Um menino



Tenho cá pra mim que com a infância que você teve, cheia de risadas e pequenas grandes aventuras, de histórias lidas na cama antes de dormir com as vozes malucas que seu pai faz, na companhia da irmã nerd-divertida que você tem, com cachorros tão, tão lindos preenchendo nossa casa; essa infância que foi cheia de muito carinho e acolhimento, que foi um tempo de diversão e amor, de muitas perguntas nunca evitadas; uma infância pra te guiar vida afora com lembranças doces e quentinhas; tenho pra mim, filho, que sua adolescência tem tudo pra ser divertida pra caramba. Acho que a avalanche que ela vai  trazer pode até ser perturbadora de vez em quando, mas que a infância que você teve pode ser um trunfo muito grande pra você sacudir poeiras e gargalhar muito. É isso que eu desejo hoje pra você, no seu aniversário de, UAU, treze anos: uma adolescência divertida, com muita, muita alegria. E que ela mantenha alguns dos principais ingredientes que marcaram a criança que você foi: seu abraço maravilhoso, sua empatia (tão bacana em alguém tão jovem) e, claro, sua simpatia irresistível.

E nada impede que a gente deixe os rótulos pra lá e estique tudo numa só fase infinita de amor e alegria - porque sim. Tá tudo valendo.  

Te amo mais do que consigo expressar, então venha cá pra eu te abraçar de novo, o que sempre torna meus dias tão valiosos.

Feliz aniversário, seu lindo.

New colours on the block


A cada dois dias, em média, a caçamba de entulhos é substituída por outra vazia. A cheia é retirada e dentro dela lá se vão escombros, restos escavados da frente da minha casa e da  velha cozinha. Hoje vi no topo da caçamba grandes pedaços de raízes do ipê que se espalham gulosas pela calçada. Fiquei me perguntando se a estrutura da árvore será comprometida por essa mutilação, espero que não. No estágio atual da reforma, a garagem, já sem piso, abriga uma betoneira, madeira, ferragem, ferramentas, sacas de cimento e similares. Num canto do que já foi meu jardim, plantas arrancadas aguardam clemência e replantio. Dentro da casa os móveis brincam de esconde-esconde sob lonas cobertas de um pó infinito que em tudo penetra. Alguns cômodos já têm tinta nova nas paredes, assim como algumas portas, teto, detalhes. Amanhã a cozinha repaginada ganhará seus primeiros móveis. Talvez um dia o quintal fique limpo novamente e minhas orquídeas, kalanchoes e violetas me perdoem. Olho em volta e vejo arte: o pedreiro que dá concretude a um desenho, o pintor que faz da minha casa tela. Aos poucos a transformação que planejamos vai acontecendo e em breve estarei abrindo caixas de copos e livros, regando brotos, vendo Netflix na minha cama outra vez. Conto os dias para voltar e ter de novo minhas miudezas, minha desordem, o bolo no meu forno. Mas admito: estou curtindo a loucura. A prova da insensatez é que reajo às pequenas intempéries com paciência e risadas. O cano é furado a golpes, o revestimento é colado no lugar errado, a tinta é um pouco escura demais, não consigo escolher a cor da pedra. Não é pouca a desordem no mundo, o país tá tão longe do sonho mais tímido; vou ao menos fazer do meu cantinho no mundo metáfora de alegria. Em breve, com porta nova e um armário um pouco maior - pra caber mais biscoitos e mais planos. 

A casa de minha infância ainda mora em mim e foi cheia de pequenas e grandes reformas - a cada nova obra, uma nova fase. Não sei que lembranças meus filhos guardarão da bagunça atual, mas sei que, assim como eu, querem logo voltar pra casa. Vou riscando os palitinhos imaginários na parede, contando pedrinhas. Logo volto, logo volto. E então vou passar um café e abrir as janelas para que o cheiro da tinta fresca dê  lugar ao aroma do bolo favorito das crianças. E tudo vai estar no lugar outra vez - com alguma desordem, claro. Como num ninho.   

Houses


"O verão voltou, e eu voltei para casa. Atrás de mim fica o Atlântico, como uma chapa de zinco, uma distorção temporal. Como sempre acontece nesta casa, eu fico mais cansada do que devia; ou melhor, sonolenta. Releio histórias de detetive e vou pra cama cedo, sem nunca saber em que ano vou acordar."

Esse é um trechinho do conto "Em busca da Orquídea", da Margaret Atwood. Ele me jogou de volta ao tempo em que eu morava sozinha e visitava minha mãe. É uma das coisas que a boa literatura faz, isso de, de repente, ser sobre a gente. Um conto escrito por uma canadense nos anos 80 me pega pela mão, me leva até a janela e me aponta aquela paisagem tão minha. E o tempo se dobra, e não estou mais aqui. 

Não estou em casa. A paisagem que me cerca agora é bonita, mas não me pertence. Existe o mar; e o vento, de que gosto muito. A janela noturna do quarto da Amanda é cheia de estrelas, então a espera está sendo suave. Mas sinto saudades de minha casa, da minha cozinha, do meu quintal, dos meus livros. Quando eu abrir as caixas, eles vão se espreguiçar e dizer "aleluia"? 

Eu vou. 

Roque, o melhor cão


Quando a Amanda nasceu, fazia cinco meses que o Roque estava com a gente. Quem nos deu o Roque de presente falou que estávamos ganhando um bom cachorro. Descobrimos com o tempo que tínhamos ganhado o melhor cachorro. O Arthur era um bebê de dois anos, o Roque, um bebê de quatro meses. Nossa casa estava completa.

Temos amigos que não gostam de cachorro de uma maneira geral, só do Roque. Temos amigos que gostam de cachorro e concordam que o Roque é o melhor. Temos amigos que não dão muita bola, mas acham o Roque um cão muito doce. Temos amigos que nos deixam conversando na sala e vão lá pro quintal brincar com o Roque. As crianças que chegam aqui querem ir lá ver o Roque. O Floquinho, nosso outro cachorro, é louco pelo Roque. 

Os medos do Roque são trovão e fogos de artifício. Ele é grande e pesado. Na última sessão de terror, no reveillón, ele ficou com as patas sobre meu colo enquanto eu tentava acalmá-lo. Eu quis mudar de posição e ele, apavorado, afastou a pata com cuidado para não me arranhar e deixou que eu ajustasse minha posição, sem me machucar. Ele certamente sabia a força que tinha, mas era cuidadoso. Sempre afastava a cabeça para receber a segunda porção de comida enquanto se alimentava. Ficou velhinho, mas continuou bebê. 

O veterinário nos preparou, falou dos riscos da cirurgia; sabíamos que era uma tentativa de aliviar seu desconforto e, quem sabe, conseguir uma sobrevida digna. Mas não deu. O tumor era de tal porte que ele praticamente não tinha mais bexiga. Parece incrível que só há poucas semanas ele começou a apresentar os primeiros sintomas do câncer devastador que o tirou de nós. Hoje precisamos nos despedir dele.

Estamos iniciando uma reforma, a primeira grande obra na casa que compramos pouco antes de a Amanda nascer, pouco antes de ganharmos o Roque. Estamos empacotando coisas, tudo está em desordem. Hoje o Roque marcou esse ciclo de vez. A casa envelheceu com ele, disse o Ulisses. Vamos reparar a casa, e vamos ficar com nossas lembranças do melhor cachorro, do cachorro mais lindo.

Há poucos meses compramos uma mesa com banquinhos para o quintal. O Roque não demorou em batizá-la, roeu um banco e uma perna da mesa. Brinquei que a mesa tinha ficado ainda mais rústica. Penso que agora são nossos móveis favoritos, têm a marca do Roque. A cara dele.

Estamos com os corações murchos de tristeza, mas vamos nos agarrar à  imensa sorte que tivemos. Ele viveu conosco por onze anos. Minhas crianças cresceram com ele, que era um bom exemplo de força e gentileza. 

Obrigada, Roque.  




Com a Amanda ainda na barriga e o Arthur bebezão. 


Ulisses de óculos fake em solidariedade ao Arthur, que tinha acabado de começar a usar suas lentes. O Roque, mordendo uma bola em solidariedade à bagunça. 




Cheirando o pé de qualquer bebê que nos visitasse. 


Verificando que plantinhas arrancaria depois. 

Abre a porta?

Adeus, amigo. Te amamos.


Stitches


Nenhum livro me pegou ainda em 2018. Com exceção do excelente Negociando com os mortos, da Margaret Atwood, lido em um dia, nenhum me fez esquecer do mundo largada no sofá. Li dois bons livros escritos em língua portuguesa que estavam criando teias de aranhas em minha lista eterna, Incidente em Antares, do Verissimo, e A Relíquia, do meu querido Eça. Gostei de ambos, mas sem rompantes. Esperava mais de Antares, deve ser meu azedume atual. A grande decepção por enquanto veio com a italiana Elsa Morante, de quem eu nunca tinha ouvido falar até ver as referências no imperdível Frantugmalia (imperdível para quem curte Ferrante, that is). Devo ter escolhido o livro errado para conhecer a autora; li A História e me considero uma heroína por ter terminado a leitura. Chatérrimo, para ser educada. Há quem discorde, então sigam por sua conta e risco.

***

Outra coisa tem me feito ficar largada no sofá ou no quintal, nas excelentes companhias da Amanda e da passarada. Por causa da gravidez de uma amiga querida, ressuscitei minha caixa de linhas e passo horas calada, de agulha na mão.

Bordar pode ser tão envolvente quanto ler um bom livro - ou talvez eu esteja exagerando; de qualquer forma, bordar para outra pessoa é quase poesia. 



A Micaela deve chegar no outono, mas vai encontrar cerejeiras em flor.


Amanda, minha parceira nas agulhas. 


Como as conchas que ela adora catar na praia. 

***
Em breve, reforma na casa. Vou precisar bordar muito. #respira


Firme


Vejo os galhos mais claros e acho que precisa de mais água. Vejo os muitos galhinhos novos e acho que tá tudo bem. Ela recebe bastante luz, mas vive solitária num canto da garagem. Devo transferi-la para o quintal onde poderá conversar com as amigas. Acho que seria mais adequado a quem foi plantada por Tia Maria, ela que adorava uma conversa. Ontem, dia 06,  Tia Maria teria feito 88 anos. Ainda seria fofinha. Ainda faria seus doces de mamão? Não sei. Palavras cruzadas? Certamente. E com toda certeza desse mundo ainda cuidaria de suas plantas. Como cuidou dessa que eu trouxe pequenina para minha casa depois de sua morte, há quase seis anos. Tia, o vaso tá torto, eu sei. Mas vamos manter o foco: os galhinhos novos, bem firmes, são meu afeto por você, a lembrança de nossa história. Firme. 


New house, little old corners


Dentro de algumas semanas começarei a embalar louças e panelas, a cobrir cadeiras e móveis com lonas. Entraremos na roda viva de uma reforma. Dizem que aquilo que não nos mata nos fortalece, quero acreditar. Foram tantas reformas na casa onde cresci que a que se aproxima tem gosto de reencontro. Na verdade, será a primeira vez que mexeremos pra valer na nossa casa, onze anos depois de nos mudarmos pra cá (e de alguns ajustes que fizemos naquela época). Já estamos às voltas com visitas de marceneiros, pedreiros e serralheiros, orçamentos e lojas. Nem acredito que criei coragem, sinto-me praticamente uma guerrilheira. 

A ideia de deixar a casa com novos ares pode significar jogar coisas velhas fora. No entanto, uma passada de olhos por algumas miudezas me mostrou velharias que não só serão guardadas por muito mais tempo, como são mesmo o miolo dessa casa. Vou mexer na house; a home pode envelhecer, quanto mais sinais do tempo, melhor. 



Este quadrinho artesanal é um cartão de aniversário. Recebi em 1998, enquanto estudava na Inglaterra. A amiga que me mandou estava num fuso horário tão distante que não raro conversávamos nas suas madrugadas, em ligações telefônicas de outra encarnação. A mensagem está no verso e quando a recebi me senti como a menina no balanço.  

Meses depois, de volta ao Brasil, uma colega que tinha acabado de me conhecer me presenteou com essa lindeza. Trabalhamos juntas por pouco tempo, mas sua gentileza ficou com esse frasquinho.

Vem da mesma época essa agendinha. Tem telefones de pessoas que nem sei por onde andam mais. Não importa.


No final do doutorado um colega me presenteou com esse livrinho para novos escritos. Vive na gaveta do criado-mudo, de vez em quando saco de lá no início da manhã. Armazeno sonhos (não planos, aqueles outros mesmo que a gente leva pra terapeuta), acho um bom uso. A capa é pra quando eu virar colega da moça, talvez. 

Da minha avó paterna, Alice. Minha mãe guardou em sua cozinha por muitos anos.


Da minha mãe, um conjuntinho manchado de chá confuso: as xícaras são de cafezinho. 

Esses copos me viram crescer. Me olhavam da cristaleira da sala da minha mãe. Cada dia, eu passava por eles um pouco mais alta. Agora eles espiam meus filhos. 




Não sei a história desse conjunto de jarra e copos, mas sei o quanto minha mãe gostava dele. Um dos copos se quebrou, mas não foi jogado fora. Ela colou e hoje ele mora com sua cicatriz na minha cristaleira.

Bandeja da minha mãe, antiga como os velhos natais em que ela embrulhava a cesta com papel celofane. 

Ulisses ganhou do pai aos dez anos.

Minha pequena coleção das obras de Clarice comprada num sebo em Campina Grande, na época da faculdade de Letras, um milhão de anos atrás. 

No mesmo aniversário do cartão-quadrinho, ganhei de amigos australianos (Kim & Mick, onde andam vocês?) esses copinhos para shots de alguma bebida esquisita que tínhamos experimentado juntos em algum lugar escondido no interior da Áustria. O contato de perdeu, mas os copinhos não me deixam esquecer do quanto me diverti com eles. O real sentido de se dar para alguém "uma lembrancinha". Que fica.  

Também me viu crescer, parece que minha mãe gostava de azul. Atualmente, fica lotada no Halloween. 

Comprei esse relógio quando estava grávida do Arthur, num mercado maravilhoso em algum lugar de Montreal. Da mesma viagem, trouxe para casa os quadrinhos em relevo com miniaturas de lojas. O nome do artista revela o dedo chinês. Arthur já está adolescendo, mas eu continuo admirando os detalhes das fachadinhas.







***

Na ida ao circo; nas viagens a Campina Grande - fosse para visitar parentes, ir ao médico ou fazer compras; nos passeios pelas ruas de Esperança durante a Festa da Padroeira, nas filas do carrossel ou roda-gigante; em eventuais passeios nas tardes de domingo. Em cada uma dessas ocasiões, esses anéis estavam juntos, minha mão na dela. O meu, imitando um cinto e que só parei de usar quando se quebrou, foi provavelmente o único anel de minha infância; o dela tinha uma fotografia de minha avó, Rita como eu.



***

Nos cantinhos, nas gavetas e em algumas prateleiras, o bom da casa é ser velhinha. (Que venha a reforma do esqueleto.)


Uma valsa de leveza e poder


Uma banda de músicos de primeira linha liderada pelo pianista Luiz Gustavo Zago. O vozeirão e o charme de Claudia Passos. Uma companhia de dança que aposta no poder da arte para romper limites. E canções do Chico. É o espetáculo Será que é de éter?, estrelado pela companhia de dança Lápis de Seda, de Florianópolis.

Foto daqui.
Eu esperava boa música, obviamente, mais do que novidades coreográficas. Mas fui surpreendida pela interação dos dançarinos com a cantora e com os demais músicos, e vi um espetáculo diferente. Claudia Passos soltou a voz em interpretações à altura da música de Chico, carregadas de lirismo, cantando e deslizando pelo palco. Com ela, dançarinos e cenário se moviam para formar quadros vivos em cada melodia. Foi bonita a festa, pá. Mas não era só isso. Dos dez dançarinos em cena, vários são portadores de necessidades especiais. No folder do espetáculo, a companhia de dança é descrita como um grupo que busca a evidência e a valorização, não a negação ou a ocultação - escolhas muito bem ilustradas no resultado final. Foi muito emocionante ver pessoas que, a um primeiro olhar distraído e domesticado, poderiam ser tomadas como incapazes de compor um grupo coeso e em sintonia numa coreografia com uma hora de duração. Mas ali estavam eles, dançando e exibindo uma relação tão próxima com canções tão lindas. Ali estava a menina calçando a sapatilha de ponta, rodopiando e mostrando que há tantas formas de olhar uma pessoa. Ou, como diz o poeta e como cantou lindamente a Claudia ontem: 

"é na soma do seu olhar que vou me conhecer inteiro, 
se nasci pra enfrentar o mar, ou faroleiro"

Amo tanto, e de tanto amar acho que a arte nos salva. Em tantos níveis que não saberia dizer. À amiga que me convidou para o teatro ontem, obrigada, sua linda. Foi muito bom aplaudir de pé ao seu lado aquelas estrelinhas. Como na letra da Valsinha, que abriu o espetáculo, foi tão bonito que hoje meu dia amanheceu em paz.

***

Não deixem de visitar o site da companhia e conhecer o respeitável currículo da coreógrafa Ana Luiza Ciscato e demais artistas envolvidos no projeto. 




The colours of the rain


As tempestades de verão têm sido pontuais. Pode-se marcar um encontro para "antes da chuva" ou "depois da chuva" sem temor. A sorte do dia é conseguir se deslocar do trabalho para casa antes de o céu despencar sobre a cidade no final da tarde, trazendo os inevitáveis desmoronamentos localizados, buracos aumentados, arrepios de lembrança da última enchente ainda tão fresca. Faz um cor linda no meu quintal quando a tempestade vem chegando. As nuvens mais escuras se avolumam sobre o morro, mas o sol do outro lado do céu resiste o quanto pode e envia os últimos raios coloridos antes de ceder lugar ao aguaceiro. Sobe um cheiro de terra quente e a atmosfera fica carregada, embalada pelo vento que bate as últimas portas e janelas ainda abertas. Meu cachorro maior enlouquece. Ontem consegui chegar a tempo de ficar ao lado dele durante os trovões mais barulhentos. Não consigo tranquilizá-lo de todo, mas acho que ofereço algum suporte psicológico. Ele é pesado e suas patas têm um bom potencial para me machucar no meio do nervosismo todo, mas devo dizer que é muito terna  a forma como ele parece saber disso e não as arrasta sobre minha pele, apenas cede, resignado, se decido me afastar. Gosto muito dessas chuvas fortes e rápidas de final de tarde, são um elemento inseparável do verão. Claro, odeio se estiver no trânsito bem na hora h. Mas em casa, não fosse o desespero do cachorro, eu até torceria para as trovoadas durarem um pouco mais. Quando eu era pequena, havia poucas tempestades em minha cidade. Nas raras vezes em que elas chegavam, eu me deleitava. Da porta de casa, olhava  maravilhada a água correr rente ao meio-fio da calçada, como se eu vivesse em um comercial de TV. A cada tempestade que enlouquece meu cachorro, sou essa menina outra vez, mesmo que comercial nenhum tenha aquelas cores que vejo no meu quintal. 

Nada não, só queria falar da chuva.  

Paper windows


Depois de muitos anos, voltei a utilizar agenda de papel. Em tempos de agendas eletrônicas, lembretes no celular, alarme para avisar da consulta médica, retornei ao tempo em que os dinossauros andavam sobre a Terra. Algo no manuseio da caneta me traz conforto, tenho certeza de que tio Freud me entende. E já que vou conviver com o caderninho cheio de rabiscos por doze meses, que seja lindo. Em 2017, catei no stand da lojinha de um museu uma agenda com reproduções de pinturas impressionistas. Agora, depois de namorá-las ao longo dos meses, algumas migraram para a parede. Ou seja: agenda multifuncional, quem disse que só os smartphones o podem ser, hein?



As meninas do Renoir.

Flores do Délacroix, boom de cores.

Não tenho mais quinze anos, mas minha nova agenda tem até transfers. A Amanda anda às voltas com seus insetinhos pela casa, cobrindo com caneta figurinhas que magicamente se transportam para o papel. Eu me lembro das "figurinhas-transfer" dos anos 80, nos tempos em que eu usava canetas para alimentar meu querido diário com segredos inconfessáveis e assuntos absolutamente irrelevantes e magnânimos ao mesmo tempo. Ela me ajudou a marcar os aniversários da casa com insetos, somos uma família de assuntos sérios.









Pra garantir o bom uso da agenda, fiz uma listinha de gente grande. ;-)


Amanhã acabam as férias. Volto à minha mesa. Num cantinho dela, caneta, papel, flores e insetos me lembrando que tá tudo certo.

 
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