New house, little old corners


Dentro de algumas semanas começarei a embalar louças e panelas, a cobrir cadeiras e móveis com lonas. Entraremos na roda viva de uma reforma. Dizem que aquilo que não nos mata nos fortalece, quero acreditar. Foram tantas reformas na casa onde cresci que a que se aproxima tem gosto de reencontro. Na verdade, será a primeira vez que mexeremos pra valer na nossa casa, onze anos depois de nos mudarmos pra cá (e de alguns ajustes que fizemos naquela época). Já estamos às voltas com visitas de marceneiros, pedreiros e serralheiros, orçamentos e lojas. Nem acredito que criei coragem, sinto-me praticamente uma guerrilheira. 

A ideia de deixar a casa com novos ares pode significar jogar coisas velhas fora. No entanto, uma passada de olhos por algumas miudezas me mostrou velharias que não só serão guardadas por muito mais tempo, como são mesmo o miolo dessa casa. Vou mexer na house; a home pode envelhecer, quanto mais sinais do tempo, melhor. 



Este quadrinho artesanal é um cartão de aniversário. Recebi em 1998, enquanto estudava na Inglaterra. A amiga que me mandou estava num fuso horário tão distante que não raro conversávamos nas suas madrugadas, em ligações telefônicas de outra encarnação. A mensagem está no verso e quando a recebi me senti como a menina no balanço.  

Meses depois, de volta ao Brasil, uma colega que tinha acabado de me conhecer me presenteou com essa lindeza. Trabalhamos juntas por pouco tempo, mas sua gentileza ficou com esse frasquinho.

Vem da mesma época essa agendinha. Tem telefones de pessoas que nem sei por onde andam mais. Não importa.


No final do doutorado um colega me presenteou com esse livrinho para novos escritos. Vive na gaveta do criado-mudo, de vez em quando saco de lá no início da manhã. Armazeno sonhos (não planos, aqueles outros mesmo que a gente leva pra terapeuta), acho um bom uso. A capa é pra quando eu virar colega da moça, talvez. 

Da minha avó paterna, Alice. Minha mãe guardou em sua cozinha por muitos anos.


Da minha mãe, um conjuntinho manchado de chá confuso: as xícaras são de cafezinho. 

Esses copos me viram crescer. Me olhavam da cristaleira da sala da minha mãe. Cada dia, eu passava por eles um pouco mais alta. Agora eles espiam meus filhos. 




Não sei a história desse conjunto de jarra e copos, mas sei o quanto minha mãe gostava dele. Um dos copos se quebrou, mas não foi jogado fora. Ela colou e hoje ele mora com sua cicatriz na minha cristaleira.

Bandeja da minha mãe, antiga como os velhos natais em que ela embrulhava a cesta com papel celofane. 

Ulisses ganhou do pai aos dez anos.

Minha pequena coleção das obras de Clarice comprada num sebo em Campina Grande, na época da faculdade de Letras, um milhão de anos atrás. 

No mesmo aniversário do cartão-quadrinho, ganhei de amigos australianos (Kim & Mick, onde andam vocês?) esses copinhos para shots de alguma bebida esquisita que tínhamos experimentado juntos em algum lugar escondido no interior da Áustria. O contato de perdeu, mas os copinhos não me deixam esquecer do quanto me diverti com eles. O real sentido de se dar para alguém "uma lembrancinha". Que fica.  

Também me viu crescer, parece que minha mãe gostava de azul. Atualmente, fica lotada no Halloween. 

Comprei esse relógio quando estava grávida do Arthur, num mercado maravilhoso em algum lugar de Montreal. Da mesma viagem, trouxe para casa os quadrinhos em relevo com miniaturas de lojas. O nome do artista revela o dedo chinês. Arthur já está adolescendo, mas eu continuo admirando os detalhes das fachadinhas.







***

Na ida ao circo; nas viagens a Campina Grande - fosse para visitar parentes, ir ao médico ou fazer compras; nos passeios pelas ruas de Esperança durante a Festa da Padroeira, nas filas do carrossel ou roda-gigante; em eventuais passeios nas tardes de domingo. Em cada uma dessas ocasiões, esses anéis estavam juntos, minha mão na dela. O meu, imitando um cinto e que só parei de usar quando se quebrou, foi provavelmente o único anel de minha infância; o dela tinha uma fotografia de minha avó, Rita como eu.



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Nos cantinhos, nas gavetas e em algumas prateleiras, o bom da casa é ser velhinha. (Que venha a reforma do esqueleto.)


3 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

é tanta delicadeza neste post que, desengonçada que sou, li com todo vagar e cuidado, pra não causar estragos.

Rita disse...

Ah, Lu, lindona. :-*

Alice disse...

Belas palavras. Quantas memórias bonitas para contar. Realmente emocionante.

 
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