Tic tac?


Uma das primeiras coisas em que pensei quando quebrei meu pé foi nos dias de imobilização que eu teria pela frente. Ainda na rua, sem acreditar naquela dor, sentada na caixa amplificadora que caiu do porta-malas do carro e quebrou meu metatarso, eu pensava "droga, droga, droga!". A situação beirava o ridículo, e eu também pensava com alívio que a caixa tinha acertado o meu pé e não o da Amanda, que estava ao meu lado, mas para além da dor eu chorava de raiva. Horas depois, quando o médico afirmou que eu precisaria de trinta dias sem pôr o pé no chão, achei a coisa meio exagerada. Afinal o raio-x havia revelado uma fratura relativamente simples, que dispensava cirurgia e certamente se consertaria só com a imobilização. Mas um mês? Pensei com otimismo que em quinze dias eu mostraria ao médico que ele estava enganado e retomaria minha rotina, ainda que com cautela. Agora, dezesseis dias depois, preciso respirar fundo e aceitar resignada que um mês parece uma previsão simpática. As dores são muito menos intensas e chegam em intervalos cada vez maiores, mas ainda chegam. O pé incha instantaneamente se o coloco pra baixo, e mexer os dedos é uma aventura à qual não me entrego sem antes respirar fundo. Uso muletas para me deslocar pela casa, mas esses deslocamentos precisam ser curtos se eu quiser evitar que o pé assuma o aspecto de uma imensa batata doce.

Usar a bota ortopédica e não gesso traz algumas vantagens. É possível coçar o pé, tirar a bota para tomar banho (toda uma ciência o banho-saci, nem perguntem), observar o aspecto geral do local da lesão, admirar todas as cores que decoram o pé nesta fase que deixará saudade nenhuma. O problema é que nunca sei se estou regulando a pressão da forma correta. Não sei se devo mantê-la bem apertada ou se isso traz algum risco à circulação. Tenho manchas roxas e verdes por todo o pé, o tornozelo que nada sofreu com a lesão agora é um arco-íris de vasos doloridos. Por outro lado não sei se manter a bota frouxinha pode comprometer o tempo de recuperação do osso quebrado. As muletas geraram uma pequena reação alérgica em minhas mãos que felizmente já retrocedeu. Para fazer as refeições na mesa com todo mundo preciso manter a perna apoiada em uma cadeira lateral, já que um banquinho sob a mesa não é suficiente para evitar o inchaço. A postura torta das costas para compensar a elevação da perna já me rendeu uma contratura muscular na altura das costelas. Ou. Seja. 

Enquanto ossos, tecidos e vasos do meu pobre pé tentam se entender dentro do verão escaldante da bota, passo os dias sentada, com a perna elevada sobre travesseiros e almofadas. É uma sorte imensa gostar de ler se você precisa permanecer dias parada, mas isso não evita o incômodo de ver todo mundo tocando a vida ao seu redor enquanto você só... fica sentada. Tento desenvolver táticas malabaristas para me deslocar com as muletas enquanto carrego alguns objetos pela casa, como um livro ou garrafinha d'água, uma roupa, o que for, para evitar encher tanto o saco das pessoas ao meu redor. Acontece que tenho um talento especial para me lembrar do que preciso assim que me sento.

Mas foi pensando em minhas faltas ao trabalho que me dei conta de algo maior. Além do desconforto físico óbvio, na primeira semana precisei lidar com outra espécie de desconforto: certo constrangimento por ter me machucado. E me vi pedindo desculpas por minha ausência, pelo trabalho que se acumularia e certamente atrapalharia a rotina de colegas. Não era um gesto de gentileza - eu realmente estava me desculpando, torcendo que me perdoassem. Em determinado momento, mal humorada e com dor, me dei conta do absurdo. Não preciso me desculpar por ter me lesionado. E me vi diante de uma situação que me pedia para pôr em prática um mantra fácil de recitar, porém muito mais difícil de converter em atitude: respeite o tempo de cada coisa. A borboleta ainda não saiu daquele casulo e não há nada que a gente possa fazer; o lírio que a Amanda me deu vai abrir, pode apostar; a manga ainda verde da fruteira deve estar perfeita amanhã; o pequeno cantinho do meu corpo que se quebrou precisa de seu tempo. E por mais senso de responsabilidade que eu tenha com meu trabalho, o acidente aconteceu. Mais do que ninguém, lamento por ele, mas minha relação com o tempo precisa me permitir perceber o momento da desaceleração, precisa caber nas lentes que escolhi para olhar o mundo. E me dei conta de que aquele constrangimento era quase um desrespeito com meu corpo. Nós inventamos o tic tac, mas o tempo também tem outras medidas.

Então aqui estou. Ainda lamento, claro. Estou ansiosa pelo resultado do raio-x que farei esta semana e mal vejo a hora de poder acompanhar as crianças à escola nova todos os dias. Não vou acampar no carnaval como havia planejado, minha bicicleta nem me conhece mais - mas meu relógio atual é o osso do pé.

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Entre umas e outras, na semana passada li os contos do Ted Chiang que a editora Intrínseca lançou em tradução de Edmundo Barreiros e com orelha assinada por Braulio Tavares - História de sua vida e outros contos. Ganhei um autor pra admirar - coisa da qual eu já desconfiava depois de me debulhar no cinema com A Chegada, adaptado a partir de História de sua vida. Gostei praticamente de todos os contos - são apensa oito - ainda que o favorito tenha sido mesmo o que inspirou o filme dirigido por Villeneuve. A narrativa intercalando a história pessoal da linguista Louise Banks à descrição do contato com os alienígenas e o entendimento da linguagem dos heptápodes, tal como no filme, faz desse conto uma joia. Esse menino Chiang é um bruxo. Também gostei imensamente de Entenda, sobre superinteligências, d'A torre da Babilônia com seu universo fisicamente distinto do nosso, mas semelhante nas ferramentas de que dispomos para entendê-lo (como bem pontuou o próprio Chiang na sessão "notas sobre os contos" no final do livro), e Gostando do que vê: um documentário, um conto polifônico sobre os prós e contras de se adotar a caliagnosia - uma curiosa condição neurológica induzida artificialmente que impediria o indivíduo de perceber a beleza física das pessoas. A discussão que Chiang constrói nesse conto que mais parece um documentário surreal da Netflix é primorosa. Gosto da forma dos contos e dos temas selecionados por ele. Até onde sei, Chiang tem apenas dois livros publicados - e não sei se o outro tem tradução publicada no Brasil. Tomara que ele tenha uma gaveta abarrotada de contos e que decida nos presentear com eles a qualquer momento.


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Ontem terminei de ver os oito episódios de Abstract, documentário disponível na Netflix sobre design. Cada episódio mostra a produção artística de um fera em diferentes áreas: ilustração, arquitetura, design gráfico, cenografia etc. Com exceção de um sobre design de carros - com o qual não consegui criar qualquer empatia, já que o assunto me dá sonozzzzRONC! - gostei de todos. É verdade que achei o fotógrafo bem afetado (episódio 7), mas a série se paga já nos três primeiros episódios. Vejam, só a arte salva o mundo, vão por mim. 

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Antes de abrir o porta-malas do carro, tenham cuidado, os objetos pesados podem ter se deslocado durante a aterrissagem, quer dizer, durante as curvas e tal.


Homo sapiens, Homo deus


Comecei a ler Sapiens - uma breve história da humanidade (Yuval Noah Harari, Ed. L&PM, tradução de Janaína Marcoantonio) sem muito entusiasmo. Criei birra com o título (outra "breve história de...") e estava em outro mood, lendo outras paradas. Porém a premissa da qual parte a ideia central do livro me parece interessante demais para descartar a conversa, então fui. Para a pergunta "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies?" Yuval propõe: nossa capacidade de acreditar em coisas que não existem na natureza - nossa imaginação. Somos a única espécie sobre a Terra capaz de agir motivada por mitos - e de convencer um grande número de indivíduos a partilhar desses mitos.

Com essa ideia tão óbvia a ao mesmo tempo tão reveladora, Yuval se vale de história, antropologia, biologia e, acima de tudo, de uma capacidade invejável de relacionar esses campos entre si para fazer sua leitura da trajetória do Homo sapiens na Terra. O livro abrange desde o surgimento de nossa espécie na África Oriental, há cerca de 200 mil anos, até a atual era dos experimentos genéticos. A conversa boa de Yuval faz a gente se recostar na poltrona (na verdade eu já estava recostada: meu pé tá quebrado, meus dias não têm tido muito agito) e, pé pra cima, passear pelas grandes revoluções que definiram o destino de nossa espécie até aqui - a revolução cognitiva, a revolução agrícola, a revolução industrial. A partir de cada uma delas, Yuval faz ponderações bem interessantes sobre os efeitos dessas revoluções também para o planeta e para as demais espécies animais. Algumas das questões consideradas por ele têm implicações diretas em nossa rotina. Por exemplo, em que se sustenta o conforto com que aceitamos os métodos de produção industrial de alimentos de origem animal? Os exemplos de tortura a que são submetidos animais como frangos, bois e porcos para obtenção de leite, ovos e carne em grande escala são, sem exagero, apavorantes. Yuval usa o tema da produção industrial de alimentos para refletir sobre a relação dos humanos com algumas espécies do reino animal e sobre a capacidade dessas espécies de experimentar sensações que costumamos ver como inerentemente humanas - como a angústia por exemplo. Refletir sobre necessidades emocionais de animais domesticados pelo Homo sapiens é também refletir sobre o nosso meio de vida como sociedade de massa. Nem sempre é confortável.

Outros fenômenos sociais como a invenção de mitos e do dinheiro, a forma como lidamos com conceitos básicos como a definição do que é e do que não é "natural", o papel das religiões e outros credos, o fortalecimento do mercado e dos Estados, tudo é considerado sob a luz dos aspectos biológicos de nossa espécie. Uma vez examinados origem e caminhada, chegamos enfim ao questionamento-mor: onde tanta evolução e revolução vão nos levar; o que nos espera ali na esquina do tempo? 

Os avanços científicos das últimas décadas abriram possibilidades inimagináveis para o Homo sapiens de séculos atrás. Somos o "terror do ecossistema", os senhores do planeta. E temos diante de nós, logo ali, perspectivas reais de avanços ainda mais inacreditáveis - e profundamente transformadores - em áreas como genética e Inteligência Artificial. A ideia mais radical de Yuval nos aponta para um futuro em que tais avanços trarão o fim mesmo de nossa espécie como a conhecemos. Não seríamos extintos, mas irreversivelmente transformados. As perguntas que nascem na reta final do livro são pano pra muita manga: até onde iremos em nossas manipulações genéticas hand in hand com os avanços fascinantes de IA num cenário de fluxo insano de informação? Acima de tudo, que campos ideológicos ditarão esses avanços? Quais os limites aceitáveis para o uso da IA - há limites? 

E, assim, somos lançados às páginas do outro livro de Yuval - Homo deus, uma breve história do amanhã (Cia das Letras, tradução de Paulo Geiger).      

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Diferentemente do primeiro livro, neste já cheguei salivando. Tendo em mente o gancho final em Sapiens, fiquei curiosa para ver como Yuval examinaria possíveis cenários futuros para nossa espécie com o mesmo formato utilizado anteriormente: numa abordagem que levasse em conta não só a história das relações humanas, mas também a evolução da própria espécie. No fim das contas, achei Homo deus muito mais instigante e envolvente do que Sapiens - e se você puder ler apenas um deles, sugiro este último.

Há poréns. Um desconforto em minha leitura foi a sensação de que o mundo parece um lugar mais homogêneo nas páginas de Homo deus do que é em realidade. Causa estranheza ler que entramos no terceiro milênio deixando para trás os grandes desafios dos séculos mais recentes de nossa história: fome, pragas e guerra. Por razões óbvias, a gente franze a testa: helloooo. Depois de ler os livros, vi a fala de Yuval em dois eventos em que ele faz uma ressalva a essa afirmação - e, afinal, uma ressalva com muito sentido: não é que não precisamos mais nos preocupar com a fome e as pragas; mas o fato de que atualmente elas são frutos de descaso político ou mau gerenciamento de nossas riquezas. Os famintos são vítimas de um sistema de valores, não de carência mundial de recursos. Quanto às guerras, os conflitos em escala mundial do século XX superaram em muito os números de mortos dos conflitos regionais da atualidade. Pela primeira vez na história, morre-se mais por doenças ligadas a alimentação hipercalórica do que de fome, e há mais suicídios a cada ano do que vítimas fatais de guerra e violência urbana (há referência para os dados estatísticos nos dois livros). Na verdade, o futuro chega em parcelas pelo mundo. Então em linhas gerais os desafios que se apresentam para nossa ciência no século XXI são de outra natureza. Qual?

Segundo Yuval, a revolução humanista teria deslocado o foco da fé. Não mais divindades supremas, o humanismo pôs o Homo sapiens em evidência. Para Yuval, contudo, nossa capacidade imaginativa mantém-se na ativa, apenas com os valores não naturais voltados para o ser humano: acreditamos no eu, no indivíduo, criamos uma gama de valores em torno dessas crenças; preparamos e reforçamos os sistemas que nos cercam para cada vez mais valorizarem e defenderem a integridade humana. Yuval então explora o cisma humanista em suas vertentes mais marcantes - humanismo liberal, socialista e evolutivo - para em seguida mergulhar no que pra mim são os temas mais empolgantes do livro: o pós-humanismo, a intrigante noção de divíduo (ao invés de indivíduo), a era dos algoritmos, e as fascinantes estradas que começam a se formar no horizonte da Inteligência Artificial. Noções como eu da experiência x eu da narrativa - e os curiosíssimos experimentos científicos em torno desses conceitos - e o assustador desacoplamento entre inteligência e consciência nos mantêm grudados às páginas finais de Homo deus.

Estamos na era do dataísmo - a religião dos dados. Para Yuval, entramos na era cujo embrião se formou na junção da revelação de Darwin sobre os algoritmos bioquímicos da evolução aos avanços gerados pela invenção da máquina maravilhosa de Alan Turin. Os exemplos atuais de IA e as perspectivas para o futuro recheiam os capítulos finais de Homo deus - e a gente termina o livro com cara de oh, dear.

Talvez você tenha uma leitura distinta de alguns dos grandes eventos históricos analisadas por Yuval. Talvez você não queira saber de onde vem a carne que você come. Talvez você não goste de biologia. Talvez ainda você nunca tenha se perguntado o que importa mais, inteligência ou consciência. Talvez nunca tenha imaginado pra valer onde essa tal de IA pode chegar - e nos levar. Mas eu garanto que depois de ler esses livros você tem grandes chances de ter ao menos um ou dois cafés bem animados com seus amigos. É conversa pra mais de metro.

Ainda não conseguimos prever o futuro - e profecias têm mais a ver com religião do que com ciência. Yuval diz em suas palestras que não se interessa por profecias, mas que entender os rumos que a IA pode tomar é vital para repensarmos, entre outras coisas, a educação formal de nossas crianças - e das gerações que se seguirão. A velocidade já acelerada das transformações em nosso tempo tende a assumir um ritmo alucinante. Como preparar os cidadãos de um futuro assim? Vale ler os argumentos do Yuval nem que seja para rebater cada um deles. Eles são tão bons que rebatê-los demanda argumentos igualmente bem construídos - então a conversa naquele café só pode mesmo melhorar.

As mulheres com quem conversei em janeiro




Quatro almas corajosas se unem para desvendar os mistérios do casarão conhecido como Hill House, lugar com histórico perturbador de eventos supostamente sobrenaturais - ou, no mínimo, misteriosos. Como se não tivessem nada melhor para fazer da vida, Theodora, descolada e desbocada, Eleanor, insegura e ainda assombrada pela morte recente da mãe, e Luke, herdeiro da mansão, aceitam o convite de Dr. Montague, um pesquisador sempre em busca de evidências de fenômenos psíquicos e paranormais, para passar um verão em Hill House. Juntos, os quatro se hospedam na casa, torcendo por manifestações esquisitas. Além do quarteto caça-fantasmas, circula no ambiente a misteriosa Sra. Dudley, criada encarregada de servir as refeições e de dar ao lugar um tom de "quero ir embora daqui". Esse é basicamente o enredo inicial de The haunting of Hill House, de Shirley Jackson (Ed. Penguin Books), publicado em 1959.

Shirley Jackson era estadunidense e Hill House é considerada por alguns críticos literários como uma das melhores ghost stories já escritas. Não sei se chega a tanto, mas Jackson certamente sabia como construir uma boa atmosfera de suspense. Há relatos de certa influência de Jackson na escrita de outros grandes nomes na literatura de terror, como Stephen King - semelhanças de fato existem, vide casas esquisitas enlouquecendo seus hóspedes (#nicholsonfreakingsmile), mas não sei o que é semelhança, estilo, whatever, ou influência de fato. No quesito "susto" Hill House deixou um pouco a desejar - não sou grande leitora de contos ou romances de mistério e terror, mas sei o que é não conseguir ficar sozinha quando se lê um livro, e isso não aconteceu com Hill House. Talvez o forte de Jackson seja mesmo construir a atmosfera, mas nem sempre descambar para o sustão - coisas em que Stephen King não economiza, correto? Seja como for, fica a dica para quem curte friozinho na espinha e pensamentos confusos.

Shirley Jackson morreu em 1965, deixou inúmeros contos e alguns romances.

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A primeira vez em que ouvi falar com entusiasmo de Toni Morrison foi na pós-graduação. Algumas colegas do mestrado liam e pesquisavam sobre a autora, sempre com muito respeito pelo que chamavam de "escrita poderosa". Meus interesses na época eram outros e os livros de Morrison ficaram esquecidos nas muitas listas de leitura que criei de lá pra cá. Foi quase por acaso que dessa vez finalmente pus as mãos em um livro dela  - apenas para entender do que falavam minhas colegas e para descobrir, com alegria, mais uma autora para admirar profundamente - e, consequentemente, aumentar a lista da vez.

Ler The bluest eye (Ed. Vintage International) foi uma experiência difícil. Não creio que alguém o leia impunemente - conhecer a história de Pecola nos cobra um preço. É preciso respirar fundo para seguir em algumas passagens, é preciso força para encarar as imagens que surgem em nossa cabeça. Morrison desenha a trajetória da menina Pecola com traços multicamadas: não espere vida fácil em sua leitura. Tudo é fundo, tudo dói, tudo é humano. Cada linha nos ajuda e seguir e a tentar entender, e a encarar o espelho e reconhecer nossa crueldade, nossos limites, o horror e nossa gigantesca responsabilidade com as infâncias que nos cercam.

Apesar de Pecola e o ninho triste em que sua vida foi depositada serem o cerne da história, foi o olhar de Claudia quem mais me tocou, a amiga (talvez?) de Pecola que nos conta um pouco de sua história. Foram as páginas narradas por Claudia que mais me comoveram, porque foi nelas que Morrison tão magistralmente construiu o olhar de uma criança sobre outra, e nos mostrou o que talvez os adultos da trama jamais poderiam contar. Há um lado da história de Pecola que só nos é revelado porque Claudia estava lá, também na infância, também no espanto, na dor e na solidão daquele mundo desesperador.

The bluest eye é tão bonito. Não sei resumi-lo. É um livro sobre racismo, claro. Mas é muito mais. É um livro sobre a humanidade que construímos, pobres de nós. Falar do abandono que construímos com nossos valores descartáveis e suas marcas indeléveis demanda coragem de quem lê. É preciso despir a negação, é preciso ser humano para encarar o que de pior o humano tem. E aí encontrar a beleza - que tem formas insuspeitas.

Pecola, menina negra que cresceu em um meio pobre e violento, queria olhos azuis porque acreditava que isso a tornaria bonita. Claudia, menina negra que se rebelava contra as bonecas brancas que ganhava, horroriza-se diante do desejo de Pecola. Basta saber disso para abrir o livro. Tenha coragem e segura nas mãos de Claudia. E dê colo à humanidade, porque nós precisamos.

Toni Morrison coleciona prêmios, entre eles o Nobel de Literatura - foi a primeira escritora negra a receber o prêmio.

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Ah, Alice, que inspirada estava você quando escreveu esses contos. É verdade que precisei chegar ao último para entender de onde saiu o título da coletânea porque, convenhamos, haja fôlego para tanta perda e susto. Mas cada busca valeu a pena. Quando falei que estava lendo Too much happiness (Alice Munro, Ed. Vintage International), uma amiga me alertou "se você sobreviver ao primeiro conto, siga em frente". E é bem isso, se sobreviver ao primeiro conto. Foi dureza, admito que o livro foi fechado e largado por algumas horas até decidir seguir em frente. Mas li e sobrevivi e voltei aos textos de Munro como sempre volto: sabendo que as muitas páginas de suas longas histórias são um presente feito de escrita rica (falando em rica, já repararam na riqueza vocabular de Munro?) e de personagens com quem queremos conversar e perguntar "mas por quê, criatura?". Às vezes elas nos desconsertam, em outras nos relembram que o mundo é tão maior do que nossas paredes, as de tijolos e também as de pensamentos. Sempre um prazer, Ms. Munro. Thanks again.

Alice Munro é canadense e foi a primeira contista a receber o Nobel de Literatura.  


Buracos na estrada - O Sumiço


Comecei a leitura d'O Sumiço com muita expectativa. Originalmente escrito em francês por Georges Perec, em 1969, e somente traduzido para o português em 2015, por Zéfere, La Disparition tem um apelo curioso: um romance inteirinho escrito sem a letra "e". O Sumiço foi um dos vencedores do Jabuti de Tradução em 2016 e foi aí que fiquei sabendo de sua existência. Não conheço a obra de Perec, mas a internet me contou que ele fazia parte do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), grupo de escritores que se dispunham a escrever obras a partir de certos limites (malucos) pré-estabelecidos: sem letra tal, com palavras em ordem alfabética e por aí vai. 

Naturalmente, a brincadeira com a estrutura linguística do idioma vale tanto quanto se consiga construir textos envolventes apesar dos limites escolhidos - escrever um romance coerente e minimamente interessante em francês sem sua letra mais frequente é sem dúvida um desafio e tanto. O que dizer do trabalho do tradutor? O traço metalinguístico em La Disparition exige que a letra suprimida seja a mesma na tradução (a história fala do desaparecimento da letra "e" e de estranhos fenômenos associados a ele), portanto nada de substituir o "e" por "a", a vogal mais frequente no português, por exemplo. Entre mortes inexplicáveis numa rede de intrigas e suspeitas, o "e" é um dos personagens misteriosos do livro. Pensemos em todas as escolhas semânticas de Perec que representaram uma dor de cabeça para o Zéfere, como em cada vez que os equivalentes linguísticos em português tivessem a letra "e" - além de todas as usuais dores de cabeça de qualquer tradução. A palavra "trois", por exemplo, parece ter sido amplamente usada por Perec. Pobre Zéfere, não podia escrever "três".

Para os leitores da tradução, a edição da Autêntica é um mimo. Uma sobrecapa que parece visitada por uma traça que teria suprimido a letra "e" do caça-palavras, o posfácio de Zéfere, citações que remetem aos aventureiros que brincam de fuçar os cantinhos dos idiomas - tudo convida à brincadeira.


Então fui que fui. 

Antes de partir pro livro eu tinha lido sobre o processo de tradução, já comecei a leitura munida de muito respeito pelo desafio encarado por Zéfere. E continuo tendo o livro em alta conta por causa disso. No entanto, sendo honesta, não foi uma experiência suave. Mesmo reconhecendo o mérito de Zéfere - alguns trechos inclusive embalaram minha leitura - devo dizer que ler O Sumiço foi como dirigir por uma estrada de chão bem esburacada. A toda hora as escolhas (talvez sofridas, pobre tradutor) salvadoras saltavam aos olhos, me tiravam da história e me jogavam no editor de texto do Zéfere. Bom, é verdade que não faço ideia de como o texto funcionou em francês, talvez em uma façanha digna de nota Zéfere tenha atingido o mesmo nível de estranhamento causado por Perec em seu público francofônico, vai saber. Seja como for, cada vez que eu me deparava com "tríduo", eu queria dormir. Admito a boa escolha da palavra, sem gostar do efeito. Quando não se pode escrever "seis" ou "sete", reconheço que "cinco ou mais" pode ser uma solução, mas uma que sacode o leitor. Obviamente eu jamais faria melhor, só acho que a brincadeira dos OuLiPo tem lá seus limites. Penso que talvez a poesia se preste melhor a experimentos como os do grupo, resultando em poemas bem interessantes.

Em outros momentos, tive a impressão de que o autor experimentava profunda alegria quando conseguia encontrar mais de um vocábulo sem a letra "e" para expressar o que queria. Em êxtase, não conseguia escolher um e então usava todos. Frases lotadas de sinônimos são uma constante n'O Sumiço e me irritaram deveras. "Todos da casa tomaram um susto, saltaram, acudiram, topando com tudo no caminho, ficando malucos, pondo pálida a cútis, assombrados, abismados, abasbacados, com os olhos transidos..." Inúmeras vezes a abundância descritiva me levava a dizer "já entendi" - de novo, num poema seria divertido.

E ainda assim gostei muito de ter lido, por ter me familiarizado com tamanha empreitada. Todas as honras ao Zéfere por seu quebra-cabeças impressionante. Meu incômodo durante a leitura teve muito mais a ver com a natureza da obra do que com o tecido do texto propriamente dito. Vejo os buracos na estrada como inevitáveis num projeto maluco já em sua gênese. 

O livro traz alguns brindes: o diário de um dos personagens misteriosamente desparecido contém uma curiosa compilação de poemas e resumos de romances, tudo, claro, sem a letra "e": lá estão trechos de Bilac, Vinicius, Victor Hugo, a trama de Moby Dick adaptada ao devaneio linguístico de Perec. Divertido.

Pois, recomendo. Para tradutores, imperdível. Os buracos na estrada que me sacudiram podem, talvez, divertir outros leitores. Leitura é pessoal e intransferível, afinal. 



 
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