Light as a butterfly wing


Amanda ganhou um borboletário no Natal. No último sábado capturamos duas lagartas distraídas no quintal e, malvados que somos, privamos as coitadas da liberdade de serem comidas pelos passarinhos. Dentro do borboletário, que mede cerca de dois palmos de altura e palmo e meio de diâmetro (medidas precisas), botamos uma plantinha e uma folha grande de ameixeira (guloseima apreciada, como evidenciavam as marcas deixadas pelas mandíbulas - small but strong). Dentro da casinha de tule, andaram pra lá e pra cá, ignoraram solenemente folha e plantinha e horas depois estacionaram: uma no teto do borboletário, outra na borda do vaso. Na noite do domingo, se penduraram pretas, gordas, grandes, presas por um pontinho de seda que elas confeccionaram mexendo as cabecinhas prum lado e pro outro, coisa mais linda de todo o mês de janeiro. Para minha surpresa, na manhã seguinte, cada lagartona preta já era um pequeno casulo acinzentado. Hoje, o casulo tem cores, listras que se cruzam. Aguardamos as asas se abrirem para devolvê-las o quintal, não sem antes agradecer por serem um bichinho tão formidável. 

***

Enquanto Genoveva e Godofreda fabricam suas asas, apreciamos suas primas novaiorquinas do Museu de História Natural.












***

Os dois últimos livros que li eram da Editora Vintage. Editora que deixa a gente mal acostumada: os livros são leves, com capas molinhas e brilhosas. Editoras do mundo, mirem-se no exemplo daqueles livros que não pesam na bolsa. No caso desses contos da Munro, aliás, deve ser para compensar o peso no peito.

"We tried to see her without looking at her..."



A caixa de bolinhas brancas abriga a orquídea que a amiga trouxe. No meio da tarde cabe um minuto fugido do trabalho, uma flor na calçada embaixo da sombrinha - chove sem parar nessa cidade. Borboletas, livros leves (mesmo quando não), flores. Só me resta tomar um café e ler aquele último conto, I think that's what they call "só leve o que te faz leve".




Our NYC



Nossa Nova Iorque teve alterações de temperatura radicais: chegamos embaixo de muita neve, ficamos surpresos pelo pouso suave - vários voos estavam sendo cancelados naquela noite. Nos dias seguintes encaramos -9ºC e nos enfiamos nos museus; um dia a mais e caminhávamos sem luvas por Riverside a 16ºC. Era nossa segunda vez, de novo Manhattan, de novo seus museus - mas outro olhar, for sure. Ir a Nova Iorque com as crianças tornava alguns endereços obrigatórios - o inevitável American Natural History Museum, por exemplo - e nos levava a ser um pouco conservadores nos planejamentos das caminhadas. Gosto de caminhar para ver a cidade, mas seria razoável esperar que, quase vinte dias depois de iniciada nossa viagem, as crianças merecessem uma agenda mais leve do que a que certamente Ulisses e eu teríamos se estivéssemos sozinhos naquela imensidão. Então mesclamos museus e caminhadas pelos parques com noites preguiçosas e refeições sem pressa, pegamos um táxi aqui e ali, adiamos aquele passeio acolá. Mesmo assim, foi uma semana intensa, que teria sido perfeita não fosse a gripe que se agarrou às crianças na reta final e fez da volta pra casa a viagem do nariz entupido - e da febre. Nada grave, todos se recuperaram bem ao longo da semana que se seguiu, de volta em casa. Em Nova Iorque reencontrei pintores que afagam minha alma, vi o olhar da Amanda brilhar mais que Antares no Haydn Planetarium, vi o Arthur servindo de guia pelo Metropolitan numa aventura só deles dois. Nosso Central Park era branco de uma ponta a outra, nosso West Side era o cenário de You've got mail, apenas sem o Tom Hanks na calçada. O sebo ao lado do hotel não tinha os livros que procurei (ou tinha, mas como encontrar qualquer coisa naquela selva de livros, gente), mas eu trouxe pequenos tesouros encontrados na megastore que inspirou a ruína da pequena livraria naquele filme. Mal acostumados aos paparicos que tínhamos recebido na Pensilvânia e no Canadá, reclamamos do café da manhã do hotel, dos restaurantes lindos com comida ruim e das sirenes intermináveis. Mas reclamamos de barriga cheia, sabendo que logo sentiríamos saudades de mais um período de férias batendo pernas com as crianças (e, para sermos justos, encontramos alguns restaurantes bem bons também e nos estragamos de tanto café nos Pret a manger da vida). Encerramos nossa viagem com Alladin, um musical tão lindo que as crianças ainda hoje cantam e celebram a inacreditável cena do tapete voador. Teve neve como Amanda queria, teve bichos, teve teatro, teve meu Van Gogh porque ele me emociona demais, teve mercado inesperadamente bom, teve planetário pra nos lembrar que somos grandes e pequenos, teve a rua, o mundo, os sotaques, nossos cafés com pain au chocolat porque sim. Foi bem boa essa NYC.


Acho que a relação deu uma esfriada. 





No meio do caminho havia um parque, no outro lado, o acervo de responsa do MET. A visita com emoção incluiu um tour que as crianças decidiram fazer por conta própria, seguindo os benditos audio guides. Levou um segundo de mal entendido para eles acharem que podiam sair da seção onde estávamos - sem nós. A procura nos fez acionar o sistema de segurança do museu - que os encontrou procurando sei lá que obra asiática de sei lá que raio de século numa seção no mesmo andar, mas relativamente distante de onde tínhamos nos separado. Abraços, bronca, lagriminhas, alívio. Passado o susto, reclamaram que o segurança interrompeu a aventura e ainda restavam quatro quadros para o final da tour. Então lá fomos nós, o casal mais sorridente do museu. Grudados, pudemos enfim curtir o deslumbre.

Vermeer, always.


Quadro da pintora francesa Marie Denise Villers.

Monet, mon amour.
 Ele, todo espalhado, maravilhoso.








Olha, Vincent, vim te ver de azul. 

Amanda, feliz com seu Picasso: "pintei esse na escola". Pois.
(Mil etecéteras, só saímos de lá varridos pelos seguranças; só as seções dos europeus já valem o ingresso - que você paga no valor que achar justo - mas há muito mais, há arte para todos os olhares.)

***

Never sleeps...
...mas era no MOMA que estava a noite que eu mais queria ver.
Perdidas no Chelsea Market.

Vumbora pro teatro.
Amanda ansiosa na plateia do lindo New Amsterdam Theatre, que logo iria se incendiar com a chegada do gênio da lâmpada - James Monroe Iglehart em performance avassaladora. 

Pra não perder. Se for a NYC, garanta um lugarzinho e aperte o cinto.
***
No quesito "fazer umas comprinhas", agora somos proprietários de um ukulele. Ulisses toca  "Elephant gun", da banda Beirut, e é a melhor forma de esticar a viagem. 

Quanto a mim, entrei na livraria: procurando outras coisas, meus olhos cruzaram com The bluest eye, da escritora estadunidense Toni Morrison. Eu não sabia, mas estava trazendo pra casa outra viagem tão intensa, tão comovente. Um livro que ficará em mim para sempre, espero conseguir falar dele. Já já.

Tão longe, tão perto




Olhando daqui Vancouver não parece ser um lugar no meio do caminho. É quase uma quina do mundo. Mesmo assim fizemos dela o meio da nossa viagem. Escolhemos passar por lá e unir a curiosidade sobre a cidade à chance de rever um amigo da época da faculdade - ou, para Ulisses, de antes desse tempo. Quando descobrimos que o João estava morando em Vancouver, anotamos a ideia. Demoramos tanto para botá-la em prática que ele se mudou de lá, mas topou passar uns dias na cidade para que nos encontrássemos. Eu nunca vou saber agradecer direito tamanha gentileza: ele nos guiou por dias, cozinhou para nós, nos presenteou com sua companhia com paciência e carinho. Vancouver foi bacana, não nos desapontou. Mas bom, bom mesmo, foi ver o João e conhecer o Daniel, seu companheiro igualmente querido. Nos sentimos acolhidos, perto, pertinho. De quebra, ganhamos também a companhia do Spike, o cachorro que fala.

video

Soubemos que tivemos muita sorte em um período do ano que costuma ter céu cinza e muita chuva por lá. Para nós, os dias foram azuis e gelados. A pouca neve que caiu um dia antes de irmos embora foi até bem vinda, já sabíamos da beleza da baía e dos parques. Vancouver tem montanhas ao fundo, tem a combinação de água e verde que adoro aqui em Floripa, tem ruas largas que ainda estavam lindamente iluminadas por causa das festas de fim de ano. Tem também comidas e pessoas de todos os lugares do mundo, além dos motoristas de ônibus mais simpáticos (juro).
 
João, Ulisses e as crianças no passeio preguiçoso que fizemos por Stanley Park, às margens da baía. Tava mais frio e mais bonito do que a foto consegue revelar.  

Não dava pra reclamar da vista do hotel...
... tínhamos camarote para as disputas entre gaivotas e hidroaviões.  
João nos mostrou parque, praça, bairro velho, bairro novo, China Town, mercado público (hum, delícia!). Quando ele tirava uma folga, a gente se equilibrava na Capilano Bridge, uma ponte suspensa que balança, balança, mas não cai, dizem. A Capilano tem uma espécie de festival de luz no final do ano e nós fomos lá conferir. Morri de medo e de frio, mas as crianças curtiram a aventura dos tree tops enquanto eu me concentrava em não olhar pra baixo.

Arthur e Ulisses tocando air guitar em frente a uma casa da família Hendrix, num bairro old school.


Kids will be kids.
  
Um totem família.
Há totens muito bacanas pelos parques nos lembrando da população nativa da região.

A Capilano Bridge, muito muito muito alta. Tem riozinho passando lááá embaixo e árvores imensas all around, mas eu não olhei muito, concentrada em dizer "não balança, Arthur, não balança!"

Ela, à noite, lindinha e mais tranquila, já que a escuridão tirou um pouco meu medo da altura.  


***

João e Daniel providenciaram um apartamento com amigos e nos receberam para um jantar de conversê. Eu conversei pouco, porque o frio pegou minha garganta, mas espero que eles tenham percebido o quanto me senti grata pela acolhida tão cheia de charme.
 
Christmas crackers enquanto esperávamos a comida - todo mundo brincou.  

João e Daneil se mudaram há pouco tempo de Vancouver. Agora moram em Robert's Creek, um tiquinho mais pra lá na esquina do mapa. E lá fomos nós. Pegamos a balsa e passamos um dia circulando pela vizinhança. João nos garantiu que todos os ursos estavam hibernando. Nós acreditamos e, depois de encher os olhos com os azuis do norte e encher nossa pança de comidinhas feitas em sua cozinha com vista de filme (e depois de um cochilo canadense), fomos para o meio das árvores imensas.


 


O sol deu um toque laranja momentâneo no tronco. Achei meio Van Gogh, curti. 

Eu, árvore pequena. 
  
Nenhum urso avistado. João nos contou que já deu de cara com mamãe e filhotinhos. Uia.
De volta a Vancouver, sem nossos amigos guias e sem o Spike para bater papo, visitamos um centro de ciência para crianças e fomos ver a cidade lá do alto. Gostamos e recomendamos o restaurante giratório, Top of Vancouver Revolving Restaurant. A vista é show de bola e a comida é decente. As crianças, claro, adoraram a ideia do restaurante carrossel. 



Nos despedimos caminhando até o hotel por ruas que são um convite. Vancouver é linda, sim. (Robert's Creek também é, João.)


***

(Algumas coisas são as mesmas em qualquer continente: Amanda feliz da vida com sua sacolinha de macarons numa rua qualquer de Vancouver. Comparem com a foto aí embaixo, aos três anos, em Paris.)
:-)
Sacolinha de macarons, toda vez. 
***

De Vancouver partimos para NY. Teve susto no Metropolitan, variação absurda de temperaturas, musical bacanérrimo, comida ruim e finzinho de férias. Conto já.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }