Leonardos



Depois de quinze anos, estou de volta ao animado mundo da tradução. De tudo que venho experimentando nas primeiras semanas dessa nova fase, nossa relação com o tempo é o que mais tem chamado minha atenção. Não mais manhãs aparentemente infinitas, salpicadas de olhadas para o relógio. Agora as horas dançam ao meu redor num ritmo todo novo. O tempo voa, trabalhar ficou bom outra vez. Sei de minhas fases e respondo por minhas escolhas, não há arrependimentos. Mas, ah, que bom voltar. A tal luta vã do Drummond? Quero, todos os dias. 

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A literatura nos permite apreciar cordilheiras que as palavras são capazes de erguer. A tradução revela as camadas de algumas das montanhas. Profissão: alpinista.

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A biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson (Ed. Intrínseca, tradução de André Czarnobai) é um passatempo divertido. A vida de Leonardo foi, de fato, fascinante. Alucinante, talvez. Mente aberta, curiosidade infinita e disposição para experimentos são alguns dos ingredientes que resultaram em genialidade e nos presentearam com obras de arte - e com inúmeros cadernos recheados de registros que vão da anatomia à arquitetura, passando pela astronomia, geologia e qualquer outro campo do conhecimento científico que já tivesse sido criado na época da Renascença. Existia? Leonardo estudou. Portanto, a biografia feita por Isaacson é suculenta. Além disso, o livro é visualmente bem cuidado, com reproduções de obras e de páginas dos cadernos do artista-arquiteto-militarista-engenheiro-geólogo... É uma ode ao amor pelo conhecimento e é difícil não encontrar algo que nos agrade num livro assim. 

É verdade que de vez em quando Isaacson se empolga um pouco demais. Há vezes em que parece se deixar levar por um entusiasmo tão apaixonado que lá estamos nós, felizes em nossa leitura, quando, não mais que de repente, salta da página algo como: "Leonardo estava ciente de que seu desenho de um feto tinha uma qualidade espiritual que transcendia os outros estudos anatômicos." Ou, ainda, também sobre os desenhos de fetos: "Como estudo anatômico, ele já é muito bom, porém chega a ser puramente divino - de forma quase literal - como obra de arte". Divino de forma quase literal? Oi? Bom, não sei se foi alguma escolha curiosa do tradutor, mas ficou, digamos, engraçado. E o que vem a ser a "qualidade espiritual" de um desenho? Os desenhos anatômicos de Leonardo são ricos em detalhes e realmente impressionantes. São frutos de dissecações minuciosas e olhar aguçado, além da disposição em retratar com fidelidade os recantos do corpo humano que tanto fascinavam o artista. Foram considerados o que de melhor se produziu em ilustrações do corpo humano em sua época, por muito tempo. Eram incrivelmente... realistas. Por isso mesmo, tão interessantes; revelam o empenho de Leonardo para se superar em qualquer campo ao qual se dedicasse. Eram um primor, mas eram humanos, terrenos, e frutos de muito esforço.

A rixa com Michelangelo, os amores, a homossexualidade, os alunos e modelos, certa fascinação por cabelos cacheados, a escrita espelhada, as obras retocadas ao longo de anos e anos, os muitos projetos abandonados, as relações familiares não tão simples (Leonardo era filho bastardo), Florença, Milão, França, as comissões, a relação com o teatro da época, os terríveis Bórgia - tá tudo lá. Tem material para longas e boas horas no sofá. E descanso para os olhos também. 


*suspiros*

Leonardo retocou São Jerônimo quando estudou a anatomia dos músculos do pescoço, para corrigir "imperfeições - vinte anos depois da primeira versão.








Lisa recebeu retoques ao longo de dezesseis anos e nunca foi entregue ao cliente que a encomendou.

A última página, interrompida porque a sopa estava esfriando.

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O livro de Isaacson será a base da versão cinematográfica da biografia que terá o outro Leonardo, o DiCaprio, no papel do protagonista. Um Leonardo bom dentro de outro? Acho que promete.

A casa da casa


Minha filha adora cozinhar. Quando convido para fazer um bolo, ela vibra como quando convido pra jogar alguma coisa. Na verdade, na maioria das vezes, é ela quem me convida. Recentemente passei a ficar mais tempo em casa, e ela anda toda animada calculando que isso significa mais tempo com ela na cozinha. Na realidade, não tem sido bem assim ainda, mas já conseguimos alguns avanços. Ontem, quando chegou da aula de handebol, eu já estava com o jantar encaminhado, toda feliz brincando com meu livro novo de receitas que ganhei de uma amiga. Ela, obviamente, protestou. Sentiu-se traída. Como assim, eu estava cozinhando sem ela? Justo. Passei o bastão e fiquei de assistente. É muito bom esse momento do dia, todos em casa, comidinha sem pressa, sem relógio, o conversê tomando conta. A cozinha é nossa casa dentro de nossa casa, o canto onde nos alojamos para pitacos, novidades, DRs, barulho de todo mundo falando junto, broncas, papos sérios que descambam em risadas. Olho para a Amanda no fogão, um olho no livro, outro na panela, toda animada se achando a chef, e acho tão gostoso. Quero tanto que ela se lembre. Que é tão bom. 



Forre a assadeira untada com rodelas de batatas pré-cozidas em cozimento ultrarrápido.

Cubra com frango desfiado que sobrou do almoço, misturado a cebola e alho refogados em azeite, sal e pimenta, regados com molho de leite, manteiga e farinha de trigo.

Mais batatas.

Dê uma conferida no livro da outra Rita. 

Cubra com o resto do molho.

Faça chover parmesão.


Vá conversar ou arrumar a mesa.

Esqueça de fotografar o prato pronto porque o cheiro estava divino, handebol dá fome e todo mundo avançou. 

Da Vinci


A biografia de Leonardo da Vinci escrita por Walter Isaacson e publicada no Brasil pela Editora Intrínseca, com tradução de André Czarnobai, é uma lindeza. Estou no início do texto, mas já completamente conquistada pela apresentação do livro. Trata-se da biografia base da adaptação para o cinema que terá o outro Leonardo, o DiCaprio, no papel principal (já imagino filmaço). A impressão que tenho no início é de um trabalho robusto, suculento, daqueles livros que abrem a porta para inúmeras outras obras. Vou ler de-va-gar.








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Como falei lá no Face, botei a Itália  na minha Copa. \o/

Slow


Tenho degustado o inverno a pequenas colheradas. Ainda há muitas gavetas esperando arrumação pós-reforma e cuido delas com um olho na copa, outro no cachorro esparramado no tapete. Aí me esparramo junto e deixo a gaveta pra depois. Não canso de repetir: é tão bom estar de volta.

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Tenho lido pouco nessas últimas semanas, e é estranho. Minha lista de espera está esperneando, mas entrei numa espécie de calmaria consciente: tudo tem seu tempo. Aguardem-me letrinhas, que nosso caso de amor logo entrará numa efervescência alucinante - ui. A viagem do elefante, do Saramago, narra a lenta odisseia de Solimão, o elefante, de Portugal à Áustria. Vou com ele, no mesmo ritmo. Estamos quase chegando. 

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Estou enamorada de minha casa. Quem passou por reforma, sabe: ainda bem. Digo que a reforma não transforma só a casa, mas a nós também. Saímos dela loucos ou renovados. E que bom ser inverno, o que já nos convida pro chá encolhidos no sofá.

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Amanda faz a melhor massagem nos pés. Aqui, ela recebe uma retribuição à altura. Floquinho observa, enciumado. 

Chegou botão, abriu toda linda. 

Conseguem sentir o cheiro?

Home, sweet home


É muito bom estar em casa novamente. A reforma vai chegando ao fim e, apesar dos retoques que ainda estão sendo feitos, já ando pela casa com alegria por ver que as mudanças que planejamos deram certo, que ficamos satisfeitos. Gostei das cores, dos revestimentos, dos móveis, dos degraus, cada porta, trinco, detalhe que foi consertado ou substituído. É verdade que quem olha da calçada ainda não vê muitas cores; com exceção do ipê e das palmeiras na calçada, o verde sumiu. O jardim da frente ainda não existe, é preciso repor a grama, replantar tudo. Dentro de casa, contudo...


As azaleias serão replantadas na floreira perto da janela, do lado de fora da casa, assim que suas flores caírem. Espero que tenham vida longa e renovada por lá depois.



Nem sei por quantas semanas as ciclames vão resistir, mas no momento parecem eternas.



Falando em eternas, hortênsias desidratadas.


Minha cozinha agora tem a melhor janela. Instalamos um passa-pratos no lado externo, para dar uma mãozinha naqueles momentos em que a gente quiser levar comidinhas pra quem estiver curtindo um sol no quintal. Essa era a expectativa. A realidade é um excelente lugar pra encher de plantinhas.






Mosquitinho lover, eu.


Há quadros por pendurar, portões para pintar (ainda), iluminação para instalar; há caixas de livro no chão do escritório esperando uma estante. Móveis ainda por comprar. Tudo dentro do previsto, uma obra nunca acaba, dizem. Fora do script fica o atraso absurdo da loja que me vendeu a cozinha. Primeiro lugar da casa a ser reformado, ainda não foi concluído. Apesar de já estar em pleno funcionamento, tenho móveis sem porta e vários detalhes inacabados. Estou respirando fundo e me preparando para um embate, quem sabe até judicial. No comments.

Reformas na casa, reformas ainda maiores na vida. Essa semana inaugura uma nova fase que, de tão esperada que foi, ainda me espanta. Encerro um ciclo em um emprego que me trouxe muitas alegrias por tabela, mas que me causou crises existenciais imensas por vários anos. Veremos o que virá.

Amanhã é dia 21 e a comemoração de aniversário será ofuscada pelas alegrias outras. Já ouvi falar em inferno astral, mas, ó, faltou aqui. ;-)


Um menino



Tenho cá pra mim que com a infância que você teve, cheia de risadas e pequenas grandes aventuras, de histórias lidas na cama antes de dormir com as vozes malucas que seu pai faz, na companhia da irmã nerd-divertida que você tem, com cachorros tão, tão lindos preenchendo nossa casa; essa infância que foi cheia de muito carinho e acolhimento, que foi um tempo de diversão e amor, de muitas perguntas nunca evitadas; uma infância pra te guiar vida afora com lembranças doces e quentinhas; tenho pra mim, filho, que sua adolescência tem tudo pra ser divertida pra caramba. Acho que a avalanche que ela vai  trazer pode até ser perturbadora de vez em quando, mas que a infância que você teve pode ser um trunfo muito grande pra você sacudir poeiras e gargalhar muito. É isso que eu desejo hoje pra você, no seu aniversário de, UAU, treze anos: uma adolescência divertida, com muita, muita alegria. E que ela mantenha alguns dos principais ingredientes que marcaram a criança que você foi: seu abraço maravilhoso, sua empatia (tão bacana em alguém tão jovem) e, claro, sua simpatia irresistível.

E nada impede que a gente deixe os rótulos pra lá e estique tudo numa só fase infinita de amor e alegria - porque sim. Tá tudo valendo.  

Te amo mais do que consigo expressar, então venha cá pra eu te abraçar de novo, o que sempre torna meus dias tão valiosos.

Feliz aniversário, seu lindo.

New colours on the block


A cada dois dias, em média, a caçamba de entulhos é substituída por outra vazia. A cheia é retirada e dentro dela lá se vão escombros, restos escavados da frente da minha casa e da  velha cozinha. Hoje vi no topo da caçamba grandes pedaços de raízes do ipê que se espalham gulosas pela calçada. Fiquei me perguntando se a estrutura da árvore será comprometida por essa mutilação, espero que não. No estágio atual da reforma, a garagem, já sem piso, abriga uma betoneira, madeira, ferragem, ferramentas, sacas de cimento e similares. Num canto do que já foi meu jardim, plantas arrancadas aguardam clemência e replantio. Dentro da casa os móveis brincam de esconde-esconde sob lonas cobertas de um pó infinito que em tudo penetra. Alguns cômodos já têm tinta nova nas paredes, assim como algumas portas, teto, detalhes. Amanhã a cozinha repaginada ganhará seus primeiros móveis. Talvez um dia o quintal fique limpo novamente e minhas orquídeas, kalanchoes e violetas me perdoem. Olho em volta e vejo arte: o pedreiro que dá concretude a um desenho, o pintor que faz da minha casa tela. Aos poucos a transformação que planejamos vai acontecendo e em breve estarei abrindo caixas de copos e livros, regando brotos, vendo Netflix na minha cama outra vez. Conto os dias para voltar e ter de novo minhas miudezas, minha desordem, o bolo no meu forno. Mas admito: estou curtindo a loucura. A prova da insensatez é que reajo às pequenas intempéries com paciência e risadas. O cano é furado a golpes, o revestimento é colado no lugar errado, a tinta é um pouco escura demais, não consigo escolher a cor da pedra. Não é pouca a desordem no mundo, o país tá tão longe do sonho mais tímido; vou ao menos fazer do meu cantinho no mundo metáfora de alegria. Em breve, com porta nova e um armário um pouco maior - pra caber mais biscoitos e mais planos. 

A casa de minha infância ainda mora em mim e foi cheia de pequenas e grandes reformas - a cada nova obra, uma nova fase. Não sei que lembranças meus filhos guardarão da bagunça atual, mas sei que, assim como eu, querem logo voltar pra casa. Vou riscando os palitinhos imaginários na parede, contando pedrinhas. Logo volto, logo volto. E então vou passar um café e abrir as janelas para que o cheiro da tinta fresca dê  lugar ao aroma do bolo favorito das crianças. E tudo vai estar no lugar outra vez - com alguma desordem, claro. Como num ninho.   

Houses


"O verão voltou, e eu voltei para casa. Atrás de mim fica o Atlântico, como uma chapa de zinco, uma distorção temporal. Como sempre acontece nesta casa, eu fico mais cansada do que devia; ou melhor, sonolenta. Releio histórias de detetive e vou pra cama cedo, sem nunca saber em que ano vou acordar."

Esse é um trechinho do conto "Em busca da Orquídea", da Margaret Atwood. Ele me jogou de volta ao tempo em que eu morava sozinha e visitava minha mãe. É uma das coisas que a boa literatura faz, isso de, de repente, ser sobre a gente. Um conto escrito por uma canadense nos anos 80 me pega pela mão, me leva até a janela e me aponta aquela paisagem tão minha. E o tempo se dobra, e não estou mais aqui. 

Não estou em casa. A paisagem que me cerca agora é bonita, mas não me pertence. Existe o mar; e o vento, de que gosto muito. A janela noturna do quarto da Amanda é cheia de estrelas, então a espera está sendo suave. Mas sinto saudades de minha casa, da minha cozinha, do meu quintal, dos meus livros. Quando eu abrir as caixas, eles vão se espreguiçar e dizer "aleluia"? 

Eu vou. 

Roque, o melhor cão


Quando a Amanda nasceu, fazia cinco meses que o Roque estava com a gente. Quem nos deu o Roque de presente falou que estávamos ganhando um bom cachorro. Descobrimos com o tempo que tínhamos ganhado o melhor cachorro. O Arthur era um bebê de dois anos, o Roque, um bebê de quatro meses. Nossa casa estava completa.

Temos amigos que não gostam de cachorro de uma maneira geral, só do Roque. Temos amigos que gostam de cachorro e concordam que o Roque é o melhor. Temos amigos que não dão muita bola, mas acham o Roque um cão muito doce. Temos amigos que nos deixam conversando na sala e vão lá pro quintal brincar com o Roque. As crianças que chegam aqui querem ir lá ver o Roque. O Floquinho, nosso outro cachorro, é louco pelo Roque. 

Os medos do Roque são trovão e fogos de artifício. Ele é grande e pesado. Na última sessão de terror, no reveillón, ele ficou com as patas sobre meu colo enquanto eu tentava acalmá-lo. Eu quis mudar de posição e ele, apavorado, afastou a pata com cuidado para não me arranhar e deixou que eu ajustasse minha posição, sem me machucar. Ele certamente sabia a força que tinha, mas era cuidadoso. Sempre afastava a cabeça para receber a segunda porção de comida enquanto se alimentava. Ficou velhinho, mas continuou bebê. 

O veterinário nos preparou, falou dos riscos da cirurgia; sabíamos que era uma tentativa de aliviar seu desconforto e, quem sabe, conseguir uma sobrevida digna. Mas não deu. O tumor era de tal porte que ele praticamente não tinha mais bexiga. Parece incrível que só há poucas semanas ele começou a apresentar os primeiros sintomas do câncer devastador que o tirou de nós. Hoje precisamos nos despedir dele.

Estamos iniciando uma reforma, a primeira grande obra na casa que compramos pouco antes de a Amanda nascer, pouco antes de ganharmos o Roque. Estamos empacotando coisas, tudo está em desordem. Hoje o Roque marcou esse ciclo de vez. A casa envelheceu com ele, disse o Ulisses. Vamos reparar a casa, e vamos ficar com nossas lembranças do melhor cachorro, do cachorro mais lindo.

Há poucos meses compramos uma mesa com banquinhos para o quintal. O Roque não demorou em batizá-la, roeu um banco e uma perna da mesa. Brinquei que a mesa tinha ficado ainda mais rústica. Penso que agora são nossos móveis favoritos, têm a marca do Roque. A cara dele.

Estamos com os corações murchos de tristeza, mas vamos nos agarrar à  imensa sorte que tivemos. Ele viveu conosco por onze anos. Minhas crianças cresceram com ele, que era um bom exemplo de força e gentileza. 

Obrigada, Roque.  




Com a Amanda ainda na barriga e o Arthur bebezão. 


Ulisses de óculos fake em solidariedade ao Arthur, que tinha acabado de começar a usar suas lentes. O Roque, mordendo uma bola em solidariedade à bagunça. 




Cheirando o pé de qualquer bebê que nos visitasse. 


Verificando que plantinhas arrancaria depois. 

Abre a porta?

Adeus, amigo. Te amamos.


 
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