comeu papinha de manga. A rigor, seriam necessários outros dois babadores na foto abaixo. Não para o bebê, para os babões.




Ninada mútua. 

Não falei que rola uma preguiça?

Pois.
***

Foi o camping dos bichos, mas também das flores e frutas. Ei-las. 


Nham!

***


(...) Caminho do campo verde,

estrada depois de estrada.

Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.(...) - Cecília Meireles

Talvez cada uma ande sozinha (não é assim, tantas vezes?). Porém juntas. 

Que toda travessia traga o riso.


 
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