Roque, o melhor cão


Quando a Amanda nasceu, fazia cinco meses que o Roque estava com a gente. Quem nos deu o Roque de presente falou que estávamos ganhando um bom cachorro. Descobrimos com o tempo que tínhamos ganhado o melhor cachorro. O Arthur era um bebê de dois anos, o Roque, um bebê de quatro meses. Nossa casa estava completa.

Temos amigos que não gostam de cachorro de uma maneira geral, só do Roque. Temos amigos que gostam de cachorro e concordam que o Roque é o melhor. Temos amigos que não dão muita bola, mas acham o Roque um cão muito doce. Temos amigos que nos deixam conversando na sala e vão lá pro quintal brincar com o Roque. As crianças que chegam aqui querem ir lá ver o Roque. O Floquinho, nosso outro cachorro, é louco pelo Roque. 

Os medos do Roque são trovão e fogos de artifício. Ele é grande e pesado. Na última sessão de terror, no reveillón, ele ficou com as patas sobre meu colo enquanto eu tentava acalmá-lo. Eu quis mudar de posição e ele, apavorado, afastou a pata com cuidado para não me arranhar e deixou que eu ajustasse minha posição, sem me machucar. Ele certamente sabia a força que tinha, mas era cuidadoso. Sempre afastava a cabeça para receber a segunda porção de comida enquanto se alimentava. Ficou velhinho, mas continuou bebê. 

O veterinário nos preparou, falou dos riscos da cirurgia; sabíamos que era uma tentativa de aliviar seu desconforto e, quem sabe, conseguir uma sobrevida digna. Mas não deu. O tumor era de tal porte que ele praticamente não tinha mais bexiga. Parece incrível que só há poucas semanas ele começou a apresentar os primeiros sintomas do câncer devastador que o tirou de nós. Hoje precisamos nos despedir dele.

Estamos iniciando uma reforma, a primeira grande obra na casa que compramos pouco antes de a Amanda nascer, pouco antes de ganharmos o Roque. Estamos empacotando coisas, tudo está em desordem. Hoje o Roque marcou esse ciclo de vez. A casa envelheceu com ele, disse o Ulisses. Vamos reparar a casa, e vamos ficar com nossas lembranças do melhor cachorro, do cachorro mais lindo.

Há poucos meses compramos uma mesa com banquinhos para o quintal. O Roque não demorou em batizá-la, roeu um banco e uma perna da mesa. Brinquei que a mesa tinha ficado ainda mais rústica. Penso que agora são nossos móveis favoritos, têm a marca do Roque. A cara dele.

Estamos com os corações murchos de tristeza, mas vamos nos agarrar à  imensa sorte que tivemos. Ele viveu conosco por onze anos. Minhas crianças cresceram com ele, que era um bom exemplo de força e gentileza. 

Obrigada, Roque.  




Com a Amanda ainda na barriga e o Arthur bebezão. 


Ulisses de óculos fake em solidariedade ao Arthur, que tinha acabado de começar a usar suas lentes. O Roque, mordendo uma bola em solidariedade à bagunça. 




Cheirando o pé de qualquer bebê que nos visitasse. 


Verificando que plantinhas arrancaria depois. 

Abre a porta?

Adeus, amigo. Te amamos.


 
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