Das lições que nem parecem ser sobre nós


Concluí hoje a leitura de 21 lições para o século 21, do israelense Yuval Noah Harari (Cia das Letras, tradução de Paulo Geiger). Na contracapa da edição que li estão listadas as quatro perguntas que guiam os 21 capítulos: o que está acontecendo neste exato momento?, quais são os maiores desafios de hoje?, em que devemos prestar atenção? e o que ensinar a nossos filhos? Os capítulos estão agrupados em cinco partes: O desafio tecnológico, O desafio político, Desespero e esperança, Verdade, Resiliência. Assim como em Sapiens e Homo Deus, ler 21 lições propicia uma espiada nos desafios da era da (des)informação, do meio ambiente sufocado e das revoluções digitais e tecnológicas que podem desestabilizar nosso entendimento do que é ser um humano neste planeta. A narrativa de Harari, com tratamento histórico, sociológico e filosófico, é uma janela bem iluminada e aberta para muitos de nossos conflitos sociais da atualidade. 


Depois de terminada a leitura, eu deveria sentir aquela animação que experimentamos quando lemos um texto sólido, resultado de inspiração e pesquisa, perguntas complexas e argumentos bem fundamentados. Porque é um livro que aponta para a frente e nos apresenta provocações necessárias sobre nossas crenças e valores. Mas ler esse livro neste momento de nosso país acentuou um pouco minha tristeza. 

Muitas vezes tenho a impressão de que Harari parte do pressuposto de que alguns avanços no grande diálogo mundial não têm volta. Que, pelo menos nas democracias modernas, alguns barbarismos estão para sempre soterrados sob as edificações de princípios muito sólidos. Em certo ponto, por exemplo, ele fala do apelo eficiente de certas narrativas: construídas com discursos belos e aparentemente nobres, disfarçam uma face perversa e egoísta. Ao nos identificarmos com narrativas assim, olhamos no espelho e dizemos: não sou perverso, logo esse discurso com o qual me identifico não é ruim. O poder da narrativa simulada está justamente na ilusão de sua beleza. Aí ele diz que vê um erro que considera comum nas caracterizações de vilões em indústrias como Hollywood: os vilões obviamente detestáveis como Vader, Sauron ou Voldemort jamais teriam seguidores; eles precisariam projetar uma face bonita, um lado dissimulado que seduzisse seus adoradores. E então escreve: "como alguém poderia ser tentado a seguir um canalha nojento como Voldemort?". Suspirei, né. 

E aí está minha tristeza: não parece haver avanço garantido. Não há o que não possa ser revogado; não há princípio que não possa ser esquecido. Talvez se Harari tivesse dado uma espiada no Brasil dessas semanas, esse trechinho tivesse um exemplo diferente. 

Gostei muito do livro, mas suas discussões sobre a necessidade de preparar nossos filhos com criatividade e capacidade de empatia e trabalho coletivo em um mundo acelerado, sobre a necessidade de investirmos pesado em ciência voltada para a proteção do equilíbrio do planeta, sobre a necessidade de nos despirmos de verdades absolutas para encararmos com sagacidade nossos desafios na era da informação e do reinado dos algoritmos, tudo isso evidenciou ainda mais a escuridão que cerca o Brasil de agora. Foi um pouco como se Harari estivesse me falando do nosso planeta quando fala dos desafios, e me contando coisas sobre uma galáxia distante quando aponta os caminhos futuros. Confirmando-se os prognósticos que temos hoje, nada no horizonte próximo de nosso país sequer flerta com os caminhos apontados por Harari.

É provável que eu me agarre ao último capítulo e considere com seriedade a prática da meditação.

  "Primeiro, quando as facas de sílex evoluíram gradualmente para mísseis nucleares, ficou mais perigoso desestabilizar a ordem social. Segundo, à medida que pinturas rupestres gradualmente evoluíram para transmissões de televisão, ficou mais fácil iludir pessoas. No futuro próximo, algoritmos poderão completar esse processo, fazendo com que seja praticamente impossível que as pessoas observem a realidade por si mesmas. Serão os algoritmos que decidirão por nós quem somos e o que deveríamos saber sobre nós mesmos. 
Por mais alguns anos ou décadas ainda teremos escolha. se fizermos esse esforço [de tentarmos observar como funciona nossa mente], ainda podemos investigar quem somos realmente. Mas, se quisermos aproveitar essa oportunidade, é melhor fazer isso agora."


 
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