New colours on the block


A cada dois dias, em média, a caçamba de entulhos é substituída por outra vazia. A cheia é retirada e dentro dela lá se vão escombros, restos escavados da frente da minha casa e da  velha cozinha. Hoje vi no topo da caçamba grandes pedaços de raízes do ipê que se espalham gulosas pela calçada. Fiquei me perguntando se a estrutura da árvore será comprometida por essa mutilação, espero que não. No estágio atual da reforma, a garagem, já sem piso, abriga uma betoneira, madeira, ferragem, ferramentas, sacas de cimento e similares. Num canto do que já foi meu jardim, plantas arrancadas aguardam clemência e replantio. Dentro da casa os móveis brincam de esconde-esconde sob lonas cobertas de um pó infinito que em tudo penetra. Alguns cômodos já têm tinta nova nas paredes, assim como algumas portas, teto, detalhes. Amanhã a cozinha repaginada ganhará seus primeiros móveis. Talvez um dia o quintal fique limpo novamente e minhas orquídeas, kalanchoes e violetas me perdoem. Olho em volta e vejo arte: o pedreiro que dá concretude a um desenho, o pintor que faz da minha casa tela. Aos poucos a transformação que planejamos vai acontecendo e em breve estarei abrindo caixas de copos e livros, regando brotos, vendo Netflix na minha cama outra vez. Conto os dias para voltar e ter de novo minhas miudezas, minha desordem, o bolo no meu forno. Mas admito: estou curtindo a loucura. A prova da insensatez é que reajo às pequenas intempéries com paciência e risadas. O cano é furado a golpes, o revestimento é colado no lugar errado, a tinta é um pouco escura demais, não consigo escolher a cor da pedra. Não é pouca a desordem no mundo, o país tá tão longe do sonho mais tímido; vou ao menos fazer do meu cantinho no mundo metáfora de alegria. Em breve, com porta nova e um armário um pouco maior - pra caber mais biscoitos e mais planos. 

A casa de minha infância ainda mora em mim e foi cheia de pequenas e grandes reformas - a cada nova obra, uma nova fase. Não sei que lembranças meus filhos guardarão da bagunça atual, mas sei que, assim como eu, querem logo voltar pra casa. Vou riscando os palitinhos imaginários na parede, contando pedrinhas. Logo volto, logo volto. E então vou passar um café e abrir as janelas para que o cheiro da tinta fresca dê  lugar ao aroma do bolo favorito das crianças. E tudo vai estar no lugar outra vez - com alguma desordem, claro. Como num ninho.   

Houses


"O verão voltou, e eu voltei para casa. Atrás de mim fica o Atlântico, como uma chapa de zinco, uma distorção temporal. Como sempre acontece nesta casa, eu fico mais cansada do que devia; ou melhor, sonolenta. Releio histórias de detetive e vou pra cama cedo, sem nunca saber em que ano vou acordar."

Esse é um trechinho do conto "Em busca da Orquídea", da Margaret Atwood. Ele me jogou de volta ao tempo em que eu morava sozinha e visitava minha mãe. É uma das coisas que a boa literatura faz, isso de, de repente, ser sobre a gente. Um conto escrito por uma canadense nos anos 80 me pega pela mão, me leva até a janela e me aponta aquela paisagem tão minha. E o tempo se dobra, e não estou mais aqui. 

Não estou em casa. A paisagem que me cerca agora é bonita, mas não me pertence. Existe o mar; e o vento, de que gosto muito. A janela noturna do quarto da Amanda é cheia de estrelas, então a espera está sendo suave. Mas sinto saudades de minha casa, da minha cozinha, do meu quintal, dos meus livros. Quando eu abrir as caixas, eles vão se espreguiçar e dizer "aleluia"? 

Eu vou. 

 
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